Sem Compromissos
12 Capítulo 11 – Pique Esconde é um jogo perigoso
Notas iniciais
Capítulo 11 – Pique Esconde é um jogo perigoso
O alarme tocando de manhã cedo é irritante e Dean deseja o jogar na parede, mas seu braço esquerdo está preso debaixo de alguma coisa, o impedindo de se mover direito. Ao esfregar os olhos, ele tem uma boa visão da face dorminhoca de Castiel. Eles dormiam na mesma cama desde que Dean teve a torsão nas costas, passando os dias conversando e apenas ficando juntos. O sexo ontem a noite foi.... Diferente. Ao menos pareceu diferente a Dean, em primeiro lugar porque não parecia sexo pura e simplesmente. Tinha algo.... Algo há mais borbulhando no peito de Dean, lembrando-o do que ele havia dito para si mesmo; de que ele havia... Por Castiel... Deus! Ele nem consegue repetir nos pensamentos! Aquilo era um novo nível de estupidez, mesmo para ele.
Contudo, inexplicavelmente, a ideia de que ele quer Castiel além da amizade não é algo detestável, muito menos de se arrepender. Num meio sorriso, Dean continua a admirar a face adormecida de seu amigo, notando que era hora para os dois acordarem e ir para o trabalho – infelizmente.
No entanto, ao invés de acordar Castiel, Dean passou alguns minutos em silêncio. Os olhos dele estão fechados – óbvio – com os longos cílios pressionados contra as maçãs do rosto, os lábios meio partidos. O cabelo escuro está mais bagunçado do que de costume, com fios caindo e apontando para todas as direções em sua testa.
Um dos braços de Castiel está debaixo de sua cabeça enquanto o outro ficou curvado na frente de seu peito, com os ombros expostos, já que os lençóis cobriam até a altura do cotovelo.
Dean envolve a cintura de Castiel e o traz para um abraço, acariciando em círculos sua espinha enquanto a outra mão sobre e toca a face dele, sentindo a barba malfeita esfregando sobre seus dedos, e ele não consegue evitar a boa sensação que isso lhe provoca.
Vagarosamente, com um sonolento bocejo, Castiel abre os olhos, imediatamente escondendo a face no travesseiro, reclamando de que não quer se levantar ainda. Dean ri, tocando seu ombro.
– Hora de acordar raio de sol. – implica, ouvindo um protesto abafado do moreno.
– Vá embora...
– Não posso, nós temos que ir ‘pro trabalho.
–... . Não vou.
– Oh, o grande Castiel Novak vai enforcar o trabalho? O que aconteceu com o mundo?
– Urg! Vá importunar outra pessoa!
– Nah! Eu prefiro fazer isso com você.
Castiel está pronto para dar um soco em Dean, mas assim que seu pulso se fecha o loiro se aproxima dele e o beija firme nos lábios. Por um instante de incerteza eles apenas se encaram, com o verde se perdendo no azul.
Cas ergue mãos um pouco incertas até o peito de Dean onde ele agarra o tecido de sua blusa, como se quisesse ter certeza de que aquilo não era um sonho, e assim que o faz Dean o beija novamente, movendo seus braços para circundarem Castiel completamente. Dean tem uma perna entre as coxas de Cas, usando a que está livre para se impulsionar no colchão e girar seu corpo para o lado, rodando os dois na cama e ficando com metade de seu tronco sobre Castiel enquanto partilham o beijo.
Ambas as línguas se movem devagar, quase em câmera lenta. As bocas começam a ficar molhadas e escorregadias ajudando os lábios a deslizarem um sobre o outro, sentindo a pele macia dali, inchada com as pequenas mordidas, enquanto as carnes das línguas circulam entre si.
Subindo sua mão pelo corpo de Castiel, Dean encontra um punhado do cabelo escuro do menor, enrolando os fios entre os dedos. É tão macio, combinando perfeitamente com as feições de Castiel; sua pele clara, os olhos azuis, estas lindas safiras que parecem olhar diretamente na alma de Dean.
– Vamos lá dorminhoco. Vamos tomar um banho. – Dean brinca, beijando a testa de Cas – Depois eu faço café da manhã ‘pra gente – beija cada uma das bochechas do menor, e Castiel dá um meio sorriso – E depois te levo até o seu trabalho.
Dean finaliza com um breve beijo nos seus lábios, tirando Castiel da cama e o guiando entre abraços e pequenos beijos estalados em seu pescoço até o banheiro. Eles chegam no cômodo com Castiel batendo de leve no ombro de Dean para que parasse com as brincadeiras, removendo seu pijama e o jogando no cesto. Dean faz a mesma coisa, porém não deixa de fazer bico enquanto olha para o estraga prazeres.
Ligando o chuveiro, Castiel balança a cabeça, indo para dentro do boxer e sendo seguido por Dean.
– O que está fazendo? – indaga Cas, encarando Dean por cima de seu ombro.
– Tomando um banho, duh.
– Não. Eu estou tomando um banho.
– Oh, nós não podemos dividir? Sério?
Dean enverga uma sobrancelha como se dissesse a Cas o quão estúpido aquilo soava uma vez que já estão nuns – que eles já fizeram muitas outras coisas sem roupa. Revirando os olhos, Castiel bufa, pegando o sabonete.
– Não me atrapalhe, eu tenho de sair logo.
– Você é sem graça. – reclama Dean — Volte aqui com o Cas que queria faltar ao trabalho!
– Esse Castiel foi acordado da cama por uma pessoa diurna muito irritante.
– Eu não sou uma pessoa diurna, eu só gosto de te importunar.
Dean afirma, começando a fazer cocegas em Cas na altura das costelas. Ele tenta se afastar e segura um riso, porém acaba explodindo numa gargalhada, quase caindo no chuveiro, precisando segurar nos ombros de Dean para se manter no lugar.
– Te peguei! – Dean fala rindo de orelha à orelha, segurando a cintura do outro.
– Você é insuportável Dean! – Castiel nem ao menos consegue soar irritado, mostrando até mesmo as gengivas, tão grande era o riso
– Ahá!
Dean exclama, apontando para a face de Castiel com uma expressão vitoriosa que confunde o menor. Então, ele se aproxima e envolve o maxilar do moreno em suas mãos, alisando com os dedões o rosto dele. Castiel para de se mover, de rir, ele cessa tudo e prende sua visão com a de Dean enquanto um ar diferente os envolve, algo terno e doce. Dean continua a sorrir de uma maneira calma com um brilho diferente nos globos verdes que não deixavam de mirar com adoração as esferas azuladas.
– Aí está; o Cas divertido. – ele diz acariciando o maxilar de Castiel conforme seus torsos se grudam entre a água caindo no meio deles.
– Dean...
Castiel o chama num sussurro, vendo Dean abaixar um pouco sua cabeça, a inclinando para o lado. Debaixo da água do chuveiro há um novo beijo.
(…)
No caminho do trabalho Dean está quase saltitando. Ele acabou de deixar Castiel na sua empresa, o que rendeu uma nova seção de beijos e uma meia repreensão de Castiel – que mais sorria do que soava aborrecido – pedindo a ele que parece ou não conseguiria chegar há tempo do expediente.
Dean adorou cada minuto daquela rotina matinal: acordar com Castiel, abraça-lo de manhã, beijar até sugar todo o ar dele, tomar banhos juntos, e tudo isso sem pensar que tinham de ir para a cama nem nada. Era só vontade de tocar, estar próximo a Castiel de qualquer maneira; isso bastava a Dean para enchê-lo de contentamento.
Faltava pouco mais de meia hora para seu horário na oficina, então, aproveitando o bom humor matinal ele decide tomar um segundo café na esquina de seu trabalho. Ele está de olho nos donguts de chocolate a mostra na vitrine do caixa quando de soslaio capta a visão de uma pessoa que.... Que ele não consegue simplesmente ignorar. Antes que perceba, seus pés caminham até aquela mesa no canto da cafeteria e ele para diante dela:
– Lisa…. – murmura ele.
– Oi Dean.
Confuso, Dean franze o cenho não parando de3 encarar a morena:
– Porque.... Porque você está aqui?
– Vim tomar café. – Lisa da de ombros, mostrando sua xícara.
– Seu trabalho fica a mais de cinco quadras daqui e tem uma cafeteria dentro dele. – rebate o loiro.
Lisa abre sua boca enquanto o encara por um tempo.
– Eu acho que nós precisamos conversar, Dean. Nós podemos por favor tomar um café?
–.... É, claro.
O café duplo que Dean pede chega depressa, mas não o bastante para evitar o silêncio constrangedor entre os dois. Assim que o garçom vai embora, Lisa volta-se á Dean perguntando:
– Como você tem passado?
Dean dá de ombros, bebericando o café.
– Bem, eu acho.
– Você tem ficado com Sam?
– Uh, não, com o Cas. Sammy só faria um bando de perguntas que eu não quero responder.
– Certo, você e o medo de “perguntas”. — Lisa ri.
Ele sente uma pontada indireta na frase dela, mas deixa passar.
– Como está Ben? – pergunta o loiro mudando de assunto.
– Bem. Ele pergunta sobre você.
– Sobre o que?
– Quando você vai voltar.
– Não fui eu quem quis ir embora.
– Eu sei Dean.
Engolindo seco, o loiro solta um pouco de ar, pois a conversa estava caminhando para um clima mais tenso do que esperava:
– Eu não.... Quis soar tão bruto Lisa.
– Eu sei.
Eles ficam numa longa quietude por alguns minutos até que Dean toma outro gole do café.
– Eu estive pensando nessas últimas semanas.
De repetente Lisa fala, prestando atenção no movimento do lado de fora da loja através da vitrine.
– Sim, Eu, uh.... – Dean coça sua nuca, inquieto — Cas me falou que vocês se encontraram.
– Ótimo. E você? Você também tem pensado sobre o que eu disse?
– Sobre casamento?
– Entre outras coisas.
– Sei lá. Não é algo, uh…. Algo que eu me importava antes.
– Mas agora você se importa?
– Eu...
A figura de Cas aparece do nada em sua mente, andando por seu apartamento, usando a calça de moletom cinza larga nos quadris enquanto prepara algo para o café da manhã. Antes que Dean possa impedir seu cérebro de trabalhar ainda mais ele vê uma nova imagem: Castiel sentado no sofá, vendo televisão e balançando a cabeça ao concordar com algo dito por um personagem qualquer do show.
Noutro momento ele está na cama, tremendo e fazendo sons altos de prazer sobre o colo de Dean, mas assim que seus olhos se cruzam e o furor das ações é esquecido, Castiel fala com aquela linda voz rouca.
Quando ele sorri o canto dos olhos azuis criam pequenas rugas em linhas finas; ou então, Dean o vê zangado, e seus globos parecem brilhar uma intensa luz de fúria, ou quando ele está dormindo, parecendo tão calmo e perfeito.
É Cas, Cas, Cas retumbando em seu peito que pulsa o mesmo nome em cada batida, e as implicações desses pensamentos trazem a Dean uma guinada na sua vida – uma imensa guinada mesmo.
– Não sei Lisa. – ele diz, por fim, já confuso demais para continuar pensando – ‘Pra ser honesto, se você me perguntar agora, não. Eu não tenho nenhuma intenção de me casar tão cedo.
– Mas no futuro, talvez?
Castiel aparece de novo diante de seus olhos.
– Eu.... Talvez.
Ele deve dar algum tipo de sinal imperceptível a Lisa do que ele está pensando, porque a mulher bate suas costas na cadeira com um olhar compreensivo.
– Você está com outra pessoa. – Lisa afirma, dando um sorriso torto.
– Uh?!
Dean não a corrige e nem ao menos consegue negar, apenas encarando a mulher com um olhar perdido e a boca entreaberta.
– Está tudo bem Dean. Você pode ver outras pessoas. Nós terminamos, lembra?
Num longo e exasperado suspiro, Dean termina o seu café sentindo o gosto amargo descer pela garganta:
– Quando você fala desse jeito parece que previu tudo. – comenta ele.
– Que eu previ?
– Que nós, uh, sabe? Iríamos funcionar.
Lisa brinca com o seu cabelo e o põe atrás da orelha. Ela sempre faz isso quando está pensando no que falar.
– Sei que posso soar prepotente, mas eu acredito que sim, eu sabia. Desde o começo.
Dean nada diz, conforme Lisa circula um dedo ao redor da borda da xícara de café, sem encarar o loiro.
– Nos primeiros meses foi incrível Dean. Nós estávamos apaixonados; nós tínhamos muitas coisas novas para explorar. Mas eu pude sempre sentir que você não estava comigo cem por cento. Alguma coisa sempre acontecia no trabalho, com seu pai, com seu irmão, seus amigos.
Dean compreende, em parte. Ao menos ele pensa que compreende.
– Não estou dizendo que nada disso é importante, porque eles são. Eu acho que.... Eu queria ser um pouco egoísta e ter você comigo por mais tempo, ter mais da sua atenção. Para Ben igualmente. Ele precisa de alguém para se espelhar.
– E você acha que esse alguém sou eu? – Dean solta um meio riso de escárnio.
– Você é um bom homem, Dean. Todas essas coisas que eu disse são nada mais do que qualidades. Colocar os outros na sua frente? É preciso muito caráter para se fazer isso.
Dean sente as bochechas arderem um pouco, limpando a garganta.
– Mas.... Como eu dizia, mesmo quando estávamos juntos sempre parecia ter outra pessoa em seus pensamentos.... Estou errada?
Ela não está. Dean tinha uma espécie de coceira atrás de seu crânio que o levava a pensamentos relacionados à Castiel – óbvio que nada envolvia as, er, “atividades” atuais deles. Eram mais como.... Como querer saber como ele estava, se eles podiam sair no final de semana, ou quando os dois iam ir ver aquele bendito jogo de futebol o qual Cas havia prometido ir há séculos.
Era estupidez, ele acreditava, pensar tanto assim em Cas, correndo até ele quando o amigo precisava sem pensar duas vezes, querendo ficar junto apenas para passar o tempo quando, de fato, ele tinha alguém ao seu lado para os momentos de tédio..
Dean ainda se lembra o quão irritadiço ele ficou nos meses iniciais em que começou a namorar Lisa, e Cas e ele tiveram uma briga quando o moreno não acreditava muito que Lisa era a garota certa para Dean.
Talvez ela não o fosse. Talvez Dean lutou contra as palavras de Castiel porque nenhuma outra pessoa era a certa. Já que ele tinha esta pessoa ao seu lado por metade da sua vida, mas Dean foi teimoso o bastante para nunca se deixar levar por essas águas misteriosas; por nunca ter considerado a possibilidade que era Castiel.
– Era por isso que eu brigava tanto com você. – Lisa fala despertando Dean da sua conversa interior.
– Porque eu era meio ausente?
– Eu queria sua atenção, fazer você sentir alguma coisa além de afeto, mesmo que fosse raiva.
– Lisa, você sabe que eu estava, sabe, por você... – ele gesticula com a mão entre eles, incapaz de dizer aquela palavra.
– Apaixonado por mim? – completa Lisa – Admito que parecia ser isso, mas olhando para trás? Eu vejo que você tinha um grande afeto por mim e Ben. Nós formávamos uma família, uma um pouco disfuncional, mas que segurava as pontas junto, como se sem o outro fôssemos cair.... Não era um relacionamento muito saudável.
–... É.
Eles começaram a namorar pouco tempo depois de Dean desenvolver uma leve depressão, usando o álcool para resolver boa parte dos problemas. Tudo porque seu pai entrou na reabilitação outra vez, na época em que a polícia decidiu fechar o caso sobre a morte de sua mãe, alegando que era um acidente infortúnio, apesar da insistência de John em dizer que fora um incêndio proposital na casa deles.
Internamente Dean agradeceu pelo inquérito, pois de certa forma seus pesadelos diminuíram bastante com um ponto final nesse capítulo. Sua mãe jamais seria esquecida, mas eles precisavam pegar os pedaços restantes e seguir em frente. O caso fechado os dava um desfecho. Menos para John.
Seu pai quase morreu na loja de bebidas, e Dean foi ao hospital no mesmo dia para visita-lo. Em certo ponto da noite, John acordou do breve coma alcoólico e encarou Dean nos olhos por alguns minutos antes de começar a falar incoerências:
“- Você é igual a mim, Dean.
– Pai? – Dean lembra-se de franzir o cenho encarando o semblante cansado de John.
– Você e eu.... Sempre tentando fazer melhor, fazer diferente, mas no final.... Nós sabemos que é nesse lugar que vamos acabar.... Desculpe filho. Eu queria poder te dar mais do que um hábito nojento, mas hey! Ao menos nós temos um ao outro...”
As palavras de John assombraram Dean por semanas. Ele ama seu pai, era orgulhoso em dizer que John fez o melhor que pode apesar dos inúmeros problemas que tiveram em vida, contudo, pensar que seu pai via essa.... Grotesca semelhança entre eles.... Machucou a Dean profundamente, ser comparado dessa forma.
Para piorar, no outro final de semana ele ficou bêbado num bar, chamou por seu irmão, Benny, e praticamente todas as pessoas do seu telefone. No final, ele foi trazido por um dos amigos de Ellen ao hospital onde seu pai estava internado para receber uma boa dose de glicose. Foi lá que ele conheceu Lisa, cuidando dele com a agulha do soro. No dia seguinte, Dean foi lá pedir desculpas e chamar a enfermeira gostosa para sair, igual a um desses filmes clichés, no entanto aquela não foi uma boa maneira de começar um relacionamento.
Lisa o ajudou num momento difícil da vida de Dean, mas ele não podia basear todo um relacionamento em cima de uma.... Dívida. Céus, realmente parecia que Dean devia algo à Lisa.
– Dean eu não vim até aqui para te fazer se sentir miserável, nem nada do tipo. – Lisa fala o tirando dos pensamentos distantes.
Dean franze o cenho, completamente perdido naquela conversa.
– Então qual a razão disso tudo?
– Acho que para dar um fechamento definitivo. Para te dizer que o que tivemos foi uma parte importante da minha vida, apesar de tudo o que aconteceu. Eu espero que nós possamos ser.... Amigos.
Dean pisca algumas vezes antes de sorrir. Este é o melhor encerramento que eles poderiam ter; e provavelmente um incrível começo em sua vida com outra pessoa, alguém que esteve em sua mente por bastante tempo.
–.... Eu gostaria disso Lisa. – responde o loiro, sentindo as costas mais leve.
A morena lhe retribui o sorriso.
– Ótimo.
(…)
Kevin, o estagiário da empresa onde Castiel trabalha havia notado desde cedo o clima mais leve rondando o seu superior. Castiel nem ao menos bufou da maneira entediada que fazia na última semana quando recebia um daqueles livros chatos para se traduzir.
Nem mesmo de Balthazar o moreno conseguiu esconder a alegria, fazendo com que o loiro ficasse o encarando por boa parte daquela manhã.
– Você teve uma boa noite? – pergunta ele num tom irônico.
Castiel ergue a cabeça de sua sala, olhando para a porta onde Balthazar estava apoiado de braços cruzados.
– Olá Balthazar.
– Olá você, Castiel.
– Desculpe, não ouvi sua pergunta.
Afinal, a cabeça do moreno estava viajando para as horas da manhã com Dean na cama...
– Esqueça isso. – responde o outro, balançando a mão no ar.
– Certo. Deseja alguma coisa?
– Na verdade sim.
Entrando na sala do amigo, Balthazar fica frente a frente com ele, descruzando os braços e começando a gesticular conforme fala:
– Então, eu estive pensando. Nós dois gostamos de homens.
Erguendo sutilmente uma sobrancelha, Castiel desiste de tentar olhar para seu computador e encara Balthazar.
– Isto é o que você tem pensado? – fala com um sutil sarcasmo.
– Só me escute. Bem, nós dois temos a mesma preferência, então eu pensei que talvez pudéssemos sair num encontro.
– Esta é sua desculpa para um encontro entre nós? Porque ambos temos a mesma preferência sexual?
– Bem, isso, e porque eu te acho deslumbrante.
As maçãs do rosto de Castiel ficam rubras na mesma hora, e ele quase engasga:
– O-o que?!
– Você me ouviu. Eu gosto de você há algum tempo, Castiel. Eu só pensei que era hora de tentar.
Engolindo seco, Castiel não tem outra reação a não ser abrir bem os olhos e ficar em silêncio por longos, longos minutos mesmo. Ele não estava esperando receber uma notícia desse tipo logo pela manhã, logo hoje.
– Desculpe Balthazar, mas eu…
As engrenagens de Castiel começam a maquinar apressadas dentro de sua mente. Ele tem algo…. Mas o que exatamente? Ele e Dean estão vivendo numa bolha de felicidade no último mês; contudo, nenhum deles falou abertamente sobre o que estava realmente acontecendo entre eles.
No fundo, Castiel tinha suas próprias suposições, porém ele nada sabia sobre Dean, o que ele pensava ou mesmo como poderia reagir se soubesse.... Se tivesse a mínima ciência que Castiel queria algo mais.
Deviam eles parar com tudo aquilo e voltar a serem apenas amigos? Ou a verdadeira questão incomodando Castiel como uma cicatriz que nunca para de sangrar: ele seria capaz de fazer isso?
Porque ele não tem medo de admitir a si mesmo que se apaixonara por Dean. Não uma simples paixonite aguda, nada tão infantil assim. É verdade, está escrito por todo o seu corpo, em cada centímetro que fora tocado por Dean, que Castiel está completamente perdido.
O que assusta a Castiel não é a razão de nunca ter notado essa conexão antes. Ele nunca teve alguém em sua vida que confiasse mais do que Dean. Ele é seu amigo; ele faria qualquer coisa por Cas. Deus, ele fez nesses últimos anos! E talvez Castiel nunca tenha considerado a possibilidade de buscar algo além da amizade porque tinha medo de perder esta conexão, além do fato de que Dean nunca mostrou nenhum interessa antes.
Então, naquela noite, tudo mudou.
Dormir com um amigo pode ser uma péssima experiência, desse modo, Castiel quis ter certeza de quer eles ficariam bem, afinal, foi algo que os dois concordaram na manhã seguinte. Contudo, não parou por ali. Castiel disse a si mesmo inúmeras vezes que fora movido pela luxúria, que ele tinha o mero desejo de tocar outra pessoa após tanto tempo sozinho. Mas.... Não. Ele não pode mentir mais sobre isso. Talvez no começo, se eles tivessem ignorado aquela noite de bebidas e sexo, se tivesse se tornando apenas uma única vez, eles ficariam bem como amigos. Mas eles tornaram-se algo mais. Havia passado da linha do sexo casual; era mais do que isso.
Eles fizeram amor.
Ambos afundaram nessa vida doméstica mais e mais, sem nem ao menos nomear ou mencionar nada um ao outro, esperançosos de que esse mundo mágico jamais deixasse de existir. No entanto as paredes em volta deles estavam se quebrando. Castiel não tem uma resposta concisa para dar a Balthazar, pois ele mesmo não tem ideia da onde ele e Dean estão se dirigindo.
Mais que isso: Castiel não tem certeza se Dean o quer como algo mais.
– E então Castiel? O que me diz?
Balthazar pergunta novamente e o moreno o encara assustado, engolindo seco, pensando no que dizer a ele; pensando no que ele mesmo não sabe ainda.
(…)
À noite, Dean tinha preparado um dos seus magníficos jantares para quando Castiel voltasse. Ele não pensou em usar as velas, mas elas estavam bem ali na gaveta da cozinha, e parecia uma atmosfera perfeita. Dean ergueu os olhos da mesa e sacudiu a cabeça diversas vezes. Ele estava realmente ficando piegas.
Mas a verdade é que ele se sente calmo, de uma maneira que há muito não sentia. A conversa com Lisa o fez encerrar essa parte ainda aberta da sua vida, o enchendo de coragem e acabando com boa parte de sua insegurança. Não há nada impedindo essa felicidade, roubando dele uma coisa boa, como sempre acontece. E Dean só quer dar uma boa surpresa a Castiel.
Cacete, ele só quer abraça-lo e beijar Cas até não aguentar mais!
E pela primeira vez desde o início desse último mês Dean não tem medo de admitir a si mesmo que ele apenas quer seu amigo; que ele tem uma imensa necessidade de estar junto dele.
Juntos?
Dean para no meio da cozinha ao acender a última vela. Suas roupas estão na máquina de lavar, as ferramentas que ele usa na oficina estão sobre a mesa da varanda, onde ele gosta de limpá-las. Também, debaixo da mesa do rádio estão suas fitas na caixa que Cas o deu – e Dean adora colocar uma música no fim do dia bem alta, vendo Castiel lhe dar um olhar de desaprovação, mas logo ele também o acompanha numa dança descoordenada pela sala. Esse lugar tem tantas coisas suas, misturadas com as de Castiel...
É, juntos. Dean quer que ele e Castiel fiquem juntos.
(...)
Pouco mais de uma hora, quando Castiel entra em seu apartamento, ele logo é recebido pelo aroma gostoso da janta. Livrando-se do casaco e de sua mochila ele vai até a cozinha, percebendo surpreso as velas posicionadas sobre o balcão enquanto Dean termina de pôr um prato na mesa.
– Ei! – cumprimenta o maior.
– Olá Dean.
O loiro se aproxima com um largo sorriso, envolvendo a cintura de Castiel com ambos os braços e lhe dando um beijo apertado sobre seus lábios. Castiel perde parte do ar, porém não reclama nem um pouco da recepção.
– Vejo que se empenhou bastante hoje.
Comenta o moreno apontando para a mesa.
– Ah! Sim, eu, sei lá! – ele dá de ombros – Achei essas coisas e resolvi pôr na mesa.
– Dão realmente um toque especial.
– Dão sim.
Num outro beijo estalado, Dean apressa Castiel para sentar-se e logo os serve uma boa carne assada com batatas e um punhado de macarrão ao molho branco. Sim, Dean sabia cozinhar dessa maneira.
Não demora muito para que eles estejam envoltos outra vez no mesmo clima do qual Castiel refletira mais cedo no trabalho. Tudo acontecia dentro de um costume acomodado e simplificado, como se desde sempre fosse assim: Dean e ele, sentados na mesa conversando após o expediente, trocando beijos acalorados no sofá, ou apenas sendo recebido com um breve encontro dos lábios.
Isso refaz toda a linha de raciocínio de Castiel, que ganha força com cada olhar que Dean direciona a ele. Parece certo. Está certo, que os dois estejam ali, agora, e isso enche Castiel com um ótima sensação.
Foi no meio do jantar, quando Dean começou a falar sobre seu dia que essa frágil certeza se espatifa dentro de Castiel.
– Eu falei com a Lisa hoje.
A comida no estômago de Cas subitamente fica mais pesada.
Eles se falaram…. Dean falou com a mulher que deu ao seu amigo aquilo que ele mais queria em sua vida: uma família. O que ela disse a ele? Os dois estavam se acertando? Eles vão tentar de novo? E porquê…. Porque Castiel não consegue se livrar dessa dor o dilacerando por dentro?!
Ele sabe razão. Ainda assim a constatação daquela frase o deixa zonzo:
–.... Oh. Como foi?
Castiel indaga num tom baixo, pois é tudo o que consegue articular sem perder completamente a voz; sem perder a compostura e deixar transparecer suas reais preocupações. Fraquejar agora não é uma opção.
– Normal, eu acho. – Dean responde, dando de ombros – Ela parecia bem, perguntou como eu estava, e eu disse que passei esse mês na casa de um amigo.
“Amigos”.... Castiel pensou consigo mesmo engolindo á seco outro pedaço do bife, já sem fome alguma. A carne parecia tão crua e sem gosto.
– Ela quer que eu converse com o Ben. Diz que o garoto sente minha falta.
De fato, Dean e Lisa conversaram sobre esses assuntos e pareceram achegar a um comum acordo. No entanto, talvez sua falta de tato não lhe permitiu notar as nuances no temperamento de Castiel – tão pouco ele se preocupava em contar os detalhes mais importantes dessa conversa, afinal, tudo estava bem, tudo parecia bem. Não tinha razão para Dean inquerir, buscar um significado mais profundo, pois a ele as coisas estavam se encaminhando para um bom desfecho. Ao menos ele imaginava que sim.
– Isso é bom. – Castiel comenta – Aquele menino é importante para você, Dean.
Dean sorri do jeito maravilhoso que Castiel adora em segredo desde a primeira vez que o viu em Dean. Ele nunca contou ao loiro; como poderia? Dean é seu amigo.... Ele acabou de dizer, não é mesmo? E quão estranho seria se ele fizesse esse elogio ao seu melhor amigo?
Contudo, no instante em que Castiel tinha coragem para dizer a Dean o quão belo ele fica com esse sorriso, e o quanto Castiel quer ter esse riso apenas para si; que deseja que Dean mostre essa face alegre apenas a ele, e não por causa do filho de outra pessoa; não por outra pessoa….
Ao invés de contar seus anseios à Dean, Castiel engoliu outro pedaço de sua comida, resolvendo compartilhar também o que acontecera no seu dia com ele:
– Um colega de trabalho me chamou para sair hoje.
É uma jogada baixa, Castiel sabe, no entanto, uma parte ciumenta sua quer tentar perceber alguma alteração em Dean, quem sabe, provocar uma reação dele que o faça ter certeza de que existe alguma possibilidade para os dois. Ou mesmo descobrir que Dean é indiferente no que se trata de um possível.... Relacionamento entre eles.
Castiel tem ainda uma pequena esperança de que Dean jogue todos os pratos no chão e grite com ele, dizendo que não o quer saindo com mais ninguém.
Tantos eram os cenários rondando a cabeça de Castiel que ele não notara como Dean ficou imóvel do outro lado da mesa, sem nem ao menos tocar em seu prato – ou mesmo respirar. O estômago do loiro revirou com a mera possibilidade de que.... De que outra pessoa podia ficar junto de Castiel que não ele. Dean teve vontade de gritar e mandar esse cara ir á merda. Quem ele pensa que é para chamar Castiel—Seu Castiel para sair?!
Seu.... Castiel é realmente de Dean? Quer dizer, ele não sabia.... Ele achava que sim....
– Oh.... – responde o loiro, enfim, engolindo seco – E o que você respondeu a ele?
– Que eu teria uma resposta mais tarde. Eu.... Precisava falar com você primeiro.
O coração de Dean falha uma ou duas batidas. Porque Castiel queria falar com ele primeiro? Seria.... Seria pelo o que estava esperando?! A certeza que ele quer ouvir de Castiel?
– Eu não sei se um relacionamento no trabalho seria prudente. Você tem algum conselho?
Os olhos de Dean mal piscam. Era aquilo? Essa era a grande dúvida de Castiel?! Merda. É claro que era! Dean é apenas seu amigo, então o que ele deveria esperar em retorno? Castiel quer o conselho de um amigo. Mais nada. Dane-se o que eles passaram esse último mês não é mesmo? Ótimo. É sempre assim na sua vida, não é mesmo Winchester? Quando ele quer algo…. Quando ele realmente quer uma pessoa, ele não pode a ter. Porque Castiel só o quer como amigo.
– Eu sei lá Cas. – replica com certa indiferença, usando sua melhor expressão insensível – Se você estiver a fim de sair com ele.
Dando de ombros, Dean retorna a se preocupar com sua comida, como se a conversa estivesse encerrada – e para ele de fato estava.
Castiel aguarda o quanto pode antes de deixar a crua verdade abatê-lo feito um tiro abrindo seu pulmão e o deixando sem ar. O que ele estava esperando? Que Dean iria declarar que não quer Castiel saindo com outras pessoas?
Dean sempre vai enxerga-lo como um amigo, mesmo após os inúmeros encontros físicos; eles são apenas amigos, sem compromissos, nada mais. E Castiel não mais enxerga uma razão de se deixar influenciar por esses.... Sentimentos que surgiram estas últimas semanas.
Dean não partilha da mesma atração por homens que Castiel. Claro, eles estavam dormindo juntos, mas era apenas.... Sexo. Dean nunca colocaria sentimentos de verdade num relacionamento com outro homem – Castiel sabia disso agora. Ainda assim ele foi tolo o bastante para construir esperanças, para desenterrar dos confins do seu peito esse sentimento que ele há tanto havia escondido após tantos relacionamentos desastrosos. A realidade era cruel demais para o permitir essa felicidade.
Fazia muito desde a última vez que Castiel tivera essa boa sensação em si; de se apaixonar por alguém, de ter uma pessoa a quem retornar para casa, que escuta seus problemas e o faz rir por besteiras. Dean afirmou ter usado Castiel, mas no fundo o moreno era tão egoísta quanto ele.
Apesar disso, Castiel pode fazê-lo. Ele é capaz de manter a compostura e voltar a tratar Dean como o amigo que sempre fora. Os dois podem seguir com suas vidas daqui para frente, esquecendo-se de todo o resto. Não é uma questão apenas de conformidade.... Eles apenas precisam seguir em frente.
A noite acaba com Dean dizendo que ficaria até mais tarde na sala, vendo algum programa qualquer. Castiel não tenta o impedir, enfiando-se debaixo dos cobertores de sua cama, querendo apagas esse final de dia desastroso. Cada qual permanece recluso num ambiente próprio, rondando os pensamentos de desesperança, brincando de pique esconde com seus próprios sentimentos e escondendo um do outro as palavras que podiam ser ditas, mas não foram.
Continua
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