Sem Compromissos

16 Capítulo 15 - A vida é uma vadia, que ás vezes é legal


Notas iniciais
Hi pessoas! Tudo bom? Viram? Passou-se uma semaninha, e cá estou eu de volta com mais um cap. dessa fic divosa o Vou ser sincera com vocês. Eu AMEI ESSE CAPITULO! Sério, eu não sei da onde surgiu tanta coisa p escrever! Primeiramente, pq eu tinha começado esse capítulo com uma ideia, mas daí na metade do caminho, quando eu vi que essa ideia ia me deixar com mais de 7k de palavras, eu tive uma epifania, e resolvi acrescentar alguns detalhes - daquela maneira que eu adoro fazer - e dividí-lo em duas partes. É, eu sei, vou deixar vocês com mais tempo de sofrimento nas mãos xD hahahaha Mas pensem positivo, ao menos eu vou conseguir entregar o próx. mais depressa ;) Enfim, chega de papo! Vamos à leitura =p

Capítulo 15 — A vida é uma vadia, que ás vezes é legal

Ele corria. Castiel só sabia correr, era o único comando atravessando os neurônios, enviando informações em milissegundos aos músculos das pernas, aos nervos e ligamentos, impulsionando o corpo dele para frente e sempre, virando nas esquinas certas, voando pelas ruas, chegando aos bairros e nem ao menos se lembrando dos nomes de avenidas.

A boca entreaberta arfava o oxigênio gasto entre uma passada e outra. Os braços moviam-se no mesmo acorde da correria de Castiel, que só conseguia pensar num único objetivo; um ponto comum ao qual reconhecia como sendo a solitária resolução para a dúvida crescente no peito, cantando numa marcha de guerra tamanha era sua vontade em querer manter a maquinaria de músculos correndo.

“Por favor, que ele não esteja na casa, por favor que ele não esteja na casa, por favor, por favor!”

Tocava o repetido mantra em sua cabeça. Que ele tenha ficado até mais tarde em algum bar, que ele tenha ido dar uma volta de carro como fazia às vezes nas horas noturnas em que sentia-se preso demais, que ele tenha encontrado alguém para passar a noite – Castiel já não se importa com isso nesse momento – porque se Dean estivesse vivo, ah! Mesmo vivo entre as pernas de outra pessoa seria melhor do que encarar uma possível linha do destino em que ele não mais existia; em que a tragédia do incêndio repetia-se na vida de Dean tirando sua vida tal como tirou a de sua mãe anos atrás

O esforço extra causa dor nas juntas, mas Castiel não se importa, ele não precisa de um joelho bom, ele só precisa saber que Dean está bem.

A casa de Sam ficava em torno de oito quilômetros de distância. Castiel apanhou um táxi até uma rua próxima, parando pouco depois da metade do caminho quando o carro ficou preso em um engarrafamento. Ele nem sabe quantas notas jogou no banco da frente, só se lembra de chegar a calçada e correr como nunca antes correra, ignorando a falta de ar.

Não foi preciso avançar muito para ver as luzes alaranjadas do fogo piscando num céu escuro da noite, dançando em meio a fumaça negra indo em direção às estrelas, tampando a visão da lua. A garganta pareceu arder ainda mais.

A aglomeração de carros era visível conforme se aproximava do local da tragédia. Pessoas paravam para tentar chegar mais perto, outras eram impedidas por um grupo de bombeiros já posicionados em linhas de contenção qe queriam evitar novos feridos. Castiel começou a empurrar a pequena multidão, mal conseguindo enxergar a casa, mesmo que esticasse o pescoço para o alto.

As ambulâncias começavam a aparecer tratando dos vizinhos afetados pela fumaça, e entre eles Castiel não enxergava a figura de Dean, nem mesmo de Sam ou Jess.

Chegando numa nova barreira formada pelos bombeiros, Castiel começou a empurrar os pesados bloqueios de madeira, porém teve seus esforços interrompidos pelas mãos de um dos bombeiros, o segurando pelos ombros:

– O senhor não pode atravessar!

– É a casa dos meus amigos!

– Sinto muito, mas é perigoso!

– Não quero saber! – grita violentamente, segurando o pulso do bombeiro e o empurrando para longe de si – Eu preciso ver se eles estão bem, se eles—

– Castiel?!

A voz de Sam irrompe entre a pequena discussão, e o bombeiro pareceu mais preocupado em voltar ao serviço do que tirar Castiel dali, bufando ao permitir que ele passasse pelo bloqueio – afinal, era o dono da própria casa quem o chamava.

– Vim assim que pude! – Castiel fala frente a frente com Sam.

– Cas.... Eu não....

– Você está bem?

– E-eu sim, mas.... A Jess....

Mesmo com a secura rondando o ambiente a voz de Sam soava chorosa. Vendo seu rosto de perto, Castiel enxergava bolsas de água debaixo dos olhos já vermelhos e inchados, sua boca cortada em vários pontos onde provavelmente ele mordera em nervosismo, e as mãos de Sam vinham trêmulas para segurar os pulsos de Castiel, e o moreno precisou engolir seco:

– Sam, o que aconteceu com a Jess? – pergunta ainda receoso, vendo como Sam aperta bem os olhos e balança a cabeça devagar.

– Ela ainda estava lá quando começou, dormindo na sala, a tiraram bem depressa mas.... Mas o fogo ainda a pegou, e-eles disseram que são queimaduras de segundo grau nas pernas, e eu não sei mais o que fazer—

– Você precisa ir ao hospital! Ficar com ela!

– Como?! – ele urra com os lábios trêmulos – Como eu posso sair daqui, como eu posso deixar tudo para trás se eu não sei—Se ninguém sabe se o Dean....

As pálpebras de Castiel se abrem ao máximo, assim como sua boca, porque por alguns segundos, vendo Sam dessa maneira tão perturbada, ele se permitiu preocupar-se com seu amigo, esquecendo que havia a possibilidade de Dean estar na casa.

A casa que ainda pegava fogo.

O olhar de Castiel planou do rosto de Sam para a calçada, subindo e parando sobre a dança devastadora do fogo sobre a madeira, um elemento lutando contra o outro numa batalha feroz em que o calor triunfava, em que chamas rodopiavam em volta de si mesmas, consumindo a madeira que rangia e se quebrava aos poucos, enegrecendo em carvão, cedendo a essa força colossal.

E apenas nesse segundo, mirando intensamente esse campo de guerra é que Castiel parecia entender que ele havia chegado; que encontrava-se frente a frente com o medo alimentado pela ligação repentina de Sam no meio da noite: ele parava diante do monstro de dois andares, com portas e janelas, sofás, cortinas e tudo o mais que formavam uma bela residência, mas que agora tornavam-se combustível para o incêndio.

A luz da dança avermelhada do fogo alcançou o rosto de Castiel, contornando cada feitio perplexo dele em brilhos intensos que iam do amarelo ao mais carmim possível. Ele não percebeu, não notou que havia se soltado de Sam, que ele o chamava, ou que andava na direção da casa como se as flamas o guiassem, clamando por ele.

Querendo roubar de Castiel toda a esperança ao lhe mostrar um verdadeiro inferno onde Dean poderia estar.

Arfando firme ele aumenta a velocidade dos passos sentindo a ventania quente acertar cada ponto de sua pele, começando uma leve queimação em seu corpo onde está descoberto de roupas, mas Castiel já nem se importa com ao incômodo. Ele precisa; ele tem de entrar naquela casa e ter certeza, e saber que Dean não estava lá, que não havia mais ninguém—

– Senhor, para trás!

Um dos bombeiros o parou no meio do caminho ao pôr a mão sobre seu peito. Castiel o ignorou, continuando a ir em frente.

– Ei, senhor! Volte agora!

– Dean....

– Você precisa se afastar é perigoso—

– Tem mais alguém lá dentro?! – ele pergunta quase querendo negar as próprias palavras.

– Nós não sabemos se há outra vítima, o fogo está intenso demais.

– DEAN!

Grita em pleno pulmões, apanhando as mãos do bombeiro que tentavam o segurar e as afastando de seu corpo, empurrando para os lados e lutando contra a pressão que se fazia contra seu tórax, o forçando para trás. Castiel berrava mais e mais, se debatendo entre os braços de agora dois bombeiros que tentavam com dificuldade o manter longe da casa em chamas.

– Vocês têm que ir lá dentro! – Castiel brada, segurando firme nos braços o constringindo pela cintura – Entrem lá, o tirem de lá! POR FAVOR!

– Eu sinto muito, mas não há nada—

– DEAN! CORRA! SAIA DAÍ, SAI DESSA CASA!

– Senhor...

– DEAN!

As pernas de Castiel chutavam o ar vazio ao querer se soltar dos bombeiros. Com todas as suas forças ele lutava, gritando mais e mais até gastar toda sua voz, pedindo que Dean o ouvisse, que ele fosse para um local seguro dentro da casa onde o fogo não o alcançasse, onde ele pudesse ficar a salvo até que os bombeiros entrassem.

Dean é esperto, ele é tão, tão inteligente, ele deve saber disso, ele deve ter percebido o fogo e saiu antes. O idiota deve ter cochilado no quarto, sentindo o cheiro da fumaça e pulou janela à fora, não sabendo que Jessica ainda estava lá dentro.

Ele não notou que havia parado de se debater, escorregando ao chão e lá caindo de joelhos.

“Se ele saiu então porque ele não ligou para Sam?!”

– Urg!

Castiel odeia seu próprio cérebro, cerrando um punho e batendo contra a lateral de sua cabeça, como se fosse capaz de impedir essas dúvidas receosas.

“Ele saiu. Ele saiu do bar e foi para a casa de alguém; o celular descarregou e Dean não sabe de nada. Oh, Deus! Que ele esteja na casa de alguma pessoa, qualquer pessoa, mas que esteja bem!”

Há o som de madeira quebrando e rangendo, e Castiel só tem tempo de olhar para cima e ver o segundo andar da casa começando a ceder, engolido pelo centro quebradiço e fraco consumido pelo fogo. Só existe as chamas e a fumaça negra agora, subindo e subindo.

“Ele não está na casa, ele não está na casa, ele não pode—”

– Cas, os bombeiros estão pedindo para nos afastarmos.

Sam pede ao pôr uma mão sobre o ombro do moreno, o ajudando a se levantar e sair de perto do desastre. O calor estava insuportável, e eles estavam cobertos de fuligem pelo rosto. Castiel notou o suor colando suas roupas e cabelo, mas sua visão permaneceu estática na casa; a boca entreaberta enquanto ele continuava a recitar o mantra; “ele não está na casa, ele não está na casa.”

Numa das ambulâncias eles, juntos de outros vizinhos, recebiam um pouco de oxigênio devido ao tempo expostos à poeira. O tempo parou. O fogo minguava com a água forte das mangueiras do carro de incêndios, porém tudo acontecia numa lentidão entorpecente a Castiel e Sam. Eles olhavam para a casa e a volátil construção de madeira os encarava de volta, como se os afrontasse.

Sirenes soavam ao fundo, pessoas conversavam não mais em cochichos, e carros de polícia chegavam um atrás do outro para garantir a segurança dos curiosos.

Tanto barulho vinha em explosões, uma atrás da outra, que nenhum deles escutou o familiar ronco do motor estacionando atrás da linha de segurança.

Saindo do Impala com uma expressão estarrecedora, Dean parou por apenas alguns instantes até conseguir processar que sim, aquela era a casa de seu irmão pegando fogo.

Institivamente ele apanha seu celular. Bateria morta. “Droga”, ele xinga entre os dentes pondo o celular desajeitadamente no bolso, começando a correr na direção do estrago, porque seu irmão devia estar por perto e Jess também. Céus! Tomara que estejam bem! Mas o que diabos aconteceu?! Ele ficou fora por pouquíssimas horas, trabalhando no seu projeto, e agora a casa de Sam estava em chamas.

Do outro lado do bloqueio, entre as conversas dos bombeiros, Castiel estava sentado na ambulância, os pés pairando sobre o chão com uma enfermeira ao seu lado medindo sua pressão. “Perca de tempo”, diz a si mesmo, “deve estar há mais de 16/11 e ela vai me mandar fazer um batalhão de testes só para provar meu nervosismo.”

– Senhor a aérea está isolada—

– Isolada é o cacete! É a casa do meu irmão!

Castiel arregalou os olhos no mesmo instante. Seu pulo de dentro da ambulância o deixou cambaleante, uma vez que não se preocupou com um pouso suave. Aquela voz, essa voz era dele, só podia ser a dele!

Dean continuava a discutir com um dos policiais que insistia em tentar o colocar para trás da faixa de segurança quando um potente soco atinge seu rosto. Os olhos verdes ardem, e se ele não tivesse um bom equilíbrio teria caído. Dean já está pronto para revidar, fechando seus punhos, quando a mesma pessoa que o socou está agora envolvendo seus ombros num apertado abraço, pressionando suas costelas e quase não o deixando respirar.

E antes que ele possa entender o que está acontecendo, uma voz quebrada e chorosa irrompe do vão de seu pescoço:

– Nunca mais faça isso!!! – vem um grito abafado na pele de Dean.

– Cas?! – Dean pisca apressado ao reconhecer quem está o abraçando com tamanho desespero.

– Você me ouviu?!

Puxando a jaqueta de Dean, Castiel o prende na sua visão, enroscando os dedos no couro para conseguir total atenção dele. Castiel o encara com tanta raiva, alívio e tristeza nos seus olhos azuis, que brilham ainda mais com um mar avermelhado ao redor deles.

É então que Dean olha para a casa, vendo Sam igualmente alarmado próximo a uma ambulância, e tudo se encaixa na cabeça de Dean:

– E-eu não sabia…. – Dean murmura, incerto do que fazer, ou ao menos se ele pode se mover. Suas mãos permanecem flutuando ao redor das costas de Castiel, imitando um abraço fantasma nele.

– Nós achávamos que você estava morto! – Castiel grita com a voz rouca e assustada, querendo socar Dean outra vez – Você não pode fazer isso com a gente; COMIGO! Você só não pode—

Castiel balança a Dean violentamente até ser abraço por Dean, que o engloba apertado e justo contra seu tórax, deixando que um suspiro de alívio e choro saia da garganta. A raiva se esvai aos poucos; raiva por ter pensado que perdera Dean para sempre. Mesmo que a ferida ainda esteja aberta Castiel não consegue odiar a Dean Winchester por completo. E por isso ele se culpa ainda mais.

Mas em nenhum instante ele sai dos braços de Dean.

(…)

Hospitais. Dean odeia hospitais, e se ele pode fazer uma aposta, Sam também odeia. Nunca foi fácil crescer junto de um pai abusivo. Cortes, arranhões e luxações eram uma constância que os trazia várias vezes as salas de espera de hospitais. Na maioria das vezes Dean.

No entanto hoje é tudo tão diferente. Dean só pode agradecer o fato de terem um atendimento tão rápido, pois Jessica já está há boas três horas em cirurgia, removendo a pele morta de suas pernas. A direita foi a mais afetada, e os médicos não tinham como dizer o quanto de seus movimentos seriam recuperados. Mas ela está viva, e é isso o que importa.

Ainda há o fato de Dean ter Castiel com ele enquanto aguardam mais notícias.

Por pior que seja a situação, Dean tem fé de que eles vão ficar bem. Sam está esperando por Jéssica, os estragos da casa serão pagos pelo seguro, e Dean está bem; bem e com Castiel em seus braços, o agarrando com força e não o soltando. Ele não o deixou ir desde o instante em que saíram do bairro numa ambulância, fosse agarrando o braço de Dean ou ainda apertando seu peito contra o dele.

Ele parecia tão alarmado quando deparou-se com Dean, quase incrédulo, e ele só pode imaginar o quanto Castiel ficou desesperado sem notícias suas. Agora havia passado a tempestade, e cabia a eles recolher o que havia sobrado. Talvez por isso Cas não queria o largar, com medo de que uma nova ventania de chamas pudesse os separar.

Contra a pele de Dean Castiel estava quente, não pelo fogo ou qualquer outra coisa assim, apenas quente como ele costumava ser, e Dean não sabia até agora o quanto ele sentiu falta desse aconchegante calor.

É eles perderam uma casa, houve danos físicos e materiais, mas Castiel está de volta, ao seu lado. A vida pode mesmo ser uma grande vadia, mas às vezes ela faz coisas legais.

– Você quer um pouco de café? – Dean pergunta suave, erguendo uma mão na altura da bochecha de Castiel, o acariciando.

– Não, estou bem. E você?

– Bem também. – ele sorri torto, sem remover a mão do rosto do menor.

Por uma fração de segundos, Castiel sorri de volta, mesmo que só naquele instante. “é, você está bem”, Castiel parece dizer num único olhar, e Dean sente como se um enorme peso saísse de seu peito:

– Já se passaram três horas de cirurgia, acha que Jessica está bem? – indaga Castiel, baixando seu olhar na altura do pescoço de Dean.

– Os médicos disseram que ela ‘tá estável. É só, uh.... Muita coisa ‘pra remover.

Apertando os lábios numa linha fina, Castiel quase deita seu rosto contra a mão de Dean, ainda sem encará-lo:

– Você não deveria ficar com Sam? – ele pergunta.

– Ele falou que prefere esperar sozinho, esfriar a própria cabeça.

– Entendo.

Cabisbaixo, Castiel engole seco, ainda evitando o olhar do outro, como se aquilo – esses minutos gasto no meio de um hospital – fosse desaparecer com o mais simples sopro.

– Ei, Cas, não fique assim. – pede, puxando a face do moreno para cima.

– Dean, isso tudo foi demais. – Castiel aperta bem as pálpebras, mordendo a ponta do lábio – Pelo o que você e Sam já sofreram antes, e agora novamente um incêndio, eu sequer posso imaginar o que se passa—

– Nós vamos ficar bem. – interrompe, envolvendo o maxilar do moreno, afagando as suas maçãs do rosto – O Sam é mais forte do que aparenta e a Jess ainda tem muito o que infernizar a vida do meu irmão ‘pra deixa-lo agora.

Castiel bufa um riso, esfregando o tecido da blusa de Dean entre seus dedos, brincando com ela.

– Vamos ficar bem, sério. – Dean o assegura — Eu não vou deixar que nada aconteça com eles. Com ninguém.

Nisso, Castiel ergue seu olhar até Dean. Eles parecem melhores agora, o par de safiras, com um brilho mais vivo e reluzente do que antes. E junto desse sorriso enviesado que Castiel está mostrando, ah! Não há como negar que ele está bem melhor do que naquele estado fragilizado e temeroso de mais cedo, quando ele pensou ter perdido a Dean.

– Sei disso. – Castiel fala – Você sempre protege a todos, Dean.

Ele ainda sorri ao avançar e estalar um suave beijo no canto da boca de Dean. O loiro segura a respiração e deixa os olhos semicerrados, ainda em pura descrença, aproveitando o doce sabor que um pedaço da boca dele tem sobre a sua.

“Estou louco.”

Castiel pondera consigo mesmo, ajeitando-se ao lado do outro e enlaçando ambos os braços ao redor do esquerdo de Dean, ficando de lado e deitando sua cabeça no ombro do maior. Ele ainda segura entre os dedos a barra da camisa de Dean, passando o indicador e o dedão por cima dela.

Dean o magoou. Não foi uma tola discussão, mas sim uma dor aguda que se alojou em Castiel. Ainda assim, lá estava ele, grudado ao braço de Dean como se nunca mais fosse vê-lo. Como se fosse o perder. Porque ele poderia tê-lo perdido.

E tudo seria apenas uma memória ruim, a briga, uma lembrança triste que não teve resolução. Por mais que Castiel sinta raiva das ações de Dean ele o ama. Deus! Ele o ama mais do que o odeia, e isso é terrivelmente irônico, não é mesmo?

“Ele poderia ter morrido hoje…” Castiel engole seco fechando bem os olhos “Sem nunca ao menos termos uma segunda chance.... Se é que existe uma segunda chance.” Castiel gosta de pensar que sim, ainda mais quando o admissível fato de que Dean poderia ter ficado na casa enquanto ela pegava fogo se arrasta e encobre o crânio de Castiel com todos os tipos de cenários ruins; visões de ambulâncias, cemitérios, o remorso batendo em sua garganta. Não importava o tamanho de sua raiva, ele jamais conseguiria existir num mundo sem Dean.

Aninhando-se ainda mais contra ele, Castiel respira fundo, querendo esquecer desavenças ou pretextos, porque motivos ele tinha de sobra para não querer largar a Dean nunca mais.

Olhando-o de cima, Dean não consegue evitar lembrar-se do doce toque dos lábios de Castiel sobre o canto de sua boca, ou a maneira que ele parece uma criança perdida que acabou de encontrar alívio em seus braços, enterrando a cabeça em seu ombro e lá ficando, com os cabelos soltos e batendo em seu casaco. É tão.... Casual e descomedido que Dean pensa: “é isso, ainda pode dar certo.” Só é preciso o primeiro passo, um pequeno empurrão.

Um pedido de desculpas.

Respirando em silêncio para não chamar a atenção de Castiel da quantidade do ar que Dean precisa juntar para poder ter coragem o bastante de pôr para fora o emaranhado de comoções formando-se na boca de seu estômago, Dean se concentra em termos curtos, uma única frase que possa explicar tudo e ao mesmo tempo faça Castiel entender que ele não desistiu, que as brigas e desavenças foram um erro. O moreno passa a encará-lo ao perceber uma leve inquietação em Dean. O loiro perde a habilidade de falar nos segundos que gasta mirando o rosto bem alinhado e lindo de Cas.

Expirar, Respirar.

– Cas, eu queria—

– Dean?!

“Ah, filha da mãe!”

Dean xinga em sua cabeça ao ver Lisa, de pé e assustada no meio do corredor, encarando aos dois naquela posição nem um pouco suspeita.

Perfeito.

No ato, Castiel se vira encontrando-se com a expressão questionadora dela, bem como a de espanto. De soslaio, o moreno enxerga as feições confusas em Dean, não conseguindo evitar uma leve bufada.

Em poucos instantes ambos estão de pé, com Castiel já solto – relutantemente – do enlaço com Dean, começando a andar na direção da cafeteria, e antes que se consiga ser dito algo, ou mesmo que uma pergunta surja, Castiel profere:

– Vou buscar café.

– Mas você disse que não queria—

Dean é cortado pelas passadas densas de Castiel no corredor – que só demonstram o quão emputecido ele deve estar — e tudo o que Dean pode fazer é suspirar. Maldita falta de sorte, maldito tempo mal cronometrado! Maldita vida que só sabe ferrar com ele! Só é; droga, droga, droga!

– Uh, Dean desculpe, mas o que está acontecendo?

Virando-se na direção de Lisa, Dean percebe que esteve encarando o caminho que Castiel fazia, pensando se o seguia ou não. Oh, bem, a merda já estava no ventilador não é mesmo?

– Lisa…. Porque você está aqui? – indaga, pondo as mãos nos bolsos.

– O hospital me ligou. Eu ainda sou seu contato de emergência.

– Oh, certo, eu tenho que uh, mudar isso.

– Não é nenhum problema. Mas como você está? Se feriu?

– Não, não. Nada comigo, ‘pra dizer a verdade.

– Sam?

– Bem. É só, a noiva dele. Ela ainda estava na casa.

– Deus.... – Lisa pões uma mão sobre a boca em tremendo horror — Ela vai ficar bem?

– Os médicos acham que sim. Ei, onde está o Ben?

– Oh, ele está com o Alan.

– Oh, esse é, uh.... O cara que você? ...

– Sim.

– Okay.... E Ben, ele.... Gosta desse cara?

– O bastante, eu acho. Mas não se preocupe, você ainda é o cara favorito dele.

Lisa sorri e Dean faz o mesmo. A segurança de que Bem ainda gosta dele é algo que deixa a Dean contente.

– Na verdade, ele queria saber se você ia ao jogo dele de baseball—Desculpe, desculpe, não é hora para esse tipo de conversa.

– Não, tudo bem. Não podemos fazer mais nada a nãos ser esperar então, uh. É, claro, eu vou sim, eu prometi ao Ben.

Às vezes, em horas de angustia e desespero quando não se pode fazer muito além de esperar e torcer pelo melhor resultado, falar de assuntos tão banais parece ser a única coisa que te mantém preso firme ao chão, com a mente focada no mundo real. Ao menos é o que Dean pensa.

– Obrigada. Ah, e por favor, eu não quero que você pense que isso signifique que eu quero.... – Lisa gesticula uma mão entre eles, e Dean dá quase um passo para trás, balançando a cabeça.

– Não, não eu, uh entendo.

Lisa respira aliviada enquanto Dean coça sua nuca, nervoso. Já que eles estão mesmo nessa conversa – e Lisa acabou de apanhá-lo junto de Castiel praticamente se abraçando no chão — não há muita razão para esconder não é mesmo?

– Eu.... Também estou tentando algo com uma pessoa, sabe.

– Ah, sim, a misteriosa dama que te transformou, não é mesmo? – brinca ela.

Dean engole seco. Que se dane. Se ele pretende investir num relacionamento com Castiel ele pode muito bem admitir aos outros, certo?

– Na verdade é mais para.... Cara misterioso?

Lisa abre bem seus olhos amendoados. Sua boca fica entreaberta, e Dean teme que a mulher desenvolva um aneurisma. Ao invés disso, ela apenas balança sua cabeça entre um riso e outro:

– Uau, isso é uma interessante mudança de eventos, uh? – ela diz entretida.

– Você não está chocada?!

– Surpresa, sim. Chocada? Não, não muito.

– Mas.... Porque não?! – ele franze o cenho, completamente estarrecido, enquanto Lisa dá de ombros.

– Você sempre foi um pouco gay.

– O que?! – exclama assombrado — Não sou nada!

– E constipado com seus sentimentos.

– Eu!... – ele para, lembrando-se da conversa com Charlie, Sam, Jess, Bobby, suspirando sua visível derrota – É, bom.... Aconteceu.

– Eu o conheço?

Dando de ombros, Dean abaixa sua cabeça e a balança uma única vez, incapaz de fitar a Lisa. Estes gestos, no entanto, são tudo o que ela precisa para decifrar o enigma.

– É o Castiel, não é?

Dean não move nem um cílio. A vermelhidão em seu rosto surge em proporções astronômicas, e Lisa precisa pôr uma mão em seu ombro para não cair para trás tamanha é a quantidade de risadas que solta.

– Bem… — ela diz, limpando o canto dos olhos – Devo admitir que vocês fazem um belo par.

O comentário ganha a atenção de Dean, o bastante para fazê-lo encarar Lisa como se ela tivesse duas cabeças:

– Você não está brava?!

– Porque estaria? – rebate, cruzando os braços.

– Uh, sei lá, aquela coisa de “ódio entre os ex’s”?

– Dean, sou uma mulher adulta. Não me arrependo de nada do meu passado. Na verdade, eu não tenho nenhuma reclamação de você como parceiro. Bem, tirando as nossas desavenças sobre o futuro, mas ainda sim.... Você sempre foi um bom amigo, e uma excelente figura para o Ben.

Em choque. Essa é a maneira que as palavras de Lisa o deixam. Oh, e sem graça também. Definitivamente ele tinha que adicionar sem graça à lista.

– Lisa…. Você é realmente boa demais ‘pra mim. — concluiu Dean.

– Pode apostar que sim! — ela ri — Agora, me conte, vocês estão namorando?

– Uh.... Não.... Estamos lá ainda? Quer dizer, nós tivemos alguns…. Desentendimentos.

– Dean, o que você fez?

– Porque todo mundo assume que eu fiz alguma coisa?!

Lisa ergue uma sobrancelha alto o bastante para Dean se considerar o perdedor da discussão. Ele suspira, encostando as costas na parede, sem olhar para Lisa, quando começa a narrar sua relação com Castiel no último mês. Surpreende a Lisa um pouco o quão rápido eles avançaram – ainda mais no dia em que eles terminaram – mas ela não guarda nenhum ressentimento sobre isso.

Leva alguns minutos para que Lisa absorva toda a história, e após alguns acenos, ela fecha o punho e dá um soco moderado no ombro de Dean.

– Ouch! Mas que droga?! – ele quase chia, massageando o braço atingido.

– Você é mesmo um idiota Dean. – Lisa afirma, pondo as mãos na cintura – Como você pôde dizer isso a ele?! Além de qualquer outra coisa, Castiel é seu amigo!

– Urgh! Você não acha que eu sei disso?!

– Estou com dificuldades em acreditar!

Não havia como rebater isso. Dean suspira, esfregando sua nuca de novo e de novo, com a pele começando a ficar avermelhada debaixo das suas unhas.

– Lisa eu quero consertar isso.... Deus, eu quero mesmo! Eu só.... Eu só tenho dúvidas se—

– Dean, você se lembra quando nós nos encontramos pela primeira vez?

Lisa o interrompe com uma pergunte bem fora do contexto, fazendo Dean piscar algumas vezes. Ele balança a cabeça, respondendo assim mesmo:

– Uh, quando eu te chamei ‘pra sair depois de ter ficado bêbado no hospital?

– É, que começo, não é?

Dean dá um riso torto, coçando a ponta do nariz.

– Naquele dia você ficou chamando pelo nome do Castiel na enfermaria. – Lisa diz com um pequeno sorriso.

– O que?! – o queixo de Dean quase vai ao chão tamanho é o seu estarrecimento.

– Você disse que.... Que queria que ele viesse te buscar, mas estava com vergonha de ser visto naquele estado, então eu não podia ligar ‘pra ele; foi o que você ficou balbuciando por pelo menos uma hora até dormir.

– Eu não me lembro disso.... – é tudo o que ele diz, pasmo.

– Eu achei que Castiel fosse sua namorada, ou algo do tipo, mas daí você me chamou para sair, eu o conheci um tempo depois e....

–... E o que?

– Não sei. – ela dá de ombros – Acho que desde o momento que você nos apresentou e vi.... Um brilho nos seus olhos. Ele é especial para você.

Dean quer rir, mas toda a graça é drenada de seu corpo, porque o que Lisa está contando a ele não é anda além da verdade.

– Lisa eu não... Não sou o tipo de cara que tem muitos amigos. Perder um porque fui um idiota, eu não....

– Ei, nós terminamos e eu ainda estou aqui. Você pode muito bem tentar, e se não der certo, Castiel é uma ótima pessoa. Ele vai entender.

– Você faz isso soar tão fácil.

– Porque é. É essa sua cabeça dura que complica tudo que poderia ser resolvido se vocês conversassem!

Respirando fundo com um pouco mais de calma, Lisa se aproxima dele e pões uma mão sobre o ombro de Dean. Ele a encara, vendo um simples sorriso em seus lábios:

– Você realmente o ama, né?

Sem conseguir responder de imediato, Dean apenas concorda, recebendo um sutil carinho em seu braço. Lisa lhe mostra uma face carinhosa e sensível, e Dean só consegue pensar que... Que droga, ele tem mesmo uma queda forte por morenas – ou morenos, no caso.

– Eu o amo.

Dean fala, e pela primeira vez é como desembaraçar o emaranhado de emoções dentro dele, as quais ele nunca permite sair da segurança de seu peito. Sam estava certo – o grande cérebro estava certo de novo – ele sempre olhou para Castiel de uma maneira diferente, sempre o achou uma pessoa incrível. Mais ainda, Castiel é um dos poucos amigos que o aceita como Dean é, com falhas e tudo, sem julgar ou tentar o desconstruir em alguém diferente.

– Não é tarde, Dean. Você ainda pode fazer algo. – Lisa o assegura, apertando seu ombro mais uma vez.

– Eu sei.... Eu vou.

Faltava pouco agora. Só mais alguns detalhes que Dean tinha certeza já teria terminado, não fosse o incêndio. Contudo, ele prometeu a si mesmo que encontraria uma maneira de ter o perdão de Castiel; mostrar a ele que se importa, que ele significa muito à Dean. Estava tão perto que era possível sentir na ponta dos dedos a euforia.

– Ótimo. – Lisa fala, o despertando do devaneio — Você pode me contar mais durante o jogo de baseball.

– Você não vai ficar?

– Acho que seu irmão precisa do seu suporte. Além do mais, Ben e Allan estão me esperando. O hospital ligou do nada, sabe?

– Okay. — Dean balança sua cabeça, olhando para o chão, depois de volta a Lisa — Diga ‘oi’ a eles.

– Para o Allan também? – ela brinca.

– É, pro idiota também. – Dean responde rolando os olhos, mas sorri do mesmo jeito.

Rindo, Lisa o abraça antes de ir embora, mas não sem desejar “boa sorte” na ponta de sua orelha.

Continua

Notas finais
Como eu havia dito, a Lisa nessa fic não eh uma Bitch. Dá até p dizer q ela shipa o casal