Notas iniciais
"Os sentidos me vão embora. Mas não tão rápido. Porque eu sinto braços me amparando. Braços de conforto, paz, tranquilidade. Braços de lar."

Muito bem, você já pode me zoar por eu estar me sentindo meio sem graça, depois do beijo de Rael. Quero dizer, não que eu fique desconfortável com ele — Rael me traz uma paz e uma sensação de tranquilidade inexplicáveis -, mas parece que há um papel colado na minha testa dizendo “nós nos beijamos.” Ou talvez seja só o sorriso idiota no rosto dele mesmo.

Ele encosta sua testa na minha, ainda de olhos fechados, e respira fundo. Fecho meus olhos também e tento imaginar que estamos em casa, sem nada para nos perturbar. Toco o rosto de Rael com o braço que não está quebrado e inspiro seu aroma. Sálvia e sangue. Para meu espanto, percebo que suas bochechas estão molhadas.

– Ah, meu Pai… Por que algo que é tão bom não é permitido? Por que amar alguém assim tinha que ser uma benção e uma maldição? — sussurra.

– Shh… Não fala agora. Vamos só sair daqui, ok?

– Eu tenho que falar… Não. Só preciso sentir que você é real. — Puxa-me para um abraço, mas eu hesito quando seus braços me apertam. — Que foi?

– N-nada — tento esconder a pontada que se alastra por meu braço machucado.

Ele me observa. Desvio o olhar.

– Samantha. — Cruza os braços. Droga! Pega no flagra.

– Tá. Eles quebraram meu braço — confesso. — Mas estou bem! Olha!

Começo a andar para lá e para cá, movendo o braço que não está quebrado. Mas isso não adianta nada. Rael está furioso.

– Eles o quê?! — berra. — Eu vou matar aqueles…

– Rael! Pelo amor do Pai, mantenha a calma. Temos que sair daqui!

– Manter a calma? Eles machucaram você, Sam! Ninguém machuca você! Ninguém. Vou acabar com a raça deles! Eu juro que…

– Só vamos sair daqui, ok? — peço, já perdendo a paciência.

– Tá. — Rael pega meu braço bom e sai me arrastando, ainda reclamando e xingando os demônios. — Eu vou arrancar as unhas deles de pinça, e depois seus braços e pernas! Vou fazer com que eles sintam a maior dor que já sentiram em toda a existência miserável deles! Vou…

Encaro-o. Nunca vi Rael daquele jeito, tão furioso, desejando ferir ou causar dor a alguém — mesmo que esse alguém em consideração seja um demônio que queira me cortar e me dissecar. Bom, pensando melhor agora, acho que eu não iria reclamar se alguém acabasse com a raça desse tal demônio… Mas ainda assim, eu nunca percebi esse lado escuro do meu… amigo?

O que poderia acalmá-lo? Continuo sendo praticamente arrastada por ele, mas duvido que Rael saiba sequer para onde estamos indo. E ele continua praguejando, em sua fúria.

– Rael — chamo-o, mas ele não escuta. — Rael! — Ele finalmente se interrompe.

– O que foi? — pergunta, mais como um resmungo.

Agora quem já está furiosa sou eu. Puxo meu braço da prisão da sua mão e paro. Ele se vira para mim.

– Por que parou?

Olho-o como se aquilo fosse óbvio. Faço menção em cruzar os braços, mas a dor é grande demais e desisto. Não foi uma boa ideia. Cada vez que Rael percebe que estou sentindo dor, fica ainda com mais raiva.

Pai, perdoe-me por fazer isso, mas ele precisa acordar!

Aproximo-me dele, determinada, passo meu braço bom por trás da sua nuca e puxo sua boca contra a minha. Isso parece espantá-lo um pouco, mas não dou tempo nem para que possa respirar. Entrego-me ao beijo, amolecendo contra seu corpo e Rael envolve minha cintura. Sinto seu coração acelerado contra o meu, por isso desacelero, fazendo-o se acalmar. Finalmente, quando noto que está mais tranquilo, afasto-me.

– Melhor? — pergunto.

– Não suporto vê-la sentindo dor — admite. — Isso me deixa maluco.

– É, eu vi.

– Eles me torturaram com isso. Injetaram em mim algo que me fazia viver inconscientemente tudo o que me perturbava. E a possibilidade de vê-la ferida de alguma forma…

– Shh… Está tudo bem. Logo vou sarar. Só precisamos sair daqui.

– É, tem razão. Me desculpe, Sam.

Sorrio. Desculpas? Eu tinha me entregado a três demônios apenas para salvá-lo. Sei bem o que ele está sentindo agora.

– Tudo bem, vamos.

Andamos por cerca de uma hora entre vários túneis. Perguntei a Rael e ele me confirmou que estamos nos subterrâneo. Apesar dos demônios conseguirem andar em plena luz do dia, o seu habitat natural era a escuridão. Para piorar, todos os túneis eram iguais, pelo menos para mim.

– Estamos quase chegando — declara Rael.

– Hein? Acho que já passamos por aqui umas quatro vezes.

– Não passamos por aqui. Sei aonde estou indo.

– Tá certo, James Bond. Ou talvez eu deva chamá-lo de GPS — digo, irônica.

– Ou de namorado. É muito mais apropriado agora — completa, deixando-me meio sem reação. Não respondo. — Ok, é aqui. Está vendo aquela porta ali? Vai dar para um salão imenso. Depois dele, só há uma porta, que é a saída. Aí é que vem a parte difícil.

– Tá, tá, desembucha — falo.

– Esse é o laboratório deles, onde passam a maior parte do tempo. E onde provavelmente estão agora.

– E o que temos que fazer?

– Matá-los. Somos dois, ambos machucados. Não podemos simplesmente subjugá-los.

– Alô? Não temos nenhuma faca com substância celestial, caso você não tenha notado.

– É, mas temos outra coisa. — Ele estende a mão para a sua asa direita, que está encharcada de sangue, e puxa uma pena ao mesmo tempo em que protesto:

– Rael, não!

– É o único jeito. Você só precisa feri-lo. Cabeça ou coração.

Então, talvez eu deva explicar algo sobre nossas asas. Os anjos são seres que foram feitos para combater e proteger. Nossas asas são a nossa proteção. Elas possuem um revestimento da substância Celestial, que faz com que os demônios fraquejem ao se aproximar. Claro, nós temos armas e treinamento também. Porém as asas ajudam muito. No caso de Rael, é ainda melhor — para nós, e não para os demônios.

O sangue angelical é mortal a qualquer demônio e humano. Um monstro que seja tocado pelo sangue de um anjo morre em agonia. É a preservação da nossa espécie que, como qualquer outra, pode entrar em extinção. Isso impede que demônios bebam nosso sangue para se fortalecer. E, no caso dos humanos, impede que os anjos da guarda que são muito apegados aos seus protegidos, venham à Terra para fazer doações, em casos de acidentes. Se o sangue de um anjo for coletado, logo se perceberá nos exames que algo está diferente, e então o anjo será fonte de estudo. E isso resultará na descoberta de nossa existência.

Ah, Sam, mas o que tem de ruim se souberem da existência dos anjos? Aliás, todos que creem já não o sabem? O problema não é saberem da existência dos anjos, mas a ganância do homem. Claro, não de todos, mas mesmo eu — que ainda acredito na humanidade — tenho medo. O homem ganancioso é capaz de tudo para se dar bem. Imagine que um grupo deles saiba que um anjo anda por aí, que pode ser seu vizinho! Iriam persegui-lo, estudá-lo… Você vê quantos testes são realizados cruelmente em animais? Pois assim seria, ou pior, conosco. Não seríamos considerados iguais e, talvez, nem superiores. Ou mesmo se considerassem, testes e mais testes seriam realizados para acabar com essa desigualdade. A ganância do homem é a destruidora dos grandes avanços benéficos da Ciência para a humanidade.

Enfim, voltando ao assunto, depois de uma longa explicação, não gosto de ver Rael arrancar uma de suas penas, porque isso o enfraquece também. Mas antes que eu possa protestar, ele arranca outra.

– Já chega! — exclaro, severa, segurando as suas mãos. — É o suficiente!

– Mas eles são três! — replica.

– Damos conta.

– Tem mais uma coisa: preciso ser liberto, para poder sair daqui. Se não, quando o demônio se for, eu desaparecerei com ele.

– E qual deles é…?

– O maior.

– Nem me surpreendo…

– Tudo bem. Vamos.

Tudo acontece depressa demais. Assim que abrimos a porta, somos flagrados. Não porque a porta rangeu ou porque eu tropecei. Mas porque não fomos nós, exatamente, que a abrimos. Foram os demônios.

A partir daí, não há muita conversa — exceto se considerarmos que gritos e pragas são conversas. Jogo-me em cima do menor rapidamente e o firo com a pena. Ele parecia estar tão chocado com o fato de termos chegado ali, que acho que nem percebeu o que estava acontecendo. Uma presa fácil. Logo o demônio pequeno (se é que podemos chamar aqueles armários de “pequeno”) está no chão, e eu me viro para o Armário Número 1. Provavelmente eu havia ferido o Número 3.

A luta é mais difícil com esse. Ele sabe qual dos meus braços está machucado (afinal, foi ele que quebrou). Infelizmente, foi o direito, e eu sou destra. Ele o puxa, fazendo-me berrar de dor. Oro para que Rael não se desconcentre.

Por segurar a pena com a mão esquerda, sem muita habilidade, não demora muito para que o demônio a derrube. Sem arma, recuo até a parede. Burra, burra! Devia tê-lo ferido quando puxou meu braço! Tento pensar em uma solução, mas nada me vêm. Não há outra opção além de correr para a saída, mas Rael e o Armário Número 2 estão engalfinhados.

– Não tem saída, anjinho — aquela voz asquerosa murmura, fazendo meu sangue ferver de asco. — Que burrice a de vocês, tentando escapar assim. Achou mesmo que seria tão fácil?

O Armário se aproxima de mim, e pelo canto do olho, vejo que Rael está quase vencendo. Quase peço ao Pai para que ele vença logo e venha me ajudar, mas me repreendo mentalmente. Preciso aprender a salvar a mim mesma.

Por favor, alguma coisa… Qualquer coisa…

– Eu vou prender você, e depois vou torturar o seu namoradinho na sua frente. Vou arrancar seus olhos e depois seus braços e pernas. Vou fazê-lo sentir tanta dor, e você estará assistindo tudo…

Olho para Rael. Meu anjo da guarda salvador, aquele que esteve comigo, me protegeu, me deu bronca quando era preciso, me aturou. O que me fez rir, fez meu coração ficar tranquilo. Aquele que fez com que eu, um anjo, me apaixonasse…

Ah, mas nem pensar. Ninguém machuca Rael. Só eu.

Uma onda de fúria passa por meu corpo e sinto uma explosão se aproximando. O Armário está com um sorriso maníaco no rosto, mas eu abaixo a cabeça preparando-me para o que está por vir. Lentamente, ela se apodera de mim, uma bola de fogo que se estende do meu peito até a ponta dos meus dedos. Finalmente, expande-se, indo além do meu corpo, indo além da minha aura. Uma luz incrivelmente forte inunda todo o corredor e vejo Rael aproveitar-se da distração do Armário 2 para lhe dar o golpe final. Por outro lado, o Armário Número 1 recua, espantado. Agora sou eu que caminho em sua direção.

– O que é isso? — gagueja o monstro.

– Ninguém mexe com quem eu amo, verme. Você é só um ser das profundezas. A inveja lhe consome, a ganância lhe corrompe, a vaidade o faz subestimar dos seus inimigos. A luxúria o cega, a ira o guia e a preguiça o faz acreditar que nada irá perturbá-lo. Eu sou uma Descendente de Gabriel, o Segundo Escolhido. — E avanço.

– As asas… douradas… Não! — exclama.

– As minhas asas o fraquejam, porque elas são a mistura do que há de bom na humanidade e o que há de bom nos anjos.

– Piedade…

– Piedade? Não existe piedade para aqueles que não sabem o que é perdão! Demônios não conhecem o perdão, o amor… — Vejo Rael se aproximando por trás do monstro. — No entanto, posso ter piedade com você. Liberte Rael, e eu lhe darei a minha piedade. Dou-lhe minha palavra.

O demônio ergue o rosto, depois de obter minha palavra, e diz, alto e claro:

– Eu o liberto, Rael, dos anjos.

Noto que Rael ainda está com a pena na mão, bem próximo do monstro. Nossas mentes estão conectadas e sei o que temos que fazer.

– Você tem a minha piedade… — digo, recolhendo as asas, ao mesmo tempo em que vejo os olhos do demônio brilharem de malícia. Em fração de segundos, ele tenta se jogar contra mim, as garras expostas, mas Rael o detém, ferindo-o bem na altura do coração. — Mas não disse que teria a de Rael. Não adianta eu lhe dar minha piedade se você não a aceita. E vermes como você não possuem coração. Agora sua existência acaba aqui, pelas mãos da Justiça Celestial. Se a um feres, pelo Pai serás punido. A Justiça Celestial não falha jamais.

As minhas últimas palavras são o adeus daquele demônio. Seu corpo é absorvido rapidamente pela terra, e toda a energia se esvai do meu.

Os sentidos me vão embora. Mas não tão rápido. Porque eu sinto braços me amparando. Braços de conforto, paz, tranquilidade. Braços de lar.

Braços de Rael.

Notas finais
Ah, meu Pai, que saudades dos meus anjinhooos! Demorei para postar, não foi? É que as semanas foram muito corridas, com muitos trabalhos da universidade, e ainda adoeci, estou com dor de cabeça há dias...! Mas para comemorar a minha volta, um capítulo grande o/ (Brincadeira, não foi proposital, desculpem!) Enfim, não está no dia certo de postagem, porém eu sentia muita falta de vocês! Então, o que acharam? Ah! Obrigada a The Doctor, Caçadora de Estrelas, s0nh4d0r4, Nath, Marcybel, Tainá e Dríada Dias pelos comentários :D Vejo vocês no próximo capítulo! Beijoos