Seja Um Anjo
18 Partida
Notas iniciais
Acordo com a sensação de que levei uma surra, depois fui jogada numa máquina de lavar roupas, centrifugada, estendida de ponta cabeça num varal e finalmente passada. Ao abrir os olhos, vejo um teto familiar e sinto uma textura muito conhecida de lençóis. Meu quarto! Minha cama! Ah, minha cama… Como senti sua falta! Como doeu imaginar que nunca mais a veria; nossa história de amor é tão linda…!
Espreguiço-me e tento sorrir, porém todo o meu corpo dói. Minha boca está tão seca que parece que passei uns três dias no deserto, e eu, sinceramente, preciso de uma escova de dentes e creme dental. Tipo, para ontem! Olho para o lado, tentando identificar o caos que eu havia deixado pela manhã, mas tudo está perfeitamente organizado. Depois de me interrogar mentalmente se havia virado sonâmbula, noto quem provavelmente arrumou minha zona de batalha — ops, meu quarto.
Rael.
Ele está sentado na minha cadeira de estudos, a cabeça debruçada sobre a mesa, por cima de um livro que reconheço como 299km/h. A respiração regular e calma me indica que está dormindo, e, por um momento, meu lado mau quis gritá-lo para que ele tomasse um susto. Mas ao invés disso (e talvez por minha falta de forças), contento-me em ficar contemplando-o por alguns minutos, antes de chamá-lo suavemente:
– Rael… Acorda, Bela Adormecida! Rael. Rael… Rael! — chamo-o. Ok, talvez isto não tenha sido muito suave. — Rael, é sério, tem uma cobra subindo por sua perna. Estamos caindo de um precipício. O mundo está acabando. Gabriel está vindo aqui prender você. — Nada. Parece uma múmia. — Tá bom, estou saindo desta cama agora e vou atrás de alguns demônios, chutar os traseiros deles.
– Não — ouço a voz dele, que parece sair das profundezas do Tártaro. Olho-o, mas ele nem levanta a cabeça. Apenas ergue o braço para apontar para mim. — Não. Se. Mexa. Não ouse sair dessa cama.
– Ahá! Eu sabia que você estava acordado! — acuso.
– E alguém consegue dormir, se você não para de falar?
– Por que não me respondeu?
– Porque eu ainda tinha esperanças.
– De?
– De que você calasse a boca e voltasse a dormir.
Rael finalmente ergue o rosto e me fita. Observo-o, procurando ferimentos ou marcas da nossa pequena odisséia, mas não há nada. Sei que anjos se recuperam sem precisar de grande esforço, porém como ele se recuperou tão rápido?
– Acho que isso é subestimar você, não é? — questiona.
– O quê? — Estou tão distraída com seus ferimentos que-deveriam-estar-aqui-mas-não-estão, que nem percebo do que ele está falando.
– Que você calasse a boca. — Rael puxa a cadeira para mais perto. — Tudo bem, em que está pensando?
– Cadê seus ferimentos?
– Já cicatrizaram! — responde, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Tão rápido?
– Não, cicatrizaram totalmente no segundo dia.
– SEGUNDO DIA? — berro. — Quantos dias eu fiquei apagada?!
– Hm, quatro dias — diz, meio receoso.
– Quatro dias? Quatro dias?! E por que raios você não me acordou? — Neste momento, já estou querendo esganar Rael.
– Eu tentei! Mas você parecia uma pedra aí, e o médico disse que era melhor você descansar. O estresse do acontecido consumiu muito de você. Você acordava e dormia de novo, o tempo todo.
– Médico? Para que médico, pelo amor do Pai?
– Você quebrou o braço. Precisava chamar um médico.
– Alô? Eu sou um anjo, esqueceu? Não preciso de médicos, eu me recupero sozinha.
Rael começa a se levantar e sair do quarto.
– Aonde você vai? — questiono. — Ainda não terminamos nossa conversa!
– Você precisa tomar um banho e depois sair dessa cama, comer… Após, e somente após isso, nós iremos conversar.
– Por quê? Estou fedorenta?
– Você não gostaria que eu desse banho em você, gostaria? — ele rebate, e eu noto um olhar malicioso em sua expressão.
Fico vermelha. Como assim Rael estava sendo malicioso? De onde veio aquilo, pelo amor do Pai?! E que calor é esse que estou sentindo? Claro que eu não gostaria que ele me desse banho. Óbvio que não. Argh! Deslizo da cama — literalmente deslizo, acabando de joelhos no chão — e levanto. Rael tem razão: eu preciso de um banho!
Já relaxada, vestida e com os cabelos lavados, saio do quarto em direção à cozinha. Meu Pai, que cheiro é esse? É pizza? Hmm…
– Quer pizza? — a voz de Rael me saúda.
Uhul! É pizza! Jogo-me na cadeira, enquanto ele coloca um prato com uma fatia enorme na minha frente. Espero até que ele se sirva e finalmente ataco minha refeição.
– Que delícia… Parece que não como há dias! — falo.
– E realmente não come. Pelo menos, não direito.
– E de que eu tenho vivido? Sonhos?
– Como eu disse, você acordava uns poucos minutos, e não ficava muito consciente.
Ficamos em silêncio. Aproveito o instante para observar Rael. Apesar de ser um anjo e de se recuperar rápido, as marcas do cansaço ainda estão visíveis em seu rosto. Sua expressão demonstra tristeza e fico me perguntando há quanto tempo ele não dorme direito e no que tem pensado. Toco sua mão e a afago.
– O que houve? — pergunto, baixinho. Ele me encara por longos segundos antes de responder.
– Nada.
– Você tem dormido? — Mas ele não responde. — Rael, por que não tem dormido?
– Porque eu estava cuidando de você, óbvio!
– Mesmo assim, eu não ia fugir! Não sou sonâmbula. Eu acho.
– Eu não iria sair de perto de você, de qualquer jeito.
– Você nem ao menos tentou dormir? — Não sei por quê, mas me irrito com isso. — Caramba, Rael, você não pode fazer isso! Precisa descansar!
– Eu não conseguiria dormir, de qualquer jeito.
– Por que não? Como pode ter certeza?
– Coma mais um pouco — diz, me servindo de mais uma fatia. Começo a devorar esta também.
– Nem pense em me distrair — aviso.
Ele fica em silêncio e lembro das declarações delirantes dele, quando pensava que eu não estava ali, que era só uma alucinação, enquanto estivemos encarcerados. Tudo o que ele me disse e o que passamos lá dentro… Foi só por causa do momento, não foi?
– É muito egoísmo meu querer que estivéssemos lá ainda, só para poder beijá-la mais uma vez? — Rael pergunta, de repente. Eu não sei o que responder. — Lá dentro… Eu não me sentia culpado. Achava que iria morrer, jamais iria sair dali. Então por que não viver o que sinto? Por que não fazer o que meu coração deseja?
– Rael…
Mas ele não me dá chance de falar. Simplesmente se levanta e me puxa para si, prendendo-me em seus braços e selando seus lábios nos meus, num beijo de amor, paixão e entrega. E eu não quero fugir. Eu não vou fugir.
– Vem cá. — Estamos no sofá, assistindo a um filme qualquer, e Rael me chama. Chego perto dele, e ele passa o braço por meu corpo, abraçando-me. Tenho a sensação de segurança e conforto. Posso ficar aqui para sempre e nunca ir embora.
Apesar de saber que anjos não podem namorar, não podem se apaixonar, não se relacionam desse jeito, decido, pelo menos por esses últimos tempos, ignorar tudo isso. Durante esses cinco dias em que estive em coma, Gabriel veio a mim em sonhos e me revelou algo. Tenho que contar a Rael, mas não quero estragar esse momento.
Quando recebi a notícia sobre o que eu sou, meu coração ficou pequeno. Eu me senti forte e fraca, ao mesmo tempo, capaz de tudo e incapaz de qualquer coisa. É estranho se sentir assim, mas era como eu me sentia. Nos sonhos, quando Gabriel veio até a mim para me explicar tudo, senti raiva, frustração, vontade de lutar contra. Porém, depois, eu entendi. Meu coração aceitou e eu aceitei o que eu sou, e as consequências disso. Não é culpa minha, é uma escolha minha.
Eu posso muito bem ser um anjo normal, se eu quisesse. Porém meu coração me levou por outro caminho. E é este caminho, por bem ou por mal, que eu vou seguir.
É dia 23 de agosto. Eu e Rael caminhamos tranquilamente pela cidade, apesar de sabermos o que vai acontecer. Estamos nos preparando para isso há semanas e hoje é o dia. Tudo bem, sabemos o que irá acontecer na teoria. Só não sabemos o que irá acontecer comigo.
Ontem, na faculdade, fiz algo que Rael jamais poderá imaginar, e eu preciso contar a ele. Olho o relógio e percebo que faltam apenas quinze minutos. Puxo Rael para se sentar num banco que há perto.
– Preciso te contar uma coisa, mas tem que ser rápido, e espero que não fique bravo comigo. Na verdade, são três coisas.
– Tudo bem, pode falar — ele tenta me passar calma e afaga meu cabelo. Permito-me desfrutar do carinho e suspiro. — Sei que isso é difícil para você.
– Tá. Vou falar tudo de uma vez, então, por favor, não me interrompe, tá?
– Tá.
– Ok. Bom, enquanto eu estive em coma, Gabriel me visitou em sonhos. E ele revelou um segredo dos Descendentes-anjo para mim, algo que ele descobriu ao estudar meu sangue, depois daquele incidente no hospital, lembra? Pois bem. Ele descobriu uma coisa sobre mim. Vou ser bem rápida. Dependendo do nosso tempo de convívio com os humanos e dos laços que temos com eles, nós perdemos nossa aura angelical. É, deixamos de ser anjos. Você já percebeu que tenho fortes laços aqui. Meu poder está se esgotando, Rael, mas eu não posso deixar minha raça morrer de novo. Por isso, eu fiz uma coisa. Gabriel me ensinou. Eu enlacei a minha alma à alma de Neto, o meu poder ao dele. Quando ele morrer, ele vai levar a minha aura embora. Não quero ser um anjo. Eu quero poder amar sem medo e sem restrições, poder amar como os humanos, casar e ter filhos. Só que…
– Quê? Mas você não poderia simplesmente… pedir? Pedir ao Pai isso? Tinha que fazer o que fez?
– É o único jeito. Pedir ao Pai não me faria deixar de ser uma Descendente. E eu não quero ser uma. Quero ter uma vida normal. Quero ser uma humana.
– Eu não acredito que…
– Shh… Deixe-me terminar. Bem, o que acontece é que… Eu não sei o que vai acontecer comigo, quando Neto sofrer o acidente. Ele será protegido, será levado antes mesmo do impacto ocorrer, seu corpo não terá nada, apenas uma lesão na cervical. Mas eu…
– Você o quê?
Olho o relógio. Apenas cinco minutos.
– Eu posso morrer. Posso perder minha alma. Uma infinidade de coisas podem acontecer comigo. Só não quero perder uma coisa: a lembrança desses dias maravilhosos ao seu lado.
– Quê? Morrer? Anjos não...
– E a terceira coisa que tenho a te dizer, Rael, é: eu te amo. Eu te amo com toda a minha alma. Eu amo você.
E jogo-me nos braços dele, sentindo, sentindo o impacto vir, enquanto experimento o sabor do seu beijo. Sentindo o coração ser puxado para o vazio, e a aura saindo de mim, e minha respiração falhando, enquanto as minhas lágrimas se misturam com as dele. Rael me aperta forte, sussurrando "não, não me deixa, não vai, não vai acontecer nada." Mas eu sinto que já está acontecendo. Sussurro "eu amo você" até meu último suspiro, ouvindo, pela primeira e última vez, a frase que mais amei ouvir em toda minha vida:
– Eu te amo, Samantha. Por toda a eternidade.
Fale com o autor