Sem Querer, Juntos!
2 Capítulo 2 - A Festa
Sem querer, juntos.
Capítulo 2 – A festa
Conforme o desejo de Sakura no famoso “grande dia” eu estava lá. Assistindo de camarote, ou melhor, da fileira de padrinhos, sua entrada triunfante na igreja; com um vestido de noiva que, graças aos deuses, não lembrava o próprio bolo de casamento.
Não sou do tipo de gay metido a “estilista” e a “cabelereiro feminino”, todavia, dentro da minha limitação daquilo que me agradaria em uma noiva, eu a achei deslumbrante.
Os cabelos rosa estavam presos em um coque no alto da cabeça, onde brilhava uma tiara. O vestido era um “tomara que caia”, tubo, bem ajustado ao corpo, no tom champanhe e com uma cauda não muito longa. Luvas, algumas joias e o buquê de camélias natural, finalizavam os adornos do visual.
Se não fosse a garota chorando ao meu lado, acredito que teria aproveitado mais a tal cerimônia de casamento. Hinata Hyuuga é uma amiga em comum dos dois. Tímida ao extremo, tive alguma dificuldade em me comunicar com ela no início, durante o último ensaio de casamento. Aparentemente, Hinata não é do tipo que fala muito e quando eu lhe dirigia alguma palavra, ela se encolhia, ficava extremamente vermelha e emudecia ainda mais.
Mas, eu não sou nada distraído e notei a forma como ela observava os noivos juntos, como eles se divertiam; como pareciam perfeitos um para o outro.
Naruto e Sakura brincaram durante todo o ensaio, como se quisessem divertir os padrinhos. Contavam piadas, faziam sátira dos seus próprios sentimentos. Eu tentei me manter distante, mesmo quando algum engraçadinho se aproximava querendo puxar assunto usando ganchos do tipo: “Eles foram mesmo feitos um para o outro, não é mesmo?”. A resposta que vinha na minha mente e a qual eu resguardava a mim mesmo era: “Não me interessa”. Afinal, nunca vi sentido nessa frase. Seres humanos não são feitos por encomenda, por isso não são “produzidos” para serem de outros.
Mas, é na madrinha que eu quero focar minhas lembranças agora. Eu só soube o nome dela porque outro padrinho, o tal “Kiba”, que estava sentado na nossa frente no ensaio, insistia em se voltar pra trás e repetir o nome dela a todo instante:
— Né, Hinata? Você ainda fica vermelha igual quando éramos adolescentes, né? Né, Hinata? Não vai chorar por ter perdido o Naruto para Sakura, né?
— Ki- Kiba-kun... — ela gaguejava em respostas as tiradas sarcásticas do outro, o que me irritou profundamente.
— Urusai — pedi para o homem, adotando uma pose contrariada: pernas e braços cruzados e o cenho franzido.
— Falou comigo, almofadinha? — ouvi o idiota retrucar.
— Além de irritante, é surdo. Eu disse: cale essa maldita boca. Tá me enchendo a paciência ouvir sua voz.
— O quê?!
Bem, não preciso dizer que aquilo foi só o estopim para uma discussão que só teve fim depois da intromissão dos noivos.
Quando tudo se acalmou, ainda me peguei intrigado. Hinata fora apaixonada por aquele loiro estúpido e eu não conseguia acreditar naquele fato. Tanto que decidi tirar aquela dúvida com ela, mesmo que, no fundo, não fosse algo do meu interesse.
— Sei que não é da minha conta, mas... você... digo, o loiro... vocês...
— Iie... — ela negou, antes que eu concluísse a dúvida a qual nem consegui formular. — Eu nunca fui correspondida pelo Naruto-kun. Desde criança ele sempre gostou da Sakura-chan. Por isso, mantive em segredo por muito tempo os meus sentimentos por ele. Mas quando eu recebi a proposta de casamento do meu atual marido e, antes de dar a resposta ao Neji, decidi contar sobre os meus sentimentos ao Naruto-kun.
— E o que ele respondeu? — a curiosidade saiu da minha boca de uma forma absurdamente inesperada e a resposta dela me surpreendeu ainda mais.
— Nada.
— Nada?
— Hm — ela assentiu, com um sorriso enigmático, como se a ausência de resposta de Naruto na época, fosse exatamente o que ela esperava.
— Não foi grosseiro da parte dele?
— Não. Eu não esperava uma resposta e por isso ele não me deu essa resposta — ela explicou, me deixando mais confuso. — Na verdade, ouvir dele o que ainda era óbvio, que ele continuava apaixonado pela Sakura, me machucaria e o Naruto-kun foi sensível ao ponto de perceber isso e não dizer.
Cocei a cabeça.
— Isso é bem estranho. Ele nem sequer agradeceu?
— Não. Ele apenas manteve os olhos fixos nos meus e sorriu.
— Sorriu...?
— Sim. Um dos seus grandes sorrisos. Quando os dentes ficam amostra e os olhos se apertam, sabe?
Foi algo impressionante, mas eu sabia do que ela estava falando e fui até capaz de visualizar claramente o tal sorriso bobo de Naruto, como se o estivesse vendo diante dos meus olhos.
— Lembro-me como se fosse hoje... — a ouvi prosseguir — o rosto dele levemente corado, das mãos coçando a nuca... Ele estava feliz e constrangido ao mesmo tempo. Fiquei satisfeita com aquela reação. Então, para preencher o vácuo daquele momento tão constrangedor, expliquei pra ele sobre a proposta de casamento do Neji e que não queria dar uma resposta ao meu primo antes de resolver essa pendência dos meus sentimentos com ele.
Em outra situação, eu poderia imaginar que Hinata era do tipo de garota que usou aquele momento como desculpa para impor seus sentimentos ao Naruto e pressioná-lo a correspondê-la. Seria praticamente um “te mato” do tipo: “ou você aproveita do fato de eu gostar de você e me assume, ou me perderá para sempre”.
No entanto, Hinata não parecia ser esse tipo de garota. Seu olhar era sincero, não havia rispidez ou mágoa embutida em seu tom de voz. Ela falava a verdade.
— Posso te fazer uma pergunta indiscreta, Hinata-san?
— S- sim, pode.
— Você é uma garota fina, muito bonita e de bons modos. O que te fez se apaixonar por... ele?
Hinata percebeu meu tom forçado de deboche ao entonar o “ele” e abriu um belo sorriso. Vi seus olhos brilharem e vagarem ao encontro de um passado não muito distante. Hinata me contou que tudo nasceu de uma grande admiração na época em que eles ainda eram crianças. Foi então que descobri que Naruto era órfão, coincidentemente, assim como eu.
Ele frequentou a mesma escola que Sakura e Hinata, porque o velho prefeito da cidade natal onde ele nascera era a pessoa responsável por Naruto. E mesmo com uma história de vida trágica, Hinata afirmou que era algo raro ver o loiro triste, ou pelo menos, ela nunca o vira assim.
Também percebi que despertei a mulher falante na tímida Hinata. Conversamos um bocado durante e após o último ensaio. Ela narrou um pouco da sua própria vida, da família tradicional, do pai sistemático que não teve filhos homens e da rivalidade que tinha com o primo, o mesmo que hoje é seu marido. De acordo com Hinata, a coragem que ela obteve para enfrentar os problemas da sua família, foi inspirada na força e na determinação de Naruto.
Descobri então que sabia muito pouco daquele loiro que sempre juguei pela aparência de idiota.
Mas, apesar de ter sido tão sincera, Hinata estava chorando no “grande dia” e não parecia de felicidade. Eu nunca me apaixonei, por isso, não faço ideia de como é essa dor.
— Pegue. — Estendi meu lenço para ela. — Está borrando a maquiagem — justifiquei, diante do olhar molhado e indagador dela.
Hinata apanhou o lenço e sorriu entre as lágrimas. Talvez, a dor que ela estivesse sentindo fosse parecida com a dor de se perder alguém para sempre. Mas, se as pessoas não são objetos para pertencerem as outras não deveria haver esse sentimento de dor em nenhum tipo de perda. Porém, lembro-me perfeitamente bem da dor horrível que senti quando perdi todos os entes da minha família de uma única vez.
De repente, vi meu lenço sendo devolvido por ela.
— Pegue. Acho que você também vai precisar.
— Como? — fiquei confuso até notar que havia lágrimas nos meus olhos. Pisquei algumas vezes e as senti descerem molhando meu rosto. Limpei rapidamente com as mãos e tentei justificar, negando apanhar o lenço de volta com um gesto de mão. — Deve ser alergia das flores, não se preocupe.
Hinata assentiu com um sorriso estreitado nos lábios e eu percebi o quanto era agradável uma pessoa discreta.
Ficamos juntos durante toda a festa também. Quando Naruto e Sakura passaram por nossa mesa, esbanjando sua felicidade, fomos puxados para o salão de dança. Sakura e eu. Naruto e Hinata. Verdadeiros e incompatíveis contrastes. Fez-me pensar se a regra dos “opostos se atraem e se completam” tinha alguma veracidade.
— Então, foi fisgada pelo amigo de infância? — acabei comentando para a linda noiva em meus braços.
— Oh! Vejo que deixou sua discrição de lado para poder especular a Hinata.
— A culpa é sua. Foi sua ideia nos juntar. Além disso, ela fala pelos cotovelos.
— Sério?! — Sakura estreitou seus olhos maquilados claramente desconfiados na minha direção. — Isso é definitivamente uma calúnia deslavada, seu cara-de-pau. Hinata é praticamente muda.
Rimos.
— Eu disse que vocês se dariam bem. Se ela não fosse casada...
— Nem conclua tamanha besteira.
Olhei de soslaio para o outro casal, Naruto com o tal sorriso gigante no rosto e Hinata vermelha, dançando um pouco enrijecida. Então ouvi aquela observação de Sakura.
— São tão opostos, não são? Não acho que eles fiquem bem juntos. O que você acha, Sasuke? — Me surpreendi com a pergunta que veio de Sakura, o que me fez sorrir ao lembrar-me da insegurança dela e de todos seus momentos de instabilidade, os quais muitas vezes, eu tive que ajudá-la a superar.
— Não. Absolutamente eles não ficam bem juntos — concordei, elevando o dorso da mão enluvada dela até minha boca e depositando um beijo sobre ela. — Assim como nós dois não ficamos, baby — e sorri, sem sequer me dar conta de que o estava fazendo.
Era por ela.
E parecia ser o que Sakura precisava ouvir para se sentir mais leve, pois ela gargalhou de uma forma gostosa enquanto eu a rodopiava e anunciou de repente, indo na direção do outro casal: — Vamos trocar de par.
Foi aí que aquela situação constrangedora ocorreu, Sakura não apanhou a mão de Naruto como eu pensava, e sim, a de Hinata, puxando-a para dançarem juntas. Fiquei parado diante de um Naruto com um olhar estarrecido. Até que o vi abrir aquele sorriso enorme e fazer o gesto com a palma da mão direita virada pra cima, me convidando para a dança.
Eu poderia ter ido me sentar, não ligo com etiquetas. Nunca liguei. Não precisava me sujeitar aquilo. Mas algo me impulsionou e quando dei por mim, estava com a mão esquerda sobre a dele e a direita em seu ombro.
O ar tornou-se rarefeito. Endurecidos, nos arrastamos pelo salão a passos pesados, enquanto as duas garotas rodopiavam sorridentes, deslizando pela pista ao ritmo de uma música mais dançante. Era fácil para mulheres vencer os protocolos. Apesar de que não era algo anormal dois homens dançarem juntos em outras culturas.
Mas o silêncio entre a gente tornou a situação mais estranha. Eu queria dizer algo qualquer, conveniente ao momento: “parabéns pela bela festa”; “espero que sejam felizes” ou, qualquer pauta de um discurso vazio.
Mas, simplesmente, não saiu nada. Não era da minha personalidade falsas preleções.
E aquele olhos azuis tão claros fixados nos meus, somaram-se para me tirar o foco. Ficou mesmo difícil de respirar. Engoli em seco. O rosto de Naruto de perto era estranhamente perfeito e eu não consegui desviar minha atenção dele. Enquanto a dança se estendia, me mantive hipnotizado. Até que as duas garotas se aproximaram novamente, e mais uma vez, trocamos de par. Desta vez, Hinata e eu. Sakura e ele. Era assim que tudo terminaria aquela noite e foi assim que tudo terminou.
Comi, dancei e finalmente a festa acabou. Não quis esperar para as despedidas, havia uma fila de convidados e parentes para fazê-lo, e se tem algo que encabeça a minha lista de coisas odiáveis: é a fila. Entrar em uma fila em um dia de festa estava totalmente fora de cogitação.
Esperei fora do salão, sentado no primeiro degrau da extensa escadaria que levava para a entrada do local da festa, o paletó em uma das mãos e o capacete no degrau ao meu lado. Queria me despedir de Hinata, que quis dar os últimos cumprimentos ao casal e apanhar a “recordação” do casamento, que de acordo com ela, deveria ser algum enfeite, foto, doce, coisas de cerimonial.
— Sasuke-kun?
Levantei ao ouvir o chamado de Hinata.
— Achei que já tivesse ido — ela completou.
— Queria me despedir.
Ela sorriu um pouco constrangida e em seguida me estendeu um par dos bonequinhos cabeçudos vestidos de noivos que ela trazia nas mãos.
— O que é isso? — observei com o cenho franzido, as cabeças desproporcionais dos bonecos moverem-se como se tivessem fazendo uma dança ritmada.
— Eles pediram para lhe entregar.
— Ah... Então essa é a tal lembrança do casamento? São horríveis.
— Eu achei fofos.
— Vai voltar pro Hotel?
— Sim, meu táxi já chegou — ela disse e apontou o veículo do outro lado da rua. — Quero descansar um pouco antes de viajar amanhã cedo.
— Foi um prazer ter sua companhia durante a festa, Hinata — disse e estendi a mão para cumprimentá-la. — Espero mantermos algum contato pelos e-mails que trocamos.
Ela assentiu, correspondendo ao meu aperto de mão. Em seguida, desvencilhou-se do cumprimento, fez uma breve reverência e se afastou. Esperei até que ela entrasse no táxi e partisse, só então, apanhei o capacete que havia deixado no degrau, e segui para o estacionamento para pegar a motoneta.
...
Não sei por que diabos, mas fui parar em um bar que não frequentava fazia muito tempo. A cerimônia havia acontecido à luz do dia, por isso acabou cedo. A noite de sábado estava apenas começando e depois da festa de casamento, não me senti animado para voltar sozinho para o meu pequeno apartamento.
É, fazia tempo que não sentia necessidade, mas naquela noite bateu uma vontade incontrolável de transar.
Eu precisava de sexo e dos bons.
Mas ao contrário do tempo que eu costumava frequentar o balcão do Blue Rose estava vazio.
— O que houve com esse lugar, Suigetsu? — perguntei ao barman, me acomodando em um dos bancos de madeira rente ao balcão.
— Vejam só! Bem que dizem que quem é vivo um dia aparece — ele se esquivou de maneira escorregadia da minha observação e revirei os olhos com aquele ditado ridículo.
Decidido a não retrucar, estendi a mão para cumprimentar meu antigo companheiro de baladas e ele decidiu responder minha pergunta.
— Novos tempos, meu amigo. A velha guarda se casou; pendurou as chuteiras. A nova geração prefere essa porcariada de eletrônico, com um único verso se repetindo infinitamente... — exagerou ele, servindo-me uma dose de uísque com bastante gelo e energético, mostrando que ele ainda tinha uma boa memória. — Hoje eles preferem esse tipo de batido, ao invés de música onde se consegue definir os sons de instrumentos e a letra penetra em nossas mentes nos fazendo refletir — filosofou, apontando para o ambiente quase vazio, onde retumbava um os acordes afinados de um blues.
— Você fala como se tivéssemos oitenta anos — debochei, bebericando o líquido no copo.
— E não é? E ao que devemos sua visita? Escapou da patroa hoje?
— Eu não casei, Sui. Você sabe que sou gay.
— Ué. Achei que tivesse largado dessa besteira.
— Gostar de transar com homens não é uma besteira, é uma preferência.
— Não fala isso que me dá náuseas.
Balancei a cabeça em negação.
— E, aí, aonde vou pra encontrar companhia por aqui?
— Puta merda. Ainda quer que eu te indique a concorrência?
— Vamos, Sui... Preciso urgente de companhia.
Ele suspirou, mas respondeu:
— Red-Town na rua de cima. Vai ser fácil de achar, acredite.
— Obrigado — Terminei de entornar o líquido do copo, deixei a nota no balcão e saí. — Qualquer hora dessas eu apareço.
— Sei, sei... Boa sorte!
...
Exatamente como Sui havia dito. A tal da Red-Town era bem chamativa com as luzes do letreiro piscando em um neon vermelho. Pelo barulho abafado que vinha do lado de dentro, deduzi que era uma dessas casas que tocam os ritmos que bombam nas pistas atualmente. Estava lotada, pois notei que tinha fila para entrar e pensei em desistir, claro, fila. Só não o fiz, porque a minha necessidade falou mais alto.
Ao entrar, logo de cara, a minha visão foi ofuscada pelo jogo de luzes psicodélicas que piscavam constantemente no centro do salão, onde havia um DJ e muita gente a sua volta. Ritmos novos e antigos ganhavam arranjos mixados para dar mais movimento e fazerem os frequentadores dançarem.
O ritmo que mais tocava eram músicas de grupos da nova geração compostos por uma quantidade absurda de componentes, que faziam os jovens do local irem para o centro da pista e arriscarem a reproduzir a coreografia do clipe das cantoras que passavam em telões localizados em lugares estratégicos do lugar.
Enquanto atravessava a pista para chegar a um lugar mais calmo, era empurrado para lá e para cá, apenas uns poucos pediam desculpas e quando o faziam, acrescentava aquela bendita palavra: “ojii-san[1]”.
“Ojii-san? Ojii-san? Por que não “onii-san[2]”? Eu não sou um velho!”
Quando consegui alcançar o balcão, me arrependi completamente de ter entrado naquele lugar. Pensei em voltar, mas ao olhar a pista tumultuada a qual teria que atravessar novamente para chegar a saída, resolvi procurar um lugar e ficar por ali mesmo. Porém, encontrar um banco vazio naquele balcão seria outro desafio.
Os dois barmen, evidentemente gêmeos, ao invés de servirem os clientes, estavam dançando em cima do balcão.
Eu entendi porque a Red-Town estava fazendo tanto sucesso, era um lugar diferente, bem incomum no Japão.
— Saudades dos barmen que serviam bebidas... — resmunguei, após soltar um suspiro desolado.
Os rapazes não usavam camisas, apenas gravatas borboletas. Eles faziam malabarismo com as garrafas, enquanto requebravam os quadris. Em determinada hora, a dupla deixou as garrafas de lado e passou a acariciar seus torsos desnudos de forma sedutora, chamando atenção de uma quantidade exagerada de garotas que se apertaram em torno do balcão para ver a performance.
Houve até alguns gritos quando os dois se uniram, e passaram a alisar o corpo um do outro. A cena foi bem excitante, para mim, que sou gay, óbvio. Só não entendi porque as meninas estavam gostando de ver dois homens se alisando.
— Será que mudei de planeta e não sabia? Isso aqui ainda é o Japão? — resmunguei de novo, tentando procurar um lugar mais calmo, o que parecia impossível.
Achei um ponto tranquilo próximo do banheiro masculino. Limpei o suor que escorria no meu rosto e aproveitei para abrir os primeiros botões da camisa e arregaçar as mangas compridas. Fique feliz por ter tido a ideia de largar o blazer e a gravata no compartimento embaixo do banco da motoneta. Respirei profundamente, já tinha visto o suficiente e não consegui nem me imaginar chegando em alguém daquele lugar; não me acho velho e muito menos fora de forma, mas perto daqueles jovens, que deveriam ter em torno dos vinte a vinte e cinco anos, me senti sim, totalmente deslocado.
Iria esperar um pouco e daria um jeito de sair dali. Mas ao contrário do que imaginei, as horas se arrastam quando você não está se divertindo e, quando vi no display do celular, que ainda era uma da manhã, decidi que era hora de enfrentar aquele tumulto para poder alcançar o paraíso, entenda-se: sair daquele lugar e chegar em casa. Minha vontade de fazer sexo já havia se esvaído de qualquer forma.
“Mesmo sendo patético, da próxima vez vou atrás de um cara de programa”, mentalizei aquela decisão, suspirando fundo e mais uma vez, mergulhei no aglomerado de jovens agora alcoolizados e fedendo a cigarro.
Empurrões, cotoveladas, pisadas no pé e até alguns puxões na camisa e, finalmente, consegui visualizar o segurança com cara de poucos amigos na porta de entrada e saída da Red-Town. Fiz um gesto com a cabeça para que ele abrisse a porta e como se não faltasse mais nada acontecer, o cara que estava encostado do lado de fora, perdeu o equilíbrio quando a porta se abriu e caiu em cima de mim, derrubando todo seu copo de cerveja na minha roupa.
— Merda! — praguejei.
— Oh, cara! Foi mal. Des-... Espera... — mesmo sem olhá-lo, a pausa feita e a voz que não me era estranha, dizia que eu havia sido encontrado por algum conhecido. — É você, Sasuke?
Ergui a cabeça e, como imaginei, me deparei com um par de olhos azuis, os quais eu conhecia muito bem.
Finalmente minha sorte havia mudado.
— Dei... — fui calado com um beijo antes mesmo de completar o nome dele.
Querem saber? Que se dane! Era exatamente o que procurava. Por isso, não pensei duas vezes em segurar o rosto dele e corresponder ao beijo de forma faminta.
Em poucos segundos, viramos o centro da atenção dentro da Red-Town. E só depois do segurança pedir pra que fossemos procurar um motel, que desvencilhamos do beijo e deixamos o lugar.
Puxei Deidara pela mão e seguimos para o estacionamento.
Meia hora depois e estávamos em um motel. Deidara estava muito diferente de quando o conheci, cabelos curtos, rosto mais másculo. Não sei exatamente o motivo, mas o achei muito mais atraente de quando o conheci adolescente; de rosto andrógino, longos cabelos lisos com uma franja caindo em um dos olhos. Nunca nos demos bem, mas a atração era evidente. Deidara é do tipo Geek[3], ligado nas redes sociais, inteligente, excêntrico; artista, apaixonado por jogos de lutas e estratégias.
Ninguém era capaz de vencê-lo nos jogos, até o dia em que nos encontramos na casa de um amigo em comum e, apesar da dificuldade, eu o venci. Ele ficou descontrolado e sempre quando tinha uma oportunidade, ele me desafiava novamente. Mas jogar com Deidara se tornou algo tedioso para mim, até que ele decidiu mudar as regras e me fez uma proposta interessante.
“Vamos jogar várias partidas, a cada derrota, o perdedor tira uma peça de roupa. Quem ficar sem nada primeiro, terá que ceder algo a ‘mais’ para o vitorioso.”
Sorri empolgado com a ideia. Mas apesar de ter dado o melhor de mim para não perder, aquele dia eu não estava para o jogo, por isso, tive certeza de que ele estava perdendo de propósito, para me dar o “algo a mais” no final de tudo. E eu o tive. Transamos a noite inteira. Sexo do bom.
Repetimos a estratégia outras vezes. Até que ele parou de me chamar para as partidas em sua casa do nada, sem mais justificativas. Eu também não o procurei e acabou por isso mesmo. Até encontrá-lo no Blue Rose na companhia de um ruivo. Soube pelo Suigetsu que o ruivo era namorado dele e os dois estavam sérios.
Ele mordeu meu lábio inferior quando comecei a estocar com mais força. Suas pernas envolveram minha cintura e os gemidos preencheram o quarto.
— Ah! Ah! Assim mesmo! Assim!
Meu membro foi contraído fortemente, impedido de continuar a linha de raciocínio paralela. Concentrei-me então na penetração que se tornou dificultosa e não fui capaz de segurar o orgasmo que me atingiu com força; justamente o que eu queria: sexo do bom.
Quando tudo terminou, fui abatido por um cansaço desmedido, estava entrando em um sonho onde vi Sakura usando um vestido de verão, branco, que esvoaçava ao vento. Ela estava em um lugar que lembrava uma praia paradisíaca, o azul claro do céu e do mar se fundiam em um único tom. Ela estava distante, andando em direção do mar. Comecei a andar em sua direção com a intenção de alcançá-la. Mas ela não ouvia meu chamado e me desesperei quando a vi desaparecendo no mar. Comecei a correr na direção dela, até encontrar o Naruto a beira da praia.
“O que está fazendo aí? Vamos atrás dela!”
“Não adianta mais, não podemos mais alcançá-la.”.
“Do que está falando, idiota?! É somente água! Venha! Vamos logo!”
Eu segurei o braço dele para obrigá-lo a ir junto comigo para o mar, mas abri os olhos antes de pisar na água. Meu coração estava disparado e senti o suor correndo pela lateral do meu rosto. Demorou alguns segundos até perceber que ainda estava no quarto do motel, e o punho no qual estava agarrado era o de Deidara. Ele já havia vestido a calça e estava curvado na cama, preparando para ir embora.
— Tô indo nessa.
— Por quê? — perguntei, totalmente desperto.
— Você não tem a mesma energia de antes, né, Sasuke? Caiu no sono na primeira e ainda ficou aí discutindo com alguém em seu subconsciente.
— Só foi um sonho estúpido.
— Sonho com um estúpido você quis dizer, hn? Você não parava de chamar um tal de... Naruto, eu acho...
Balancei a cabeça e passei a mão nos cabelos.
— Só foi um sonho bobo — repeti.
— Nah, não me diga que você está amarradão nesse Naruto, hn?
— Não existe essa possibilidade.
— Será que não? Mesmo ele sendo do tipo príncipe, loiro, de olhos azuis e que acabou de se casar.
Arregalei os olhos.
— Como...
Antes de questioná-lo Deidara colocou o casal de bonequinhos, que foram lembranças da festa, no colchão, alargando o sorriso no rosto.
— Acho que caiu do seu bolso.
— Não é o que está pensando.
— Não estou pensando em nada. Até porque, eu também estava a fim de uma válvula de escape. De qualquer forma, foi bom. Vou deixar a metade da conta paga. Teu número continua o mesmo?
— Hm.
— Então, a gente se fala uma hora qualquer.
Nem um beijo de despedida. Nada. Eu o vi jogar a camiseta no ombro e sair.
Fiquei naquele quarto um pouco mais, os pensamentos perdidos entre o sonho, a realidade e as palavras de Deidara. Tudo se misturava como as luzes psicodélicas da Red-Town. Vinha-me na mente as mãos de Naruto na minha, o choro da Hinata e o sorriso da Sakura. Não compreendia porque tudo estava me redirecionando a ele. Até mesmo Deidara...
Era algo estranho.
De repente, o cheiro daquele lugar começou a me incomodar e resolvi ir embora.
Fui embora sozinho e chateado. O casamento havia sido bom, a companhia da Hinata havia sido agradável e o sexo com o Deidara a contento. Então, não consegui entender o motivo da sensação de vazio.
Eu não estava buscando uma “válvula de escape”, pelo menos, pra mim, sexo sem compromisso não significa que não dou a mínima para a pessoa com quem transei. E ter sido tratado como a “válvula de escape” de alguém me incomodou bastante. Eu estava realmente chateado.
Cheguei em casa e fui direto pro quarto, sentei na cama e tirei o casal de bonequinhos do bolso, colocando-os sobre a cômoda. Fiquei observando os dois de mãos dadas, com seus sorrisos largos e as cabeças grandes balançando naquele ritmo frenético.
— Casamento, hein? — sacudi a cabeça em negação. — Não. Nem pensar. Uma boa noite de sono é tudo que preciso pra esquecer essa bendita sensação!
Continua...
Notas Finais: A leitora da fic Laís indicou um vídeo que é a cara da fic. E eu realmente achei parecido. Quem quiser conferir o link está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=PdUiCJnRptk&feature=youtu.be .
Obrigada por comentarem e favoritarem a fic!
Daqui duas semanas terá nova atualização! Até lá!
[1] Ojii-san (japonês) – senhor, tio; usado normalmente com homens mais velhos;
[2] Onii-san (japonês) – irmão, o termo também é usado com rapazes;
[3] Geek – nerd moderno; do tipo interessado em tecnologias.
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