Sem Compromissos
15 Capítulo 14 - Podemos enganar os olhos, mas não o coração
Notas iniciais
Capítulo 14 — Podemos enganar os olhos, mas não o coração
Fazia três dias desde a ligação desastrosa com Castiel, três dias desde que Dean parou de lamentar-se pela sua deficiência em sensibilidade e começou realmente a agir.
Era bom que Bobby prezava mais pelo seu bem-estar do que o expediente completo de trabalho durante a semana, pois o velho sempre o deixava sair uma, até mesmo duas horas mais cedo, ou ainda chegar depois do serviço, uma vez que Dean foi “gentilmente coagido” a contar-lhe o que havia acontecido.
– Não te importa o fato de ser o Cas? – Dean indagou, olhando como o velho bufou em impaciência, o encarando num olhar de descrença.
– Filho, eu não me importo se o que move seus sinos é um anão maneta. – responde, grossamente, e Dean teve de segurar o riso – Desde que você esteja feliz e não desrespeite nenhuma lei, o que há de errado?
– Além do mais, você sempre foi um pouco gay.
Benny fala, interrompendo a conversa deles enquanto limpava as mãos de graxa numa toalha branca.
– Que história é esse?! – Dean exclama, virando-se para Benny com as sobrancelhas quase juntas.
– Sabe, meio gay, ao menos pelo Castiel.
O comentário faz as bochechas de Dean ruborizarem sem que ele perceba.
– Cale essa boca! – rebate o loiro, buscando por alguma ferramenta na caixa ao lado do carro que consertava e não, ele não estava evitando olhar para Benny!
– Ei, só estou dizendo…
– Tá, certo, sei…. – ele dá de ombros, querendo desviar o assunto da conversa ao ignorá-los quase que por completo.
– Ah Dean, todo mundo aqui sempre notou o quanto seu humor mudava para a melhor sempre que falava do Cas.
– Isso é verdade.
É Garth quem entra na conversa agora, unindo-se ao time de Bobby e Benny, que parecem ter a missão de fazer Dean Winchester envergonhar-se essa manhã – ou de o irritar a ponto de serem assassinados por ele usando um machado.
– Sua expressão facial fica bastante relaxada quando o Castiel está na pauta do assunto.
– Fica na sua, Garth.
– Ei, isso é bom Dean! Só quer dizer que seus sentimentos são verdadeiros.
– Urg! Eu quero enfiar uma furadeira no cérebro.
– Faça isso longe dos carros, por favor. – Bobby pede, indiferente — Não quero ter de limpar tanta sujeira.
Benny e Garth riram, claro, porém Dean apenas revirou os olhos, bufando exasperado pela implicância constante dos seus amigos. Se é que eles poderiam ser chamados assim, os filhos da mãe.
– Sério Dean. – Benny se aproxima, pondo uma mão firme sobre seu ombro e lhe mostrando um sincero sorriso – Nós estamos felizes que você tenha saído do estágio de negação. O Castiel é um cara legal.
Dean dá de ombros, descrente de todo aquele papo de comédia romântica no meio da oficina.
– É.... – Dean solta um riso de escárnio, coçando com o dedão a testa — Isso não ajuda a me sentir melhor pelo o que eu fiz Benny.
– Mas te ajuda a pôr os pés no chão e saber que vale a pena mostrar ao Castiel suas intenções. As verdadeiras.
– Nós estamos todos do seu lado, Dean.
Garth acrescenta, balançando a cabeça, até que Bobby bufa, pondo as mãos na sua cintura, parecendo frustrado.
– Certo princesas, chega desse melodrama de novela, vamos voltar ao serviço, que é a razão de vocês terem um salário no fim do mês.
Os três mostram expressões de solenes desculpas ao seu chefe, retornando cada um ao seu respectivo carro. Dean apanha as ferramentas para calibrar os pneus de um 308 da Peugeot branco, quando ele vê Bobby ainda parado ao seu lado. Ele se vira para encarar o senhor, franzindo o cenho, e antes que possa perguntar qual o problema, Bobby abre a boca:
– Não estrague tudo, garoto.
– Bobby? – indaga, confuso.
– Falo sério, Dean. Essa sua mania de colocar tudo dentro de uma bolha e achar que ‘tá tudo bem, até que ela exploda é péssima. Isso não é saudável.
– Bobby, eu só—
– Eu sei que não foi sua intenção, nada do que aconteceu nessa sua briguinha de casal foi.
O senhor o corta, fazendo Dean sentir-se ainda mais pequeno ao se lembrar da discussão com Castiel, pois claro, cada vez que aquela maldita frase se repetia em sua mente mais Dean enxergava a dor nos olhos de Cas — e a incerteza prendia a Dean de volta num poço de amargura.
– Preste atenção no que estou dizendo: pare de ter dúvidas, elas só atrapalham, e seja sincero. É só isso, escute ao menos uma vez o conselho de um velho homem.
Um velho homem que adora ser prático, curto e grosso, detesta conversas longas que não envolvam seus assuntos favoritos de televisão, e prefere beber em silêncio na sua casa uma garrafa de whisky, está dando conselhos amorosos a Dean. E ele não se sente ofendido, nem um pouco. Se há algo que Dean sabe, é que Bobby pode ser seu patrão, mas acima de tudo ele é um amigo querido; um verdadeiro pai de uma maneira que John nunca foi. Se Bobby está disposto a dizer estas coisas é só porque realmente se importa com o garoto.
Dean sente seu rosto e peito arderem, contudo dessa vez é por um bom motivo, pois Bobby com tão pouco consegue o fazer sentir-se querido por alguém que é parte de sua família.
–.... Obrigado Bobby.
Agradece com uma voz serena, e Bobby sorri rapidamente, antes de dar uma batida no ombro de Dean, tossindo um pouco:
– Certo. Momento Gilmore Girls já acabou, volte ao seu trabalho.
Rindo, Dean faz como fora ordenado, sem deixar de contar as horas no relógio. Faltavam duas horas para que pudesse sair dali e trabalhar no seu pequeno plano, o qual ele apelidou mentalmente de “Projeto Reconquistar Cas”.
Okay, aquilo soava ridículo mesmo na sua cabeça, mas ele já havia se apegado demais ao nome para mudar.
Jessica tinha razão, ele precisava parar de se lamentar pelos cantos e colocar as mãos em uso. Somente agindo Dean é capaz de mostrar suas verdadeiras intenções. Palavras? Não, nunca foram seu forte. Mas deixe-o mostrar o quanto ele se importa com os dedos calejados e as mãos ásperas; deixe-o usar uma força de vontade sem igual que agitaria um universo inteiro em nome daqueles que ele ama. E assim seria possível calcular a magnitude das suas emoções.
Emoções as quais nesse momento moveriam galáxias inteiras por Castiel.
Com o final da tarde se aproximando e junto dela o rápido intervalo do seu serviço, Dean foi o encarregado da vez de apanhar a rodada de café para todos na oficina. Fato era, que ele mesmo se ofereceu. Tudo para ficar longe das insistentes piadinhas de Benny e Garth, e mesmo Bobby, que soltava umas risadas roucas do fundo de sua sala.
De todos os lugares que Dean poderia escolher havia a costumeira lanchonete na esquina da oficina, porém algo mais forte o fez ir para a direção completamente oposta a essa: na frente do prédio de Castiel.
Era estupidez da sua parte esperar que o moreno estivesse ali no meio do dia e fosse o receber de braços abertos, mas a pequena esperança de ao menos vislumbrar a figura de Castiel ao longe impulsionou Dean até aquela cafeteria.
Esticando o pescoço logo que atravessou a porta, Dean tentava enxergar algo além da fila de pessoas perto do caixa, mas a sua volta havia apenas aglomerados de rostos desconhecidos. Ele bufa, coçando sua nuca enquanto sentia-se um idiota porque, sério, o que ele estava pensando?
Olhando pela janela da cafeteria ele enxergava o prédio de Castiel. Tinha uma vontade tremenda de largar tudo e subir aquelas escadas num só fôlego até o andar do moreno.
Mordendo a parte de dentro da bochecha, Dean se mantém no lugar andando conforme a fila. Paciência; foco. Ele só precisa de um pouco mais de tempo, alguns dias, e tudo estaria certo. Ele poderia encarar Castiel sem nenhum problema.
Bufando exasperado, Dean faz o pedido, afinal, ele já estava ali mesmo, apanhando os quatro copos de café para viagem.
Ao se virar na direção da saída, porém, ele fica estagnado, pois seus olhos deparam-se com uma figura conhecida – e totalmente desagradável naquele momento.
– Você.... – ele quase murmura entre os dentes, abrindo bem os olhos incrédulos.
– Oh, você é o troglodita que arrastou Castiel para fora daqui no outro dia.
Balthazar fala com olhos caídos de pouco caso ao beber seu próprio café e Dean quase rosna para o loiro de sotaque estranho, precisando reter a vontade de rasgar sua garganta.
– Não tenho tempo para ouvir você se vangloriando da sua vitória então vai se foder, e tenha uma merda de dia.
Dean fala duma só vez e se vira pisando firme, porém Balthazar o faz parar no ato:
– Vitória? Eu não sabia que Castiel era algum tipo de prêmio.
Ah, esse cara realmente quer ganhar um soco. Dean chega até mesmo a fechar seu punho, detendo-se apenas ao ouvir a longa respiração que é solta por Balthazar:
– Para sua informação, não que eu te deva alguma coisa.... Castiel declinou o meu convite desde o começo.
Dean fica parado o fitando secamente, entretanto o pequeno comentário chama sua atenção o fazendo contorcer as feições num misto de alegria e confusão:
– O que?! Porque ele fez isso?! – Dean pergunta numa animação que faz Balthazar rolar os olhos em aborrecimento.
– Ele me disse naquele mesmo dia que já havia alguém com quem ele queria ficar. Eu só estou realmente surpreso da quantidade de bunda que essa pessoa tem enfiada na cabeça por não ter percebido desde o começo.
– O que—
Dean está pronto para bombardeá-lo com questões, ou mesmo arrancar a verdade dele se for preciso, mas Balthazar apenas o olha com uma sobrancelha erguida e uma expressão que diz: “você só pode estar brincando comigo”, até que um pequeno raio de luz se cintila na cabeça de Dean.
Há o breve calor das velas sobre a mesa de jantar daquele dia, semanas atrás, onde os dois pareciam aconchegar-se na vida doméstica conjunta no apartamento de Castiel. Ele parecia tão radiante e feliz naquele dia, genuinamente satisfeito naquela atmosfera que cercava aos dois.
E antes que Dean percebesse uma frase atropelou a outra, e ao invés de falar sobre eles, sobre o que ele esperava após lutar por tanto tempo contra si mesmo, sua boca grande começou a falar de Lisa.
Deus, lembrando-se disso agora Dean consegue notar como a cor pareceu abandonar o rosto do amigo. E ele mesmo.... Ele também perdeu a vivacidade ao ouvir que Castiel poderia aceitar o convite de outra pessoa para um encontro.
E naquela noite Dean não queria nada daquilo; embrenhar-se em conversas sobre terceiros enquanto ele só queria saber de Castiel.
A memória parecia funcionar tão nitidamente agora, e Dean detestava o fato de não ter notado essas nuances no comportamento de Castiel antes. Porque era tão óbvio o desconforto dele nas menções que Dean fazia ao nome de Lisa. O mesmo que se apossou de si ao ouvir sobre o “colega” de trabalho de Cas.
Merda. Como ele não notou antes?! Que Droga! Porque, céus, Dean tinha mesmo a cabeça enfiada dentro da bunda!
As transições temperamentais de Dean e sua incrível lógica tardia deviam ser bem óbvias, pois Balthazar percebeu que ele passava por algum tipo de revelação. Bufando ao esfregar a mãos sobre as têmporas, Balthazar diz duma única vez antes que ele se arrependa:
– Não sei se um conselho fará alguma diferença, mas você tem do Castiel o que eu nem sequer sonho em experimentar. Então se você sentir por Castiel ao menos metade do que esse homem sente por você, não se atreva a deixa-lo fugir.
Antes que Dean possa organizar algo plausível a ser dito, Balthazar já saiu da cafeteria, indo na direção do grande prédio do outro lado da rua, assim, deixando no ar o que dissera como se fosse algum tipo de sábio qualquer.
Quanto a Dean, ele fica dividido entre a vontade de agradecer a Balthazar e parti-lo em dois por achar que tem algum direito de lhe dar um conselho.
Rangendo os dentes, Dean decide por apenas soltar o ar do seu pulmão, praguejando ao notar que o café em suas mãos havia esfriado. Ele retorna para a fila do caixa dando passos para frente de forma automática, fazendo o mesmo pedido de antes e tudo o mais que conseguia fazer mecanicamente, pois ele tinha os pensamentos em outro lugar.
Olhando por cima de seu ombro Dean via o prédio cheio de vidros espelhados do outro lado da rua, com a voz fresca de sotaque forasteiro de Balthazar reverberando em seus ouvidos: “.... não se atreva a deixa-lo fugir.”
– Eu não vou.
Dean murmura para si mesmo.
(...)
O relógio tocava num tic tac incômodo, soando o alarme matinal, contudo essa não era a razão de Castiel estar desperto ás seis e meia da manhã de uma segunda feira. Oh, não, a razão da sua insônia era outra.
“.... Vou sentir falta de cada segundo sem você. ”
Por horas, dias, Castiel tentou esquecer-se do timbre suave e um tanto quanto choroso de Dean quando ele sussurrou tais coisas na ponta de ouvido pelo telefone. Entretanto, toda vez que fechava seus olhos Castiel conseguia escutar claramente cada sílaba ditas no timbre rouco de Dean, e era quase como se ele estivesse ao seu lado, bastando que Castiel esticasse os braços e o agarrasse.
Claro, a realidade sempre chamava, e Castiel acordava dessa ilusão no sofá de seu apartamento, sozinho, abraçando a um travesseiro.
Bufando, ele lançou a almofada ao chão, esfregando as mãos no rosto. Ele necessitava de uma noite decente de sono, porém era complicado a conseguir uma vez que estava se privando do conforto de sua cama.
Já era segunda feira? Ele nem ao menos percebeu o final de semana passando. Claro, boa parte dele fora jogada fora com cochilos no sofá, na poltrona, ou mesmo longos banhos que fossem capazes de relaxar os músculos doloridos. Deus, ele precisava de uma massagem... As mãos grossas de Dean apertando sua pele e renovando suas energias.
Suspirando frustrado, Castiel obrigou-se a levantar do sofá e tomar seu café. Ele precisava parar de pensar coisas desse tipo.
Dean não ia magicamente aparecer na sua porta e pedir perdão. E Castiel não sabia ao certo se ele conseguiria o perdoar. Ao menos não tão fácil.
A quem ele estava enganando? Seu peito ardia em pontadas excruciantes a cada segundo passado longe de Dean, a cada pensamento dedicado a ele, com lembranças boas e ruins se mesclando em sua cabeça e o confundindo.
“Eu ano, não o amo”.
Parecia a brincadeira tola de criança de arrancar as pétalas de uma flor.
Ele o ama? Ele ama o Dean brincalhão, leal, corajoso e carrancudo que o faz sentir-se vivo como ele nunca antes pensou ser possível; como se a vida na Terra lhe fosse uma incógnita, e apenas ao lado de Dean as cores numa aquarela cinza apareciam.
Ele o odeia? Castiel odeia a parte de Dean que se fecha do mundo, que não encara sua face quando conversam sobre algum assunto sério, ou ainda: ele odeia aquelas palavras que Dean usou.... A maneira esdrúxula e insensível que colocou a Castiel no mesmo patamar que um pedaço de carne qualquer.
Eu amo, não o amo....
O que pesava mais nessa hora? Todos os anos de amizade, esse último mês no qual passaram enrolados nas pernas um do outro, se tocando, se beijando, de certa forma amando um ao outro? Ou aquele dia cruel no qual tudo isso pareceu se esfarelar nas suas mãos como um castelo de areia?
Castiel caminha até a varanda de seu apartamento com uma caneca quente de café em mãos. O dia ainda está nascendo, e ele queria poder dormir, ele queria poder afastar Dean da mente e tentar, quem sabe, seguir em frente.
Sem calcular muito bem quais eram as intenções se passando dentro de seu cérebro, Castiel deixa a caneca de lado, e apanha um girassol que nascia no pequeno jardim suspenso que ele cultiva nas grades de proteção da varanda – um velho hábito da sua adolescência junto das pequenas abelhas que lhe faziam companhia que ele jamais irá esquecer.
Segurando a flor entre o indicador e o dedão, Castiel a gira devagar, mordendo o lábio inferior ao ter uma nova imagem de Dean saltando diante de seus olhos, como um holograma repetido que nunca o deixa. A outra mão sobe até a flor e ele puxa uma pétala.
“Eu amo o sorriso de Dean.”
“Eu odeio a falta de tato dele.”
Outra pétala cai e ele ri pela grande idiotice que aquilo parecia, porém não consegue parar seus dedos de se moverem ao redor do girassol.
“Eu amo seu jeito galanteador. ”
“Eu odeio que ele seja tão fechado.”
“Eu amo que ele seja tão terno, mas tente esconder da maneira mais fofa do mundo esse seu lado meigo. ”
“Eu odeio que ele pensa que precisa se fingir de forte quando na verdade está sofrendo.”
“Eu amo as pernas tortas dele.”
“Eu odeio que ele pensa que não é bonito. ”
“Eu amo o quanto ele põe qualquer pessoa na sua frente antes de mais nada.”
“Eu odeio que ele ache não ser merecedor de ter sua própria felicidade; que ele pensa que nunca é bom o bastante.”
Num suspiro, Castiel apoia os cotovelos na grade da varanda e leva as mãos em sua testa ao se deixa tombar no seu próprio oceano de ideias.
Dean, apesar de todas as incertezas e erros, ainda surge aos olhos de Castiel como um bom homem.
Porque ele é. Dean é tão bom, centrado, correto. Ele é um cabeça quente que não sabe a hora certa de calar a boca, porém igualmente consegue destruir qualquer pessoa com a sua sinceridade singela.
A flor depenada em seus dedos tem só mais uma pétala e Castiel suspira porque, oras, que outro desfecho aquilo poderia ter, não é mesmo?
Ele sente vontade de chorar de raiva, alegria, ira de si mesmo e mais ainda da sua grande estupidez, mas ele não o faz, suspirando e arrancando aquela solitária pétala para, a deixando voar para longe em meio à cidade.
Castiel odeia não saber como odiar a Dean por muito tempo.
(…)
Após a quase agradável tarde passada ao lado dos amigos na oficina – e regada a mais algumas piadas quanto a constipação sentimental de Dean – ele resolveu aceitar o convite de última hora de Charlie para sair e espairecer no Roadhouse.
Foi ótimo, de verdade, sair um pouco do estresse do trabalho, inclusive do que ele mesmo andava fazendo à encolha. Dean preferiu não conter à Charlie sua ideia, não porque ele não confiava na amiga, mas sim porque.... Porque ele queria deixar o maior número de pessoas fora disso. Era algo só dele para Castiel.
Claro, Bobby precisou saber, assim como Garth e Benny, mas eles o ajudavam a recolher os materiais da oficina e os colocar em seu carro, então é, ele podia usar essa pequena ajuda, afinal, carregar tantas toras de madeira, ferramentas de serragem, pregos, enfim, tudo, demandaria muito mais tempo, e Dean não tinha certeza se ele aguentaria muito mais tempo afastado de Castiel.
De qualquer forma, essa hora da noite havia sido reservada para um momento relaxante. Dean pensou que seria apenas ele e Charlie, no entanto a ruiva veio acompanhada de sua namorada, Dorothy.
Não que Dean tenha algo contra a morena. Ela é divertida, sarcástica e direta nos assuntos. Mas a questão batendo contra a face de Dean feio uma enxurrada de setas prendendo-se a sua cabeça foi: aquilo é um relacionamento entre duas pessoas – duas mulheres – e ele, de certa forma, queria o mesmo; Só que com outro homem.
Admitir que Dean estava mais do que apaixonado por Castiel parecia ser algo simples dentro da sua cabeça e do mundo perfeito das bolhas de vidro, onde nada no exterior pode o ferir.
Mas foi após a conversa essa manhã na oficina de Bobby, ou mesmo com o encontro com o idiota-loiro-de-sotaque-estranho, que uma realização imensa caiu sobre seus ombros feito um piano o esmagando. Aceitar, querer ficar junto de Castiel, significava ser aberto com ele e um relacionamento aos olhos de todos.
Não que ele tivesse vergonha alguma de assumir o que era. Porém havia aquela pequena parte sua pinicando atrás da nuca que mantinha os olhos vigilantes de seu pai – e de muitas outras pessoas que pensavam como ele.
Errado, feio, imoral.... Essas palavras nunca lhe pareceram cabíveis, afinal, como Bobby mesmo disse, se te faz feliz e você não está matando ninguém, qual é o grande problema?
Porque insistem em querer se meter na vida das pessoas, sendo ele agora uma dessas possíveis pessoas. Parece ser falta do que melhor fazer com seu tempo; esse ódio do qual Dean sabia existir ainda hoje.
Ainda assim ele achava uma tremenda audácia da parte de Charlie ficar tão abertamente assim com Dorothy em público. Elas só.... Não se importavam com os comentários, na maioria das vezes. Dean já soube de histórias em que Dorothy nocauteou um cara que tentou importuná-las numa festa. Pois é, a garota tinha estilo – e um tremendo soco de direita.
Antes de ir apanhar uma nova rodada de cerveja Dorothy dá um rápido beijo nos lábios de Charlie, e a ruiva sorri como uma criança, observando sua namorada caminhar para longe da mesa. Um milhão de pensamentos pulam no cérebro de Dean e ele não consegue impedir sua boca de se mover, nem ele encerra a onda de dúvidas se formando:
– É mesmo assim tão fácil?
Dean pergunta em voz alta sem perceber que o fez. Charlie se vira para encará-lo numa espécie de análise. Merda, ele não queria parecer tão bruto, como se estivesse julgando nem nada, porque é exatamente o contrário! É sobre seus próprios problemas que ele tem incertezas e, droga, agora Charlie está o encarando daquele jeito cheio de análises, e ele detesta ficar na frente do holofote.
Charlie sabe das intenções de Dean no ato – ela consegue o ler facilmente, por mais que seu amigo odeia essa facilidade dela em decifrá-lo. Num meio sorriso, Charlie ergue as duas mãos ao lado de sua cabeça, dando de ombros:
– Homem, mulher, não é tão diferente Dean. Claro que o “equipamento” muda, mas no final, quando você volta para casa, não parece apenas certo ter aquela pessoa li por você? Não estou falando de sexo, o que é incrível, diga-se de passagem, mas eu estou falando de todo o pacote que vem com um relacionamento. Alguém que te compreende, que te apoia; independente do gênero. Não é o que todos procuram?
É o apartamento de Castiel todo de novo. Dean consegue ver seu amigo acordando na cama – a cama deles – com o seu humor carrancudo matinal que diverte a Dean; ou ele consegue ver o moreno andando da cozinha com uma tigela de pipoca em mãos, sentando-se no meio de suas pernas no sofá para assistir a um filme.
O que eles faziam de errado além de gostar e tentar fazer um ao outro feliz, porque sério, como alguém com o mínimo de bom senso pode achar uma relação desse tipo errada?
E Castiel.... Deus, Dean não ia ter vergonha dele. Jamais. De fato, ele consegue se imaginar andando pela rua feito um idiota segurando a mão de Castiel e enfiando o dedo na cara das pessoas que tivessem algum problema com isso, porque ele ia adorar exibir Castiel por aí.
Merda.
Ele estava fodidamente apaixonado por aquele nerd de cabelo escuro.
Nada conseguia o impulsionar a desistência, nem mesmo estes pensamentos intrínsecos a sua personalidade moldada num mundo que contém ódio por algo tão simples e sincero. Na verdade, Dean estava pouco ligando para qualquer um que tivesse um palpite a dizer na ponta da língua.
– Eu preciso mesmo apressar as coisas.
Dean fala abruptamente, batendo as mãos na mesa do bar e se levantando.
– Aonde você vai? – Charlie pergunta, curiosa.
– Tenho que terminar de ajeitar as coisas Charlie. – responde, pondo seu casaco — Eu preciso ver o Castiel logo.
– Oh, seu misterioso projeto?
– É! Eu só.... Eu só preciso fazer isso de uma vez, e então....
– Vai poder finalmente encarar o Castiel? – ela completa sua linha de raciocínio, e Dean apenas concorda devagar.
– Isso é o mínimo que posso fazer, Charlie.
– Tenho fé em você Dean. E te desejo boa sorte!
Num sorriso sincero, Dean sai do bar no seu passo mais apressado. Ele entra no carro e dá depressa a partida, indo até a casa de Sam onde precisa apanhar sua caixa de ferramentas.
Ele sabia que precisava dar espaço a Castiel, pois o moreno tinha esse direito. No entanto, uma grande parte sua queria ser capaz de encará-lo nos olhos com firmeza, podendo desculpar-se pela maior burrada da sua vida.
Se tudo desse certo, o “Projeto Reconquistar Cas” seria o ponto de partida. E ele poderia acabar com essa saudade angustiante de Castiel.
Pisando fundo no acelerador, Dean corre pelas ruas da cidade, querendo chegar logo à casa de Sam.
(…)
Malditas noves horas de trabalho diário. Castiel podia muito bem ser um dos desleixados da empresa, que aparecem apenas no início do dia em seus escritórios e lá ficam por apenas algumas horas, o suficiente para sua falta não ser notada, enquanto caminham pelo prédio ou pela cidade sem nada fazer.
Mas não, ele preferiu ser a droga de um empregado responsável que tem o serviço pronto até mesmo antes dos prazos. Ter ainda o nome “Dean, Dean, Dean” reverberando em sua mente a cada re4spiração não ajudava nem um pouco.
Bufando, Castiel esfrega uma mão lentamente sobre seu rosto, sentindo-a pesada sobre a pele. Que se dane, ele precisava de uma bebida.
Foi o tempo de colocar a dose de rum suave no seu copo e o celular de Castiel tocou. Ele o apanhou, respirando fundo para não ser rude com quem quer que seja o ligando as oito e vinte da noite – é, Castiel ainda saiu mais tarde do trabalho hoje – e então colocou o telefone no ouvido:
– Ei Cas, é o Sam. – veio a identificação.
– Olá Sam. Está tudo bem?
– E-eu, não Cas... Não está.
Sam parecia um pouco exasperado e mesmo esbaforido enquanto falava. Ao fundo, Castiel podia escutar sons altos e indistintos, dificultando qualquer impressão que pudesse ter sobre o que se passava.
Isso apenas aumentou o bater apressado em seu peito, palpitando em nervosismo.
– Olha Cas, o Dean está com você?
Castiel franze o cenho, entreabrindo os lábios. Aquilo não soava nada bem. Não, tenha calma, não comece a fazer conclusões afoitas. Talvez seja apenas uma paranoia de Castiel, talvez Dean apenas não tenha avisado a Sam onde ele estava e agora seu irmão caçula preocupava-se à toa.
Ainda sim seu coração espremia-se entre as costelas mais e mais.
– Não, ele não está comigo Sam.
– Merda!
A voz de Sam não ecoa nada bem. Nada bem mesmo. Há um rastro de preocupação e nervosismo nela, e Castiel não consegue evitar a secura que chega a sua boca num sabor arenoso sendo engolido garganta á baixo.
– Sam, qual é o problema?
Ele escuta uma pesada respiração vindo do outro lado da linha; contudo, Sam nada diz, o que gera uma apreensão ainda maior em Castiel.
– O que houve?
– Cas, olha cara, não há razão te esconder isso, pois precisamos de toda ajuda possível.
– Sam o que aconteceu com o Dean?!
A questão já é automática e certeira, uma vez que Sam apenas suspira, e Castiel sabe que ele está passando a mão sobre seu rosto, preocupado demais com qualquer coisa que está ocorrendo – e Castiel apenas continua um cego andando sobre cacos de vidro, não sabendo onde pisar:
– Ele.... Nós não sabemos onde o Dean está. – Sam diz – Ele saiu há mais de duas horas do Roadhouse, não atende o celular, não está na oficina, e nós.... Se Dean não está em lugar nenhum Cas então.... Então ele só pode estar na minha casa e.... Oh, Cas, se ele está na minha casa—
– Sam?!
O telefone quase é esmago entre os dedos de Castiel conforme ele chama por Sam algumas vezes sem nem ao menos perceber a rouquidão em sua voz, até que finalmente ele volta a falar:
– Nós não conseguimos falar com o Dean... E minha casa está pegando fogo, Cas.
Continua
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