Notas iniciais
"Eu realmente queria não ser a heroína. Preferia ser a donzela em apuros, esperando o príncipe encantado chegar e me salvar das mãos dos bandidos. Mas isso aqui é século vinte e um, baby, e agora as mulheres - mesmo que elas sejam anjos, enfim - é que devem salvar a si próprias e, de quebra, o príncipe também."

Deixo que os monstros me guiem pelos corredores do prédio. Ninguém parece estranhar nada, e fico me perguntando como pessoas podem ser tão fechadas em seus próprios mundos e não notarem quando uma garota de dezoito anos está visivelmente sendo sequestrada. Não falo, não discuto, nem pestanejo contra meus carrascos. Eu apenas os acompanho.

Afinal, é a vida de Rael que está em jogo.

Eu realmente queria não ser a heroína. Preferia ser a donzela em apuros, esperando o príncipe encantado chegar e me salvar das mãos dos bandidos. Mas isso aqui é século vinte e um, baby, e agora as mulheres — mesmo que elas sejam anjos, enfim — é que devem salvar a si próprias e, de quebra, o príncipe também.

Não que Rael fosse um príncipe. Na verdade, ele é bem mais parecido com um ogro, às vezes, e tem o terrível defeito de dizer coisas que ele sabe que vão me machucar, quando brigamos. Então eu finjo saber de tudo o que ele disse e o mando embora.

Mas dói, é claro que dói. Óbvio que não sou apaixonada por Rael, mas vê-lo falar coisas ruins de mim é horrível. Mesmo que eu saiba que estão distorcidas, que é mentira, que ele só está nervoso. E isso me dá raiva; eu me deixo levar por aquelas mentiras dele, deixo-me levar pela irritação dele. Até que eu me acalme e pense, demora um bom tempo.

Porém para evitar que ele vá embora, eu também tive que aprender a ceder.

– Vamos, use isso aqui — rosna um dos demônios, entregando-me um saco de tecido preto, depois de entrarmos numa van.

– E onde exatamente vou colocar isso? No pé? — disparo e depois mordo a língua. Preciso me conter para que Rael continue bem.

– Ande logo, anjinho, ou seu amigo não vai durar muito!

Encarando-os com uma raiva mortal — e eu nem sabia que anjos eram capazes de sentir isso -, coloco o capuz na cabeça e respiro fundo. Tudo por Rael, tudo por Rael.

Ah, Rael, você me paga!

– Vamos logo, desça! — reconheço a voz do Armário maior que, provavelmente, é o líder.

– Ai, estou indo! — reclamo.

Salto do carro sem qualquer auxílio — duvido muito que esses demônios tenham tido alguma aula de etiqueta sobre como tratar uma dama. Sinto uma mão segurar meu braço e vou tropeçando por um chão que parece ser de terra. O sol está escaldante e fico me perguntando onde estamos, afinal. Achei que demônios gostassem de frio e escuridão!

É só esse pensamento passar em minha mente, não demora muito até estarmos num lugar mais fresco. Quase suspiro de alívio quando uma brisa gostosa passa por meu corpo. Só a minha cabeça que parece um cuscuz cozinhando nesse capuz. Tento me concentrar em outra coisa, qualquer coisa, para que eu tenha como me orientar.

Pela brisa que faz agora, percebo que estamos indo contra o vento. Ou seja, deve haver uma porta ou janela por ali. Também, por baixo do capuz, noto que está mais escuro do que antes. Finjo escorregar e apoio-me em uma parede; é pedra. Um ruído de água mais distante chama a minha atenção, indicando que estamos perto de uma fonte ou um rio.

– Apresse o passo! — um dos demônios rosna.

– Estou indo! Como você quer que eu adiante, se não enxergo nada? E ainda com este calor…!

Em resposta, o monstro apenas me dá um empurrão.

Rael, não vou deixar esses monstros te matarem. Esta será uma tarefa minha.

Depois do que parece uma eternidade, o capuz é arrancado da minha cabeça. Ou melhor, quase é arrancado com a minha cabeça. Contenho um grito quando o demônio puxa meus cabelos, mas as lágrimas chegam aos olhos. Por causa da dor, demoro um pouco para me situar e observar o local.

– Pra onde vocês me trouxeram? — pergunto, controlando a voz.

– Argh, pare de falar, você pergunta demais!

– Bom, é de se esperar que eu pergunte! Nunca assistiu a filmes de sequestros?

– Na verdade, não — responde o Armário 1, o líder. — E isto aqui não é um sequestro.

– Ah, tem certeza? Porque, olha, se parece muito com um — digo, ironicamente.

– Sequestros terminam, anjinho. Isto aqui é mais como… uma pesquisa.

– Pesquisa — repito.

– É. Vamos estudar… você.

Bom, talvez eu não devesse ter tentado correr. E aí, talvez, eles não me pegariam, quebrariam o meu braço e me amarrariam numa pilastra. Mas aí, talvez também, eles não teriam me levado para junto de Rael, e eu não teria visto a pior cena de todas: Rael todo ensanguentado, as suas asas em plena forma feridas.

– Rael — tento chamá-lo baixinho. — Rael, acorde, pelo amor do Pai…

– Sam… — ele murmura, fazendo meu peito se encher de esperança. Porém, quando o observo melhor, noto que ainda está de olhos fechados.

– Rael… Estou aqui, abra os olhos, por favor — imploro, sussurrando.

– Ah, Sam, eu te amo tanto…

Hein?

– Rael, não temos tempo para brincadeiras! — Já começo a ficar irritada e a duvidar da sanidade dele.

Ele abre os olhos minimamente e me dá um sorriso grogue.

– Ah, meu Pai, você é tão linda… Mesmo nos meus sonhos de moribundo, você continua sendo tão linda.

– Você bateu a cabeça?

Do nada, Rael começa a chorar. E o pior, é um choro alto, de partir o coração. Se bem que mais parece com o choro de um bêbado.

– M-me desculpe, Sam! Eu fui um covarde! E-eu… não devia ter deixado você sozinha! Bem feito para mim, ter sido pego pelos monstros. Mas eu… tinha que ir! Eu estava chamando muita atenção para você. Não posso evitar… Mas quando eu soube o que você estava se tornando...

– Cale a boca, fique calado, por favor…! — Droga, isso não é hora de lavar roupa suja!

– Calar a boca por quê? Isso aqui não é real… Você não está aqui de verdade, é só fruto da minha mente culpada…

Ah, já chega!

– Rael, seu imbecil! Abra os olhos agora! Eu estou aqui e estou tentando arranjar um jeito de sair! Você quer vir comigo ou ficar aqui e ser o peru de natal desses projetos de ogro? — quase grito.

Ele arregala os olhos. Finalmente! Eu o encaro, tentando demonstrar a máxima irritação que consigo, porém me sinto muito aliviada. Um misto de emoções passa por seu rosto, até parar na raiva.

– Mas o que…? Mas o que você pensa que está fazendo aqui, Samantha Reis? — ele berra.

Ah, não, eu definitivamente não mereço isso!

– Olhe aqui, seu imbecil egocêntrico e egoísta, aqueles demônios foram me procurar naquele Hades onde eu estudo, tudo isso por sua causa! Eles sabem sobre mim, sabem quem eu sou e o que eu sou! Então não venha me perguntar o que estou fazendo aqui, porque, para começar, é você quem está me devendo muitas respostas! — Respiro fundo, tentando me controlar. — Vamos fazer o seguinte: vamos sair daqui e depois conversamos sobre isso, ok? Ok. Você tem algum plano?

Rael balança a cabeça, encarando-me como alguém que sabe que foi derrotado.

– Não acredito que está aqui… — murmura.

E para minha surpresa, ele simplesmente se levanta.

– Como…? — começo a perguntar. — Mas você podia ter saído daqui esse tempo todo!

– Não podia. Eles me obrigaram a dar a minha palavra, e você sabe…

– Palavras de anjos não podem ser ignoradas — completo. — Droga!

– É. Só posso ser liberto se eles concederem isso. Olha que ironia, um anjo pertencente a demônios… — comenta, triste. Abaixa-se perto de mim e começa a desatar os nós. Não demora muito até que eu esteja livre e toco no meu braço quebrado, instintivamente. Rael e eu nos levantamos juntos e noto que estamos muito pertos.

Posso sentir o hálito dele, quente, nas minhas bochechas. Seus olhos passeiam dos meus olhos à minha boca, e meus pensamentos se perdem nas palavras dele. Eu te amo tanto… Inesperadamente, meu coração começa a saltar no peito.

– Rael — começo.

– Oi — sua voz está rouca, e muito, muito sexy.

– Sobre o que você disse agora há pouco…

– O que eu disse agora há pouco — repete.

– É, sobre você… — Não consigo terminar e busco em seus olhos a compreensão. — Deixa para lá, você não estava falando coisa com coisa e…

As palavras morrem no espaço. Um silêncio se estende entre nós dois. Rael estende sua mão e toca em meu cabelo, fazendo um arrepio confortável descer por minha coluna.

– Lembro bem do que falei, Sam. — Ele se aproxima mais e sussurra, antes de me beijar: — E eu não menti, em nada.

E eu o retribuo. Porque, é claro, claro, eu estou feliz por Rael estar bem. No entanto, é mais do que isso.

Estou feliz, porque me importo com ele, porque gosto dele. Porque, por mais que eu tente evitar, tudo o que ele falou mexeu comigo.

E percebi que eu já sentia isso por ele também.

Notas finais
Capítulo novo adiantado? Capítulo novo adiantado! Vamos comemorar! Uhuul! Gostaram? Comentem! Então, vamos aos avisos: Primeiro: recebi mais uma recomendação!! ♥ Um beijo enorme para s0nh4d0r4! Obrigada, anjinho! Segundo: super abraços de urso para Mary, The Doctor, Caçadora de Estrelas, s0nh4d0r4 (de novo), Marcybel e a Nath pelos comentários divos! Terceiro: peço desculpas se o capítulo estiver meio grande e, mesmo assim, meio parado :/ O próximo será melhor e mais agitado! Quarto: estou grávida e descobri o sexo do meu bebê hoje. É uma menina! :D Quinto e último: QUEM TAVA COM SAUDADES DE SAMEL? ♥ Confesso que estou com raiva da Sam, por ter mudado minha história :@ Eu já tinha um final certinho para ela, mas aí a dona Samantha me mandou reescrever! Como é que pode? Rum! No mais, muuitos beijoos e espero que tenham gostado! Até o próximo ♥