Seu nome era Angel Hope Adams. Ela era completamente diferente de todas as outras garotas da escola. Seu cabelo negro estava sempre preso a duas tranças que escorriam de cada lado de sua face inexpressiva. Ela quase nunca sorria, e quando o fazia era apenas com os lábios. Era uma espécie de sorriso diferente, sarcástico, maldoso, cruel, irônico, como se ela se encaixasse num padrão melhor do que o do resto dos alunos. Seus cílios eram longos e ela usava delineador, o que tornava impossível não olhar em seus grandes olhos negros e desafiadores. Ela era extremamente pálida. Sempre usava o mesmo batom preto, o que dava a ela um ar ainda mais assustador. Logo que chegou ganhou o apelido de ‘Senhorita Adams’, já que todos os alunos da escola viam uma grande semelhança entre ela e a filha mais velha do casal do filme A Família Adams. E para piorar a situação, o seu sobrenome era o mesmo. Havia quem dissesse que ela era mesmo da família Adams, ela nunca teve nenhum amigo, não era de falar muito e na hora da chamada apenas levantava a mão. Sua voz era um murmúrio e raramente era ouvida.

Os colegas de classe caçoavam dela, pareciam monstros. Não tinham pena da pobre garota. Ninguém sabia ao certo sua idade, mas se encaixava no padrão dos doze ou treze anos, ninguém sabia ao certo onde morava, porém alguns até tinham a audácia de dizer que ela havia vindo do INFERNO.

Mas foi no dia do baile que se arrependeram cruelmente de tê-la chamado de qualquer nome que fosse.

Naquele dia, eles haviam se reunido mais cedo na escola para planejar o que fariam com Angel, eles planejavam dar um belo susto nela. Lícia, a líder do grupo, propôs que a trouxessem até o lago atrás da escola, não teria problema em dar um banho e tentar limpar aquela maquiagem horrível que ela usava. Alan, para chamar a atenção de Lícia, concordou com a ideia, mas também quis que antes deixasse ele se divertir um pouco com a cara da garota. E esse foi o plano traçado.

Angel não tinha a mais remota ideia do que ocorreria naquela noite, e quando foi convidada pela melhor amiga de Lícia para uma festinha particular atrás da escola, quase não acreditou. A inocente garota aceitou imediatamente, e junto de outro amigo de Lícia e Alan, abandonou a festa e foi para a parte de trás da escola. Apesar de surpresa por ser convidada para ficar com o grupo ‘alfa’ da escola, Angel não expressou nada, apenas assentiu com a cabeça e seguiu com eles para o local.

Porém, mal atravessou o muro que separava a quadra da escola, sentiu mãos fortes e agressivas puxarem suas tranças tão bem arrumadas. E logo as risadas começaram.

Alan conseguiu desmanchar as graciosas tranças de Angel e havia torado os dois pequenos e sensíveis elásticos usados para prender o rabo das tranças. Pela primeira vez, para a surpresa do grupo, Angel falou alto. Na verdade ela gritou.

- O que está fazendo, seu estúpido?

Porém Alan e os outros só se divertiram mais ainda com a cena.

- Então você fala? – ouviu a voz de Lícia. – Fala de onde você saiu... Monstrengo.

Angel sentiu um puxão forte em seus cabelos.

- Fala de onde você veio! – Lícia agora gritou. – Você é ridícula, garota. Dá nojo tocar em você.

Angel ouviu as risadas dos outros, sentiu o gosto salgado de uma lágrima no canto da boca. Gritou.

- Cale a boca – ouviu a voz de Alan. – Vão descobrir a gente desse jeito.

Voltou a gritar.

- Faça-a se calar, Lícia – um dos garotos ordenou.

Lícia chutou com o joelho o rosto de Angel e a jogou no chão.

- Olha só, agora seu rosto não está mais tão pálido assim.

- Ih, ela tá chorando, pessoal – uma voz feminina gritou.

E logo começaram a rir novamente.

- Você é um lixo, Adams. Quem é a idiota da sua mãe? Deve ser muito burra pra te chamar de Angel. Angel de que mesmo...? Hope. Esperança. Será que você não tem nada que preste, garota? – Lícia chutou sua costela.

Então se virou para trás, para procurar Alan.

- Você disse que queria se divertir um pouquinho com ela, Alan. Venha até aqui.

Esse foi o tempo necessário para que Angel se levantasse e corresse ladeira a baixo. Porém alguém a segurou a tempo e Alan se aproximou.

- Pra onde você vai, garotinha? Nós ainda não acabamos.

- Me largue, por favor – a garota suplicou.

Mas Alan apenas riu.

- Vamos ver quantas peças de roupa você usa. Porque não importa como o tempo esteja, você sempre está usando esse casaco de lã fedido – ele puxou bruscamente o casaco preto da garota, rasgando uma das mangas.

- Não! Pare!

Os outros haviam formado uma pequena rodinha envolta deles dois e se mantinham rindo e caçoando da garota.

Alan jogou o casaco de lã no chão, enquanto com a outra mão desabotoava a camiseta branca, então, já na metade, com a blusa cinza embaixo desta a mostra, ele parou.

- Ah, é. Você sempre usa essa coleira, não é? – ele mencionou o colar, que realmente parecia uma coleira negra no pescoço de Angel. Então tentou arranca-lo, mas foi tão rude nesta ação que quase a estrangulou.

A roda envolta deles se apertou mais e as risadas aumentaram. Por fim Alan conseguiu arrancar o colar.

- Agora sim, podemos continuar – ele disse, arrancando o resto da camiseta de Angel.

- Alan, pare! – ela gritou, tentando apanhar sua camiseta do chão.

Mas então algo acertou suas costas. Alguém puxou seu cabelo.

- Alan! Pare – alguém que não era Angel gritou. – Isso é demais.

- Tudo bem se você quer tomar banho de roupa, então – ele ignorou e saiu arrastando-a pelos cabelos ladeira a baixo, rumando para o lago, não muito longe dali.

Angel gritava loucamente de dor, enquanto os outros iam atrás, chutando-a e empurrando-a. Ao chegarem à beira do lago, Alan largou-a e tirou seus sapatos. Angel tentou se levantar, mas sentiu mãos firmes de outro garoto prendendo-a no chão.

- Sua maquiagem é a prova d’água? – ouviu a voz de Lícia perguntar.

- Aposto que não, deve ser mais um daqueles materiais baratos – outra garota respondeu.

- Ela deve ter comprado num circo – agora era um garoto que falava. E isso atraiu a risada de todos, inclusive de Alan, que arrastava a garota pelas pernas até o lago.

Ela sacudia as pernas, seu corpo ricocheteava, suas unhas se cravaram na areia e puxaram a grama que estava acabando e dando lugar a água escura do lago.

- Olha! Parece um peixe fora d’água, leve-a para dentro depressa, Alan.

Angel gritou e tentou se levantar, tirando o equilíbrio de Alan, que soltou suas pernas por meros cinco segundos. Então braços firmes a seguraram de volta e ela foi esmagada contra o chão. Levantou a cabeça, e pelo pouco que conseguiu, captou o rosto do seu agressor. Estava escuro, mas a luz clara e um pouco forte que vinha do ginásio iluminou um pouco o rosto pálido e os cabelos castanho escuro do garoto. Uma coisa Angel reparou: os olhos estranhamente azuis, de um tom parecido com os de Alan, porém mais escuros. E então voltou a ser arrastada.

A água penetrou no seu nariz e logo ele começou a arder, Angel tentou levantar a cabeça, mas Alan ia cada vez mais para o fundo e logo tornou impossível respirar naquela profundidade. A água era fria e escura. Sentiu suas pernas serem libertadas e seu corpo foi empurrado para longe, a correnteza ajudou. Angel tentou colocar a cabeça para a superfície, e quando o fez, viu apenas a sombra de Alan se afastar em direção a margem. Tentou colocar os pés na areia, porém percebeu que não estava mais no raso, a correnteza a arrastava cada vez mais para o fundo e logo se tornou impossível ficar de pé dentro do lago. Angel começou a engolir água sem parar, o ar começava a lhe faltar nos pulmões e o desespero a dominava completamente.

- Soc-socor – tentou falar, porém ao abrir a boca ingeriu mais água. – AAH! – conseguiu gritar.

Alan parou e se virou para ela.

- Socorro! – conseguiu falar concretamente, por fim. – Eu não sei... Não sei... – mais água foi engolida.

- Alan! – alguém gritou. – Volte até lá, já chega!

Alan não deu ouvidos, continuou parado, olhando a cena.

- ALAN! – o garoto voltou a gritar. – Ela vai se afogar.

Angel continuava engolindo água, perdendo ar, perdendo os sentidos. Então o garoto empurrou Alan e entrou no lago, estava na hora de pôr fim na brincadeira. Ele tentou ir contra a correnteza, tentou enfiar mais os pés na areia para que não se afogasse também. Porém quando se aproximou da garota tudo que recebeu foi uma forte pancada, um chute na barriga e logo ela estava se agarrando a ele. Angel empurrou a cabeça do garoto para baixo da água e se apoiou nele para respirar.

- Não! – Alan pareceu sair do transe. – Largue ele, monstro!

O garoto tentava se largar, tentava voltar à superfície, porém ela empurrava-o cada vez mais para baixo. Até que o sentiu ceder e seu corpo relaxou, escorregando para a areia. Angel caiu novamente e mergulhou. Agora ela estava perdendo o ar. Viu a silhueta do garoto abaixo de si, ele havia desmaiado.

Tentou subir a superfície diversas vezes, viu em uma delas que Alan havia voltado e estava retirando o garoto de lá. Tentou alcança-lo também, mas ele foi mais rápido e com a ajuda de outro garoto, tiraram o menino que havia tentado salva-la da água. Angel voltou a perder o ar, e voltou a gritar. Mas dessa vez ninguém fez nada, estavam ocupados demais tentando trazer o garoto desmaiado de volta, o sacudiam sem parar e gritavam para que ele acordasse.

Angel tentou gritar mais forte, porém eles estavam voltados para o menino desmaiado. Aos poucos Angel foi perdendo os sentidos, e então... Tudo ficou escuro para a pobre garota. Ela não havia feito mal a ninguém, não em sua vida.

- Q-Quem está aí? – ele se levantou da cama, olhando para a porta.

Mas o barulho não vinha da porta, vinha de dentro do quarto. Do banheiro.

- Mãe? – ele perguntou. Sabia que era impossível ser sua mãe, era 00 hora e 15 minutos, sua mãe estava dormindo desde as oito.

Ele se aproximou mais do banheiro, devagar. Então ele reparou que a janela estava aberta, as persianas voavam com o vento forte. Ele foi até lá e as fechou cuidadosamente, então o barulho retornou. Parecia vidro... Quebrando. Virou-se rapidamente para a porta do banheiro quando viu a figura sair. E então sua respiração falhou.

- Não pode ser... – sussurrou.

- Olá, Alan – a garota pálida murmurou e sorriu, apenas com os lábios, maldosamente.

- Angel? – ele perguntou, alarmado. – Era você o tempo todo?

Ela se aproximou e o sorriso sumiu do seu rosto. Puxou seus cabelos com força, e antes que Alan pudesse gritar, perfurou sua garganta com um enorme caco de vidro que estava em uma de suas mãos. Não fez um corte muito profundo, foi apenas para assusta-lo.

- Se você fizer qualquer barulho, não ficará vivo tempo suficiente para sentir a dor.

Alan engoliu em seco e mordeu os lábios, tentando segurar a vontade imensa de gritar e a dor que começava a arder na sua pele.

A garota arrastou-o até o banheiro, e Alan se assustou ao ver a banheira cheia até a borda. Na pia do banheiro havia uma mensagem: Sinto muito pelo Alan.

Ela ainda tinha a audácia de deixar aquela mensagem. Então, antes de dar qualquer chance de defesa ao garoto, ela empurrou sua cabeça dentro da banheira. Ele ofegou e tentou gritar, então ela puxou sua cabeça para trás e tendo total visão sobre o pescoço marcado pelo pequeno corte, perfurou o caco de vidro mais profundamente no mesmo local. Alan gritou não muito alto e não por muito tempo porque logo ela afundou sua cabeça na água novamente. Deixou-a lá, se debatendo, molhando o chão e suas roupas de água, até que ele cedeu e sua cabeça caiu sozinha, sujando a banheira branca e o chão de sangue.

Ela o soltou, então rasgou sua camisa e jogou seu corpo dentro da banheira. Observou-o durante alguns segundos e suspirou.

- A Senhorita Adams está de volta!

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Alguém fechou o livro. Lícia.

- Você não cansa de ser chata? – Adam reclamou.

- Você não cansa de ser nerd? – ela replicou.

- Eu não sou nerd, o que tem de mais em ler? Sabe, eu estava reparando em uma incrível coincidência... O nome dos personagens: Lícia e Alan.

- Ah, que legal! – Lícia sorriu e sentou ao seu lado no banco. – E sobre o que fala?

- É um livro de terror. Você me interrompeu bem na hora em que Alan morreu.

Lícia olhou para Adam. Então se levantou e foi embora. Ele sentiu que havia ultrapassado os limites. Ela evitava falar sobre Alan desde que ele havia morrido. Alan era seu irmão mais velho, o namorado de Lícia e capitão do time de futebol do colégio. Havia morrido há apenas três meses, um dia depois do baile. Dentro de casa. Achara ele dentro da banheira, com a camisa rasgada, o cabelo bagunçado e um profundo corte na garganta. Mas a causa mortis havia sido afogamento. As pessoas se perguntavam quem havia feito isso. Com certeza ele não teria se afogado na banheira sozinho, ainda mais cravado um pedaço de vidro de perfume no próprio pescoço depois de morto. E quem havia achado o corpo fora a própria mãe, ao ir acorda-lo para tomar café já que ele estava demorando mais do que o normal. Adam não havia visto o corpo, sabia apenas que ele havia sido assassinado. Ninguém havia ousado dizer de que modo. Isso foi um erro, porque agora ele não perceberia a semelhança da morte do seu irmão com a morte do personagem de seu livro. E isso poderia custar muitas vidas.