Notas iniciais
Quero pedir desculpas pela imensa demora, e entendo as pessoas que tiraram a fic da lista de favoritos, acompanhamentos e etc... Mas aos que ficaram, meus agradecimentos. Sei que é chato ficar esperando quando você está ansioso, então, se não quiserem perdoar essa autora, tudo bem. De qualquer forma, a fic não tem culpa, então não desistam dela. Eu não desisti. Meus agradecimentos especiais aos leitores Lady Lazarus, EvilQueen4ever, Sassy Mills ,eva regina, Miriam Lane, monteith, Anna Lenes e cymb por favoritarem a fic. Desculpem se deixei de citar alguém ou citei duas vezes. Caso isso aconteça, por favor me informar. Obrigada à minha corretora que continua me corrigindo. Mandou a resposta na manhã seguinte. s2 Música de hoje: https://www.youtube.com/watch?v=4GsxBvYiGZA Sparks - t.A.T.u Chega de lenga lenga e boa leitura. PS: Deixei a recapitulação bem grande por conta do tempo que demorei para postar. A leitura dele, obviamente, é opcional.

Sparks are flying in my head
Fading softly playing dead
Sparks are flying in my head
Sparks are flying in her head

Sparks – t.A.T.u

Nos últimos capítulos — Boston:

Regina sorria. Estava flutuando, voando! Emma acreditou e via-se um sorriso em seus lábios também. Abriu os olhos e olhou a morena. Estendeu a mão para ela, que fez a mesma coisa. Não falaram nada, só deram as mãos e começaram a girar.

***

(R) — No fim... Magia é sobre sentimento, sobre visão... Ou então é só sobre acreditar...

(E)-Acreditar... — Emma repetiu pensativa.

(R)-Acreditar sem provas...

(E)-Então... Magia é sobre fé?

***

—Miss Swan, volte agora com esse carro!

—Não.

***

—Onde pensa que vai, Sra.Mills?

—Pra casa.

—A pé?

***

—Parque Florestal Nobre Cisne. — a morena parou de andar. Emma pisou no freio. — É pra lá que pretendia te levar. Conhece? — A morena a fitou.

—Está bem. Vamos.

***

—E por que insistiu em vir comigo?

Emma estacionou o carro, tirou o cinto e olhou para a morena.

—Um desafio é sempre mais interessante.

A loira deixou o banco do motorista e Regina sorriu, gostando do termo “desafio”.

***

Em um instante, quando a loira estava concentrada falando com seu monitor e o de Regina havia ido resolver um problema rapidamente, a morena segurou firmemente as rédeas e mexeu o corpo de tal forma que o cavalo começou a correr. Emma gelou enquanto Regina sorria desafiante para si mesma.

***

A loira pegou na mão da juíza e a guiou para mais perto do precipício. Chegaram a uma distância razoavelmente segura do limite e então aconteceu. Um vento arrebatador vindo de baixo, com cheiro de sal e mar, as atingiu. Ambas fecharam os olhos e deixaram-se sentir aquele vento, aquela liberdade.

***

Palmas e assovios preencheram o ar. Era quase meia noite e metade das fogueiras já estavam apagadas, soltando fumaça ainda, verdade. Elas despediram-se e voltaram, cambaleando um pouco, em direção aos chalés.

***

Incontáveis vaga-lumes passeavam por ali. Tantos e tantos quanto jamais alguma delas se recordava de ter visto. Aproximaram-se e eles as rodearam. Ficaram ali por um tempo, boquiabertas.

***

—Eu gostaria de ter filhos.

A confissão de Emma surpreendeu Regina, que abrira os olhos, mas não se movera.

—E... E aquele cara... O dono do carro?

—O Tom?

—Sim. Ele parece ser alguém importante para você.

—Ele me ama, Regina.

***

—Realmente não presto muita atenção nisso. Esses misticismos não combinam comigo. Mas fiquei sabendo quando estava folheando alguma revista, eu acho... Por algum motivo nunca mais esqueci. Esqueci de todos os outros, mas não esse.

***

Nesse momento o Dj começou a tocar “Burning Love”, de Elvis Presley. A morena agachou e a loira aproximou-se. Rapidamente ela segurou a regata branca de Regina, seu ombro esquerdo e a puxou para dentro da água. Ambas mergulharam, e quando retornaram à superfície, a juíza só faltou matar Emma.

***

A morena apresentou um penetrante e ameaçador olhar, mas, ao contrário de todas as expectativas, revidou, jogando água naquela que a havia arrastado para água. Depois de um tempo em que uma jogou água na outra, as duas estavam rindo.

***

Quando a loira foi limpar o outro lado da face da mulher que estava à sua frente, por alguns instantes tocou-lhe o rosto com ambas as mãos. Nesses mesmos segundos, Regina demorou-se com os olhos fechados, causando mais um arrepio velado na espinha das duas.

***

A loira saiu do carro para acompanhá-la até a porta do edifício onde juíza trabalhava. Despediram-se, um pouco sem graça uma com a outra, principalmente quando a monitora pediu para manter contato. Quando ia voltando para o carro, viu em uma vitrine dois colares de corações. Um coração negro e um vermelho. Não eram grandes joias. Apenas boas bijuterias. Emma ainda estava com Regina em mente, por isso os imaginou para ela. Apesar de que o preto lhe pareceu que combinaria mais com a juíza. Comprou-os. Um para si, outro para a rainha recém-descoberta. Realmente, nunca mais esqueceria esse nome. Tampouco seu significado.

***

O ambiente continha janelas e cortinas, que foram abertas a fim de arejar o espaço e fazer com que a luz do sol adentrasse o recinto. Portanto, encontrava-se bem iluminado. Os feixes de luz atravessavam locais específicos e faziam formas no chão, ora redondas, ora quadradas e também desformes.

***

—Emma Swan, sou mágica, não adivinho.

Disse a morena enquanto inclinava a cabeça para trás, puxada delicadamente pela loira, que retirou suas mãos. Os cachos loiros caiam como cascatas pelos dois lados de seu rosto enquanto ela sorria exuberante.

***

—Ah... Bem... Eu dou um jeito. Eu quero te ajudar com isso.

—E você ganha o quê me ajudando, posso saber?

—Bem... – A loira olhou para baixo, alternando rapidamente a esquerda e a direita, pensando em uma resposta. Isso durara milésimos poucos segundos. – A sua companhia.

Regina corou de leve. Não imaginava uma resposta tão direta por parte de Emma.

***

Ambas estavam perto da casa de Regina. Caminhavam tranquilamente sobre as pedras brilhantes da ponte.

—Regina.

A juíza virara o rosto para fitar a monitora. Ao longe, uma das embarcações ancoradas na beira da cidade começava a emitir a música “Ride” de Lana Del Rey. Por um momento os olhos de Emma pareceram assustados. Mas também pediam por algo que Regina não conseguira desvendar. Antes que a morena pudesse falar qualquer coisa, a loira aproximou-se demasiadamente rápido e não dera tempo para qualquer reação. Não fora nada violento, apenas um tanto depressa. Emma fechou os olhos, retirando as mãos dos bolsos, inclinando o corpo e, aproximando seus lábios dos dela, beijou-a. Um simples, delicado e inocente toque. A pressa fora apenas para alcançar os lábios da mulher a sua frente, pois seguidamente o frenesi tomara conta da loira. Entreabriu delicadamente seus lábios rosados, enquanto Regina fechava seus olhos. A juíza ainda tentou conter o beijo, colocando ambas as mãos nos ombros da monitora. Fez um pouco de força para empurrá-la, mas desistiu instantes depois, quando suas mãos foram seguradas e afastadas pelas dela.

Emma continuava segurando a mão direita de Regina, enquanto entreabria, devagar, seus lábios e acariciava os dela. Sua mão esquerda soltou a dela, que ficou no ar, e a usou para puxar a morena pela cintura mais para perto de si. A loira chupou os lábios da morena, ora o inferior, ora o superior, enquanto os braços caiam devagar e sem forças, mas juntos. Nesse momento a mulher das íris verdes pediu, delicadamente, permissão para aprofundar o beijo. Permissão concedida, e a delicadeza deu lugar a uma caricia voraz, que provocou em ambas um comichão no ventre, quando as línguas se tocaram. Uma, duas, três vezes e as faíscas eram contidas dentro do beijo, surgidas dos choques das línguas. Uma farpa de senso penetrou no momento e Regina afastou-se, não antes que seu lábio inferior fosse aproveitado novamente pela boca de Emma.

Um segundo passou-se até que os dois pares de olhos se encontrassem arregalados. A morena retirou de sua cintura o braço da loira, que não demostrava reação. Regina desviou seus olhos para os próprios pés e o chão, soltou os dois braços de Emma, o direito e depois o esquerdo, enquanto dava passos para longe dali. A monitora chegou a chamar pela juíza, que apenas fez sinal para que a monitora não a seguisse. A loira apenas obedeceu enquanto via a morena afastar-se rumo à própria casa.

***

Por quê? Por que eu não reagi? A morena pensava consigo mesma enquanto fechava e trancava a porta de casa. Encostou as costas na madeira branca da porta e deixou que seu corpo, mais pesado que o normal naquele momento, escorregasse até encontrar o chão. Sentada na soleira da porta, Regina recolheu as pernas e passou a mão pelo rosto até os cabelos. Porque não dei um tapa na cara dela? Como permiti que ela... Que ela me... Colocou os braços cruzados sobre os joelhos e apoiou a cabeça neles. Não... Depois de um tempo tentando organizar novamente as ideias, Regina levantou-se em direção ao telefone.

—Alô.

—Alô, doutora Rose.

—Sim... Sou eu... Quem é? – A doutora perguntara com sua característica voz rouca, no momento sonolenta.

—É Regina.

—Regina?

—Mills. Regina Mills, doutora.

—Ah, sim. Por que está me ligando a essa hora?

—É que eu preciso de uma hora com você.

—Ah, já não era sem tempo! Nunca mais apareceu no meu consultório.

—Ah, sabe como é, vida corrida. – A morena fora interrompida pela doutora.

—Vida corrida que nada, Regina. Você nunca gostou de se abrir com ninguém e nunca ficou confortável na sua terapia. – Silêncio. – Escuta, tenho um horário livre amanhã de manhã, às oito. Apareça lá, estarei esperando.

—Ok...

—E Regina: eu me formei apenas para conversar com as pessoas e ajudá-las a resolver seus problemas. E isso inclui você. Você é um ser humano, tem um coração e precisa desabafar como todo mundo.

—É, eu sei...

—Regina, você estava chorando? Sua voz está embargada.

O silêncio pairou durante alguns instantes, até que a morena o quebrou quando pronunciou um sussurrante “talvez”. Rose suspirou do outro lado da linha, mudando o assunto logo em seguida:

—Enfim... Sabe, mas teima em não fazer. De qualquer forma, você está me procurando e isso é muito bom.

—É, talvez...

—É sim. E, Regina.

—O quê?

—Tente dormir e não pensar nos problemas. Deixe pra amanhã. Boa noite.

—Boa noite, doutora Rose.

Após desligar o telefone, Regina fechara os olhos por um instante. Estava desconfortável com tudo aquilo. Nunca lhe passara pela cabeça... Emma Swan... Será que realmente nunca pensara na possibilidade? Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Um pesadelo. Por um segundo talvez tivesse sido um sonho, mas um instante depois... Uma amiga. Uma mulher. A morena tentara deixar os pensamentos de lado, mas não conseguira. Mais uma noite mal dormida por causa de Emma Swan.

Deu-se conta de si mesma apenas quando já estava sentada na confortável poltrona do consultório da doutora Rose, que ficava ao lado do divã. A psicanalista a olhava com atenção, tendo um bloco de notas apoiado em uma mesinha ao lado, caso precisasse.

—Então, Regina... O que te traz aqui? Como anda a sua vida?

—Bem... Você sabe que eu não sou uma pessoa com muitos amigos ou que tem gente por perto...

—Sim...

—Mas esses dias, há cerca de um mês, uma pessoa apareceu na minha vida. Uma pessoa de quem eu acabei me aproximando muito...

—E isso não é bom?

—Deveria ser, mas talvez eu tenha me aproximado demais.

—Por que diz isso?

—Bem... – A morena desviou o olhar e balançou a cabeça – Aí que está. Essa pessoa me beijou. – Voltou a encarar a terapeuta, mulher de aproximadamente 50 anos, com cabelos curtos, enrolados e tingidos de vermelho quase vinho. – E essa pessoa é uma mulher.

—Ah, entendo.

—E o que era suposto que eu devesse fazer?

—Isso depende. O que você acha disso?

—Eu? Bem, — A morena estava com a postura ereta na cadeira, com ambas as mãos coladas e esfregando-se, numa demonstração de nervosismo e ansiedade. – Eu... Isso nunca me passou pela cabeça. Com uma amiga? Com uma mulher? Não, eu sempre gostei de homens. Eu vejo na sociedade que isso não é bem aceito, que existem casais de mulheres e de homens, eu sinceramente não vejo problema. Mas comigo? Nunca me passou pela cabeça que isso pudesse acontecer comigo.

—E por que não?

—Por quê? Vejamos, pra mim esse mundo era simplesmente outro mundo. É como se eu tivesse o meu mundinho, com as minhas coisas, as minhas questões, os meus amores do passado...

—Mas amores são amores, não?

—Não. Quer dizer, sim. Ai, nem sei o que pensar. – Levou as mãos ao rosto e inclinou-se para frente.

—Por que não encarar isso apenas como uma novidade na sua vida?

—Uma novidade? – Voltou a fitar a profissional.

—Regina, você sempre viveu com as suas regras e nunca saiu delas. Sempre percebi em você que ou algo era preto, ou era branco. Ou era bom, ou era ruim. 8 ou 80. Mas as pessoas não são tão simples. O coração não é simples, você sabe.

—É, eu sei. E tem mais uma questão: numa conversa comigo, ela disse que queria filhos. Disse que havia um homem que a amava. E... Eu não quero atrapalhar.

—Entendo...

—Foi ela quem me beijou, mas...

—Por que não tem uma conversa com ela?

—Uma conversa?

—Ela te beijou, talvez tenha a resposta para algumas das suas questões. Procure saber o lado dela, como ela está encarando isso. – A morena suspirou.

—Rose, ela chorou quando falou sobre isso. Sobre esse homem...

—Mais um motivo pra você buscar saber o que está acontecendo com ela. E talvez assim você também possa entender o que se passa com você.

—E... Eu não sei... – Regina desviou os olhos para o seu lado direito.

—Pense um pouco sobre isso, querida. Você é quem decidirá o que fazer, mas quando falamos sobre nossos sentimentos e ouvimos o que os outros têm a dizer, podemos descobrir coisas ao nosso respeito que não saberíamos se não olhássemos pelos olhos dos outros.

—Não importa o que eu pense de mim ou dela, não vou conseguir mudar os meus sentimentos, seja lá o que eu estou sentindo agora.

—Então... Apenas sinta.

Depois de mais um tempo detalhando alguns acontecimentos para a sua terapeuta, a juíza tirou o dia para pensar. Pensar no que estava fazendo, no que estava sentindo e no que fazer quanto a tudo aquilo que a circundava. Sentiu-se agradecida por sua psicóloga ter cedido um horário em pleno domingo. Não falou com Emma, tampouco trocaram mensagens. A loira apenas estabelecera algum tipo de contato ao fim da noite, quando mandou uma mensagem pelo “what’s app”, perguntando como a morena estava, mas não obteve resposta.

Após optar por marcar sessões de terapia para as próximas quatro quintas-feiras seguintes, Regina Mills decidiu estabelecer contato com Emma. Afinal, a loira não sabia mais nada sobre a morena depois daquilo, e mandou duas mensagens pedindo para a juíza dizer que estava bem, já que não respondia nada há dois dias. A monitora já estava aflita, além de não ter notícias de Regina, ainda tinha que lidar com o turbilhão de emoções que passava por ela. Estava completamente arrependida de tê-la beijado de supetão. Na quarta seguinte, a morena deu sinal de vida, dizendo por mensagem que o ensaio que ocorreria no sábado seguinte ainda estaria de pé. Também pediu para que a loira não se preocupasse e se concentrasse no que realmente importava. Não disse o que era, e Emma também não estendeu o assunto.

Depois de tudo, a loira ainda voltou-se para dentro de si, para o susto que levara após beijar a outra mulher. Nunca esperaria de si mesma uma atitude dessas, tão repentina. Foi tudo tão de repente... Nada foi planejado, nada de caso pensado. Não importava quantas vezes voltasse àquela noite, não entendia, não se entendia, não entendia nada. Ensaio que não aconteceu, passeio incrível na praia, volta pra casa, sorvete na noite que esfriara, píer, vista, beijo, susto, Regina indo embora. Mas antes dela ir... O beijo... Os lábios vermelhos... Aquela mulher de voz rouca calada por ela, pelos lábios dela. Por um momento gostou, gostou dos lábios, do batom, da língua. Nesse mesmo momento sentiu que a morena correspondeu. Só não saberia dizer se por susto, por medo, por curiosidade, pelo “calor do momento”, por ter gostado... Talvez também o quisesse em seu íntimo. Emma Swan levou os dedos aos próprios lábios, tocando-os delicadamente. Eram tantos os motivos possíveis, poderia ser um misto de tudo ou algum outro que não pensara. Talvez nunca viesse a saber. Regina era tão reservada, e por vezes a monitora era tão expansiva. A loira se aventurara, arriscara, e o resultado foi ver a juíza sendo cautelosa consigo, com a situação e com tudo. Recuou. Enfiou-se em si mesma. Entretanto, a loira também estava reclusa.

No seu mundo, nas suas questões e nos seus medos, a monitora tentava entender-se. Por que a beijei? Por que ela fugiu? Fora recusada tantas vezes na vida, não seria de se estranhar que a sua mais nova amiga fizesse o mesmo. Naquele dia voltara andando para casa, com os olhos perdidos por aí. Assim adentrara seu lar, assim pegara suas cobertas, assim deitara-se e assim dormira.

Enquanto Regina conversava com sua terapeuta e marcava sessões, a loira procurava alguém com quem pudesse contar. Depois de um bom tempo perdida em seus próprios pensamentos e sem qualquer resposta por parte de Regina, Emma buscara ajuda em um amigo querido, Tomás. Fora na terça que o encontrou em um café para conversarem sobre as questões que afligia a loira. Era noite e ele havia acabado de sair do trabalho. Estava com as tradicionais roupas sociais, terno, calça, gravata preta... Contudo, os cabelos ruivos estavam arrepiados propositalmente. Já haviam pedido o jantar e encaravam-se um ao outro, até a monitora desviar o olhar.

—O que te aflige, Em?

—Regina.

—A morena que você levou pro Nobre Cisne?

—Essa mesma.

—E por quê? O que aconteceu?

—Ela... Ela...

—Ela o quê?

Emma, que já tinha abaixado o olhar, olhou qualquer mesa à sua direita.

—Eu... Eu a beijei. – O ruivo balançou a cabeça, parecendo não acreditar no que ouvira.

—Você o quê?

—Eu a beijei, Tom. Eu a beijei. – Disse irritada, gesticulando expansivamente.

Depois da face surpresa, Tom mudou sua feição para algo um tanto carrancudo.

—E ela?

—Fugiu. Fugiu de mim. – O rapaz desviou o olhar dela. Nenhum deles se encarava. – E continua fugindo. – O ruivo passou algum tempo absorvendo a informação.

—Não sabia que você curtia mulheres. – A loira o observou com olhos arregalados.

—Não curto. – Ele a fitou e ela, por sua vez, desviou o olhar para a mesa, fechando os olhos em seguida. – Quer dizer, não curtia. Bem... Não sei, não sei mais nada.

—Foi por isso que você não aceitou namorar comigo? Por que prefere mulheres?

—Oi? Não, Tomás, claro que não!

—Por que então? Você nunca disse o que eu tenho de errado. Na verdade sempre disse que eu era um cara bacana que daria um ótimo pai. Vive dizendo que sou um ótimo amigo. Já me disse que não me acha feio. E aí, Emma?

—Eu te amo, Tom, mas como amigo. Simplesmente não te vejo como um namorado ou algo do tipo.

Ele fechou-se e ficou em silêncio novamente.

—Eu não consigo entender, Em. Você sabe que eu gosto de você. Você sabe que eu te amo e te vejo como uma mulher. Por que vem falar de beijos e romances comigo?

—Não tenho um romance com a Regina, Tom!

—E tem o quê? Uma amizade colorida? Quer ficar com ela? Vai enrolar ela?

—Tom!

Ele suspirou.

—Desculpa. Eu... Eu vou ali pedir o meu pra viagem e pagar minha comida. Acho que nessa situação não seria legal eu pagar a sua parte. – O ruivo se levantou.

—Tom!

—Emma, desculpa. Você me vê como um amigo, mas eu não consigo ser só isso. Não consigo ouvir essas coisas de você. Eu te amo, eu te desejo e esse sentimento não passa, continua aqui. Desculpa, Em, não dá.

Ele foi se afastando, ela levantou-se um pouco da cadeira.

—Tom!

O rapaz voltou-se para ela:

—Desculpa, Em, eu não consigo. Não dá.

E foi-se, deixando sozinha a loira que, além de confusa e chateada com a morena, agora tinha outro motivo para estar chateada: Tomás.

Durante a semana, por mais que Emma insistisse, Regina não respondia telefonemas ou mensagens, o que deixava a loira ainda mais chateada. Por um beijo poderia ter perdido uma grande amiga. A mulher que sorriu pra ela dentro de uma cartola magica, que sentiu a natureza profundamente na frente dela, que cantou junto, que a ajudou a escolher roupas, a acompanhou no cinema diversas vezes. A mulher cujos olhos cor de café brilharam intensamente naquela noite. Aquela noite. Que passo errado. Que dor no peito. Tão pouco tempo e tantas lembranças. E elas seriam simplesmente perdidas? Manchadas?

A morena, por sua vez, teve a segunda sessão de terapia. Achou por bem não tocar no assunto do beijo ou falar em Emma. No entanto, se precisasse, Rose estaria ali. Era uma espécie de segurança/pilar para ela. Regina guardou seus sentimentos em uma caixinha e fazia todo o possível para não abri-la novamente, apesar de que, no fundo da mente, seus pensamentos eram apenas sobre Emma, o beijo, o que havia acontecido, o que a juíza realmente queria.

Na sexta, o assunto martelava tanto na cabeça de ambas, que já não era mais possível trabalhar em paz. À noite, Emma queria ao menos um sinal de vida. Achava que merecia isso. Estava com tanto peso na consciência que as lágrimas escorriam teimosa e pesarosamente pelo rosto alvo. Enxugava-as com as costas das mãos uma, duas, três vezes. Tantas quantas se fizessem necessárias. Queria ao menos poder esconder o sentimento que a fez beijar Regina, como se ele não existisse. O desejo e o ímpeto. Esses não se sobressairiam mais. Não mais. Estava decidida a recomeçar, fingir que não acontecera nada, passar por cima ou virar a página. Não importava como chamasse. Apenas começou o que tinha que fazer com uma mensagem no “whats app” sobre uma confirmação relacionada ao ensaio do dia seguinte. Finalmente a morena respondeu, confirmando tudo, seca. Não queria estender assunto nenhum e a monitora entendeu o recado. Apenas desejou uma boa noite.

A priori, a morena visualizara, contudo, não teve a coragem para responder. Ficou olhando a mensagem e o status online da monitora. Olhou e olhou. Saiu do aplicativo para retornar 15 ou 20 minutos depois para continuar olhando a mensagem. Tomou um banho, comeu, assistiu à televisão, ligou o rádio-relógio que se encontrava por cima da mesa de cabeceira ao lado de sua cama e... Tornou a ver o recado. Dormiu. Acordou às 4 horas da manhã e novamente observou a nota. A loira havia sido vista por ultimo no dia anterior, 30 minutos após mandar a mensagem, por volta das 23 horas. Emma. A mulher que se esforçou tanto para tirar a morena da caixinha que vivia, da sua vida monótona. Conseguiu por alguns dias. Conseguiu mais ainda em alguns momentos. Regina se sentia grata. Após abrir os olhos, que fechou para relembrar tudo, pegou-se sorrindo. Um sorriso tímido e sincero. Ainda sonolenta, com a luz do celular agredindo seus olhos, a morena respondeu. Foi apenas um simples e singelo “Boa noite”, que serviu para provocar um sorriso na loira na manhã seguinte.

Todavia, o clima no ensaio não era dos mais agradáveis. Regina vestia uma regata vinho lisa e uma bermuda bege, que combinava com a meia e o tênis. Queria algo prático, mas só se tocou que aquelas eram roupas que havia comprado por influência da monitora quando olhou com mais atenção para si mesma e de quando tinha aderido ao “modelito”. Lembrou-se também do divertido dia que passaram no shopping, quando Emma derrubou sorvete de uva na calça. Emma realmente comia como uma criança. A loira, por sua vez, vestia-se com as habituais roupas para exercícios físicos. Depois do ensaio, planejava caminhar à beira da praia como semana passada, com uma única diferença: dessa vez preferia ficar sozinha. Com um blusa solta branca e uma bermuda preta, Emma apareceu no espaço que ambas estavam utilizando para os ensaios, o antigo teatro.

A morena estava puxando as cortinas, liberando o palco e deixando à mostra a caixa especial que havia comprado, a qual usaria para fazer pessoas aparecerem e desaparecerem, e também aquela que usaria apara serrar as pessoas.

—Hey. – A loira pronunciou em um tom suficientemente alto para ser ouvido pela outra, enquanto colocava sua mochila em uma mesa de madeira que estava próxima. Regina virou o rosto, fazendo com que os fios negros balançassem de forma harmônica.

—Hey.

—Vai começar com as coisas novas hoje?

—É... Eu pretendo... – E voltou a fitar as cortinas e fazer o que estava fazendo.

—E, no que eu posso ajudar?

—Bom... Você vai ser minha ajudante. Então eu suponho que hoje você será cortada ao meio.

—Cortada ao meio?

—Exatamente, Swan. E desaparecer também.

—Você faz isso melhor do que eu...- A loira murmurou enquanto desviava o olhar da morena para o chão.

—O que disse?

—Nada. Nada de importante.

—Estão venha me ajudar aqui, miss Swan, não temos o dia inteiro. – A monitora subiu ao palco. – Hoje vamos apenas treinar esses dois números novos. Vamos fazer quarenta e cinco minutos de cada.

—Por que precisa de meia hora em cada?

—Precisamos fazer tudo perfeitamente. Nada que denuncie qual o truque pode aparecer. Semana que vem treinarei aquilo que já sei fazer, mas esses... Preciso saber se realmente posso fazê-los.

—E como vai saber se está fazendo tudo certo, se não está aparecendo nada que não é pra aparecer?

—Bem... Essa vai ser uma das partes legais: assistir às filmagens.

— Filmagens? – Emma olhava a juíza descer da construção rústica de madeira que constituía o palco. A mulher ia em direção à sua bolsa enquanto respondia.

—Exatamente. – De dentro do objeto de tecido, a morena retirou uma capinha e, de dentro dela, uma câmera digital, que tinha acoplada a si uma lente básica. – Vou filmar tudo. – Colocou o objeto em um tripé, o qual arrastara de um canto para o centro do recinto. – E então assistiremos e encontraremos erros.

Após ligar a câmera, Regina voltou ao palco e pediu para que a monitora entrasse na caixa. O primeiro número a ser treinado seria o de desaparecer. Ambas sentiam-se aflitas e um tanto ansiosas, mesmo fingindo que nada havia acontecido. Até a loira decidir que romperia esse silêncio mórbido que se formava por meio das palavras não ditas. As palavras trocadas. A morena estava fechando a porta da caixa, quando Emma a impediu e colocou a cabeça para fora:

—Regina. – A juíza suspirou aflita, sabendo exatamente o que significava o seu nome naquele tom na boca de Emma.

—Emma...

—Regina, eu preciso falar sobre aquilo.

—Sobre o quê? Não aconteceu absolutamente nada. – E empurrou a porta com mais força, até que a monitora a segurou com o pé.

—Aconteceu. Aconteceu e você sabe que aconteceu. Você lembra tanto quanto eu.

Silêncio.

—Regina eu preciso te pedir desculpas. – A morena continuava com os olhos baixos, observando e não vendo o pé da moça que logo mais seria trancada. – Eu não devia ter feito aquilo. Não tão de repente. Não sem me entender direito. Não sem te falar sobre meus sentimentos antes.

—Swan! – A loira arregalou seus grandes olhos verdes quando a juíza se pronunciou continuando com o rosto direcionado para o mesmo local. – Basta! – Mais um pouco daquele desconfortável silêncio. – Quero deixar uma coisa clara: eu não quero e não vou falar sobre isso. Não sei se um dia falaremos sobre isso. O melhor é fingir que isso não aconteceu.

—Mas Regina-

—Emma!

A morena a fitou intensamente após interrompê-la, o que provocou apenas um aceno com a cabeça por parte da monitora, que se recolheu para dentro da caixa. Regina apoiou suas mãos cerradas, punhos e braços na porta, encostando também a testa. Fechou os olhos. Não queria ser ríspida, mas aquele assunto era demasiadamente delicado e doloroso. Sua cabeça fervilhava como nunca antes. Com Emma não era diferente. A loira estava recosta ao fundo caixa, com seus longos fios dourados desgrenhando-se conforme ela movimentava o rosto. Com os olhos fechados, imersa novamente no escuro, ela se lembrou do dia no qual presenciara aquela mágica. Aquela forte mágica de voar. Flutuou quando conheceu Regina. A morena que lhe abria portas agora a fechava dentro de uma caixa escura, afundada nos próprios sentimentos.

Enquanto pensamentos dançavam em suas mentes, faíscas saiam de seus olhares quando abriram, ao mesmo tempo, suas pálpebras. Embora ninguém pudesse ver, elas mesmas as sentiam dento de si. A juíza queria ocultar tudo aquilo, encobrir qualquer sentimento. A monitora não teve escolha a não ser reprimir tudo aquilo dentro de si.

—O que eu faço agora, Regina?

—Atrás de você há um fundo falso. Ache a abertura e entre.

Ensaiaram aquele número uma, duas, três vezes, e aos poucos a troca de palavras fora parcialmente esquecida. Ou pelo menos posta de lado. Emma errava em uma ou outra saída, não era discreta o suficiente, e, por vezes, Regina não conseguia a habilidade necessária com as mãos e movimentação para que tudo saísse perfeito. Foram muitas as vezes que ouvira da mulher mágica a mesma frase:

—Mais uma vez!

Depois daquele ensaio, despediram-se formalmente. Quase duas horas havia se passado com aquele ensaio e, no fim de semana, nenhuma sequer procurou ou ouviu falar da outra. E os pensamentos que apareciam eram logo repelidos. Regina deixara bem claro que nada estava bom em relação a elas. E nada além de uma amizade poderia acontecer. Nada. Por isso, sempre que começava a pensar nos próprios sentimentos ou na personalidade forte da morena, a monitora se limitava apenas a desviar o pensamento. Pegou-se jogando Candy Crush no facebook. Não se lembrava a última vez que havia jogado. Nem gostara tanto do jogo, pra falar a verdade, já que ainda estava na fase 9.

Naquela segunda-feira à noite, por ficar tanto tempo no computador, sentiu aquela dor de cabeça chata que não sentia há tanto tempo. Ao perguntar-se o por quê, lembrou-se do óculos que usava de quando em vez, para ler, mexer no computador ou celular por muito tempo, dentre algumas outras situações específicas. Uma delas foi quando estava a procura de um emprego. Achava que lhe dava um ar mais sério, além disso, precisava ler contratos. Foi em um desses dias que conheceu Regina. Foi também o dia em que conseguiu o emprego de monitora no prédio de exposições. Quando deu por si, estava em seu quarto com a gaveta de madeira aberta ao lado da cama, olhando para a capinha de seus óculos e a abrindo. Aqueles óculos de armação preta que tinha desde os 18 anos. Quase não o usava quando mais velha. Preferia lentes. Mesmo assim o guardara. Usava-o também quando conheceu Neal, seu grande amor.

Esquecendo-se de Neal uma vez mais, e tornando a tentar esquecer seus sentimentos estranhos por Regina, a loira voltou aos seus afazeres – ou ao jogo -, dessa vez com seus óculos. Enquanto isso, a morena revirava-se na cama em plenas nove horas da noite, com o rádio-relógio ligado, tentando se concentrar nas músicas e notícias. A penumbra que invadia seu quarto, as sombras contrastando com as luzes emitidas pela cidade e o som dos pneus passando pelo asfalto não conseguiam ocupar seus sentidos. Apenas os olhos assustados de Emma eram visualizados pela juíza. Os sons não surtiam efeito, eram as falas da loira que ouvia. “Regina, eu preciso te pedir desculpas. Eu não devia ter feito aquilo”,” não sem me entender direito”,” Meus sentimentos”. Pensamentos soltavam e se atiravam por todos os lados da sua mente, mesmo que não quisesse nem sequer admitir que estava preocupada com a loira, com os sentimentos dela... E também com o seus. E também, aquele laço... Ele poderia ser desfeito? Aquela amizade surgiu como um dos principais acontecimentos dos últimos tempos e um beijo pode ser capaz de jogar tudo fora?

E passaram mais uma vez por uma noite mal dormida. As caminhadas de Emma à beira mar a lembravam dos momentos passados com a morena. O lado direito do carro da juíza, vazio, sempre vazio. Uma vez a monitora entrara, com toda a sua petulância, naquele Mercedes. E da forma como invadira o carro também invadira sua vida, metendo-se onde não deveria. Ou será que deveria? A lembrança a fez sorrir. Cada pedacinho da cidade, dos hábitos e das lembranças as faziam sentir a tão temida solidão à qual estavam atiradas antes de conhecerem-se sem nem mesmo saber.

Naquela quinta-feira, mais uma vez, como incontáveis outras, Emma deu o primeiro passo e novamente foi falar com Regina, que a evitou. Deixou-a sozinha na rua, em frente ao seu prédio quando saiu com seu automóvel para ir à terapia. Ao longe, pelo retrovisor, viu uma triste loira olhando um tanto desolada para seu carro. Algumas lágrimas escorreram por seu rosto, e ela sussurrou baixinho, com a vista embaçada pela umidade:

—Desculpe, Emma.

Notas finais
Iiiii, miiil treeetas mano kkkk A coisa vai ficar mais interessante, acreditem. Estou tentando criar uma estética quanto às descrições exteriores e interiores relacionadas às personagens. Vocês perceberam qual é? Enfim... Não sei quando sai o próximo, mas vou começar a escrevê-lo o mais rápido possível. Atualizações constantes no grupo do facebook: https://www.facebook.com/groups/311012249084392/