Sem Compromissos
13 Capítulo 12 - Quando Dean é ruim com as palavras
Notas iniciais
Capítulo 12 — Quando Dean é ruim com as palavras
Charlie trabalha perto de Dean numa empresa há poucos minutos da oficina mecânica de Bobby. Ela sempre é gentil e meiga, mas também sabe dar um fora quando precisa. Dean e ela ficaram amigos em pouco tempo. Claro, isso depois que Dean tentou chamá-la para sair, recebendo a melhor resposta possível da ruiva: “Você não tem o equipamento necessário”. É difícil deixar Dean sem graça, mas ela conseguiu.
Não muito depois do dia fatídico eles se encontraram de novo no Roadhouse, o restaurante e bar de Ellen, onde acabaram dividindo cervejas e boas conversas. Ela conheceu Jo, Sam e Cas pouco tempo depois. Dean e Sam, claro, tinham mais afinidade com a pequena que conseguia citar o nome de qualquer personagem de Star Treck de trás para frente, sem contar em jogos, filmes, e todo o tipo de cultura nerd imaginável. Charlie é como a irmãzinha deles de outra mãe.
Então é claro, quando Dean tem problemas e não quer ouvir as reclamações de Sam ele a procura – visto que a situação no momento envolvia Castiel, e o moreno não era uma opção viável.
– Então, deixa eu ver se entendi. – Charlie repete com um meio sorriso, bebericando sua cerveja – Você acha que pode ser gay pelo Castiel?
– Por favor, fale mais alto. Acho que a Jo não escutou do bar. – ironizou Dean, vendo a ruiva rir.
– Nah, eu ligo para ela mais tarde para contar os detalhes. – implica — Mas, é sério Dean, da onde isso surgiu?
Claro que Charlie jamais contaria a Dean já saber da história dele e de Castiel. Ela tinha sua honra como boa confidente para preservar, e a ruiva é amiga de ambos. Mas ela estaria mentindo se dissesse que não tem vontade de ouvir Dean descrevendo toda a história. Isso sim seria divertido.
E Dean, ao mesmo tempo, não sabia como respondê-la. A gama de pensamentos em sua mente é mais turva do que certa.
“Da onde” todas essas sensações surgiram é uma questão vaga. Dean não consegue escolher um dia ou hora certa para discernir que ele começou a olhar seu amigo de outra maneira. Claro, ele teve sua fase “curiosa” no colégio, quando pegou o jogador de baseball do seu time nos armários do vestiário, mas ele nunca desenvolveu qualquer tipo de emoção por outros homens. Nunca. Castiel é o primeiro.
Dean pode contar nos dedos todas as pessoas que ele namorou e tiveram alguma importância sentimental em sua vida, e nenhuma delas foi com um cara.
Teve aquele mês com a Cassy. Ele acreditou em uma semana que ela era a certa. Durou o bastante para Dean apresentá-la a sua família e amigos, e tão logo o fez toda aquela paixão minguou. Cassy disse que se mudaria para outro estado a fim de estudar jornalismo.
Dean não podia abandonar seu irmão, ou sua família, para ir atrás de uma pessoa, ainda mais com seu trabalho na garagem. Além do mais, ele precisava do dinheiro para colocar Sam na faculdade, e até hoje ele jura que foi com a poupança de John que Sam cursou direito. Dean sabia que seu pai havia gasto boa parte do dinheiro em bebida, mas Sam não precisava saber disso.
De qualquer forma, ele se despediu de Cassy e seguiu em frente sem muitos arrependimentos.
Anos mais tarde, Dean teve a brilhante ideia de sair com a irmã mais velha de seu amigo – Anna. Várias vezes Castiel o avisou que não seria prudente, muito menos gostaria que Dean magoasse sua irmã. Mas no fim das contas, foi Anna quem terminou com Dean, dizendo que eles não eram compatíveis, e Castiel precisou pedir mil desculpas a ele.
Nos últimos cinco anos Dean não teve um novo relacionamento por mais de uma noite ou final de semana. Quando ele estava nos bares, às vezes, depois de um drink ou dois, ele saía com algum cara e aliviava a tensão de dias acumulado. Porém ele nem ao menos se lembrava dos nomes deles, além do fato de que Dean nunca havia dormido com um homem antes de Castiel….
Foi então que nos últimos dois anos, Dean esteve junto de Lisa, a mulher que todos achavam ser a garota dos seus sonhos. No entanto todos sabem como essa história acabou.
Ou ainda como uma inteiramente nova teve início.
– Eu não sei Charlie. – Dean fala, bufando – Só.... Aconteceu, tá?
Aconteceu que ele e Castiel dormiram juntos após estarem bêbados. E depois de novo, mais uma, até nenhum deles importar-se mais em contar, em querer rotular o que estava acontecendo. Contudo, Dean podia sentir que eles eram alguma coisa. Que ele deseja algo mais com Castiel.
– Bem, você já conversou alguma dessas coisas com ele? – pergunta Charlie, vendo Dean dar de ombros.
– Uh, não, quer dizer eu ia, mas....
– Mas?
Bufando, Dean esfrega seu rosto e toma um gole de sua cerveja antes da sua cabeça explodir.
– Ele ontem me disse que um cara do trabalho dele o chamou para sair.
– Oh.
Charlie entreabre os lábios em surpresa. Essa é uma informação nova. Em silêncio, a ruiva somente observa a Dean e seus ombros rijos com a mera e simples menção de que Castiel possuiu um interesse que não o dele. Aquilo era algo novo, não é mesmo? Dean nunca foi tão possessivo assim com suas namoradas. No entanto, ele ficara imensamente incomodado agora.
– Parece que você tem competição, não é?
Charlie diz com um meio sorriso, vendo como Dean se vira na direção dela parecendo surpreso:
– Competição?
– Sim, e se eu fosse você, corria.
– O que quer dizer com isso, Charlie?
Respirando fundo, ela apoia os cotovelos na mesa, gesticulando com as mãos no ar:
– Olha Dean, eu vou ser sincera com você aqui: ás vezes você é um incrível idiota.
– Uh, isso era ‘pra me ajudar de alguma forma? – pergunta o loiro num tom sarcástico ao arquear as sobrancelhas.
– Dean, você é o cara mais cabeça dura que eu conheço. Não importa quanto alguma coisa esteja bem clara à sua frente, você encontra motivos para se contradizer, ou mesmo sabotar a si mesmo.
– Mas que droga você está falando?!
– O que quero dizer é que você é constipado emocionalmente.
O loiro revira os olhos, jogando-se na cadeira, já cansado daquela mesma piada.
– Chega disso! Não vim aqui ‘pra te ouvir falando mal de mim!
– Estou tentando te dar uma dica.
– Me insultar tema ver com isso?!
– Claro, seu cabeça oca! Não entendeu o recado?!
A ruiva fala mais alto, quase batendo com as mãos na mesa, e Dean tem de chegar o corpo um pouco para trás no seu assento. Quando ela volta ao seu lugar após a rápida explosão – e metade do bar parar de encará-los – Charlie suspira, ajeitando uma mexa do seu cabelo atrás da orelha.
– O que quero dizer, Dean, é que você precisa parar com essas suas inseguranças e dizer de uma vez ao Castiel como você se sente.
Os olhos de Dean ficam secos enquanto ele encara Charlie sem trégua. Sua garganta arde, e ele termina de beber sua garrafa de cerveja num gole só. Ele precisa repelir o olhar reprovador de Charlie, pois no fundo ele sabe que é a mais pura verdade: ele tende a fugir de assuntos complicados, ou mesmo se cola em situações que o menosprezam porque, no fundo, Dean não sabe lidar com emoções. Ou pessoas que envolvam seus sentimentos.
Numa única bufada, ele escorrega na cadeira do bar, afundando metade do corpo nela enquanto pede uma nova cerveja:
– O Cas e eu.... Nós—Eu sei lá Charlie! – Dean esfrega seu rosto, frustrado demais para continuar.
– O que você não sabe, Dean?
Indaga a ruiva, notando a mudança no tom de voz dele: cabisbaixa e perdida. A face tão segura e cheia de si do homem que aparenta ser impassível quebra, pois há tanto mais escondido nas camadas tampadas pelo orgulho de Dean do que ele gosta de admitir.
– Eu sei o que está acontecendo comigo, ‘tá bom? – ele fala, fitando um lugar vazio no fundo do bar — Não sou um idiota. Mas eu não faço a menor ideia do que se passa na cabeça do Castiel. E ele falou sobre esse cara de um jeito.... Como se ele não estivesse nem aí para o que eu ia pensar.
Nisso, a ruiva parece se enfurecer novamente, jogando as mãos para o alto ao falar um tom mais alto:
– Ai meu Deus! Você só está se repetindo, Dean!
– O que?!
– Olha, eu não quero ficar me metendo demais, mas preste atenção no que eu digo: a única pessoa que pode te dizer, com certeza, se o Castiel quer algo com você é o próprio Castiel!
–.... Em outras palavras?
– Fale com ele de uma vez!
Noutro grito potente de Charlie, Dean se afundo ainda mais na cadeira sentindo seu rosto arder em vergonha.
Charlie tinha toda a razão, contudo havia sempre aquela parte de Dean o dizendo, repetindo-se sem trégua de que ele estava imaginando demais, que as suas esperanças tinham sido elevadas, e a qualquer instante ele ia cair e estatelar sua cara no chão; como acontece sempre que quer demais alguma coisa, ou alguém.
Porém nesse caso, ele poderia colocar uma vida inteira a perder. Não apenas uma chance com Castiel, mas tudo o que eles possuem há anos.
Se ontem ele estava decidido em querer perseguir sua intuição e se arriscar com Castiel, após ouvir que o moreno queria sua opinião sobre um possível encontro, as certezas de Dean foram esmagadas. Dean não entende mais nada, a não ser a garrafa de cerveja à sua frente, a qual bebe sem pestanejar.
(…)
Castiel, sinceramente, encontra-se perdido.
Primeiro, ele achou que os afagos, beijos e carinhos de Dean significavam alguma coisa. Entretanto ele não se mostrou nem um pouco incomodado no fato de ter sido chamado para sair por outra pessoa, tão pouco pareceu exaltado. Na verdade, a reação de Dean traduzia-se como indiferente.
Apesar do que dissera sobre ser capaz de manter a amizade de ambos, Castiel tinha algumas dúvidas pendentes. Talvez fosse melhor ser direto com Dean, saber de uma vez por todas quais eram as intenções dele – se havia alguma, para começar. E para isso, ele não podia aceitar o convite de Balthazar. Tinha muitas demandas consigo mesmo para lidar no momento e ainda se preocupar com outra pessoa; um alguém que não era Dean.
– Posso entrar?
A voz de Balthazar ao lado de sua porta faz Castiel desligar-se de seus pensamentos. Ele aquiesce, e o loiro para de pé no meio de seu escritório com as mãos nos bolsos da calça.
– Algum problema Balthazar? – pergunta o moreno, franzindo o cenho.
– Uh? Oh, não, tudo está na mais perfeita ordem.
– Certo.... Então?
– Bem, eu vim saber se você gostaria de tomar um café comigo, sabe, agora?
Castiel o encara por alguns minutos mais ponderando se seria prudente sair com Balthazar, afinal, ainda não tinha lhe dado uma resposta. Contudo, ele não via mal nenhum numa pequena pausa. Além do mais, talvez fosse a deixa perfeita da qual precisava.
– Claro. Podemos sim. – responde, guardando os papéis de sua mesa, enquanto balthazar sorri.
– Ótimo. Vamos então.
A descida no elevador segue com o som do metal rangendo até o primeiro andar. Balthazar e Castiel andam pelo saguão largo da empresa um ao lado do outro, mas sem dirigir uma única palavra, e por fim chegam à cafeteria próxima ao escritório, onde já sabem o que pedir. Ainda na fila, Balthazar dá uma leve tossida, voltando-se ao moreno:
– Sobre o que conversamos no outro dia Cas….
– Por favor. – Castiel pede, erguendo uma mão no ar e o impedindo de prosseguir – Tenho de te dizer algo antes.
– Hmm, isso nunca é bom.
– Me desculpe, eu só.... Não estou num bom momento para pensar em encontros.
– Você está vendo alguém?
–.... De certa forma.- responde num longo suspiro — É complicado.
– Hm, eu entendo. Alguém como você estar solteiro seria algo difícil de imaginar.
Inclinando o rosto para o lado, Castiel fica confuso, apanhando seu café e afastando-se do balcão junto de Balthazar.
– Como assim? – inquere o moreno, ouvindo uma risada e escárnio vinda do outro.
– Está brincando, Cas? Você é estupendo. Já lhe disse isso.
Castiel não pode evitar a vermelhidão subindo pela face, não sabendo como proceder.
– Obrigado Balthazar. – murmura, tomando um gole de seu café.
– Não tem por onde. E caso não dê certo, sabe onde me procurar. – ele pisca ao moreno, que une os lábios num meio sorriso.
– Por favor, não se ofenda, mas eu espero que dê certo sim.
– Ah, agora você está partindo meu coração!
– Desculpe. – brinca Castiel, porém ele parece realmente sentido por Balthazar.
– Só me diga que o idiota já tentou algo, por favor. Eu esmagaria a cabeça de alguém que fosse tão lento assim.
O café parece queimar na língua de Castiel, quase o engasgando, e sua língua fica presa na boca:
– Uh....
– Oh, meu Deus! Você está sofrendo de uma paixonite aguda grave e nem ao menos falou com o cara?!
– O que?! N-não! Eu—Nós já fizemos--!
– Sem detalhes, Cas, sem detalhes. – interrompe Balthazar, balançando a cabeça — Mas falo sério. Você deveria ter certeza de que quer alguém que nem ao menos demonstra interesse.
– Ele demonstrou. – rebate Castiel, querendo defender Dean, mesmo que não seja preciso.
– Verdade?
Balthazar ergue uma sobrancelha e olhar cético.
–.... Um pouco. – Castiel luta com as palavras ás procura de algo que possa embasar suas suposições — A questão é que nós ainda temos de conversar, Balthazar, e, portanto, tenho de declinar seu pedido. Sinto muito.
– Bem, não se pode ganhar todos os dias, não é mesmo?
Castiel sorri fraco, achando sincera e gentil a maneira com a qual Balthazar não se mostra abatido. Ele poderia facilmente se apaixonar por alguém assim. Contudo, sempre que pensa em Dean seu coração arrebenta a caixa torácica. É diferente do que ele sente quando ao lado de Balthazar ou outra pessoa.
Os dois terminam de pegar as fatias de torta e caminham para uma mesa afastada, onde podem ficar de pé e matar o tempo com conversas tolas. Castiel sorri consigo mesmo ao pensar que em breve estaria em sua casa e poderia ver Dean, compartilhando provavelmente estas mesmas histórias sobre seu dia. No entanto, ele mal podia esperar para recitar estas frases a ele, ouvindo os comentários sarcásticos de Dean, ou mesmo suas piadas.
Bebericando de seu café, Castiel determinou enfim que havia se cansado destas incertezas. Ele e Dean tinham de conversar e se esclarecer. Definitivamente.
(…)
O café pós-almoço com Charlie, regado à cerveja barata ao invés de café propriamente dito, renovou parte das energias de Dean.
Sobre o que acontecera ontem à noite no apartamento de Castiel.... Ele preferiu ignorar qualquer significado profundo que tentou atribuir a conversa deles. Só havia uma única maneira de saber absolutamente o que Castiel pensava sobre Dean; sobre tê-lo mais do que um amigo. E isso só seria possível se eles sentassem e fizessem uma das atividades sociais mais detestas por Dean: dialogar.
Mas ele podia fazê-lo se isso significava acabar de uma vez por todas com as dúvidas rondando sua mente. Na verdade, Dean pensou em encontrar Castiel agora mesmo no seu trabalho, assim, sem aviso, afinal, já estava perto do horário que o moreno costumava sair para lanchar.
Enquanto Dean arquitetava como poderia se explicar com o menor número de palavras possíveis, seu olhar voltou-se ao movimento apressando da cafeteria da esquina do prédio da empresa de Castiel. Ela estava cheia. Pessoas de terno e gravata saíam apressadas com seus pedidos em copos descartáveis, e Dean quase riu da desgraça deles, obrigadas a se vestir feito pinguins o dia todo.
No instante seguinte em que fez a grande besteira de olhar uma segunda vez para a cafeteria esse sorriso morreu em seus lábios, e ele parou aonde estava na calçada. Até mesmo seus olhos pareceram descrentes, ganhando um misto de confusão e raiva.
Tudo porque ele pode ver que aquele ali de pé era Castiel, falando abertamente com outra pessoa; um cara que parecia um metido – Dean supôs, óbvio – porque ele claramente não tinha respeito algum pelo espaço pessoal. As mãos do desconhecido loiro com cara de limão azedo passavam sobre o cotovelo de Cas cada vez que ele falava. Seu corpo aproximava-se do dele em pequenos balanços, e o pior de tudo não era isso.
Dean detestou o fato de que Castiel descansava seu peso sobre esses toques, ou mesmo sorria ao ouvir algum gracejo que era com certeza idiota. Sua mente, claro, resolveu piorar a situação. Ao invés de estar ao lado de Dean, sua cabeça começou a martelar a mesma pergunta incessantemente: e se aquele fosse o tal colega que chamou Castiel para sair?
Dean só conseguiu enxergar vermelho.
Antes que Dean perceba, ele entra na cafeteria, brutamente empurrando algumas pessoas, mantendo seu olhar focado no alvo à extrema direita do estabelecimento. Ele para na frente de Castiel, que quase pula com a surpresa da visita de Dean, porém no mesmo instante em que ele abre sua boca para cumprimenta-lo, é interrompido pela potente voz exasperada de Dean:
– Vem comigo.
O moreno precisa piscar seus olhos frente a confusão instalada no ambiente:
– Dean?
– Agora, Cas!
– Ei, quem você pensa que é?
Balthazar falando, tentando se interpor entre o desconhecido e Castiel, porém ele sente que o moreno põe uma mão sobre seu ombro, o empurrando de ele para trás. O simples toque provoca uma nova onda enfurecida em Dean.
– Está tudo bem Balthazar.
Diz Castiel, voltando sua face confusa à Dean. O moreno nada entendeu. Tudo o que notou foi um estranho ódio brotando em seu amigo, e ele sabia que Dean estava chegando num nível perigoso de impaciência. A fim de evitar qualquer escândalo, Castiel aquiesce, lançando um olhar apologético à Balthazar antes de seguir para fora da cafeteria com Dean, que fica encarando Balthazar até a saída.
Os dois não andam muito, parando no pequeno parque que existia do outro lado da rua. Castiel chamou por Dean algumas vezes, porém ele não respondeu em nenhum momento, apenas pisando fundo e apressado no chão. Até, por fim, girar os calcanhares abruptamente e parar frente a frente com Castiel.
– Porque você estava com aquele cara?!
Dean inquere num tom grosso, fazendo Castiel franzir o cenho em incompreensão. Ele olha para trás n cafeteria, e retorna seus globos á Dean que parece esperar por sua resposta.
– Balthazar? Ele é um colega do trabalho.
Dean lança um sorriso de escárnio, coçando a ponta de seu nariz.
– Claro, Claro. Esse é o mesmo “colega” que te chamou ‘pra sair?
Porque Dean está agindo dessa maneira? Sua voz está bravia, seu corpo inteiro tensionado, emanando ódio, quase como se ele estivesse furioso com Castiel. No entanto ele não consegue enxergar uma razão para essa hostilidade.
– De fato, é ele sim. – responde o moreno, não parecendo intimidado.
Os olhos de Dean tremem com algo que Castiel não consegue discernir, mas ele sente dor, amargura, e receio só de encará-lo.
– Então é isso, uh? Você vai sair com ele? Você vai num encontro com esse babaca?!
– Primeiro de tudo, não o chame de nomes, pois você não o conhece. E em segundo lugar: porque você se importa?
– ‘Tá falando sério?!
– Sim Dean. Eu estou falando sério.
Dean engole seco, porque Castiel não apenas o fita com um brilho de ira em seus olhos, como também ele raramente se altera dessa forma. Então é claro para Dean que Castiel se importa de alguma forma com esse tal de Balthazar. E pensar nisso apenas o enfurece ainda mais.
– É; claro. Porque eu deveria me importar, uh? – ele começa a murmurar num tom sarcástico – Não é como se o que eu penso fosse importante.
Apertando os olhos, Castiel parte seus lábios numa real desordem:
– Do que você está falando Dean? Foi você quem me disse que não se importava se eu saísse com outra pessoa. – fala, usando as palavras de Dean contra ele, o que altera ainda mais os nervos do loiro.
– Então é isso?! Você vai sair com ele?!
– Porque você está tão zangado?
– Eu estou puto, Cas! Você ‘tava flertando com aquele cara!
– E eu não entendi o motivo dessa discussão, porque você não é meu namorado!
Castiel rebate as palavras duras de Dean, e é isso.
Essa é a gota de água que faltava para quebrar a represa que Dean estava retendo há muito tempo. Existem tantas coisas para dizer a Castiel, certas e erradas, palavras que ele não consegue organizar numa única frase, e ao invés de falar com sinceridade o que vem o incomodando nesse último mês, Dean acaba por deixar sua boca o guiar nesse estado de fúria antes que seu cérebro possa:
– Certo, então talvez me avise antes, algo como, “hey, Dean, eu achei alguém ‘pra transar! ’ Desse jeito eu ao menos vou saber que posso arrumar outra pessoa ‘pra fuder também!
Silêncio.
Há silêncio e nada mais. Ninguém ousa proferir um único som que possa quebrar o contato visual no qual os dois se embrenham. Por um momento, Dean fica orgulhoso de si mesmo, pois ele não se deixou mostrar fraco e apreensivo na frente de Castiel sobre como ele realmente se sente.
Mas no segundo passado em que esta frase paira no ar e o que ele acaba de dizer reverbera em seus ouvidos, ecoando como um lembrete do significado que carregavam, ele está chocado com sua própria reação.
Contudo, o que o leva a uma instantânea onda de culpa é a maneira que os olhos de Castiel param de brilhar.
A luz dos globos azulados se foi. Há apenas.... Tormento, frustração, mas além de tudo isso Dean consegue ver dor, uma tão grande que o esmaga como um terremoto abrindo o chão debaixo de seus pés e o arrastando para as profundezas da Terra. Este lindo par de safiras agora demonstram um brilho de dor, como se Dean tivesse acabado de destroçar algo importante dentro de Castiel.
Como seu coração.
A mão de Dean treme, querendo ir à frente e agarrar o outro homem, abraça-lo e falar algo como “desculpe”, talvez, quem sabe, dizer a ele todas aquelas outras palavras que ele verdadeiramente queria o contar. Mas a insegurança o amarra no lugar, sufocando a Dean. A boca entreaberta de Castiel por onde sua respiração pesada passa se fecha numa fina linha, e toda a expressão cabisbaixa e dolorida fere a Dean de uma maneira que ele não achava possível.
Castiel endireita seu corpo, então, com uma expressão estoica. Seus ombros ficam retos, e sua coluna fica numa linha vertical perfeita sem emoção alguma, e logo sua voz sai numa única frase cheia de determinação, que para Dean soa mais como uma sentença mortal:
– Fico grato que você tenha me elucidado sobre nossos encontros anteriores, Dean. Saber que elas eram meras “fodas”.
Merda, não era isso que Dean quis dizer! Merda. Não é nem ao menos isso o que ele pensa sobre esse último mês junto de Castiel! Foi.... É muito mais! Porra! Porque ele foi dizer essas coisas?!
Oh, certo. Por causa daquele babaca com um sotaque idiota de mais cedo que o deixou enfurecido.
– Não é isso, Cas.... – ele fala com uma voz cansada, mas Castiel não o permite continuar.
– Por favor Dean, não me subestime. Você foi perfeitamente claro e eu sou inteligente o bastante para compreender como as coisas eram para nós.
Dean balança sua cabeça com a respiração falha, levantando suas mãos no ar. Cas não está entendendo nem metade da situação.
– Não, Cas—
– Acredito que acabamos, então.
Erguendo sua cabeça, Dean o encara com sua testa se enrugando em várias linhas, uma vez que ele fica incerto do significado dessas palavras – incerto e receoso.
–.... Acabamos?
– Sim. Mas não fique preocupado. Você pode ficar no meu apartamento; eu não guardo ressentimentos dessa forma para o jogar na rua sem um teto onde ficar.
– Cas, que droga você está falando?!
– Simples: você esclareceu perfeitamente nossa relação esse último mês, o que me dá a oportunidade de perseguir um parceiro de verdade, ao invés de construir esperanças sobre algo que nunca existiu.
Parceiro de verdade?
Construir?
Esperança?
Do que Castiel está falando?
Enquanto Dean ainda está tentando compreender o que acaba de acontecer, Castiel se vira para deixar o parquet, mas abruptamente seu braço é preso por um aperto de Dean que o para no lugar. O que surpreende a Dean, contudo, é como Castiel puxa com violência seu braço dos dedos deles, e o encara com um olhar furioso:
– Não me toque. Você não tem mais esse direito.
Engolindo seco, Dean deixa que o corpo de Castiel deslize por seus dedos e se afaste. Sobre a mão ele sente um suave formigamento onde antes estava o calor de Cas, porém agora ele o vê se afastando com pés firmes pela calçada, o deixando de pé sozinho.
Passa-se algum tempo até Dean perceber que ele havia mesmo sido abandonado por Castiel. Ele encara o nada, até que anda para trás e senta-se sobre o primeiro banco de concreto que encontra, se sentindo fraco para respirar, ou melhor ele não acha que é preciso, pois ele sente a própria vida sendo ceifada dele.
É. A morte acabou de chegar e clamar sua vida, porque ele percebe com a queda de um precipício que ele acaba de perder alguém importante por ser incapaz de segurar sua língua. Porque ele não teve coragem ao menos de uma vez na vida admitir o que havia crescido dentro dele por tanto tempo; e Dean foi estúpido o bastante para empurrar emoções reais para longe e mascarar a verdade de si mesmo.
E esta sua cegueira auto imposta, esse seu orgulho irrefreável o fez perder Castiel; não apenas o que poderia ter se tornado seu futuro, mas também seu passado com seu melhor amigo.
Ele o perdeu por inteiro.
Continua
Fale com o autor