Seis Lágrimas
1 Mudança de planos
Notas iniciais
“I feel something so right
Doing the wrong thing
I feel something so wrong
Doing the right thing
I couldn't lie, couldn't lie, couldn't lie
Everything that kills me makes me feel alive
Lately, I've been, I've been losing sleep
Dreaming about the things that we could be
But baby, I've been, I've been praying hard
Sitting, no more counting dollars
We'll be counting stars”
Counting Stars – OneRepublic
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Em meio às ruas da movimentada cidade de Boston, em um dia que ameaçava esfriar, uma preocupada loira ajeitava seus óculos de grau e armação quadrada e preta, que cobriam seus olhos verdes e claros. Seu rabo de cavalo movimentava-se bruscamente conforme os passos ligeiros mudavam de direção. Ela levava uma pasta consigo, a qual portava documentos importantes, como RG, CPF, currículo e outras coisas mais que era preciso entregar para uma empresa quando se está procurando emprego. E era isso que Emma Swan estava fazendo. Procurando emprego.
Fazia três semanas que a loira havia sido demitida por conta de cortes de gastos na empresa em que trabalhava. Precisava de outro trabalho, e rápido. Depois de algumas entrevistas e de levar sua documentação para vários lugares, Emma para, já cansada de tanto andar pra lá e pra cá, em uma praça. Senta-se em um banco e continua uma conversa pelo Whats App com seu amigo Tomás, que estava recomendando a moça para empresas que procuravam por candidatos renomados.
Tom: Já te recomendei pra tudo quanto é empresa. Realmente não tenho mais ideia pra te ajudar.
Emma: Vlw Tom. Mas eu to msm desesperada aqui. Preciso de dinheiro. E rápido.
Tom: Bom, c sabe q eu to aqui pro q vc precisar, certo? Pode ficar no meu AP. Não vai precisar ficam em cima do micro ondas rsrsrs
Emma: Tom, já disse que não vou transar com você. Quer que eu repita quantas vezes.
Tom: Mas eu n falei nada!
Emma: Sou capaz de ler nas entrelinhas.
Tom: Ah, n é só mais a história da vdd. Agr tem as estrelinhas.
Tom: Entrelinhas.*
Tom: Corretor maldito.
Emma: kkk
Tom: Ok, mesmo sem transa vc pode ficar no meu AP. Qualquer coisa q c precisar, pode contar cmg.
Emma: Ta bem.
Tom: Hey, n sei se vai te interessar, mas...
Emma: Mas o q?
Tom: Saca aquele centro de exposições q eu te flei aquele dia?
Emma: sei.
Tom: Então... Um amigo meu que trabalhava de monitor ou segurança por lá... N sei ao certo. Bem, ele saiu de lá pra ir pra um emprego melhor.
Emma: E...
Tom: Ah, tava pensando que vc podia ir lá ver, neh?
Emma: Substituir um guarda numa exposição?
Tom: Ah, é só temporariamente e da pra viver com o salário.
A loira para e abaixa o celular, olhando para as pessoas, mas na verdade, não olhando ninguém, perdida em pensamentos. Monitoria em uma exposição. Nunca foi muito fã de arte. Na verdade nunca foi muito fã de coisas que não eram práticas. Mas talvez esse emprego o fosse. Ela volta à atenção ao celular quando o percebe vibrar em suas mãos.
Tom: E aí, topa? Vai que é vc da de cara com algo tipo “Uma noite no museu”? kkk
Emma: Não sei se as coisas na exposição vão ganhar vida, mas manda aí o endereço, vai.
Tom: Blz.
Tom mandara por mensagem o endereço e Emma, já que estava na rua mesmo, foi dar uma olhada no lugar e, quem sabe, falar com alguém para se candidatar à vaga. O sol já estava se pondo. A noite estava começando a preencher os céus e as ruas. Achou por bem chamar um taxi. O local não era muito distante e os taxis não eram tão caros naquele lugar do mundo. Talvez seu cabelo já estivesse ligeiramente desgrenhado. Sua maquiagem não era mais a mesma, com certeza. Mas era uma chance e no dia seguinte ela poderia ter passado. No próprio taxi ela retocou o batom vermelho que trazia nos lábios e um pouco do resto da maquiagem. Não muita coisa. O céu estava alaranjado e raios de sol penetravam o carro pelos vidros. Naquele dia, usava até mesmo sapatos pretos com salto, o que não era seu costume. Arrumou um pouco o cabelo e, quando terminou, o taxista parou o carro, anunciando que haviam chegado ao seu destino. A loira pagou o moço, saiu do carro e seguiu seu rumo, ainda pensando se aquele dinheiro realmente não faria falta naquela semana, ou pior, no dia seguinte.
Subiu uns dez degraus da escada de cimento e parou em frente ao prédio. A construção impunha-se sobre todos naquela rua. Havia três andares. Naquele momento, dois exibiam exposições de artistas famosos e, no outro, havia uma peça de teatro sendo exibida. A peça exibida era Peter Pan, mas a próxima já era anunciada: “Cats”, uma superprodução da Broadway. Ela realmente não tinha muita paciência para aquelas coisas.
Emma continuou a passos rápidos, indo em direção a uma dentre as várias portas de vidro e entrou no salão principal. Havia uma lanchonete relativamente grande no canto esquerdo, uma porta para a exposição do primeiro andar e um elevador para os outros andares no canto direito do local e, bem na frente, a bilheteria. Identificou o banheiro perto da lanchonete, na extrema direita e ia em direção a ele quando foi abordada por uma moça que trabalhava por ali.
– Moça, já não estamos mais abertos para visitas hoje. Peço que venha amanhã.
–Ah, desculpa, mas na verdade eu não vim para nenhuma exposição. Fiquei sabendo que precisam de uma funcionária...
–Funcionária?
–Sim. Parece-me que tem um lugar vago para monitoria...
–Monitoria... – A moça de coque definido parecia pensar. – Acho que todas as vagas para monitor das exposições já estão preenchidas.
–Algum problema? – Um homem alto, moreno e esbelto abordou as duas moças. Parecia ser um segurança de lá. Quem respondeu foi a funcionária.
–Essa jovem disse que veio por uma vaga de monitora, mas todas já estão preenchidas.
–As de monitor explicativo, sim. Mas está faltando um monitor de corredores da próxima exposição no terceiro andar.
–Ah, eu não sabia. Sinto muito, senhorita...
–Swan. Emma Swan. – Emma apresentou-se e o moço lhe dirigiu a palavra.
–Senhorita Swan, queira me acompanhar, por favor.
–Claro.
Emma o acompanha e depara-se com um dos dirigentes do local. Mesmo com a inconveniência de uma entrevista àquela hora, não houve outra opção, já que Emma precisava urgentemente de um emprego e o estabelecimento precisaria de um monitor para a próxima exposição que se iniciaria dali duas semanas. Como os dirigentes não estariam mais naquele local na semana seguinte, por conta de viagem de negócios, aquele que se encontrava ali decidiu, por bem, entrevistar Emma Swan naquele momento.
Era plena sexta feira à tarde, ultimo dia de uma das exposições. O movimento não era mais tão intenso quanto nos dias anteriores. Emma fora levada a um escritório na parte administrativa do prédio, que ficava no subsolo. Depois de algum tempo de discussão, o dirigente observou cuidadosamente o currículo e documentos da loira. 36 anos. Solteira. Possuía recomendações e nunca havia sido demitida por justa causa. Nunca havia trabalhado com monitoria em lugar algum, portanto não seria um emprego permanente. Mas por conta de Emma ter trabalhado como policial em Boston e xerife em uma cidadezinha chamada Storybrooke há sete anos, ela foi contratada.
Depois de algumas explicações, o dirigente alertou-a sobre um treinamento que faria durante a semana seguinte, acompanhando os profissionais que estavam trabalhando na outra exposição. Havia um uniforme com o número dela no estoque. Recebeu lanternas, chaves e o uniforme. Começaria “estagiando” na segunda feira. Também fora informada sobre os horários das exposições e do teatro. Os equipamentos da atual exposição localizada no terceiro andar começariam ser desmontados no dia seguinte, às sete horas da manhã. A previsão era que tudo fosse retirado até o fim da terça feira, quando a nova exposição começaria a ser montada e liberada para o público na outra segunda feira.
Depois de ter sido instruída devidamente, a nova monitora fora acompanhada até o andar “Térreo”, por onde caminharia até atravessar as mesmas portas de vidro por onde entrara.
No entanto, após despedir-se do homem que a acompanhara, seus pensamentos foram interrompidos quando estava no meio do caminho pela voz de uma mulher que se encontrava um pouco alterada em frente à bilheteria. A mulher deveria estar há uns dez metros de distancia de Emma, mas sua imponente voz era claramente ouvida pela loira. Emma a fitara por uns instantes, tentando entender o que se passava. Além da vendedora da bilheteria, outros funcionários aproximaram-se dela. Quando percebeu, a nova monitora achou melhor ver o que estava acontecendo, também movida pela curiosidade, e, quem sabe, ela não poderia fazer alguma coisa? Afinal, havia acabado de ser contratada.
Aproximou-se a passos largos. Enquanto movia-se, observando a mulher a sua frente, percebeu alguns detalhes, como os cabelos pretos cortados e repicados há alguns poucos centímetros acima dos ombros, a roupa social escura, o blazer sendo carregado no braço esquerdo, junto com a bolsa preta. Quando chegou mais perto, notou que os traços da mulher eram de origem latina. Trazia nos lábios um batom vermelho chamativo e o salto a deixava praticamente do mesmo tamanho de Emma, o que evidencia que a loira era ligeiramente mais alta. Normalmente as pessoas não analisam tanto umas as outras em um curto espaço de tempo quanto esses míseros segundos, mas o treinamento de policial que Emma recebeu nos anos, mesmo que poucos, que exercera a profissão, além da época de detetive particular, viciaram o estilo de raciocino dela. Um hábito muito difícil de desfazer. Na verdade, ela sequer tentara.
– Desculpe-nos, senhora Mills, mas a exposição já está fechada para a visitação. E a senhora também não tem nenhum ingresso.
– Então me venda um!
–Senhora, por favor. Não podemos mais vendar nenhum ingresso para hoje.
–Ah, não me venha com essa que eu sei que quando vocês querem vocês dão um jeito. Então deem um jeito!
–Senhora, o local vai fechar daqui a pouco.
–Pouco me importa quando vai fechar, eu tenho que ver essa exposição!
–Hey, calma lá. – Dessa vez foi Emma quem se manifestou. Falou para todos ali. – O que está acontecendo?
–Com licença, senhorita. Estou tentando resolver o meu problema aqui. – A morena disse rispidamente. – Se você não trabalha aqui, não pode me ajudar.
–Na verdade, eu acabei de ser contratada. – Diz Emma, enquanto tira da sacola que trazia consigo a jaqueta que fazia parte do conjunto do uniforme.
–Bom, se esse é o caso, diga para essas pessoas aí – Apontou e olhou para a vendedora da bilheteria e o homem que a acompanhava. Emma também olhou. – que eles tem que me vender um ingresso pra exposição do andar três. Eu só vou dar uma olhada e saio no momento que esse lugar fechar.
– Hey, colega, não da mesmo pra vender um ingresso pra ela? – Emma aproxima-se do balcão. – Eu a acompanharei. Eu me responsabilizo por ela.
–Não, senhorita, sinto muito, mas não da mesmo. – Emma olha para a morena e volta a olhar a vendedora quando ela recomeça a falar.
–Mas, olha, essa exposição vai voltar daqui a alguns meses. Ela também vai circular o país. Vocês podem ver na internet onde ela será exposta e ir até o local. Se essa senhora está com tanta vontade de vê-la, acho que uma viagem não será problema.
– Ta bom. Muito obrigada pela ajuda.
A morena disse firme para todos, mas um pouco mais para a loira, e saiu a passos largos do local, provocando um som alto com as pisadas dos seus saltos agulha. Saía de nariz empinado. Emma sentiu-se mal. Não poderia deixar as coisas assim, no ar, com ela a ofendendo nas entrelinhas. Afinal, ela realmente tentara. Sem pensar duas vezes, apressou-se para encontrar a morena que já havia passado pelas portas de vidro e descia os degraus das escadas. Alcançou-a apenas na calçada, perto do ponto de taxi. Puxou-a pelo braço.
–Hey, o que é isso?
–Desculpa, mas eu não gostei do jeito que você saiu.
–Problema seu. — Puxou o braço de volta.
–Olha, eu realmente tentei.
–É, mas não adiantou de nada. Melhor se nem tivesse tentado. – A morena voltou a caminhar pela rua.
–Você não vai nem tentar ver a exposição em outro lugar!
–Por que você se importa? – a morena bradou, ainda de caminhando e de costas para a loira.
–Não sei! Mas eu me importo!
Isso fez com que a menor parasse de andar. Por um momento pensou naquilo. Remoeu em sua mente: “Não sei! Mas eu me importo!”. “Mas eu me importo!”. “Eu me importo!”. Foi questão de segundos. Girou a cabeça e voltou a olhar para Emma, que quebrou o breve silêncio que havia se estabelecido.
–Olha... Você tá com a cabeça quente... E o tempo tá esfriando... Vamos tomar uma bebida, um café, alguma coisa, vai...
–Por que tudo isso?
–Porque eu acho que eu poderia ter feito algo pra te ajudar e eu não fiz...
–Está se sentindo culpada?
–É... Algo do tipo. Vem ou não vem? — A morena olhou a rua, as pessoas ao redor e a noite caindo. Olhou o relógio que trazia no pulso. Caminhou em direção a Emma.
–Ta. Acho que eu preciso beber alguma coisa, mesmo. Onde pretende me levar... Miss...
–Swan. Emma Swan. Bom... Tem uma cafeteria por aqui. Começaram a andar na direção oposta a que a morena havia tomado.
–Estou com fome, Miss Swan.
–Bem... — Emma caminhava enquanto segurava sua bolsa em um ombro e a sacola com os novos instrumentos de trabalho na outra. — Tem um restaurante por ali também. A comida é muito boa... Acredito que vá gostar senhora...
–Ah, por favor, não sou tão velha...
–Desculpe, força do hábito. Então, senhorita...
–Mills. Regina Mills. Mas me chame só de Regina, por favor.
–Está bem. Regina.
–Você paga.
Algum tempo depois, no restaurante, após sentarem-se em uma mesa para dois ao lado de um grande vidro, por onde elas poderiam ver o movimento da rua, com pessoas e carros passando, luzes e a cidade já obscurecida pela noite e vagamente iluminada pela lua crescente. No entanto, mal dava para vê-la por causa dos altos prédios que encobriam muito da vista natural... E até mesmo da vista urbana. Regina estava observando o cardápio já fazia um bom tempo. Elas não tinham sequer trocado uma palavra depois de chegarem e sentarem-se.
Regina.
–Sim? — A morena respondeu sem sequer desviar o olhar do cardápio.
–O garçom ficou aqui durante quase dois minutos esperando você pedir. Eu já pedi e dispensei ele por enquanto, mas por favor...
–Não me apresse, estou decidindo. Sou cliente e o garçom, assim como os outros funcionários, estão aqui para me servir. E eu para comer e pagar o salário deles.
–Sim, mas...
–Já disse para não me apressar, Miss Swan. — Fez-se um silêncio. A menor desviou o olhar do menu para a loira à sua frente. Fechou o cardápio e colocou-o em cima da mesa, mas seus olhos não se desviaram de Swan. Inclinou-se e ficou com seu rosto muito perto do da outra que já estava um pouco inclinada em cima da mesa. Trazia um meio sorriso no canto dos lábios vermelhos. A maior se pronunciou em meio à tensão que se formara.
–Que foi?
–Vou querer Pato com Laranja. — Continuou sorrindo. — E uma taça de sidra de maçã. Satisfeita?
Emma assentiu com a cabeça enquanto afastava-se de Regina. Fez sinal para o garçom. Finalmente Regina Mills tinha se decidido por um prato. Apesar da suspeita da loira de que a morena já havia se decidido há algum tempo e quis fazer algum tipo de charme ou provocá-la mesmo. No fim, não importa. Após Emma fazer o pedido ao garçom, voltou a sua atenção à mulher a sua frente e enquanto tocava delicadamente e de forma ritmada o pano branco que cobria a superfície da mesa com as pontas dos quatro dedos da mão direita.
–Então... Não vai tentar ir no próximo local para onde vai essa exposição? — A menor suspirou antes de responder.
–Não sei... — Ajeitou-se mais a cadeira. — Estou um pouco irritada por não ter conseguido ir hoje.
–Mas por que não foi antes? Ela esteve aberta ao público durante uns três meses...
–Eu estava viajando a trabalho nesse tempo e só descobri que ela estava por aqui há dois dias. Infelizmente não consegui um espaço na minha agenda. São muitos casos pra cuidar.
–Casos?
–Sim. É o que os juízes fazem, cuidam de casos, não? São muitos julgamentos. Você sabe, aqui nos Estados Unidos as pessoas processam umas as outras por qualquer motivo.
–Sim, sim. — Depois de uns segundo de silêncio, Emma continuou. — Mas... Bem, sou um pouco alheia a essas coisas... Sobre o que exatamente é essa exposição? — A morena olhou para a loira com uma expressão de incredulidade. Aquela informação parecia ser óbvia.
–Você é funcionária de lá e não sabe? — Disse indignada, com um tom de voz mais alto.
–Acabei de ser contratada.
–Mesmo assim, era para você saber, não?
O garçom chegou e colocou as bebidas na mesa. A taça de Sidra de maçã e uma lata de cerveja. Foi embora após afirmar que os pratos de comida não demorariam a chegar. A morena pegou sua taça e olhou o líquido que estava dentro enquanto movia o recipiente circularmente. Bebericou um gole e continuou a falar.
–Bem... O nome da exposição é “A Realidade da Mágica”.
–”A Realidade da Mágica”?
–Sim, foi o que eu disse.
–Nossa. A última coisa que eu falaria sobre você é que se interessa por mágica.
–E qual seria a primeira?
–Poder. — Regina encarou Emma com curiosidade, esperando uma explicação mais detalhada. — Eu diria que você se interessa por poder.
–Essa é a primeira coisa pela qual você acha que eu me interessaria?
–Sim.
A morena desviou o olhar e olhou ao redor, observando as pessoas.
–Bem... — Olhou de canto para cima. — Você não está totalmente errada. — Olhou novamente para Emma. — Mas, de certa forma, magia É poder.
–Eu acho que um poder mais efetivo combina melhor com você.
A loira abriu a lata de cerveja e dispensou parte do conteúdo no copo ao lado. Bebeu um gole. A comida chegou e elas interromperam a conversa por alguns instantes enquanto provavam cada uma um pouco dos alimentos que estavam nos pratos brancos de vidro. Regina provou seu pato com laranja. Emma havia pedido um risotto sabor pizza. Uma peculiaridade daquele restaurante.
–Então você acha que magia não é algo efetivo?
–Não passam de truques.
–Truques...
–Sim. Ilusão de ótica. Treinamento diário. Baralhos e mãos habilidosas. Truques.
–Verdade. Mas mágica é só uma ferramenta pra atingir um objetivo.
–E que objetivo seria esse?
Regina fitou Emma atentamente e esperou uns instantes antes de responder.
–Sabe... Minha mãe costumava dizer que a verdadeira mágica acontece dentro de nós. A magia de verdade... É sentimento.
–Ah, sua mãe...
–Sim. Minha mãe sabia fazer mágica muito bem. Ou truques, se preferir.
–Ela trabalhava com isso?
–De certa forma. Dona Cora... Sempre disposta a iludir as pessoas. Felizmente, a maior parte das vezes ela usou isso para coisas boas. Por trás daquela mulher de face dura e aparentemente arrogante, ela tinha um objetivo nobre. Toda aquela disciplina e severidade... Tudo para que eu me tornasse forte.
A morena fitava o resto da sua Sidra de Maçã que ainda escorregava na taça conforme ela a movia. Falava mais para si do que para Emma. Pareceu dar-se conta disso e voltou a explicar melhor para a loira à sua frente:
–Minha mãe sempre foi um pouco fria e distante. Trabalhava como garçonete nos bares por aí. Apesar de tudo, era uma boa pessoa, e eu tinha uma família. Eu era feliz. De verdade. Quando estávamos sozinhas, minha mãe me ensinava alguns truques, ou então fazia um show particular para mim. Eu adorava. Desde pequena. Ela fazia alguns shows de mágica nos fins de semana e meu pai era assistente dela. Eu adorava assistir. Ela aprendeu alguns truques na adolescência, com um homem de quem ficou amiga. Depois comprou livros e falou com profissionais. Deu seu jeito. Conseguiu aprender.
–E te ensinou o que sabia.
–Sim... Mas me ensinou muito mais. Mais do que se divertir, ela queria divertir as pessoas. Ela dizia que a mágica de tudo estava aí.
–Mas e você? Já se apresentou? Essa obviamente não é sua profissão.
–Já cheguei a me apresentar algumas vezes, mas ultimamente não tenho tido tempo. É por tudo isso que eu queria ir naquela exposição.
–Uma coisa de família.
–Sim... — Depois de alguns momentos de silêncio, os quais foram aproveitados por ambas para refletir um pouco e acabar com a comida, a loira decidiu por abrir um pouco da sua vida para a juíza.
–Eu não tive uma família até os meus 14 anos... Mas uma família me adotou.
–Adotou?
–É, eu cresci num orfanato. Lá se falava muito de coisas mágicas e histórias... Aqueles contos de fada, os tantos finais felizes e felizes para sempre... Mas eu não era feliz. Depois que eu fui adotada sim, mas eu não ligava mais para histórias. Eu nunca liguei para magia ou finais felizes. Eu nunca acreditei nessas coisas. Na verdade, eu tenho mais o que fazer do que perder tempo me iludindo. Mas...
–Mas...
–Bem, ajudar alguém com assuntos de família... Por eu admirar essas coisas. O fato é que eu me importo, por algum motivo. Então... Digamos que eu posso te levar lá. Eu posso te levar na exposição.
–Mas está fechado. Acabou, miss Swan.
–Não, não acabou. — Emma tira da sacola que estava ao lado um chaveiro com algumas chaves. — Eu tenho as chaves de lá.
–Você quer me levar lá? Mas acabou de ser contratada! Pode ser demitida!
Emma olha para as chaves em sua mão direita, que estava levantada um pouco acima da cabeça. Depois desvia o olhar para Regina, com um sorriso confiante e sapeca.
–Só se nos pegarem.
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