Então, vamos contar desde o começo.

Bem, me chamo Daniel. Eu nasci em uma cidade pequena, mas eu e meus pais vivíamos mudando. Eu, particularmente não me importava, queria explorar novos lugares, conhecer novas pessoas.

Quando fiz 10 anos, coloquei em minha cabeça que seria quem ninguém imaginava, todos iriam me conhecer, me apreciar, me venerar. Mas, meus pais sempre me diziam: "você nunca irá chegar a lugar nenhum, menino irritante! Ninguém te aguenta, inclusive nós não te aguentamos!". Nunca podia dar ouvidos aos meus pais e era isso que eu tinha que fazer para conseguir sobreviver com eles. E isso não era tão difícil para mim, pois eu nunca dava ouvidos à ninguém, apenas à mim. E eu não duvidava que atingiria este ponto, pois sempre conseguia tudo o que queria.

Aos 15 anos, meus pais viajaram, mas não voltaram. Não sei para onde foram ou se morreram, essa é uma das dúvidas que me rodeou durante um tempo. Então, eu não podia ficar espremido em um canto chorando, teria que que agir, guiar a minha própria vida. Ergui a cabeça e segui em frente. Comecei a pensar no eu queria intensamente, ler mais livros, ver todo tipo de filme, pesquisar sobre tudo e estudar bem mais. A partir daí, a escola não era a mesma, todos me irritavam e excluíam socialmente, mas eu não me importava, minha cabeça só pensava no meu objetivo.

Meses depois, resolvi que queria ir atrás de minhas origens. Pesquisei, procurei livros,... e nada encontrei. Não tinha medo de qualquer barreira que me impedisse de encontrá-los, eu passaria por cima. Procurei por tios, primos, avós, contatos e nenhum apareceu ou não estava vivo. Foi nessa hora que senti uma emoção estranha, diferente de todas que já tinha vivenciado, que despedaçava meu peito em mil pedaços, causando uma dor insurportável. Eu não iria aguentar aquilo me infernizando por muito tempo. E se meus pais realmente tivessem mortos, como seus parentes? Eu não podia pensar que sim, estava sozinho, sem ajuda e não queria enfrentar a realidade. Eles podiam não ser os melhores pais do mundo, mas eram meus pais e eu me preocupava cada vez mais.

Depois do almoço, fui na delegacia, teria que tirar a história a limpo e me livrar dessa dor que fazia-me chorar e lamentar. Quando cheguei lá, havia várias pessoas sentadas em bancos, com crianças, idosos, todos com a face amarrotada e abalada, de cansaço e sofrimento. Falei com um homem que estava na cabine e expliquei o motivo de eu estar naquele destinado lugar. Ele me fitava com uma expressão de tédio, os olhos ardendo de cansaço e a mente longe, enquanto eu falava. O homem sem ouvir nada que eu disse, mandou que eu me sentasse nas cadeiras e esperasse a minha vez de ser atendido como todos os outros. Fiz o que ele disse, afinal eu não era melhor que ninguém ali e talvez não demorasse tanto. Procurei uma cadeira vazia, por sorte achei e me sentei. Ao meu lado havia um homem grande, não, enorme, ele estava segurando um envelope e abalançando-o, enquanto mantinha o olhar fixo na parede. No outro lado, havia uma mulher que tagarelava sem parar, inquieta e me esbarrando a cada segundo. Eu não estava aguentando aquele aroma, a conversa do meu lado, o desconforto, as reclamações, as emoções negativas que rodeavam o lugar, aquela mulher irritante do meu lado. Mas, procurei me acalmar, e consegui. Acabei caindo no sono, estava exausto. Quando acordei o Sol já tinha se posto, olhei meu relógio de pulso e eram 19:00. Um outro homem aproximou-se de mim, disse que o delegado não iria falar com mais ninguém e recomendou que eu voltasse no dia seguinte. Eu não aguentei, tive que reclamar:

— Várias pessoas estavam aqui, esperando pacientemente a hora de serem atendidos e você dispensa a gente assim? Depois de ter passado o dia inteiro sentado nessa droga, exausto e com problemas sérios para serem resolvidos? Como conseguem ver toda essa gente sofrendo e ainda prolongar essa emoção?

— Olha garoto, veja pelo nosso lado: milhares de pessoas vem aqui para denunciar, discutir... e ainda temos que dar conta de mais problemas, não tem como nós resolvermos tudo isso em um dia. E eu, só faço o que me mandam, não tenho que ouvir suas reclamações. Agora vá embora, porque o delegado não irá falar com mais ninguém! — Durante a conversa, passara várias emoções em sua face, o ódio, piedade, exaustão... mas agora ele me fitava com raiva e me empurrou com arrogância. O que me restava, era ir para minha casa, que agora era a da minha única tia, que estava doente.

Durante os outros dois dias, eu não desisti. Insistia em ir na delegacia e falar com o delegado. Mas, nunca dava em nada. No terceiro, resolvi fazer diferente. Não iria falar com o homem da cabine ou procurar meu lugar para assentar, iria direto ao delegado, podendo ou não.

Entrei na delegacia, sem perguntar a ninguém, fui para sala que queria, tentando ser discreto. Mas, não funcionou, me viram e eu sai correndo para meu destino. Estava desesperado, mas eu tinha que fazer isso. Entrei na sala e o delegado me olhou com um ar de pavor nos olhos. Eu comecei a explicar tudo, o mais rápido que pude, mas de uma maneira clara e precisa. Pois, em minutos os seguranças chegariam e me tirariam dali. Quando acabei, o delegado me lançou um olhar desconfiado e interessado. E senti um certo alívio. Na mesma hora, chegaram os seguranças, que me pegaram pelos braços, mas felizmente o delegando fez um sinal com que me soltassem. Ele pediu com que eu me sentasse e foi procurar alguns arquivos. Ele retirou um envelope, leu-o e me lançou um olhar de tristeza. Eu sabia o que aquilo queria dizer, mas queria que saísse da boca dele.

— Você quer mesmo que eu te menciono isso, filho? — Esse tratamento devia me reconfortar, mas não funcionou, só piorou as coisas. Eu fiz um sinal positivo com a cabeça, incapaz de falar. — Olhe, seus pais morreram enquanto dirigiam para uma cidade ao lado, João Santo. Enquanto isso, perderam o controle do carro e acabaram batendo em um posto de gasolina, talvez pode ter sido provocado por desatenção ao volante. Ainda não está confirmado. — Pedi aos soluços, que não enterrassem o corpo dos dois, que tentassem mantê-los congelados, que eu pagaria com minha herança.

Eu podia sentir uma pressão arrogante inundando minha garganta. Lágrimas escorregavam pelo meu rosto, culpa, ódio, tristeza, sofrimento passavam pela minha face. A dor que despedaçava meu peito, agora o furava. Uma vontade incrivelmente forte, pela primeira vez, me dizia para desistir. Desistir de tudo, dos meus objetivos, do meu futuro, da minha vida. Pois eu não iria chegar a lugar nenhum, ninguém me suportava, eu não me suportava.