Seja Um Anjo
9 Encontro
Notas iniciais
Perfeito. Perfeito. Mas que diabos que dizer perfeito? O céu azul e sem nuvens é perfeito num lugar que chove todos os dias. Já para um local seco, um dia perfeito seria o de nuvens carregadas anunciando chuva. Perfeito. Que tipo de palavra é essa? É tão… relativa. Tão mentiros Tudo o que é perfeito, mais cedo ou mais tarde, acaba. Então eu proponho a exclusão dessa palavra do vocabulário!
— Ele só pode estar de brincadeira! – repito, pela sexta vez, enquanto dou voltas pelo quarto de hospital.
— Dá para você parar? Está me deixando tonto! – Rael reclama.
— Você nem costuma ficar tonto! Deixe de frescura!
— Provavelmente, peguei de você. A frescura, quero dizer. Deve ser contagioso – retruca.
Paro abruptamente e olho para ele. Rael? Sendo desaforado? Talvez isso fosse contagioso!
— Tá, vamos logo cair fora daqui! – exclamo, o que o faz levantar uma sobrancelha. Ai, Pai... – Ir embora.
Balanço a cabeça ao cruzar o portal.
Simplesmente desabo na cama. Rael foi ao banheiro tomar uma ducha e eu me deixo relaxar sobre os meus próprios lençóis. Fico ouvindo o som do chuveiro ligado por uns bons dez minutos, até que minha barriga ronca. Levanto-me; comida de hospital é terrível!
Hospital. Rum. Prefiro nem pensar nisso agora.
Dirijo-me à cozinha e roubo qualquer guloseima na geladeira. Parece que o princeso finalmente saiu do banho, já que não ouço mais nenhum ruído. Então decido que é a minha vez de tirar esse cheiro horrível de éter do corpo. Pego minha toalha e rumo ao banheiro.
Já reparou como o chuveiro nos torna filosóficos? Ou mais responsáveis? Quero dizer, quando você está ali, se ensaboando ou deixando apenas a água bater no corpo, mil e uma coisas vêm à mente. Pode ser uma lista de afazeres que você se predispõe a fazer naquele dia – e que, geralmente, é esquecida assim que se sai do box – ou uma reflexão sobre a vida, ou qualquer aspecto dela.
Normalmente, eu penso em Netinho, o professor que estou tentando “salvar”, e seu enigma. Por que? Como? Onde? Quando? Mas hoje…
Hoje, eu penso em Rael.
Relembro de quando ele assomou sobre mim, suas asas estendidas… protegendo-me. Lembro como me senti segura naquele momento. Lembro sua força, que jamais imaginei que ele tinha. É claro, ele é meio bombadinho, mas aquela força… Não, não veio de seus músculos. Rael tem uma força maior, que vem de algum lugar que sequer imagino e, no entanto, quero muito descobrir.
E me lembro dos seus braços me amparando quando eu me entregava à escuridão. Braços fortes, seguros e, ao mesmo tempo, carinhosos, cuidadosos.
Mas o que é isso?! Acorde, Samantha! Que horas são?
Batidas fortes na porta indicam que é hora de deixar o chuveiro e meus pensamentos.
— Pensei que não fosse sair mais daí! – Rael está na frente da porta, de braços cruzados.
Detalhe: eu ainda estou de toalha. E isso me faz ficar constrangida.
— Dá para você me dar licença? – peço, nervosa. Pelo menos o nervosismo pode disfarçar meu constrangimento.
— Eu quero falar com você.
Olho para ele, exasperada. Será que uma pessoa pode ser tão tapada assim?
— Será que isso não pode ser depois que eu vestir uma roupa?!
Seu olhar rapidamente se desvia para meu corpo, examinando-o de cima a baixo. Instintivamente, encolho-me. O que foi isso que encontrei na expressão dele?! Vergonha, deslumbramento…? Desejo?
E por que meu coração se agitou com essa possibilidade?
— Saia da minha frente, Rael!
— Hãn…? Eu…
Empurro-o e disparo para o meu quarto. Calma, coração, calma.
— Sam? — A voz baixa de Rael atravessa a porta do meu quarto. Imagino-o parado ali do outro lado, sem saber onde colocar as mãos, a postura cautelosa. Na segurança do meu quarto, sorrio. Depois me dou um tapa mentalmente.
— Oi – respondo, forçando minha voz a sair normal. – Pode entrar.
Vejo sua silhueta morena parada no portal. Contenho um arquejo. Um anjo lindo desse jeito deveria ser pecado. O Pai não deveria fazer guardas assim, se quer saber.
— Pode se aproximar – digo. — Eu não vou morder.
— Hum – Ele parece desconfortável. – Não, é rápido.
— O que houve?
— Eu queria saber se você aceita sair comigo esta noite. Quero dizer, nem é sair de verdade, não se preocupe. É só… Preparar alguma coisa e sentar no jardim para conversarmos, vermos a noite e…
Observo-o. Rael, aqui na Terra, seria aquele tipo de cara que tem todas e faz o que quer com elas. E essa era a imagem que ele passava mesmo. Mas eu enxergo mais. Eu enxergo sua fragilidade, como seus sentimentos são conflitantes e intensos. Pensar nisso me faz sorrir, e percebo que isso o deixa mais relaxado.
— Claro, pode ser – falo.
Vejo-o soltar o ar baixinho, lentamente.
— Tá, então o que você quer? – pergunta.
— Que tal pipoca Yokitos? Mas eu quero da amarela!
Ele ri.
— Certo. Então eu vou lá comprar.
— Espera! Eu vou com você!
Já é noite. Eu e Rael nos ocupamos pouco desde o convite dele. Pensando melhor agora, até que isso pode ser divertido. Um piquenique. Quando a lua aparece, tomamos nossos lugares.
— Hmm… Essa fresca é tão gostosa – murmuro. – Sente esse cheiro. De grama molhada pelo orvalho. É muito bom.
O dia hoje foi estressante. Nada como uma noite tranquila e de temperaturas amenas para relaxar.
Rael e eu conversamos sobre bobagens. Ele me pergunta sobre minhas aulas, e eu respondo. Então pergunto sobre as meninas, e ele ri e começa a falar delas, causando uma pontada engraçada no meu peito. Decido mudar de assunto:
— E meu sangue? – pergunto, abruptamente. Ele para de sorri e pede:
— Hoje não.
— Por que não?
— Só quero relaxar, Sam. Esses dias no hospital foram horríveis. Ficar vigiando você, imaginando mil e uma coisas…
— Imaginando o quê?
— Nada, Sam, nada.
Ficamos ambos contemplando a lua. Depois de um tempo, consigo relaxar no meu lugar. Penso na nossa Casa, e como está tudo por lá. A essa hora, provavelmente, todos estão cantando e rindo. Sorrio.
— Isso é tão lindo…! – suspiro.
— É mesmo.
Viro-me para comentar algo e me surpreendo ao perceber que ele está me encarando. Fico nervosa e riu.
— O que foi?
Seus olhos não deixam os meus nem por um segundo. Vejo-o tomar fôlego.
— Eu gosto de você, Sam. Eu não sei o que é, mas você me chamou atenção. É bonita, inteligente. Eu gostaria que…
— Não.
— Por que não?
— Não podemos. Não quero.
— Você me chamou muito a atenção, desde a primeira vez em que a vi. Não sei. Eu não queria ficar com você antes, eu estava cumprindo… ordens. Mas agora é diferente.
— Não, Rael, eu não quero.
Para me contradizer, meu coração está parecendo uma escola de samba. Droga! Ele não pode insistir mais. Se ele insistir, toda a minha determinação vai para o ralo!
— Tudo bem.
Ficamos os dois em silêncio, porém não há mais clima para continuar aqui. Então levanto-me e digo:
— Vamos?
Ele me olha e apenas se levanta também. Deixamos tudo no jardim e eu sigo na frente. Estou inquieta demais, os pensamentos embaralhados. Estamos quase chegando à porta, quando ele segura meu braço, puxando-me para si. E eu vou.
— Você tem certeza disso? – pergunta. Meu Pai, que voz sedutora é essa?
— Será só desta vez? – pergunto de volta, meio sem ar.
— Tem certeza disso?
— Só desta vez… Eu...
E ele sela minha boca com a sua.
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