Sem Querer, Juntos!

3 Capítulo 3 - Perda


Sem querer, juntos.

Capítulo 3 – Perda

Parecia predestinado a acontecer.

E, por mais que eu quisesse evitar, aconteceu.

Não sei dizer ao certo em que momento foi. Às vezes penso que desde o princípio, quando nossos destinos se cruzaram em meio a sala escura do apartamento de Sakura; naquele instante em que não pude evitar ser esmurrado por ele, vítima de sua ignorância.

Apenas tenho certeza de quando a evidência ficou mais forte. Foi ainda no período de Lua de Mel de Naruto e Sakura em Cancun. Eu e Sakura estávamos em uma conversa animada via Skype, quando tive que pedir licença para atender uma ligação, quando retornei ela não estava mais na frente do computador e o Chat do Skype piscava o anúncio de uma nova mensagem.

“Fui tomar banho. Entra amanhã e a gente continua” foi a mensagem deixada por ela.

Estava prestes a desconectar quando algo me chamou atenção. Por descuido, Sakura havia deixado a webcam do notebook ligada, e acabei me entretendo com o luxo do quarto do Hotel em que eles estavam hospedados. Até que aquela pessoa atravessou meu campo de visão e me fez congelar.

A sensação que tive até hoje é indescritível. Mesmo assim, vou tentar descrevê-la. Lembro-me primeiro de ter sentido meu coração disparar, um estranho gelo se apossar do meu estômago e um entalo se enroscar na minha garganta, não me permitindo sequer engolir a saliva direito.

Naruto havia saído do banho completamente nu.

Desfilou pelo quarto molhado, seu corpo pingando água pelo chão. Ele sacudiu a cabeça de um lado a outro para se livrar do excesso de água e os fios loiros chicotearam seu rosto. A toalha, que estava em seu ombro, servia apenas para secar a nuca.

Observei, sem constrangimento algum, o sexo dele. Notando que até mesmo seus pelos pubianos eram loiros, como era de se esperar. Em resumo, Naruto tinha um corpo perfeito. Músculos não tão salientes, mas perceptivelmente bem cuidados; a barriga lisa, com músculos formando um “tanquinho” discreto; as panturrilhas firmes, o bumbum bem arredondado e empinado. Até sua pele parecia mais sedutora, havia ganhado uma tonalidade dourada, certamente culpa dos dias de sol na praia.

O mesmo sol que também havia castigado o rosto dele, marcando de vermelho suas bochechas, parte do pescoço, ombros e as pontas das orelhas.

Naruto caminhou na minha direção, melhor, na direção do notebook, e por um momento fiquei sem reação. Senti medo de ser descoberto e mesmo assim não tive coragem de desligar a chamada. Além disso, a adrenalina no meu corpo provocou uma reação adversa muito peculiar: excitação. Senti minha virilha arder e o meu sexo se enrijecer rapidamente dentro da bermuda.

A minha câmera não estava ligada e deduzi que Sakura havia ocultado a exibição da dela no comunicador antes de ir para o banho, pois apesar de eu conseguir ver Naruto, ele se sentou diante do monitor e pareceu não ter percebido que estava sendo filmado. Relaxei um pouco mais. Mas em seguida, voltei a ficar tenso, quando ele pronunciou em um sussurro baixinho: “Sasuke, né?”, minhas entranhas se contorceram.

Depois disso, ele juntou os lábios em um bico de contrariedade e seus olhos claros passaram a se mover rápidos, de um lado a outro, diante da tela. Era certo que ele estava lendo o histórico da conversa anterior que Sakura e eu tivemos no comunicador instantâneo. Não havia nada de suspeito nela para me preocupar, havíamos falado muito pouco pelo chat, o qual ela usou apenas para me passar os links das fotos da viagem que me redirecionavam para o álbum dela no Facebook. Conversamos mais via áudio. Aliás, o áudio era a minha maior preocupação. Ele ainda estava ligado e qualquer ruído que eu fizesse poderia me denunciar. Ainda assim, eu não quis recuar. Queria ficar ali e admirá-lo mais um pouco.

A claridade do monitor iluminava os olhos azuis, deixando-os ainda mais claros do que já eram. Meu sexo continuou animando-se, a minha dificuldade de respirar também aumentou.

Como se aquela aproximação não fosse suficiente, Naruto ainda repousou um dos cotovelos sobre a mesa do notebook, apoiou o rosto na palma da mão e ficou com a face praticamente encostada no monitor. Não sei o que deu em mim naquele instante, mas não pensei duas vezes e acionei o botão ‘rec’ da webcam. Depois disso, minha mão esquerda ganhou vida própria. O desejo era de tocar o rosto dele, porém, óbvio, senti apenas a energia estática da tela estalando sob meus dedos enquanto redesenhava aqueles traços perfeitos...

Sim, foi naquele instante. Foi naquele exato instante que percebi o quanto eu estava apaixonado por Naruto. Sem conseguir mais suportar a excitação que tomava conta de cada fibra do meu corpo, enfiei a mão dentro da bermuda e passei a massagear meu sexo cadenciadamente, como se eu estivesse assistindo a um filme pornô via internet.

E eu ainda o vi sorrir, balançar a cabeça negativamente e encostar os lábios na tela após proferir baixinho: “Eu te amo tanto...”. Claro que a declaração havia sido feita para alguma foto de Sakura, de todo jeito, o meu coração disparou e eu segui ao encontro dos lábios dele, respondendo na minha mente: “Eu também te amo...”, para em seguida, fechar os olhos e beijar o monitor.

O que houve depois ocorreu muito rápido. Quando abri meus olhos, vi os deles arregalados, enquanto Sakura surgia em suas costas perguntando o que ele estava fazendo.

“Na- nada não, Sakura-chan...” foi o que ele respondeu vacilante e no instante seguinte tudo se apagou. O notebook do outro lado havia sido fechado e nossa “conexão” interrompida.

Sim, foi naquele momento que as evidências ficaram nítidas.

Enquanto eu reprisava a gravação de Naruto dizendo “Eu te amo tanto...” eu me masturbei freneticamente e o orgasmo que me arrebatou foi intenso. Logo depois fui invadido por uma sensação horrível. Senti-me patético. Eu havia acabado de gozar pensando em possuir o corpo do recém-marido da única pessoa que me considerava como um amigo.

Foi a partir deste momento também que minhas concepções de vida começaram a se deteriorar.

O primeiro exemplo dessa decaída foi quando Sakura retornou da Lua de Mel, cheia de novidades para contar, e eu estava lá, presente para ouvi-la. Fui buscá-los no aeroporto, ajudei Sakura a levar as sacolas de lembranças para os funcionários do escritório. Ajudei os dois com a mudança para a nova casa. Passei horas ouvindo Sakura falar de como a viagem havia sido agradável, como a festa do casamento havia sido a realização de um sonho e como sua vida agora era mais colorida que um conto de fadas.

Eu já não era mais o cara intolerante que respondia sempre “não” para os inúmeros convites que Sakura me fazia para as festas, jantares, almoços, reuniões. Se fosse para ter algum contato com Naruto, o mínimo que fosse, eu estava disposto a passar por cima de tudo em que eu acreditava e estar presente. Até mesmo, por cima do meu intocável orgulho.

Apesar dos meus ouvidos serem todos dela nessas ocasiões, meus olhos buscavam outros horizontes, outras paisagens. Sim, eu estava atento as palavras de Sakura, mas meus olhos buscavam por um mero vislumbre da presença dele.

Tentando ser simpático, Naruto me recebia em sua casa com um cumprimento forte de mão e um sorriso aberto adornando os lábios. Mas no fundo, seus olhos e sua expressão diante das minhas visitas denotavam desconfiança. Ele ainda não via com bons olhos a minha amizade com a sua agora recém-esposa. Algo com o qual eu não me preocupava, afinal ele nunca poderia idealizar que a realidade era inversa.

Mesmo assim, eu ainda tinha esperanças de que aquela barreira instaurada entre a gente fosse se quebrar a qualquer momento e nos tornaríamos pelo menos amigos. Não grandes e melhores amigos, apenas amigos.

Mas não aconteceu.

Quando ficávamos sozinhos, por algum motivo, o ambiente ficava estranhamente tenso. Sem a presença de Sakura era como se não tivéssemos assuntos em comum para tratar, como se fossemos extremos opostos. Aliás, éramos extremos opostos. Eu até tentava procurar um assunto com que pudesse dialogar com ele, mas tudo que me vinha em mente me fazia crer que não seria de interesse dele.

Cheguei a interrogar Sakura para saber um pouco mais sobre o homem com quem ela havia se casado e descobri coisas até interessantes. Naruto era professor de Educação Física e treinador do time de basquete da escola em que lecionava. Alguém que eu julgava ter pouco cérebro, ser um professor, realmente me surpreendeu. Mas ao imaginar que a única parte teórica que ele ensinava aos seus alunos eram as regras dos esportes, fez a profissão dele parecer cabível. Ser um professor de Educação Física também explicava ele ter um bom físico.

De qualquer forma, notei que discutir com Naruto sobre profissões não seria um bom assunto, já que eu nunca fui fã de esportes. Na minha época de escola tinha um desempenho satisfatório e boa desenvoltura em qualquer esporte que eu praticasse, mas o gosto pela prática era zero. Só voltei a praticar artes marciais e fazer academia para manter o físico e a saúde em dia, não por uma questão de diversão.

Foi graças a esse momento que comecei a imaginar quais eram os motivos que me levaram a me apaixonar por ele, já que tínhamos tão pouco em comum. E o único resultado ao qual chegava era o mais frívolo de todos: a aparência. Eu estava atraído pela aparência de Naruto? Era um motivo fútil, idiota, imaturo e tolo. O qual eu particularmente repudiava, já que sempre critiquei de maneira dura todos que se aproximaram de mim dizendo estarem encantados com a minha beleza.

Agora, eu, o patético dos patéticos, estava caído de quatro por alguém tão...

Não era isso. Não podia ser. Se fosse repará-lo bem, Naruto não era nenhum modelo. Sua aparência era apenas satisfatória. Eu me negava aceitar aquela resposta. Deveria ter algo mais. Algo em seu olhar, em seu sorriso, em seu jeito de falar...

De ser incoerente. Sim, a verdade é essa. Eu o odiava por todas aquelas coisas, elas não poderiam ser o que me atraíam à ele.

Enfim, desisti de encontrar justificativas e os dias se passaram depressa desde então.

...

Seis meses depois do casamento, Sakura me chamou na sala dela dizendo que tinha uma “maravilhosa” notícia para me dar.

— Você está grávida — eu pronunciei, antes mesmo que ela iniciasse a introdução das boas novas, fazendo com que seu sorriso se diluísse nos lábios e ela olhasse com desconfiança para a própria barriga.

— Já está dando para notar?

— Claro que não.

— Como soube, então?

— É meio que... óbvio.

— Você e suas deduções assustadoras — ela sorriu. — Então, não vai me dar os parabéns? — perguntou, abrindo os braços para mim.

— Sakura, você vai ficar gorda, cheia de estrias, flácida. Terá que conviver com um choro estridente, perderá noites de sono, terá olheiras profundas. Suas roupas ficarão molhadas de urina, terá que limpar muita caca e... Porque eu deveria?

Achei que ela me repreenderia por minha maneira exagerada de encarar a realidade, mas a expressão no rosto de Sakura deixou claro que eu havia sido duro demais com minhas observações. Era uma reação bem estranha vinda dela, afinal não havia sido menos realista de quando ela me contou que iria se casar. Até notei que ela se virou rapidamente para esconder o rosto.

— O que foi?

— É o sonho dele.

— Você quer dizer “é o sonho de vocês”.

— Isso. Também é o meu. Toda mulher quer ter filhos...

— Mas...?

Sakura não respondeu. Apenas se voltou para mim com os olhos cheios de lágrimas e sua expressão parecia me pedir para eu compreendê-la sem que ela precisasse explicar nada. Mas como eu seria capaz disso? Até mesmo Aisten teria dificuldade de compreender a natureza feminina em toda sua imensa complexidade. Por isso, apenas me aproximei e dei nela o abraço que ela esperava.

— Parabéns. Um filho era o que faltava para tornar sua família mais completa. Mas você sabe disso melhor do que ninguém, não precisava ouvir isso de mim.

— Obrigada, Sasuke — Sakura respondeu apenas isso, com a voz embargada pelo choro.

Eu queria mesmo era ter compreendido o que significava exatamente aquela tristeza imensa impressa nos olhos dela e não ter me conformado que aquele fora apenas um mero momento emotivo de uma futura mãe. Mas a única coisa em que eu conseguia pensar era em mim mesmo e em como a chegada daquela criança aumentaria a distância entre a família dela e eu. Ou, sendo mais objetivo, em como a distância entre Naruto e eu continuaria aumentando.

...

Nos dias que se seguiram após a notícia da gravidez de Sakura eu passei avaliar melhor minha conduta e depois de muito pensar tomei uma decisão: me afastar do casal. Cedo ou tarde isso teria de acontecer e seria menos incômodo se eu tomasse a iniciativa naquele momento. Eu era um cara gay, solteiro, metido na relação de um casal heterossexual prestes a ter seu primeiro filho. Aquele definitivamente não era o meu lugar.

Mas decidi fazer isso de forma discreta. O primeiro passo foi recusar a sair todos os dias para almoçar com a Sakura. Mudei o horário da academia para o horário de almoço, dando a desculpa que tinha outros planos para noite.

— Um paquera novo? — Sakura chutou curiosa, quando dei a notícia.

— Algo assim — respondi.

— Somos amigos. Você não me disse nada. Quem é ele? Eu preciso saber.

— Alguém que conheci... Bem... Há pouco tempo. — Eu não era bom em inventar desculpas.

Mas nem meu gaguejar fez Sakura duvidar. Ela abriu um grande sorriso e continuou perguntando coisas do tipo: “como ele era?”, “como tínhamos nos conhecidos?”, “quando eu iria apresentá-lo para ela?”. Poderia ser algo da minha cabeça, mas tive a impressão de que ela havia ficado animada demais com a notícia. Talvez até aliviada. Aquilo me incomodou.

De repente, um lampejo fez com que me recordasse de quando Sakura me contou sobre a gravidez e principalmente do seu ar de tristeza. Algumas coisas absurdas começaram a passar por minha cabeça e a pior delas foi que Sakura tivesse descoberto a minha paixão por Naruto e por esse motivo ela havia tomado a decisão de engravidar logo no início do casamento.

“É um desejo dele ser pai.”

Sacudi a cabeça negativamente tentando me livrar de tais pensamentos. Não tinha nexo minhas deduções. Sakura definitivamente não era esse tipo de mulher. Mesmo que ela tivesse descoberto meu interesse em Naruto, ela sabia que não havia motivo para se preocupar com a paixão infundada de um amigo gay pelo marido que a amava de forma incondicional.

Teria?

...

Os meses continuaram passando rápido. No começo não foi nada fácil manter a distância, Sakura queria saber por que eu não a visitava mais e não retornava suas chamadas. Mas, por sorte, o sucesso repentino de uma série de livros da editora, e sua premiação, gerou compromissos extras, que deixaram a editora-chefe bem ocupada com a organização de eventos. Além disso, ela começou a passar muito mal a certa altura da gravidez e acabou pegando um afastamento médico antes do tempo.

Como eu não a via mais, passei a me esbarrar menos com Naruto também e isso ajudou para que eu parasse de pensar tanto nele. Até voltei a pensar que ele era um idiota, de sorriso esquisito e que ‘estar apaixonado’ por ele havia sido uma besteira de momento.

Isso, até aquele dia...

Eu estava com fones de ouvidos, terminando a revisão de um texto cuja leitura era irritantemente maçante, quando senti um perfume diferente no ar. Por estar com o fone, não o ouvi entrar, apenas me dei conta de sua presença quando aquela silhueta estacou diante dos meus olhos roubando totalmente o meu foco. A camisa branca, de botões e mangas curtas, tinha um tecido tão fino que se eu forçasse a visão um pouco mais, conseguiria ver a pele por debaixo dela, tal como o cinto preto que envolvia a cintura e prendia a calça jeans bem ajustada no quadril, destacando o volume do membro. Ergui os olhos e me deparei com aquele sorriso grande e aqueles olhos azuis tão límpidos...

— O que... O que está fazendo aqui? — perguntei, mas não pude ouvir minha própria pergunta, como também não fui capaz de ouvir a resposta dele, somente visualizeis seus lábios se moverem. Dizem que quando a gente ama fica meio abobalhado; seguindo a regra, ao invés de eu notar que não podia ouvir por causa dos fones, gritei: — O quê? Não estou te ouvindo!

Ele então revirou os olhos, se debruçou sobre a mesa e se aproximou do meu rosto de maneira assustadora, o suficiente para puxar um dos fones de dentro do meu ouvido e falar ao pé dele: — Eu perguntei: “então, é aqui que você se esconde?”

Arrepios correram por toda a minha coluna. Naruto ficou novamente ereto e meu coração disparou em uma cavalgada desenfreada no peito. Fiquei sem reação por alguns segundos, até que ele voltou a me questionar.

— Você ainda não ouviu?

— Claro que ouvi — respondi e ao recuperar meus movimentos, retirei o outro fone do ouvido e tentei me justificar. — Eu só fui pego distraído.

— Sei — ele respondeu desconfiado, movendo-se dentro da sala e observando as enormes prateleiras de arquivo.

— Mas, posso saber o que quer aqui? — tornei a perguntar.

— A Sakura me pediu para que eu te entregasse algo. — Naruto vasculhou os bolsos e voltou até minha mesa, depositando sobre ela um pendrive. — Ela precisa que dê prioridade para essas revisões.

— Ela poderia ter me enviado por e-mail.

— Ela não está passando muito bem. Além disso, nossa rede de internet está em manutenção essa manhã.

— Hm — resmunguei em compreensão.

— Bem. Não quero atrapalhá-lo. Vou deixá-lo trabalhar — ele disse, indo em direção da porta, mas antes de sair ele se deteve, massageou a nuca com uma das mãos e como se buscasse coragem para dizer algo, suspirou fundo e finalmente falou: — Sasuke... Deveria ir visitá-la. Eu sei que está comprometido agora, ela pelo menos disse que estava. Mas a gente não se importa que leve seu... seu... seu...

— Parceiro?

— Isso. Ela sente sua falta.

— Hm — balancei a cabeça positivamente. — Certo. Eu irei.

— Eu agradeço — ele respondeu rapidamente e se voltou para a porta com a intenção de sair, mas não o fez porque notou que havia prendido a camisa na armação de ferro do armário que ficava do lado da porta. — Droga! — praguejou e eu me levantei imediatamente.

— Espera, espera, não se mexa. Eu te ajudo. — Era claro que eu não o deixaria estragar aquela peça que o deixava irresistivelmente sexy.

— Não precisa, é só puxar.

— Se puxar vai rasgar — eu o adverti e dobrei os joelhos no chão, passei meus braços em torno da cintura dele e me empenhei em desprender o tecido do armário com cuidado pra não causar nenhum dano a camisa, enquanto meu cérebro era inundado por um perfume cítrico. Foi difícil consegui desprender o tecido enganchado, mas não tanto quanto gostaria que fosse. — Consegui — anunciei com pouco entusiasmo.

— Obrigado — ele respondeu e me estendeu a mão para me ajudar a levantar.

Eu aceitei a ajuda. Segurei firme na mão dele e me impulsionei para cima; com o impulso do movimento, nossos corpos acabaram se aproximando demais e fiquei diante do rosto dele, separado apenas por um palmo de distância.

Quando dançamos juntos no dia do casamento eu havia notado aquele fato, mas ao ficarmos eretos e de frente um para o outro, me fez ter certeza de que eu era bem mais alto que ele. Nossos olhares se fixaram um no outro e se eu não tivesse fé de que seria morto por minha ousadia, eu o teria beijado naquele instante.

Mesmo sem àquela certeza, fui invadido por uma estranha coragem que me fez segurar o cós dele com a mão livre, enquanto mantinha a outra mão ainda firme na dele. A vontade de elogiá-lo estava presa na minha garganta, por isso não resisti e acabei soltando: — Você ficou tão sexy nessa camisa, que eu me mataria se a destruísse.

Achei estranho, mas naquele instante Naruto demorou a recuar do meu evidente avanço e apenas continuou me encarando, um frio absurdo se apossou do meu estômago até que ele respondeu.

— Você está muito perto — foi sua reclamação.

E de fato eu estava, até fui capaz de sentir o hálito dele tocando meu rosto.

— Eu sei, desculpe — pedi, mesmo assim, eu não consegui me mexer.

— Ok. Então dá para me soltar? Dá para largar o cós da minha calça e soltar da minha mão?

— Estou tentando, mas as minhas mãos e pernas não me obedecem.

Naruto franziu o rosto, balançou a cabeça negativamente e foi ele quem se desprendeu do meu agarre e, após espalmar ambas as mãos no meu peito, me empurrou devagar, o suficiente para ele escapar daquela proximidade perigosa.

— Qual é seu problema? — ele finalmente reclamou.

“Estar apaixonado por você” foi a resposta que se formou rapidamente em minha cabeça, mas que continuou presa onde estava em consideração a Sakura.

— Eu não sei — menti.

— Ah! Gays! — ele esturrou, abriu a porta e saiu irritado da sala, limpando a mão que havia segurado a minha na lateral da calça.

Eu sorri da idiotice que havia acabado de fazer, mas por outro lado, fiquei aliviado por tê-lo finalmente feito compreender que o meu verdadeiro interesse era somente no sexo oposto. Mas especificamente: nele.

— Pelo menos, agora você tem certeza de que sou mesmo gay, idiota...

...

Nas semanas que se seguiram, eu não consegui parar de pensar em como a reação de Naruto havia sido estranhamente a contento. Deduzi que, pelo tamanho do machismo dele, no mínimo eu deveria ter sido esmurrado e aquilo não ter acontecido havia me deixado realmente satisfeito. Passei a fantasiar com ele todas as noites, cheguei a ser mais ousado e fantasiar Sakura junto conosco. Um perfeito Ménage.

Mas Sakura estava grávida e eu devia uma visita a ela. Logicamente, eu não tinha nenhuma intenção de fazer essa visita, principalmente, depois de ter assediado o marido dela.

Então, foi ela quem veio me procurar em um sábado à noite em casa, o último lugar que eu deveria estar, estando comprometido, como havia mentido.

— Alguém comprometido não deveria estar em um encontro a uma hora dessas? — ela me perguntou assim que atendi a porta.

— E uma mulher grávida não deveria estar descansando?

— Se Maomé não vai a montanha...

— Eu já entendi. Não recite provérbios idiotas, você sabe que...

— Eu sei — ela me cortou e entrou, segurando a barriga com uma mão e com a outra se apoiando nas paredes. Estranhei aquilo.

— Você não subiu de elevador?

— Subi. Mas essa falta de ar está sendo comum na gravidez toda.

— E é normal se sentir assim?

— Coisas de grávida.

— Você vai ter gêmeos? Sua barriga está enorme.

— Não, só tem um aqui dentro. Eu engordei muito durante a gravidez.

— Por quê? O médico não está te acompanhando? Não está te passando dietas?

— Oh... — Sakura finalmente alcançou o sofá e se sentou, digo, desabou no sofá, e ainda ofegante, respondeu sorrindo: — Achei que não se preocupava mais. Já que estou prestes a ter meu filho e quantas vezes mesmo você foi me visitar?

— Você tem um marido, não precisa de um cara gay atrapalhando seu relacionamento.

— O que te faz pensar que você atrapalha meu relacionamento, Sasuke?

Parei por um segundo e pensei que havia sido idiota ao imaginar que Sakura havia desconfiado da minha atração por Naruto. Era quase certeza que ela não desconfiava de nada e saber daquilo, me deixou de consciência pesada.

— Desculpe-me? Eu só achei...

— Esqueça — ela me interrompeu, ainda com uma expressão de cansaço abalando seu rosto estranhamente inchado. — Sei que você e o Naruto não se dão bem. Mas seja lá o que você colocou na sua cabeça-neurótica, eu já vou dizer: é besteira. Pois até ele passou a perguntar de você. Perguntou porque você tinha cortado relações comigo de repente. Ele queria saber se ele era o culpado e até se propôs a procura-lo para conversar. Eu só não deixei porque eu queria fazer isso pessoalmente.

Eu não tive tempo de me sentir mal, porque a notícia que Sakura me deu em seguida, me deixou totalmente desnorteado.

— A minha gravidez é de risco, Sasuke.

— Como?

— Desde o começo a médica diagnosticou Eclampsia. Ela disse que só pioraria com decorrer da gestação.

— Você contou isso para o Naruto?

— Claro que não — ela respondeu calmamente e aquela calma me irritou.

Eu me levantei e dei meia volta na sala com ambas as mãos na cabeça.

— Por que não?

— Eu te disse: é o sonho dele ser pai.

— Sim! Mas e você?

— Sasuke... — ela me chamou, paciente. — Eu tive nove meses para pensar e pesar todos os prós e contras. Até assinei um termo de responsabilidade. Eu vou ter essa criança. Só que... antes de ir para mesa de cirurgia na próxima semana, eu preciso te pedir um favor.

— Sakura, não faça isso.

— Se acontecer algo comigo...

— Não! — eu respondi efusivo, o desespero me consumindo. — Não diga isso. Não para mim. Não coloque essa responsabilidade sobre meus ombros, Sakura!

— Você é o meu único amigo. É a única pessoa que posso contar. Você me ajudou tanto, Sasuke. Além disso, não é cem por cento de certeza que não vou sobreviver. As chances são iguais. Eu só quero que você fique do lado do Naruto, como ficou do meu esse tempo todo, caso o pior venha acontecer.

— Não. Você não demorou tanto para realizar seu sonho de casar, para me dizer agora que... vai morrer.

— Você está sendo pessimista como sempre. Eu só estou pensando nessa possibilidade que pode vir a ocorrer, eu não creio que isso irá acontecer.

— Ele te ama, Sakura. Ele pode tirar a própria vida se algo acontecer com você.

— É por isso que vim até aqui hoje, Sasuke. Para te pedir que não o deixe cometer nenhuma besteira caso isso aconteça. Nosso filho precisa de um pai.

— E precisa muito mais de uma mãe!

Eu cobri o meu rosto com ambas as mãos e segurei para não chorar. Não iria desabar diante dela naquele momento. Mas eu percebi, no exato momento em que a vi inchada daquele jeito, que Sakura já esperava o pior.

Na verdade, aquela foi nossa última conversa, uma despedida...

Até hoje, se fecho os olhos, sou transportado para o corredor do hospital no dia em que Ayame nasceu e até consigo ouvir com clara nitidez os gritos de dor de Naruto.

Continua...

Notas finais
Espero reviews! o/