Sem Compromissos
14 Capítulo 13 - Quando estiver pronto para lutar ouvirei Eye of the Tiger
Notas iniciais
Capítulo 13 — Quando estiver pronto para lutar ouvirei Eye of the Tiger
– Você vai ficar com essa dor de cotovelo pelo Castiel até quando?
Sam pergunta ao sentar-se na cama ao lado de seu irmão, mas Dean nem ao menos se vira para encará-lo.
Foi uma péssima ideia vir passar os dias na casa de Sam após o fiasco do seu último encontro com Castiel três dias atrás. Seu irmão só sabia o importunar com as mesmas perguntas de novo e de novo, coisas que ele não queria responder tão pouco conversar. Ele sabia que Sam ficaria no seu pé desde quando apareceu à noite com uma mochila em suas costas e cara de poucos amigos.
Após ouvir meias palavras de Dean não era necessário a Sam imaginar mais nada. Ele sabia que Castiel e Dean haviam brigado, e havia sido algo sério, pois aquele olhar de perdido e derrotado era uma expressão que raramente Dean aparentava, guardando tamanha amargura apenas para motivos extremamente sérios.
Seria imprudente da parte dele contatar outra pessoa para lidar com essa situação junto dele, porém após Dean se recusar a comer o jantar e o café da manhã logo no primeiro dia na casa de Sam – e todos sabiam o quão enfatuado por comida Dean é – seu irmão caçula entendeu a gravidade do problema.
Sem perder tempo ele ligou para Charlie, que apenas suspirou contra o telefone, não dando muitos detalhes, mas dizendo a Sam que Castiel estava numa condição parecida em seu apartamento, mas o moreno havia se enfiado no trabalho, parecendo esquecer que o mundo real existia.
Então, é, mesmo que Dean queira socar a cara dele, Sam vai fazer essa mesma pergunta quantas vezes mais forem necessárias.
– Dean, pare com isso. – insiste o maior, ouvindo o outro bufar, apertando as mãos sobre o cobertor.
– O que você quer Sam?!
– Te ajudar. Saber o que aconteceu e tentar achar um meio de consertar as coisas.
– Não tem nada ‘pra consertar Sam.
– Seja lá o que for, você pode—
– Não, Sam, não dá!
Gritando, Dean se desenrola do cobertor e pula para fora da cama, respirando fundo e pesado enquanto bagunça seu cabelo já desgrenhado. Sam apenas o observa, com o cenho franzido.
– Esse tipo de merda não se resolve...
– Pode sim, Dean.
– E o que é que você sabe?!
– Nada! Por isso que eu estou aqui!
– Vai embora, Sam.
Dean pede, engrossando sua voz e abrindo com força a porta do quarto, indicando que não havia mais nenhuma troca de palavras. Apesar de aquela ser a casa de seu irmão, e Dean saber bem que apesar de ser o mais velho, ainda é um convidado ali, ele não tem cabeça alguma para ser educado.
Respirando fundo, Sam se levanta da cama e bate as mãos nas laterais de suas pernas:
– Okay Dean, isso só vai fazer mal a você mesmo.
– Eu sei. Agora cai fora.
Sam deixou o quarto, liberando Dean para aproveitar sua própria miséria. O loiro bateu a porta e logo voltou a se enfiar na cama, deitando-se de lado, cruzando seus braços e encarando a parede monótona do quarto.
Nada do que Sam falasse ou mesmo quisesse opinar adiantaria, porque, sério, como Dean teria condição alguma de ajeitar a burrada que havia feito?
Ele não apenas rejeitou a Castiel. Aquela frase, aquela maldita frase que escapou da sua língua feito veneno humilhou o moreno inteiramente. Foi como se Dean tivesse cuspido e pisado em todas as noites que eles passaram juntos, chamando-as de “fodas”... Deus, essa palavra ficava horrível mesmo em pensamento. Como ele foi se deixar ser guiado pelo ciúme e dizer uma besteira daquelas?
Claro, sua impulsividade sempre foi algo inerente ao gênio de Dean, mas ele devia saber melhor; ele devia ter tratado Castiel com o mínimo de educação, e nem isso ele conseguiu. E tudo parecia ainda mais confuso e perdido agora.
Muito bem Winchester, você conseguiu destruir sua relação com Castiel; e o futuro de qualquer outra possibilidade.
Dean mal conseguia dormir. As horas noturnas eram gastas com a repetição do rosto de Castiel. Foi tão instantânea, a dor que se alastrou nas feições do moreno, contorcendo-se em puro desgosto, como se uma onda efervescente subisse à sua boca e ele se forçasse a engolir a queimação de volta ao estômago. Ver aquela expressão cabisbaixa que não combinava em nada com Cas fez Dean na mesma hora queria o proteger, o abraçar.
Mas ele não tinha esse direto, afinal, era o próprio Dean o responsável por sua tristeza.
As unhas cravaram-se nos seus ombros enquanto Dean abraçava a si mesmo, e ele xingava inúmeros impropérios até não mais conseguir ficar parado, jogando o cobertor para fora de seu corpo e saindo apressado do quarto – da casa de Sam.
Seu irmão nem ao menos conseguiu se aproximar dele, e antes que Sam chegasse à porta da frente, Dean já havia saído com seu Impala da garagem.
Sempre que as respostas lhe pareciam faltar, Dean fazia isso, saindo estrada à fora com seu carro, usando a distração causada pelo volante para se esquecer dos problemas, daquilo que ele não tinha vontade de pensar. Como no tamanho de sua estupidez.
Parecia ser sempre assim, desde a sua infância até hoje. Tudo o que Dean Winchester quer acaba escapando por entre seus dedos. Ele sempre quis ir a um jogo de baseball, mas seu pai nunca tinha tempo para levá-lo, entre os inúmeros empregos e a bebedeira. Foi ele quem teve de pagar pelo seu primeiro ingresso aos dezesseis anos; seu e de Sammy, claro. Dean sempre teve vontade de trabalhar com carros, porém ele queria ter ido além, conseguido uma boa faculdade de engenharia ou mesmo mecânica e aperfeiçoar o que já conhecia. Uma vez mais, ele não podia ter suas vontades, pois tinha de cuidar de seu irmãozinho, já que John mal conseguia cuidar de si mesmo.
Dean queria poucas coisas na vida, na verdade, coisas simples da qual qualquer ser humano deveria ser capaz de ter.
Um bom emprego, uma casa com aqueles quintais onde se tem grama crescendo a semana toda, e se reclama no fim de semana por ter de perder tempo a cortando. Acima de tudo, ele queria alguém para dividir esse pequeno pedaço de felicidade da vida ordinária – mas que a ele era algo soberbo, pois normalidade nunca foi algo permitido a ele.
Apertando o couro do volante, Dean acelerou o carro, entrando na autoestrada e dirigindo mais rápido, para longe, fugindo.
Porque ele queria Castiel junto dele para compartilhar essa casa imaginária, e novamente um desejo seu havia sido arrancado das suas mãos. Pelas próprias palavras estúpidas dele.
O Impala seguiu estrada à dentro, sem rumo; apenas o esquecimento presente no bater do vento em seu rosto era sentido por Dean.
(…)
Quem não conhecia Castiel Novak á fundo, diria que o homem era um trabalhador dedicado. Pela última semana, tudo o que ele fazia era sentar em seu escritório e afogar-se no trabalho. Quando voltava para seu apartamento ele apenas sentava-se na escrivaninha próxima à sala de estar e continuava o serviço de antes. De fato, um funcionário exemplar da empresa.
Já os que conheciam Castiel Novak além da roupagem do empregado da maior empresa de gráficas e traduções do Estado, sabiam da verdade.
Pessoas como Charlie, ou mesmo seu colega de trabalho, Balthazar ou ainda o estagiário Kevin notou as largas olheiras debaixo dos olhos que Castiel tentava disfarçar pondo seus óculos de leitura, mas que não passavam despercebidos dos olhares atentos. Estes seus amigos e conhecidos próximos sabiam também que ele trabalha até tarde todos os dias, pois voltar ao seu apartamento era uma tortura sem igual.
Tinha o cheiro de Dean, o seu fantasma navegando pelas gavetas da cozinha ao preparar o jantar; Deus! Como Castiel sentia falta da comida que ele fazia, não apenas pelo fato de ser deliciosa, mas sim porque a refeição fora cozinhada por Dean para eles, e mais ninguém.
Jogados em alguns cantos de seu apartamento também estavam pequenas coisas que Dean, ou esquecera propositalmente, ou nem ao menos se importou em levar consigo. A fita cassete que ele ouvia às vezes quando estava na varanda consertando alguma pequena peça de motor, ou ainda parafusos, ferramentas, uma latinha de óleo pela metade que lembrava à Castiel do perfume almíscar de Dean, cheirando a couro, pinheiros e esse aroma de óleo....
Castiel detestava ficar em seu quarto também, porque no emaranhado das cobertas ele podia ver desenhado o corpo de Dean, esparramado no colchão enquanto dormia. Na verdade, ele enxergava aos dois deitados naquela cama, entre conversas tolas, risos e trocas de carícias – ou algo mais, igualmente.
Voltar para sua casa era uma tortura.
Então Castiel passava a maior quantidade de horas na empresa. No terceiro dia, contudo, seu cansaço já havia atingido um nível extremo. As palavras na frente do computador se embaralhavam, e nem o copo de café estava ajudando.
– Problemas no paraíso?
Erguendo depressa a cabeça do meio das mãos, onde Castiel apoiava a testa, ele voltou-se à porta de seu escritório, vendo Balthazar de pé, segurando duas canecas em sua mão.
– Trouxe um para você. Café preto, sem açúcar, certo?
– Obrigado. – Castiel responde baixo, bebericando da caneca e suspirando – Mas creio que nem ao menos isso será capaz de me despertar.
– Precisa dar uma volta. Espairecer a cabeça.
– Tenho muito trabalho ainda.
– Bobagem! Venha de uma vez!
Num único suspiro exausto, Castiel deixou seus óculos na mesa e se levantou, acompanhando Balthazar para fora do prédio sem mais discussões. O cansaço já era demais para qualquer protesto.
Indo até área externa do escritório, eles puderam respirar um pouco de ar fresco do jardim suspenso que havia na pequena varanda. Algumas outras pessoas saiam dali, deixando-os sozinhos.
Castiel respirou fundo, apertando a têmpora dom o indicador e o polegar, suspirando uma vez mais.
– Eu queria poder dizer que estou triste por você, mas de fato, não estou de todo o modo.
O comentário de Balthazar faz Castiel dar um riso forçado, voltando o olhar a ele:
– Você disse que torceria para não dar certo, não é mesmo? – Castiel fala.
– Oh, bem, competição é competição. – ele dá de ombro, indo um passo à frente do moreno – Só sinto muito que aquele idiota te deixou assim.
–.... Não o chame de idiota.
Castiel queria, muito, chamar Dean de idiota, de insensível, de um verdadeiro babaca. Mas ele não conseguia ouvir outras pessoas falando assim dele. Já havia se tornado um mecanismo de defesa: falem ou façam algo contra Dean Winchester, e sofram as consequências nas mãos de Castiel.
Ele estava mesmo louco.... Louco, com raiva de Dean e ainda apaixonado por ele ao mesmo tempo. Malditos sentimentos conflitantes que—
Num rápido susto, Castiel tem os pensamentos cortados quando seu corpo é levado contra a parede atrás de algumas plantas altas. Ele sente o peito ser pressionado pelo de Balthazar enquanto os dois ficam com os rostos a centímetros de distância.
– Balthazar, o que...?
– Você deveria parar de gastar seus lindos neurônios com ele. – Balthazar fala, arrastando a mão sobre o ombro de Castiel e parando os dedos em seu queixo – Um encontro e algumas horas fora daqui, e vamos só nos divertir e esquecer dos problemas.
A proposta é realmente tentadora. Relaxar, não pensar em Dean é tudo o que Castiel mais quer. Mesmo que uma parte sua o diga para fazer exatamente o contrário.
– Minha mente está muito conturbada agora, Balthazar.
– Exatamente por isso... – responde, aproximando o rosto – Você precisa parar de sofrer por alguém que só te feriu, Castiel.
– Eu...
– Tudo bem, Castiel. Eu não machucaria você. Jamais.
Sobre sua boca, Castiel sente a de Balthazar se colando num beijo casto. O loiro experimenta estalar novamente seus lábios, e dessa vez consegue arrancar uma reação pequena de Castiel, que põe ambas as mãos sobre seu peito, fechando os olhos.
São lábios pequenos, os de Balthazar, mas não menos habilidosos. Eles beijam ávidos a Castiel, procurando com a ponta da língua separar a boca do moreno e assim encontrar a dele. Por sorte, as plantas de folhas largas os encobrem da visão dos demais funcionários, porém Balthazar mantém o decoro, apenas provando da boca de Castiel.
É uma textura diferente, menos macia e quente, porém mais sedenta, como se buscasse conseguir o máximo de Castiel, lambendo o céu de sua boca, rodopiando a língua. Um toque tão diferente do calor; da profundidade dos lábios de Dean.
Num sobressalto, Castiel abre seus olhos e empurra a Balthazar levemente. Os dois respiram apressados, e o moreno abaixa sua cabeça, quase encostando a testa no ombro de Balthazar.
– Você está bem, Castiel?
Pergunta ele, ouvindo uma breve respiração vinda do outro:
– Preciso de tempo para... Toda a minha vida se ajustar, Balthazar. – levantando o queixo, então, Castiel o fita, partindo os lábios – Não quero pensar em encontros, ou relacionamentos, eu só... Só—
– Precisa de um tempo para você mesmo?
–.... Para me curar.
Admitir a outra pessoa que Castiel tinha de esquecer essa paixão que desenvolvera por Dean parecia mais fácil do que dizer a si mesmo; do que aceitar a verdade densa de que ele e Dean são apenas amigos – ou nem isso. É mais fácil enganar a si mesmo de que está tudo bem, ele consegue fazer isso, quando de fato, todas as suas energias se perdem com horas mal dormidas no sofá de seu apartamento, porque o quarto cheira tanto a Dean que é cruel demais ficar na sua própria cama.
Cedo ou trade, porém, ele precisa erguer a cabeça e seguir em frente. Talvez se ele se esforçasse, se ele conseguisse apagar as memórias de Dean, desse mês no qual eles foram algo mais.... Talvez fosse possível o perdoar. Ou ao menos pensar noutras possibilidades, como Balthazar.
Foi no meio dessas constatações que Castiel notou a pequena distância entre ele e Balthazar ser desfeita uma vez mais, contudo, ele não mirou em seus lábios, mas sim no canto de sua boca, depositando ali um beijo suave.
– Quando quiser me ligar, Castiel, meus dedos estarão prontos para atender o celular.
Dando um meio sorriso, Castiel se afastou no então amigo, pedindo licença e retornando primeiro para a parte interna do seu escritório.
Ao sentar-se na sua mesa, ele reparou que as canecas de café velho já tinham sido removidas, e no seu lugar tinha uma xícara de chá de camomila. “Kevin”, ele logo pensou, querendo recomendar o garoto para ser efetivado na empresa o mais depressa possível. Além de inteligente, ele sabia ser atencioso.
Religando a tela do computador ele rapidamente parou sobre seu e-mail. Havia uma mensagem de Charlie, o chamando para uma noite de chocolates e filmes em sua casa, além de “tudo o que você precisa de mais gordurento para entupir suas artérias e te fazer esquecer das dores da vida”.
Mesmo com apenas aqueles pequenos gestos, Castiel pode sim sentir-se melhor, reconfortado por estes amigos dos quais nem sempre estavam presentes, mas faziam de tudo para o ajudar. Mesmo Balthazar e suas maneiras mais “diretas e invasivas”.
Ele ia ficar bem.
(...)
Foi por volta da uma da manhã que Dean retornou a casa de Sam. Ele cheirava a álcool, o que nunca era um bom sinal. Seu irmão nada disse, apenas suspirando e agradecendo por Dean não ter feito nenhuma besteira com o carro. As vezes ele realmente não sabia como lidar com os próprios sentimentos.
Às vezes? Não. Coloque nessa conta quase sempre em todos os seus trinta anos de existência. Querer conversar com Dean sobre emoções era o mesmo que tentar falar com uma pedra.
Jogando-se na cama, Dean mal removeu os seus sapatos e já havia se entregue ao sono, quando ouviu uma baixa batida na porta. Ele praguejou, pondo o travesseiro sobre seu rosto, mas isso não serviu para impedir a pessoa – que ele acreditava ser Sam – de entrar no quarto. Bufando, ele se vira quando nota o peso de alguém se sentando ao seu lado na cama, já pronto para mandar seu irmão ir à merda, quando é surpreendido pelo olhar de Jessica.
Apertando bem os lábios, Dean se vira de volta para o colchão:
– Sam te mandou vir aqui? – diz, mais duro que que havia pensado.
– Não seja bruto desse jeito.
–... Ele te mandou ou não?
Jessica suspira, pondo as mãos sobre seu colo:
– Sim e não. Eu perguntei a ele se podia falar com você, e Sam respondeu que eu poderia tentar minha sorte.
Rindo contra seu travesseiro, Dean mostra apenas a ponta de seus olhos a garota, bufando ao perceber que ela falava sério.
– Não tenho nada ‘pra te falar que o Sam já não saiba.
– Saber é uma coisa, te ouvir dizendo é outra, Dean.
– Eu detesto falar.
– Por isso mesmo.
– E o que você quer ouvir, uh?!
Dando um pulo na cama, Dean se senta da maneira mais torta possível, encostando-se á parede enquanto as pernas ficam cruzadas na frente do corpo. As mãos gesticulavam no ar enquanto ele fala, ainda se sentindo zonzo pela bebida:
– Quer me ouvir dizendo que eu fiz merda?! Porque isso já não é novidade ‘pra ninguém!
– Dean...
– Vamos lá! Todos vocês sabem como eu sou uma bagunça em forma de gente que diz merda quase o tempo todo!
– Mas não todo o tempo. – rebate a loira.
– Urg!
Batendo suas mãos contra seu rosto, Dean deixa seus braços caírem no meio de suas pernas e então ele vira seu rosto para o lado, tentando olhar para a janela e a pouca luz vinda do lado de fora.
– Me deixe ficar quieto, Jess...
– Esse é seu problema. – a garota fala, enquanto Dean continua a evitando — Você acha que porque ninguém fala nada tudo está bem, mas as vezes o silencio é sinal de problemas Dean; não falar, não conversar nem sempre é a solução, pelo contrário: pode ser o fim de muitas coisas.
Sentindo como se uma faca fosse arremessada direto em sua garganta, Dean fecha seus olhos e respira fundo, achando graça de toda aquela situação inusitada; porque Jess conseguia ser tão irritante quanto Sam às vezes, mas a loira tinha a vantagem de ser tão calma, com uma presença aconchegante, que Dean não conseguia ser bruto, ao menos não agora, depois de tudo...
– Sempre que eu abro minha boca... – Dean balbucia, desistindo da luta contra as palavras – Só escuto besteiras; coisas idiotas e que machucam os outros. O que eu faço, digo, penso.... Parece que tem sempre alguém que sai machucado.
– Você não pode proteger o mundo das suas palavras, Dean, mas pode começar a ser sincero com você mesmo e as outras pessoas. Às vezes é tudo o que basta.
–.... Como assim?
– O que você falou ao Castiel não foi, nem perto, o que você realmente pensa, eu sei disso. Alguma coisa aconteceu que te fez agir dessa maneira; de um jeito que não o seu verdadeiro.
Dean nada fala, perpetuando o silêncio do quarto. Ele ouve Jéssica suspirando, como se ela apenas estivesse experimentando ao vivo o que acabara de dizer; esse receio das conversas que Dean possuiu tão intrínseco nele.
– O que você queria dizer ao Cas, Dean? Realmente?
Apertando bem os olhos, Dean começa a ignorar a presença de Jéssica. Ele abstrai de sua mente todo o quarto, a casa de Sam, os sons da rua, ou mesmo dos pequenos insetos que fazem barulhos irritantes após a meia noite. Tudo somo, até mesmo a luz, e era como mergulhar na escuridão, num lugar escondido do mundo só dele, onde Dean podia fingir não ter nenhum grilhão o prendendo. Nenhum freio ou interrupções. Apenas ele e mais nada que pudesse apontar o dedo, julgá-lo, ou mesmo feri-lo.
Ele sente o álcool queimar na boca do estômago. As mãos se apertam sobre suas coxas e ele suspira, deixando o murmúrio atravessar os lábios, com o ar da frases batendo contra sua boca:
–.... Que eu o amo...
– Então diga isso a ele!
Jessica fala num tom alto, quase pulando na cama, o que alerta Dean e o emerge de volta ao mundo real. Ele sente seu rosto arder com a vergonha do que acabara de admitir, e então.... Então ele já tem a insegurança de novo ao seu lado.
– Não importa agora. Eu já fiz merda...
– Dean Winchester, seu grandessíssimo idiota cabeça dura!
Batendo contra a coxa de Dean, Jéssica o vê contorcendo a face, xingando um “filha da mãe” baixinho, antes de voltar a encará-la. A repreensão de Dean morre na garganta uma vez que ele se depara com o olhar firme de Jéssica:
– Escute bem o que eu tenho ‘pra te falar, Dean: você tem uma oportunidade única aqui de ficar ao lado de quem você ama, e tudo o que você precisa fazer é arrumar um jeito de mostrar isso a ele! De dizer ao Castiel como você sente muito! Então pare de se lamentar pelos cantos e comece a fazer alguma coisa!
Pondo as duas mãos sobre a cama, Jéssica fica com o rosto bem próximo de Dean, que apenas engole seco, não conseguindo desviar daqueles olhos azuis da garota:
– Mexa essa sua bunda deprimida e faça alguma coisa, ou você vai perder o Cas. Dessa vez ‘pra sempre.
Pelo pequeno brilho de desespero instalado na íris de Dean, Jéssica acredita que alcançou seu objetivo ao assustá-lo o bastante, até o empurrar do precipício, onde ele tem de: ou aceitar a queda, ou arrumar um meio de se prender e continuar vivo.
Levantando-se da cama, Jessica para ao lado da porta, respirando fundo antes de deixar Dean com um último pensamento:
– Só pergunte a si mesmo Dean: é dessa maneira que quer terminar as coisas com Castiel?
Um nó se forma na garganta de Dean e ele apenas consegue encarar a porta vazia, com Jéssica já do lado de fora, e aquela frase ressoando em seus tímpanos.
Já se passou quanto tempo mesmo? Dez? Quinze? Mais que isso.... Há quase vinte anos Dean e Castiel se conhecem, são amigos, contam um com o outro para qualquer tipo de situação. A confiança é tremenda. E de alguma maneira estúpida Dean conseguiu extinguir isso.
Ele quer outra garrafa de Whisky.
Não, não é isso o que ele quer.
Atrapalhando-se com as cobertas, Dean as empurrada para fora da cama junto do travesseiro e começa a tatear o colchão em busca do seu celular. Tão logo o encontra, ele disca os números que já sabe de cor, e então espera o toque da chamada.
Ele espera, e espera, e há um nó se formando na sua garganta outra vez, pois uma coisa é saber o que queria e tomar uma atitude, outra completamente diferente seria encarar de frente essa situação. Porque, o que diabos ele ia falar com Castiel numa hora dessas?! Ele devia desistir, desligar o aparelho e tentar dormir em sua miséria, ele—
– Você ligou para... ‘Eu não entendo porque você quer que eu diga meu nome?’, após o sinal, deixe seu recado.
Dean engoliu seco com a voz da secretária eletrônica, seguida da frase incoerente e gravada de Castiel, da qual ele riria se as circunstâncias fossem outras. Foi então que Dean percebeu que ele estava lidando com uma máquina, que tinha poucos minutos para gravar a besteira qualquer que ele pensa em dizer a Castiel.
Ele olha para o relógio. São quase duas da manha, porém é sexta-feira, e Dean conhece bem a rotina de Cas para saber que ele está acordo a essa hora, provavelmente assistindo a algum documentário no sofá do apartamento.
– Cas, por favor, atende seu telefone.
Dean pede, sabendo que ele poderia ouvir sua voz saindo no auto-falante do celular de Castiel.
– Eu sei que você ‘tá vendo algum documentário na televisão.
Mais silêncio, e Dean suspira, segurando o celular com ambas as mãos.
– Por favor, Cas, eu preciso falar com você.
Há o som de um bipe vindo do outro lado da linha, e Dean quase se resigna a derrota, mas então a voz grossa de Castiel ecoa em seus ouvidos:
– Se esta conversa está relacionada ao que aconteceu nesse último mês, eu não quero ouvir.
Entreabrindo os lábios, Dean procura por uma desculpa rápida, contudo as frases se embolam na língua:
–... Não... É? Merda, Cas…. Eu só…. Eu só sinto a sua falta.
– Sente minha falta ou a maneira que nós “fodíamos”?
Ele rebate, seco, e Dean silva, fechando os olhos com força.
– Deus, Cas! Isso saiu, tão, tão errado! Eu não quis dizer aquilo.
– Ainda sim você disse.
– Eu sei... E eu sinto tanto; você não faz ideia, cara.
–... Eu também sinto muito, Dean.
Apertando bem os olhos, Dean bate os lábios um no outro, piscando depressa ao perguntar:
– Sobre o que?
A respiração pesada de Castiel bate contra o telefone, e Dean sabe que ele está passando a mão sobre seu rosto, querendo lutar contra si mesmo e a resposta que não quer dar a Dean; mas sabe que precisa.
– Por permitir que isso acontecesse.
Castiel fala, e isso apenas confunde a Dean ainda mais, que franze o cenho:
– Permitir o que?
– Qual é, Cas, não pare de falar agora!
– Cara, eu me sinto como um pedaço de merda....
– E como você acha que eu me sinto?!
– Eu não sei! Você não quer mais falar porra nenhuma comigo!
Silencio. Muitos minutos de silêncio se passam, até que Dean escuta uma extensa bufada vindo do outro lado, e ele quase derruba o celular no chão quando Castiel volta a se comunicar com ele, usando uma voz cabisbaixa e tão, tão diferente do rompante de raiva de segundos atrás:
– Eu sinto sua falta todos os dias, Dean.
Engasgando, Dean deixa os lábios partidos sem conseguir se mover, querendo responder alguma coisa – qualquer coisa – porém antes que ele possa realmente agir, Castiel o faz primeiro, continuando a falar, e a cada coisa que Dean escuta, seu coração pula feito uma máquina louca em seu peito:
– Sinto falta de falar com você.
– Sinto falta de te ver no meu apartamento.
– Sinto falta das nossas conversas; Sinto falta da forma que podemos sentar no mesmo quarto sem nos falar por horas, e mesmo assim não ficamos desconfortáveis.
– Sinto falta do meu amigo... Tenho sentindo tanto sua falta Dean, no entanto eu nem tenha mais essa amizade por que...
–... Por quê?...
Dean repete a última palavra, apreensivo, querendo saber mais, ouvir mais, para que Castiel continue. Merda! Isso está o matando!
Lambendo os lábios devagar, Castiel solta outra baforada contra o telefone, como se estivesse cansado, como se precisasse reunir todas as suas forças para admitir uma única verdade:
– Por que... Eu me apaixonei por você. E por essa razão eu perdi meu melhor amigo.
Há uma grande falta de ar no quarto onde Dean está. Ele não consegue evitar que a pequena chama de esperança brote no meio da sua mente e ele pensa que talvez haja uma maneira dele consertar as coisas com Castiel.
Até que esse fogo é eliminado com as próximas constatações de Castiel, que não o deixam falar nem por um segundo:
– Mas eu não quero sentir nem mais um segundo disso. Eu não quero me sentir assim em relação á você, porque dói. É uma ferida em mim que tenho certeza ninguém será capaz de preencher.
– Cas, não... Não diga isso...
“Não diga que você quer outras pessoas. Não diga que você desistiu de mim...” Dean morde seu lábio inferior pensando no que poderia dizer, balançando a cabeça para os lados, mesmo que Castiel não o veja.
– Preciso ficar sozinho, Dean. Talvez algum dia vá embora; esse sentimento. Quando este dia chegar, eu entrarei em contato com você.
– Não, que se foda Cas! Eu não quero isso!
– Não faz isso cara, vamos conversar sobre essa porra toda!
– Qual é; você não pode estar falando sério!
–... Cas?
– Após tudo que aconteceu você irá me negar o direito de amargurar? De tentar me curar... De você?
Curar-se de Dean, daquilo que ele causou a Castiel, do que ele fez com seu melhor amigo, a pessoa que ele... A pessoa que ele ama.
Dean quer escrever em todas as paredes do quarto, gritar aos quatro ventos e dizer a Castiel como ele realmente se sente; dizer que o ama, que ele o ama tanto que dói ‘pra cacete o ouvir dizendo que Dean o machucou.
E se Dean tem o peito amassado e retorcido com apenas essa frase, ele se sente ainda pior em pensar que deve; que tem o direito de pedir perdão a Castiel. Não agora, não quando ele não merece receber nem ao menos o mínimo de afeto do moreno. Pensar que Castiel deve estar num estado ainda maior de rejeição, sentindo-se usado e humilhado por Dean...
Ele não pode dizer a ele, não agora, não com tantos erros para consertar. Dean não é covarde para ignorar os fatos e se isentar da culpa, porque é sim, em grande parte sua culpa, o desencontro no qual eles estão submergindo. Ainda assim, há apenas uma última coisa que ele precisa deixar claro:
–... Vou sentir falta de cada segundo sem você.
No clique no telefone que encerra a ligação, Castiel arregala os olhos e encara o aparelho, mostrando os minutos gastos no telefone com Dean enquanto seu nome ainda pisca uma última vez na tela. Seu peito pula uma batida ou duas. Dean... Esse homem pelo qual ele se apaixonou tão enlouquecidamente, o mesmo homem pelo qual possuía um turbilhão e raiva dentro de si havia acabado de falar palavras tão doces...
È impossível evitar que a euforia tome conta do seu coração, batendo rápido com tamanha afeição crescendo, ao mesmo tempo em que se odeia por isso; por ainda desejar a Dean.
Seus longos dedos arrastam-se sobre a tela do telefone, parando sobre o nome de Dean. Castiel respira fundo, fechando seus olhos. Sobre o nome há um botão vermelho, e Castiel precisa reunir forças para fazer algo tão simples, mas que na verdade implicam reações muito maiores suas.
O dedo paira sobre o botão vermelho “deletar”.
No último segundo, porém, Castiel solta o ar pela garganta, ardendo e dolorido, escolhendo por silenciar as ligações de Dean. “Deletá-lo” de sua vida parece ser mais complicado do que pensara. Mas por hora ele precisa de silêncio, ele precisa ficar sozinho... Para poder se esquecer desse último mês...
(…)
Na segunda de manhã Dean só consegue pensar em como quer desesperadamente consertar tudo, ajeitar sua relação com Castiel e, quem sabe, preencher o buraco que criou no amigo por conta de sua estupidez. Afinal, ele já havia pulado a fase de negação, aceitando, por fim, essas emoções das quais Dean tanto foge.
E por essa razão ele precisa tentar. Ele não pode desistir. É sempre ele quem se desapega das coisas primeiro, que nunca se preocupou em procurar por um relacionamento com ninguém, especialmente por pensar que esse tipo de felicidade não podia ser sua.
Claro, ele quer uma família, mas quem iria o querer? Um desistente da faculdade que cheirava a óleo de motor por metade do dia, com um cérebro do tamanho de um feijão. Todas as coisas que ele sabe são relacionadas a conhecimentos fúteis, como shows de televisão, ou quadrinhos, ou comida. Ele não é uma pessoa muito inteligente; Dean nunca dedicou seu tempo com ele mesmo, preferindo usar suas mãos e o trabalho pesado para ajudar seu irmão e a quem mais precisasse.
Seu trabalho foi sempre o de cuidar de Sam, tendo certeza de que ele não precisaria seguir o mesmo caminho que o seu, porque Dean já estava nesse trajeto. Se ele pudesse ver Sam crescendo num homem feliz e bem sucedido, então o trabalho de Dean estava feito.
Então é claro que lhe é um mistério a razão de Castiel gostar dele. O que ele enxerga em Dean que é tão bom, que faz até mesmo com que Cas sofra por não tê-lo.
Dean não sabe. E nessa altura, já não mais importa.
Tem alguém que o quer por ele mesmo, do jeito que ele é – talvez menos a parte onde sua língua entra na frente do cérebro. Mas sim, tem um louco nesse mundo que por qualquer obra do destino escolheu a Dean para se apaixonar.
Dessa vez... Dessa vez será diferente, porque ele também quer a essa pessoa. E talvez pela primeira vez em sua vida, Dean está disposto a lutar por si mesmo, em ser egoísta ao querer Castiel. Mas ele irá fazer o seu melhor para merecê-lo.
No entanto, realmente, o que Dean possivelmente faria para que Castiel entendesse o quanto ele sente? O quanto ele é importante? O quanto ele não quis dizer nenhuma daquelas palavras infundadas, movidas pelo puro e completo ciúme? Ou ainda: como Dean pode mostrar a Castiel o quanto ele está desesperadamente apaixonado por ele?
Começa com uma ideia simples, maturada durante o final de semana, mas no instante que Dean põe suas mãos sobre o projeto, ele concentra-se de imediato.
Benny, Garth e Bobby o ajudam a coletar todas as peças do ferro velho, materiais que não mais são necessários em carros. Sam, enquanto isso usa seu intelecto para ajudar a Dean a construir seu pequeno projeto. Tudo só precisa ser perfeito, ou o mais perto tudo, do contrário não terá significado algum para Castiel.
Dean pega seu celular e desliza o dedo sobre a tela, apertando sobre uma música para ouvir enquanto trabalha. “Eye of the tiger” sai dos auto falantes. Ele recebe uma expressão desgostosa de Benny, Garth e mesmo Bobby, mas ele não irá explicar suas escolhas. É um clássico do rock, e é uma música que ele gosta de ouvir quando está fazendo algo importante, algo que importa. Algo pelo qual ele está disposto a lutar.
Continua
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