Selene Adams - A Lenda
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
No instante em que ela pisou seus pés na escola conseguiu chamar toda a atenção necessária. Todas as garotas e garotos voltaram sua atenção para a novata. As meninas invejavam o belo corpo, o modo de andar e se vestir, os cabelos longos e negros, os olhos escuros e sedutores, os lábios num tom de batom vermelho forte que despertava a atenção de todos os meninos, os sapatos de bico fino e alto. O modo como ela conseguia andar sem errar um passo, a cabeça erguida como se estivesse segura de si. E realmente estava.
Os garotos observavam suas curvas, desejavam-na na mesma hora em que a viam, não conseguiam desviar o olhar daquela nova figura que surgia na escola.
Adam estava distraído demais desenhando no seu caderno quando ela passou, portanto nem a percebeu. Mas então Luke, a seu lado, chamou sua atenção com o comentário indiscreto.
- Aí, uma dessas na minha casa cairia muito bem – ele riu alto, acompanhado dos outros garotos do time de futebol e basquete da escola.
Adam não riu, ele não gostava muito das piadas idiotas de Luke. Talvez porque fosse mais novo, ele havia acabado de completar dezesseis anos, enquanto os outros já tinham entre dezessete e dezoito anos, mas ainda assim eles pareciam um bando de crianças. Concordou com o pensamento de que só ficava com aquele grupo em memória do irmão e por causa de Lícia. Mas ainda se perguntava por que Alan andava com eles desde os dez anos de idade, e o pior, Adam sempre estava por trás do irmão, mesmo que achasse às vezes que Alan era tão infantil quanto eles.
Ele suspirou fundo e voltou a desenhar no seu caderno. Estava tentando ilustrar o livro que estava lendo, procurando um modo de desenhar exatamente como era descrito a personagem principal da história: Angel. Ele então se lembrou de que ainda não havia acabado de ler, e iria pegar o livro de volta na bolsa, porém lembrou também de que Luke, Evan, Jordan, Jake, Ian estavam ali. E Jude também.
Então decidiu continuar com seu desenho mesmo.
Terminou de desenhar as tranças escuras da garota da história e voltou o lápis para o resto do corpo. Desenhou o colar-coleira da garota, depois o casaco de lã preto, e estava desenhando uma das mãos quando Jake reparou no que ele estava fazendo.
- O que você está desenhando, Adam? – perguntou, colocando a cabeça por cima do ombro do amigo.
- Nada demais, só uma garota.
Ian chegou para ver também.
- Que garota?
- Não sei, deixem-me quieto.
- Ei, Luke! Olha só, parece a... – Jake começou, porém Ian deu um cutucão em sua costela. – Ai!
- Parece quem? – Adam olhou para Jake.
- Não parece ninguém. – Ian desconversou.
Então Evan chegou à conversa e tomou o papel de Adam.
- Parece mesmo. Era uma garota que a gente vivia enchendo o saco. Ela era desse mesmo jeito, só que mais feinha. E...
- E o quê, Evan? – Luke interrompeu. – E nada. Fechou a conversa, okay? Vam’bora.
- Qual o problema de contar pra ele? Ele já sabe, ele estava... – Evan iria continuar, mas Luke o interrompeu novamente com um olhar alerta e o empurrou para fora do banco.
Adam pegou o papel de volta. Então eles dois – Evan e Luke — saíram dali. Logo Jake e Jordan foram também. Adam deu de ombros e continuou o seu desenho. Então Jude se aproximou e começou a observar o desenho junto com Ian.
- De onde você tirou essa garota? – Ian perguntou cautelosamente.
- Bem, de um livro que eu li – Adam mentiu para que ele não pedisse o livro. Achou melhor assim.
Ian pareceu um pouco mais aliviado.
- E a garota é como?
- Assim, parecida com essa. Pálida, ingênua, e de trancinhas. Eu achei interessante e tentei esboçar um desenho.
- Está muito bom para um esboço, garoto – Ian deu uma tapinha leve no ombro de Adam e foi embora.
Adam simplesmente odiava quem o chamasse de garoto, ainda mais Ian, ele se considerava tão mais velho. Mas não quis arrumar discussão e continuou seu desenho. Jude ficou por mais alguns minutos, então Martha passou e levou-a de lá.
Então tocou o sinal e ele teve que se levantar e ir para a sala de Ciências.
Quando Adam chegou à sala foi que reparou na garota nova, porque mal ele se sentou em sua cadeira, de frente para a bancada de frascos, percebeu que havia alguém diferente ao seu lado. Não que ele tivesse olhado, mas ele sentiu o perfume forte e adocicado vindo da cadeira ao lado, e Lícia não usava esse perfume. Então ele levantou a cabeça. A garota olhava fixamente para ele e sorria, mostrando dentes brancos e perfeitos. Ele não pôde evitar em retribuir o sorriso. Ela estava usando calça jeans justa e uma blusa preta de decote em V com mangas que iam até o pulso. Usava brincos pequenos e simples, mas o cabelo preto e ondulado chamava toda a atenção necessária. Era também impossível não olhar para os lábios grossos e vermelhos da garota. Adam retomou o ar e então perguntou:
- Você é...?
- Selene – ela respondeu. Sua voz era baixa e sedutora, mas isso ele já havia imaginado, então não se surpreendeu muito. – Meu nome é Selene.
- Eu sou o Adam.
- Prazer em conhecê-lo, Adam – Selene frisou bem na palavra ‘prazer’, então voltou a sorrir e sentou-se na cadeira.
- O prazer é todo meu – ele murmurou.
~~~
Clara estava conversando com Jude quando viu Adam passar ao lado da novata. Eles estavam saindo do laboratório de Ciências, conversando animadamente. Ela não achou estranho o fato dele sair ao lado de uma garota como ela – apesar dela sentir certa inveja da garota nova -, mas era estranho o fato de que Adam não saia com garota alguma. Não que ele fosse homossexual, mas ele simplesmente era muito quieto e reservado. Diferente do falecido irmão, Adam preferia ler ou desenhar a ter que ficar paquerando garotas. E como irmão mais novo, sempre viveu como sombra de Alan, durante toda a sua vida, e agora estava ao lado de uma garota como aquela. Clara apontou com a cabeça para a cena e Jude virou pra olhar.
- Sabe o que ele estava desenhando hoje cedo? – Jude mudou o rumo da conversa antes mesmo dela começar.
- O quê? – Clara perguntou.
- A... Você sabe. A aberração.
- Que aberração? – Clara franziu as sobrancelhas.
Jude quase balançou a amiga no ar.
- A garota do lago, Clara. Precisa que eu diga o nome?
- Hã? Como assim? Ele não sabe.
- Sabe sim, só não lembra – Jude discordou. – Quer dizer, não lembrava. Porque pelo que parece, está começando a relembrar do nosso segredinho.
~~~
- Para com isso, você está me irritando, Jake – Lícia deu um safanão na cabeça de Jake.
- Ai, deixa de ser ignorante, poxa – o garoto reclamou.
- Então não me enche o saco! – ela saiu de perto dele e foi sentar ao lado de Luke.
Iria começar outro assunto não fosse ter visto Adam andando ao lado com a novata.
- O que é que ele está fazendo com aquela... Aquele projétil de garota de programa?
Luke desviou a atenção de Martha para a direção que Lícia apontava. Os outros fizeram o mesmo. E quase que Luke segurou seu próprio queixo para que este não caísse. Adam nunca andava com garota alguma desde que ele se conhecia por gente. É claro que já tinha ficado com uma ou outra, mas nada demais. E tinha que ser justo aquela garota?
~~~
Depois da escola Adam foi direto para casa. Ele teria muita coisa pra fazer. Teria que convencer os pais a irem para a casa da avó de novo, abrir a porta do quarto de Alan – que estava fechada desde que ele havia morrido -, terminar o desenho e ler o resto do livro.
Mal ele pôs os pés na cozinha sua mãe avisou que se fosse para a casa da avó ele iria junto.
- Hã? Por quê?
- Porque eu não vou te deixar aqui sozinho – ela respondeu, se referindo ao ocorrido com seu irmão.
- Mãe, eu tenho dezesseis anos, sei me cuidar – Adam se defendeu e colocou a bolsa no armário.
- É mesmo? Alan tinha dezessete, dizia a mesma coisa e olha o que aconteceu.
Adam suspirou. Então falou rápido:
- Mas veja bem, era madrugada, todo mundo estava em casa. Ou seja: o assassino não teve medo de entrar aqui com os moradores na residência. Se eu ficar sozinho aqui vai ser a mesma coisa de estar com gente aqui.
- Porém fica mais fácil.
- Ele não vai voltar, mãe – Adam falou alto.
- Você não sabe se ele vai voltar ou não. Alan não o deu motivos para fazer o que fez.
- Você não sabe – murmurou.
- O que está querendo dizer, Adam? – a Senhora Lakowsky semicerrou os olhos. – Está dizendo que seu irmão tinha problemas fora de casa e eu não sabia?
- Se ele tivesse ou não, é tarde demais para resolver. Eu não sei de nada – Adam virou-se, já saindo da cozinha.
- Nós vamos sair à tarde.
– Não quero ir para a casa da vovó – gritou enquanto subia as escadas. – NEM VOU!
Adam sabia perfeitamente de que tudo que a sua mãe sentia era preocupação pelo filho mais novo – e agora único -, mas ele não gostava de ter que ir para a casa da avó, aturar os primos e não ter nada para fazer. Alan não ia quando não queria, porque com ele não poderia ser do mesmo jeito?
Ele foi até o quarto dos pais, e depois de pegar a chave dentro da cômoda do abajur, se dirigiu ao quarto de Alan e destrancou a porta. Aquele quarto não poderia ficar fechado para sempre, ninguém ia morrer se o deixasse aberto.
Adam foi até a cama do irmão, não era justo o que tinham feito com ele. Ele tentou pensar em alguma coisa errada que Alan poderia ter feito com qualquer pessoa, tentou se lembrar de algum fato que pudesse ter causado aquele assassinato. Ninguém havia comentado nada para ele, mas Adam tinha certeza de que não fora uma coisa simples. Tinha ouvido um dos policiais naquela manhã dizer que fora uma das piores mortes que já tinha visto.
- Quem quer que o tenha matado, devia estar com muita raiva – o policial havia dito.
Era certo afirmar que Alan não era muito de ter paciência, ele muitas vezes tratou mal às pessoas. Era estressado e às vezes queria partir logo para a violência. O fato era que Adam não tinha sequer noção de alguém a quem Alan tratou mal a ponto dessa pessoa querer mata-lo. Ou talvez tivesse sido apenas algum assalto, Alan viu o sujeito entrar pela janela e foi tentar aborda-lo. O sujeito se assustou e o matou. Mas porque teria ficado com tanta raiva, segundo o policial havia dito? Isso ainda era um mistério.
Adam abriu o guarda-roupa do irmão e se pôs a examinar as roupas, o perfume, a bola de beisebol, as raquetes, o netbook, a coleção de meias e todos os outros antigos pertences de Alan. Então reparou que o celular dele estava lá, e descarregado. Resolveu colocar para carregar, depois poderia propor aos pais vendê-lo. Adam conectou-o no carregador e o ligou. Havia duas chamadas perdidas. Uma delas era de Lícia, a outra era de... Um número desconhecido. Será que aquele celular ainda tinha crédito?
O garoto se levantou rápido e foi pegar o seu celular na bolsa da escola.
Quando voltou, olhou o número exibido na tela do celular de Adam e digitou-o no seu. O telefone começou a chamar. Deu na caixa postal. Adam tentou de novo e obteve o mesmo resultado. Então sua mãe passou e bateu na porta do quarto.
- Quem mandou você abrir? – perguntou, ainda na porta.
- Eu quis. – Adam murmurou. Estava salvando o número no seu celular.
- Você já está pronto?
- Para quê? Eu não vou para a casa da vovó – ele se levantou e colocou seu celular no bolso.
- Você vai sim, não tem que querer. Eu e seu pai vamos passar o resto da semana lá. Você pode voltar se quiser, mas não muito tarde e terá que voltar amanhã depois da escola.
- Amanhã é sexta-feira.
- E daí?
- E daí que provavelmente eu deveria ficar com meus amigos, para o fim de semana. Talvez Lícia vá à praia.
- Você poderá ir, então. Mas será lá pelo sábado. E depois terá que voltar para a casa dos seus avós.
- Mas mãe! – Adam retrucou. – Não. Eu vou ficar em casa.
- Você só vai precisar passar o dia lá. Agora vá arrumar suas coisas e desça logo que seu pai já está no carro – a senhora Lakowsky ordenou e foi embora.
Adam chutou um banco próximo e foi arrumar suas coisas. Isso não era justo!
~~~
- Como foi a escola hoje, Adam? – o pai perguntou enquanto dirigia o carro.
Ele nunca fazia perguntas desse tipo, mas agora, depois do que havia acontecido com Alan, todo mundo voltava a se preocupar. Antes eles mal iam para a casa da vovó, agora a família queria estar sempre reunida. Adam sentia pela morte do irmão, mas no fundo achava tudo isso um teatro muito patético. Agora era tarde demais pra tentar uma aproximação que eles tiveram dezesseis anos para fazer.
- Como sempre – murmurou em resposta.
- Como sempre, como? – o pai insistiu.
- Como sempre chata.
- Não precisa ficar mal-humorado – a mãe ralhou.
Adam suspirou.
- Eu não estou mal-humorado, apenas respondi a pergunta feita pelo meu pai. Queria o quê? Que eu mentisse e dissesse que amei a escola e gostaria de ficar lá o dia todo?
Os pais desistiram de tentar manter a conversa e começaram a conversar ambos sozinhos, enquanto Adam colocou os seus fones de ouvido e ligou o MP3 do seu celular. Ele gostava de escutar as músicas de My Chemical Romance, The Bravery, Scorpions e Linkin Park.
Então algo na pista chamou a atenção de Adam. A garota nova da escola, qual era mesmo seu nome? Selene. Ela estava andando sozinha no meio-fio. A pista era rodeada por uma área de proteção florestal, havia muitas árvores e o local chamava a atenção pelo alto número de estupros ocorridos na redondeza. Eram quatro da tarde, logo iria anoitecer, a cidade ainda estava um pouco longe, e ela estava andando sozinha, no meio-fio, numa pista com vários carros em velocidade livre e ainda mais numa área perigosa como aquela.
- Caramba, essa é muito corajosa – o pai de Adam comentou.
- Ela estuda comigo – Adam murmurou.
- Está falando sério? – sua mãe perguntou. – É nova na cidade? É muito perigoso deixa-la sozinha por aí. Talvez a gente deva parar e oferecer carona.
- NÃO! Nada disso, eu mal a conheço. É certo afirmar que estava conversando com ela hoje, mas melhor não. Ela... Não. Vamos logo para a casa da vovó. Por favor.
A mãe de Adam deu de ombros e eles continuaram rumo à casa dos avós.
A garota no meio-fio andava como se estivesse bêbada, meio cambaleando. E olhava os carros passarem. Às vezes ela fazia menção de atravessar, mas então se virava e continuava a andar para a cidade, o que atrapalhava o tráfego dos outros carros.
Adam ficou a observando pelo vidro fechado do carro, então aumentou o volume dos seus fones e fechou os olhos.
~~~
- O que está havendo com você, Adam? — Lícia interrompeu os pensamentos dele. — Não para de olhar para Selene. Vocês estão tendo alguma coisa, sei lá, estão juntos?
Adam piscou.
- Hã? Não. Quer dizer, não sei — ele olhou para Lícia. – Por quê?
- Como assim por quê? Você não tira os olhos dela — Lícia comprimiu os olhos e examinou Adam.
Ele parecia nem ter escutado, já tinha voltado a atenção para Selene novamente. Estava aturdido. "Porque ela está falando com o idiota do Luke?" Pensava. Ela havia parecido gostar tanto dele ontem na escola, passaram a aula inteira conversando e no intervalo também. E eles haviam chegado juntos na escola, haviam se encontrado no meio do caminho e tinham vindo a pé e conversando. Não era justo ela grudar totalmente no Luke e deixa-lo de lado. Mas algo dentro de sua consciência avisou que aquilo seria o melhor.
Então Selene olhou para ele, ela sorriu. Luke olhou na mesma direção e Adam virou a cara para Lícia.
- Eu... Não sei. A gente estava se falando ontem, não estava? Não sei.
Lícia bufou.
- Adam! Você está bem?
- Eu? Sim, claro. Muito bem — ele sorriu e depois voltou a olhar para Selene. — Ela é bem bonita, né?
- ADAM! Helloôu, ela estava no maior papo com você ontem e agora está dando em cima do Luke. Você vai deixar? — Lícia quase se levantou.
- Sim. Faz parte do plano.
- Que plano? — Lícia franziu as sobrancelhas.
- Não sei — Adam não desviou a atenção de Selene. — Quer dizer, ela só está falando com ele porque não sabe nada do teste de Matemática que vai ter hoje — Adam inventou rápido. Ele não soube explicar porque inventara aquilo, muito menos porque estava tão incomodado em ver Selene com Luke, apenas sabia que estava.
- E você que o Luke vai saber Matemática? Essa garota está te enrolando — Lícia tentou trazê-lo de volta a realidade.
- Deixa ela me enrolar, então. — Adam murmurou.
- Você deve estar passando mal, só pode. Você... Nunca agiu assim. O que está havendo?
- Você só está com inveja porque eu estou olhando para uma garota mais bonita do que você — Adam se levantou da mesa. Mas então reparou que não havia mais nenhum lugar vago no refeitório e ele não poderia sair dali, porque senão não poderia ver Selene. Então voltou a se sentar.
- Isso é obsessão, só pode! — Lícia quase gritou. — Você não pode ficar babando por ela. E eu não estou com inveja de ninguém.
- Tá — Adam ignorou Lícia completamente.
Ela se levantou da mesa e foi embora. Adam nem sequer a viu sair, mesmo que ela tivesse passado na sua frente quando saiu. Ele estava ocupado demais olhando cada passo de Selene e Luke.
~~~
Eles já estavam dentro do carro, ele estava pronto para dar partida quando ela o interrompeu: havia esquecido o celular. Ele deu de ombros e esperou ela sair. Mas ela não entrou na casa. Ao invés disso foi até a parte de trás do carro e se abaixou no canto. Ele estranhou a ação dela, mas apenas suspirou e continuou esperando.
Ele viu pelo espelhinho do carro ela se levantar e vir na direção da porta do motorista. Ele estranhou porque ela estava usando luvas e carregava alguma coisa em uma das mãos. O que reparou também foi que ela havia feito duas trancinhas no cabelo, não estava mais solto como antes. Ela parou ao lado da porta do motorista e o olhou.
- O que é isso? — ele perguntou.
Então reparou no que ela carregava na mão: uma chave de grifo.
- O que você vai...
- Cala a boca — ela o interrompeu. — Eu não mandei você falar.
Ele olhou bem para ela e por um instante pareceu achar que a conhecia de algum lugar.
- É. Você realmente achou que eu fosse sair com um porco como você? — ela perguntou. — Será que não está lembrando-se do que você fez comigo? Não? Deixe-me refrescar sua memória... Você e seus amiguinhos patéticos destruíram a minha noite e quase me mataram naquela droga de lago. Principalmente o Alan e a Lícia. Você sabe por que eu o matei dentro da banheira? Pra ele ter ideia de como é perder o ar dentro da água como eu perdi. Mas... Como você não me afogou, ficou apenas rindo da cena, eu vou fazer parecer menos doloroso pra você — ela sorriu.
Ele então pareceu entender.
- Angel? — murmurou.
- É. O "anjinho" voltou. Sinto muito por você e seus amigos, porque não vai sobrar nenhum.
Ela disse isso e bateu com força a chave de grifo na cabeça do garoto. A morte foi imediata, sem nenhum barulho além do choque contra o crânio duro. Ela então deixou a chave encravada no meio da testa do rapaz e tirou as luvas. Deixou-as no canto que havia encontrado e desfez as tranças.
Depois se levantou e entrou na casa pela porta dos fundos. A mãe do rapaz estava vendo televisão.
- Ah! Oi, querida. Esqueceu alguma coisa? — perguntou.
Ela sorriu:
- Acho que o meu celular. Você o viu por aqui?
- Não. Mas olhe se está na mesa da cozinha, era aí que você estava.
Claro que estava; ela havia deixado lá de propósito antes de sair. Pegou o celular e voltou-se para a senhora.
- Está sim. Obrigada e até mais — se despediu e voltou para a garagem.
Mas parou na porta mesmo.
A mãe do rapaz se assustou também com o grito da garota, ela gritou tão alto que a vizinhança inteira devia ter ouvido. E logo começou a chorar. A mulher se levantou do sofá e foi até ela:
- O que foi? O que foi?
A garota, completamente desesperada, apontou para o carro. Para a cena triste do rapaz sentado no banco do motorista, com uma chave de grifo cravada na testa, o sangue escorrendo e manchando seu rosto.
- MEU FILHO!! — a mulher gritou.
~~~
Adam fechou o livro para atender ao telefone da casa da sua avó, que tocava freneticamente, e mesmo tendo cinco pessoas na cozinha ao lado, nenhuma se prontificava a atendê-lo.
Ele foi se esticou no sofá e pegou o telefone:
- Alô – falou baixinho, tamanho a preguiça.
- É da casa dos pais de Anne Lakowsky? – a voz do outro lado da linha perguntou.
- É sim. Quem fala? – Adam perguntou de volta.
- Bem... É que.. Aconteceu um pequeno acidente na casa do amigo do filho dela. Ele foi assassinado... Lucas Roxburgh.
- O quê? – Adam quase deixou o telefone cair. – Quem está falando?
Tudo que Adam recebeu como resposta foi o: tu tu tu. Haviam desligado. Ele bateu o telefone e se levantou.
Foi até a cozinha e tentou arrumar uma chance para falar, porém o som estava ligado e somado com as vozes das mulheres ficava ainda mais impossível falar.
Adam chamou sua mãe três vezes, então pegou uma colher e uma panela e começou a bater com força. Sua mãe parou de falar e olhou para ele.
- Mas o que é isso, Adam? Pare com esse barulho.
- Parem com o barulho vocês. Eu estou tentando falar faz séculos e vocês não permitem. Até parecem um bando de velhinhas fofoqueiras.
- ADAM! – o pai, que havia acabado de entrar na cozinha, ralhou.
- É o meu nome – ele não deu ouvidos. – Luke morreu.
A mãe cuspiu a água do copo.
- O quê?
As tias arfaram.
- Eu não sei de nada direito, mas acabei de receber um telefonema anônimo e disseram que o Luke havia sido assassinado. Seja como for, vocês precisam ir até lá.
O pai foi pegar o telefone.
- Eu vou ligar para a casa dos Roxburgh.
Todas as pessoas da casa chegaram à cozinha. Desde a avó até a prima mais nova de apenas cinco anos. O primo mais novo, Daniel, de oito anos, perguntou o que estava acontecendo. Foi no mesmo instante em que atenderam ao telefone do outro lado da linha.
- Roxana? O quê? Então é verdade? Nós nos falamos aí. Eu sinto muito – Enrique Lakowsky pronunciou essas últimas palavras em tom baixo. Então desligou o telefone.
Olhou para a esposa e para o filho, e apenas pelo olhar eles souberam que sim, Luke realmente estava morto. Adam saiu da cozinha e foi até a sala. Sentou-se no sofá e ficou lá, parado, olhando para o chão. Anne se aproximou e sentou-se ao seu lado, lhe afagou os cabelos.
- Eu sinto muito, querido. Mas nós temos que ir lá agora.
- Não quero ir. Vão vocês – Adam murmurou.
Anne não pensou em discutir, ela e Enrique conheciam muito bem a personalidade do filho mais novo, sabiam que ele era completamente diferente do falecido mais velho. Tinham total conhecimento das vontades de Adam, que sempre recebeu mais carinho e cuidados, por ser mais novo, e, portanto era mais quieto, reservado, e cheio de gostos. Entre eles o de não ver defuntos e não ir a enterros.
- Você fica esperando aqui? – o pai perguntou.
- Pode ser – ele respondeu, ainda fitando o chão.
A mãe beijou o alto de sua testa e se levantou para ir com o marido para a casa de Luke. Mal saíram e a tia de Adam se apressou em tentar levantar o animo do sobrinho. Ela foi até a cozinha e depois de pegar um copo d’água, sugeriu a avó que fizesse bolo de limão – o preferido de Adam – para o jantar. Então foi até ele e ofereceu a água. Adam bebeu em silêncio, sem falar nada, ainda olhando para o chão. Era o seu modo de estar em luto.
- O que você quer para o jantar? – ela perguntou depois de alguns minutos acompanhando seu silêncio. Os outros familiares estavam os rodeando nos cantos da sala, observando as reações de Adam. A verdade era que todos mal se conheciam por viverem tão distantes, ou era assim até a morte de Alan.
- Qualquer coisa – Adam levantou a cabeça. – Menos sopa.
A tia riu e passou a mão em seus cabelos.
- Eu pedi pra vovó fazer bolo de limão. Você vai gostar?
- Sim – ele esboçou um sorriso e depois olhou ao redor.
Algumas pessoas se afastaram.
- Tia, isso não é estranho? – Adam perguntou.
- O quê? – ela franziu as sobrancelhas.
- A morte de Al e depois de Luke – ele olhou para os olhos.
A tia pareceu pensar sobre o assunto, então suspirou:
- Isso quem vai dizer é a polícia, querido. – depois mudou de assunto. – E então? Vai querer mais alguma coisa?
- Paz – ele murmurou e voltou a olhar o chão.
Todos entenderam a indireta e voltaram a seus afazeres normais quando iam para a casa da avó. Adam pegou o livro, não custaria nada ler mais um pouco, para distrair um pouco a cabeça. Porém, ao fazer isso, sequer tinha ideia de que estaria adiantando mais as coisas.
~~~
A garota estava esperando a ligação fazia horas. Onde é que ele poderia estar a essa hora? Eles haviam combinado de sair, porque ele não ligava ao menos para confirmar?
Então o telefone tocou.
- Alô? – ela atendeu completamente feliz. Era ele do outro lado da linha, estava confirmando que iriam sair e que passaria na casa dela às oito horas.
Ela desligou e deu pulinhos de alegrinha, então correu para tomar banho, subiu as escadas com muito gosto e foi em direção ao banheiro. Porém algo chamou sua atenção, um bilhete em cima da sua cama. Foi até lá. Quase desmaiou ao ver o que tinha escrito no bilhete.
“Cuidado quando for usar a sua maquiagem de circo”
E para completar seu espanto, ao lado do bilhete havia um molho de cabelo modelado numa trancinha.
~~~
Adam fechou o livro. Daniel estava lendo por trás.
- Que livro é esse? – perguntou, arrodeando o sofá e vindo se prostrar ao lado de Adam. – Me deixa ver.
- Não. Saia – Adam escondeu o livro atrás de si.
- Porque não?
- Porque eu sou como qualquer pessoa normal no mundo e gosto de ler sozinho, sem ninguém pra perturbar.
O garoto reclamou, mas foi embora. Adam suspirou; agora ele tinha perdido sua concentração, não teria mais paciência para ler. Levantou-se do sofá e foi até a cozinha. Estavam quase todos lá. Oito pessoas no total. Adam se perguntou como cabiam dentro daquela casa de apenas quatro quartos. Tentou contar mentalmente como deveria ficar mais ou menos a distribuição de ocupantes em cada quarto. Seus pais em um, vovó e tia em outro, os quatro primos num terceiro e as três tias e o tio em outro. Deveria ser horrível.
- Olha só, o meu neto preferido – a avó de Adam saudou.
Ele bufou, mas foi até ela e sentou numa cadeira ao seu lado e encostou a cabeça no ombro da avó. Ficou ali, ouvindo a conversa das tias. Elas falavam sobre os sobrinhos, comentando como haviam crescido e coisas parecidas, como só tias sabem fazer. Então começaram a falar de Adam, sem se importar com o fato de que ele estava lá e ouvindo tudo. Elas falavam de como ele havia mudado na aparência, de que havia deixado o cabelo crescer muito, que ele sempre teve muito cabelo, mas nunca teve franja. Comentaram de como ele sempre fora tão quietinho, mais sincero e amável, mais prestativo e responsável, mais observador. De como ele devia se sair com garotas, de que ele devia conquistar muitos corações, porém ele não tinha a ‘ginga’ do outro irmão para trazer as garotas para si. Não falaram muito de Alan, a não ser de que ele era completamente o oposto de Adam. Então Adam começou a cochilar, e não ouviu mais nada.
cUd
Ele escutou um barulho vindo do banheiro. E sem querer mesmo perguntou com a voz tremula:
- Quem está aí?
O garoto não obteve resposta e repetiu a pergunta. O eco lhe fazia companhia. Ele se levantou e foi até o banheiro. Não viu nada nem ninguém, apenas a banheira estava cheia pela metade e a janela aberta.
Ele foi até a janela e a fechou. Porém, ao se virar, quase teve gritou ao ver uma garota, e apesar de não conseguir ver seu rosto, reparou nas suas tranças, ambas escorridas de cada lado da cabeça.
- Q-Quem é você? – ele gaguejou.
- Não queira saber – a garota levantou uma faca.
- O que você quer de mim? O que você vai fazer comigo? – Se encostou à parede, torcendo para que garota não o empurrasse para a banheira ou fizesse coisa pior.
~~~
Adam abriu os olhos rapidamente. Aquilo não foi um sonho, mas sim um pesadelo.
- O que foi? – sua avó olhou para ele com uma expressão de preocupada. Ela estava ao seu lado vendo televisão, estavam na sala.
- Não foi nada, vó. Só um pesadelo, só isso. Um pesadelo – repetiu, para ter certeza de que havia sido apenas um sonho.
- Você quer um copo d’água?
- Sim. Por favor – ele se sentou.
Adam tentou se lembrar do seu sonho, quer dizer... Pesadelo. A única coisa que importava mesmo ele não viu: a garota misteriosa de seu pesadelo. Seu rosto.
Porém tinha certeza absoluta de que era a mesma garota do seu livro.
- Tome, querido – sua avó chegou com um copo de água.
- Obrigado – ele pegou o copo.
Sua avó se sentou na poltrona e voltou a assistir televisão como antes. Adam pensou o porquê de ele ter sonhado aquilo, será que era algum aviso? Porque estava acostumado a ouvir dizer que os sonhos sempre querem mostrar alguma coisa importante ou não a quem sonhou. Mas esse era um mistério que ninguém poderia acertar. Nem mesmo ele que nunca havia ligado para coisas desse tipo.
Adam tentou avaliar seu “pesadelo”, mas de maneira nenhuma conseguiu.
Fale com o autor