Seis Lágrimas

16 O Fogo - Parte 1


Notas iniciais
Nem vou pedir desculpas pke já ta ficando imperdoável. O que tenho a dizer é: não desisti e vou terminar. Não vou terminar rápido, mas vou terminar a fic. Eis mais um capítulo. E, acreditem ou não, pessoas favoritaram a fic nesse tempo. Meus agradecimentos aos leitores Núbia, Giulia Oliveira, MacDino, Forcharina e xandoca. Música da vez: https://www.youtube.com/watch?v=HfKFaeS4Jfg Desculpem a demora para corrigir. Está corrigida. Obrigada pra quem ainda está aqui, vcs são maravilhosos. Eu q sou besta (e no momento, REALMENTE sem tempo).

"Where there is desire there is gonna be a flame
Where there is a flame someone's bound to get burned
But just because it burns doesn't mean you're gonna die
You gotta get up and try, and try, and try"

Try – P!nk

Nos últimos capítulos — Boston:

Regina sorria. Estava flutuando, voando! Emma acreditou e via-se um sorriso em seus lábios também. Abriu os olhos e olhou a morena. Estendeu a mão para ela, que fez a mesma coisa. Não falaram nada, só deram as mãos e começaram a girar.

***

(R) — No fim... Magia é sobre sentimento, sobre visão... Ou então é só sobre acreditar...

(E)-Acreditar... — Emma repetiu pensativa.

(R)-Acreditar sem provas...

(E)-Então... Magia é sobre fé?

***

—Miss Swan, volte agora com esse carro!

—Não.

***

—Onde pensa que vai, Sra.Mills?

—Pra casa.

—A pé?

***

—Parque Florestal Nobre Cisne. — a morena parou de andar. Emma pisou no freio. — É pra lá que pretendia te levar. Conhece? — A morena a fitou.

—Está bem. Vamos.

***

—E por que insistiu em vir comigo?

Emma estacionou o carro, tirou o cinto e olhou para a morena.

—Um desafio é sempre mais interessante.

A loira deixou o banco do motorista e Regina sorriu, gostando do termo “desafio”.

***

A loira pegou na mão da juíza e a guiou para mais perto do precipício. Chegaram a uma distância razoavelmente segura do limite e então aconteceu. Um vento arrebatador vindo de baixo, com cheiro de sal e mar, as atingiu. Ambas fecharam os olhos e deixaram-se sentir aquele vento, aquela liberdade.

***

Incontáveis vaga-lumes passeavam por ali. Tantos e tantos quanto jamais alguma delas se recordava de ter visto. Aproximaram-se e eles as rodearam. Ficaram ali por um tempo, boquiabertas.

***

—Eu gostaria de ter filhos.

A confissão de Emma surpreendeu Regina, que abrira os olhos, mas não se movera.

—E... E aquele cara... O dono do carro?

—O Tom?

—Sim. Ele parece ser alguém importante para você.

—Ele me ama, Regina.

***

—Realmente não presto muita atenção nisso. Esses misticismos não combinam comigo. Mas fiquei sabendo quando estava folheando alguma revista, eu acho... Por algum motivo nunca mais esqueci. Esqueci de todos os outros, mas não esse.

***

Nesse momento o Dj começou a tocar “Burning Love”, de Elvis Presley. A morena agachou e a loira aproximou-se. Rapidamente ela segurou a regata branca de Regina, seu ombro esquerdo e a puxou para dentro da água. Ambas mergulharam, e quando retornaram à superfície, a juíza só faltou matar Emma.

***

A morena apresentou um penetrante e ameaçador olhar, mas, ao contrário de todas as expectativas, revidou, jogando água naquela que a havia arrastado para água. Depois de um tempo em que uma jogou água na outra, as duas estavam rindo.

***

Quando a loira foi limpar o outro lado da face da mulher que estava à sua frente, por alguns instantes tocou-lhe o rosto com ambas as mãos. Nesses mesmos segundos, Regina demorou-se com os olhos fechados, causando mais um arrepio velado na espinha das duas.

***

A loira saiu do carro para acompanhá-la até a porta do edifício onde juíza trabalhava. Despediram-se, um pouco sem graça uma com a outra, principalmente quando a monitora pediu para manter contato. Quando ia voltando para o carro, viu em uma vitrine dois colares de corações. Um coração negro e um vermelho. Comprou-os. Um para si, outro para a rainha recém-descoberta. Realmente, nunca mais esqueceria esse nome. Tampouco seu significado.

***

—Emma Swan, sou mágica, não adivinho.

Disse a morena enquanto inclinava a cabeça para trás, puxada delicadamente pela loira, que retirou suas mãos. Os cachos loiros caiam como cascatas pelos dois lados de seu rosto enquanto ela sorria exuberante.

***

—Ah... Bem... Eu dou um jeito. Eu quero te ajudar com isso.

—E você ganha o quê me ajudando, posso saber?

—Bem... – A loira olhou para baixo, alternando rapidamente a esquerda e a direita, pensando em uma resposta. Isso durara milésimos poucos segundos. – A sua companhia.

Regina corou de leve. Não imaginava uma resposta tão direta por parte de Emma.

***

Ambas estavam perto da casa de Regina. Caminhavam tranquilamente sobre as pedras brilhantes da ponte.

—Regina.

A juíza virara o rosto para fitar a monitora. Ao longe, uma das embarcações ancoradas na beira da cidade começava a emitir a música “Ride” de Lana Del Rey. Por um momento os olhos de Emma pareceram assustados. Mas também pediam por algo que Regina não conseguira desvendar. Antes que a morena pudesse falar qualquer coisa, a loira aproximou-se demasiadamente rápido e não dera tempo para qualquer reação, beijou-a.

Uma farpa de senso penetrou no momento e Regina afastou-se, não antes que seu lábio inferior fosse aproveitado novamente pela boca de Emma.

***

Por quê? Por que eu não reagi? A morena pensava consigo mesma enquanto fechava e trancava a porta de casa.

—Alô, doutora Rose.

—Regina, você sempre viveu com as suas regras e nunca saiu delas. Sempre percebi em você que ou algo era preto, ou era branco. Ou era bom, ou era ruim. 8 ou 80. Mas as pessoas não são tão simples. O coração não é simples, você sabe.

***

—Foi por isso que você não aceitou namorar comigo? Por que prefere mulheres?

—Oi? Não, Tomás, claro que não!

—Por que então? Você nunca disse o que eu tenho de errado. Na verdade sempre disse que eu era um cara bacana que daria um ótimo pai. Vive dizendo que sou um ótimo amigo. Já me disse que não me acha feio. E aí, Emma?

—Eu te amo, Tom, mas como amigo. Simplesmente não te vejo como um namorado ou algo do tipo.

***

Esquecendo-se de Neil uma vez mais, e tornando a tentar esquecer seus sentimentos estranhos por Regina, a loira voltou aos seus afazeres – ou ao jogo -, dessa vez com seus óculos. Enquanto isso, a morena revirava-se na cama em pelas nove horas da noite, com o rádio-relógio ligado, tentando se concentrar nas músicas e notícias. A penumbra que invadia seu quarto, as sombras contrastando com as luzes emitidas pelos carros e o som dos pneus passando pelo asfalto não conseguiam ocupar sua visão. Apenas os olhos assustados de Emma eram visualizados pela juíza. Os sons não surtiam efeito, eram as falas da loira que ouvia. “Regina, eu preciso te pedir desculpas. Eu não devia ter feito aquilo”, ”não sem me entender direito”, ”Meus sentimentos”. Pensamentos soltavam e se atiravam por todos os lados da sua mente, mesmo que não quisesse nem sequer admitir que estava preocupada com a loira, com os sentimentos dela... E também com o seus. E também, aquele laço... Ele poderia ser desfeito? Aquela amizade surgiu como um dos principais acontecimentos dos últimos tempos e um beijo pode ser capaz de jogar tudo fora?

***

Naquela quinta feira, mais uma vez, como incontáveis outras, Emma deu o primeiro passo e novamente foi falar com Regina, que a evitou. Deixou-a sozinha na rua, em frente ao seu prédio quando saiu com seu automóvel para ir à terapia. Ao longe, pelo retrovisor, viu uma triste loira olhando um tanto desolada para seu carro. Algumas lágrimas escorreram por seu rosto, e ela sussurrou baixinho, com a vista embaçada pela umidade:

—Desculpe, Emma.

***

Depois de deixar a loira parada para trás, Regina continuava sem saber o que fazer. Rumou para o escritório de Rose, mas parecia estar ligada no piloto automático. Tanto que nem se importou em lembrar exatamente o caminho, apenas concentrava-se em quais deveriam ser seu atos, seus próximos passos para não machucar mais ainda a mulher que se enfiou em seu caminho sem mais nem menos e abalou todas as suas estruturas com um único beijo. Se fosse uma qualquer... Se apenas fosse uma qualquer... Apenas a faria ouvir poucas e boas e a deixaria falando sozinha. Afinal, era Regina, uma rainha, como gostava de pensar, e não tinha dado liberdade alguma para que a monitora pudesse chegar aquele extremo. Tinha que manter o respeito, a compostura, deveria se impor. Foi isso o que sua mãe lhe havia ensinado e era isso que estava disposta a fazer. O mundo não era um lugar fácil e quanto menor uma pessoa é de tamanho, mais ela precisa aprender a se impor. Não que a morena fosse realmente muito baixa, mas tinha lábia e sabia qual tom de voz usar e em qual situação. Até agora.

Havia conhecido Emma há quanto tempo? Pouco mais de um mês? Contudo, conseguiu ver nos olhos dela suas boas intenções, a pureza dos seus sentimentos e amizade por parte da loira. Isso a fizera fraquejar. A inocência da monitora era tão nítida que Regina não poderia se permitir ferir Emma. E mesmo assim, falhara miseravelmente. Chegou a tocar no assunto com Rose quando a mulher perguntou a ela como havia passado o dia até aquele momento, mas não estendeu o assunto. Apenas disse o quanto lamentava e sentia-se triste por estar naquela situação e por ver a loira tão desolada. A psicanalista assentiu afirmativamente com a cabeça, com olhos que esbanjavam compreensão.

Saíra do consultório melhor do que entrara, mas não passava nem perto de estar bem. Isso com certeza não. Pegou-se bebendo uma taça de Martini em um bar qualquer, pensando no que deveria fazer, em qual rumo seguir. Queria continuar a ver o sorriso da loira aos fins de semana. Não abriria mão daquela companhia. De algum jeito, de alguma forma, as coisas deveriam voltar a funcionar. Nem Sue, nem Jorge sequer haviam sido metade do que Emma lhe fora nesses poucos dias, e isso a consumia. Por outro lado, sabia que deveria se manter afastada, caso a monitora insistisse em falar sobre aquilo e tentar levar aquele beijo para algum lugar. A morena não queria admitir, mas aquilo tudo era ameaçador para ela. Grande demais para conviver.

Passara a sexta-feira um pouco melhor do que a quinta, distraindo-se com o trabalho. Queria tanto fugir dos mínimos detalhes que lhe lembrariam a loira que fez hora extra. Encomendou comida chinesa para a janta e, com tamanho cansaço, somado a dois comprimidos de calmante, desmaiou na cama. Acordou tarde, com todos os telefones da casa tocando ao mesmo tempo. O interfone, os dois telefones fixos e o celular. Despertou assustada, e quando percebeu o que estava acontecendo, apenas uma palavra lhe veio à mente: Emma. Atendeu a um dos fixos.

—Alô.

—Está viva, Regina?

—Sim, estou viva, Emma. O que deu em você? Todos esses telefones tocando é obra sua, tenho certeza.

—Estou na portaria. Você está duas horas atrasada para o ensaio.

E estava mesmo. O ensaio seria as 8 da manhã naquele dia e eram 10:10.

—Duas horas?

—Sim, são 10:10. O que estava fazendo?

—Dormindo.

—Dormindo? Você bebeu?

—Não, só tomei dois comprimidos de calmante.

—Dois comprimidos.

—Sim, dois comprimidos. Desculpe pelo atraso, ok? Se era isso que queria ouvir...

—Ok. Sorte sua que estou livre o dia todo hoje. Vamos ensaiar?

—A essa hora?

—A menos que você tenha algo para fazer, o que eu duvido.

—Talvez eu tenha.

—O interesse é seu. – A morena suspirou e fechou os olhos. Mantinha a cabeça erguida e latejando um pouco, pela forma com a qual havia despertado.

—Está bem, se não quiser ficar aí esperando, sugiro que suba.

—Regina... – Emma ficara receosa. – Tem certeza?

—Tenho, Miss Swan. Suba. E se quiser comer, pegue algo na cozinha.

Desligou sem nem mesmo esperar a resposta da monitora. Alguns minutos se passaram até que o portão do prédio fosse aberto para que a loira o adentrasse. A cada passo a sua respiração ficava ofegante. Decidira não comentar nada sobre quinta ou o beijo, mas aquilo não deixaria de ter acontecido, disso ela tinha plena consciência. Sozinha no elevador, Emma olhava a si mesma, os próprios olhos, e nada parecia ver a não ser algo esverdeado. Perdia-se em si mesma. Quando fora a última vez que havia entrado na casa da morena? Depois do dia em que se conheceram, houve uns três dias que comera à mesa da juíza. Partilhara da sua comida e do seu teto. Uma hóspede. E nada havia de errado entre as duas amigas que se aproximavam uma da outra. Foi cedo demais.

Regina deixara a porta aberta e Emma ouvia o som do chuveiro. A morena estava nua para lá da porta do banheiro. Corou. Desviou sua atenção para a cozinha, estava com fome. Comeu pão com queijo, algumas bolachas e tomou um copo de suco. O dia estava frio e por isso ela vestia uma blusa de moletom com calça Jeans e um par de tênis. O rabo de cavalo estava preso e alto, com os cabelos dourados lisos pela chapinha. Lembrava-se daquela bolacha, uma vaga lembrança... Sim... aveia e mel. Sua irmã mais velha, Ingrid, comprava para ela sempre que ia ao mercado. Foi ela que a adotou quando tinha 14 anos. Nunca havia comentado com Regina sua história inteira. Ingrid comprava aquela guloseima porque Emma adorava, desde os tempos do orfanato. Algumas agradáveis horas do lanche eram passadas na companhia da bolacha, e, por vezes, de alguns amigos. Um deles fora Tomás. O dócil e amigo Tomás que ela tinha escorraçado e machucado.

—Miss Swan. – Emma fora tirada dos seus devaneios enquanto encarava a bolacha em suas mãos, com o cotovelo apoiado à mesa.

—Sra.Mills. – Regina arqueou uma sobrancelha.

—Fazia um tempo que não me chamava assim, Miss Swan.

—É bom relembrar velhos tempos. – Disse a loira enquanto fitava a morena, que jazia apoiada ao batente da porta.

—E mesmo?

A juíza trajava uma blusa bege de manga comprida por baixo da sua jaqueta de couro negro. Nas pernas, um Jeans escuro e nos pés, um par de botinhas que alcançavam um pouco acima do seu tornozelo.

—É sim. E parece que você sabe disso. Está vestida igual a quando fomos à exposição. Ou quase igual. Na ocasião não estava com a blusa bege.

A morena olhou para si mesma, recordando-se. Voltou o olhar para a loira.

—Como se lembra disso?

—Tenho boa memória. – A loira voltou a observar a bolacha em suas mãos. – Da mesma forma que lembro dessa bolacha nos meus lanches do orfanato, e de quando minha irmã mais velha comprava pra mim.

—Irmã mais velha?

—Ingrid era o nome dela. Me adotou aos 14 anos. Foi o mais próximo que eu tive de uma família.

—Por que nunca falou dela?

—Ela faleceu. – A loira levantou-se. – Há cinco anos. Não vale a pena falar dela agora. Só vai me deixar chateada.

—Está bem... – Regina fitou o chão. Era a primeira vez que a loira falava da irmã. A conhecia pouco, e isso se tornou bem nítido aquele momento. – É melhor irmos. – Pegou a chave e abriu a porta enquanto a monitora guardava o pacote de bolachas.

—É melhor mesmo.

Ao chegarem ao antigo teatro, ambas se acomodaram sentadas no palco. Para os truques que a morena iria praticar, não precisariam ficar em pé. A madeira rústica e dura pressionava-lhes os traseiros. Cruzaram as pernas com os pés debaixo das coxas, frente à frente, como amigas conversando ao chão do pátio do colégio. A poeira da superfície não as incomodou.

Surpreendentemente o ensaio não poderia ter ocorrido melhor. Regina treinou aquilo que já sabia e obteve novamente a manhã. As cartas apareciam e desapareciam em suas mãos habilidosas, o que poderia ter provocado algo em Emma, mas as caretas que a morena fazia quando executava seus truques faziam a loira rir, e logo ambas pareciam mais duas crianças do que duas mulheres com problemas de relacionamento. Alguns dos truques não requeriam nenhum tipo de ajudante, o que fez com que a monitora fosse apenas plateia, uma plateia a se encantar, primeiro, com as expressões da juíza, depois, com a rapidez com que ela fazia as coisas, sem deixar pistas para que o truque fosse descoberto. Emma pegou gosto pela coisa e a morena se encantou ao ver os olhos verdes da outra brilhando.

Dados, cartas, panos, garrafas, isqueiros, fósforos, caixa de fósforos... Tudo tornava-se um mistério nas mãos da mágica. Mas foi o mistério do seu coração que a fez hesitar e parar com as “magias”. Ele batera mais forte quando olhou os olhos brilhantes da loira.

Fizeram uma vez mais cada truque, os quais haviam melhorado muito após a primeira vez que os colocaram em prática. Ou pelo menos tentaram. A loira assistia ao vídeo da mágica e não acreditava no que via. Dividida ao meio. Não mais sentimentalmente, mas naquele momento fisicamente também.

—Regina, esses truques estão incríveis. – Disse, ainda observando a tela. Depois voltou o olhar para a morena. – Você é incrível, Sra.Mills.

A juíza esboçou um meio sorriso, que sumiu após um flash do beijo que trocaram no cais.

—Obrigada, Miss Swan. – Agradeceu secamente. – Com fome?

—Na verdade, sim. – A loira fingiu não notar a cara fechada de Regina.

Foram juntas a um restaurante de comida mexicana que ficava ali por perto. O local era incrivelmente decorado. As paredes coloridas, alguns vasos grandes e pequenos com cactos estavam espalhados por lá. Máscaras de madeira inspiradas nas máscaras da tradicional luta livre mexicana estavam penduradas por todos os lados. O som ambiente era animado, homens e mulheres com sombreiros andavam para lá e para cá servindo as mesas. Nachos, quesadilhas, burritos, tacos, guacamole, chili e pimenta. Tudo emanava cheiro. Os estômagos de ambas roncaram. A loira ouviu o da morena e riu baixinho.

—Sem comentários, Emma.

Levemente corada, a juíza andou logo à procura de uma mesa. Sentaram-se em uma ao lado de uma grande parede laranja, que tinha quadros pendurados e um esqueleto sentado em um vão, com sombreiro, ao lado de vasos de cactos, não muito longe da porta pela qual entraram. O garçom levou-lhes os cardápios e as deixaram a sós. Elas observaram o menu atentamente. Emma optou por um burrito recheado de carne, queijo, tomate, alface e chilli; Regina preferiu dois tacos, um com o recheio principal de queijos, e outro recheado de carne. Uma porção de nachos também fora pedida, assim como água para a morena e cerveja para a loira.

Após a refeição com um debate sobre tipos de mágica, algumas delas as quais Emma pediu para que Regina aprendesse e outros pedidos da loira para que se tornasse aprendiz da mágica, obviamente após uns tantos goles de cerveja, ambas se dirigiram para um local um tanto quanto relaxante. A juíza convidara a monitora para passar um tempo no clube que raramente frequentava. Faria algo que há muito deixara de fazer por falta de tempo e entusiasmo: praticar esgrima.

O local não era exatamente grande, mas tinha espaços para alguns jogos interessantes, como alguns de inverno. Quadras para rockey, curling, ringue para patinação, plataforma para combinado nórdico e outros jogos mais comuns como pista de boliche, quadras poliesportivas, piscinas abertas e cobertas e finalmente pistas de esgrima. Havia janelas, o que deixava todo o ambiente bem iluminado, esbranquiçado, morno. Agradável. Emma observava atenciosamente o espaço a sua volta enquanto Regina caminhava a passos firmes em direção a um armário todo feito de metal, que jazia recostado em uma parede próxima, de cor branca, ainda que o rodapé estivesse com manchas cinza de sujeira.

—Esgrima? Não faço a mínima ideia de como lutar esgrima, Regina.

—Por isso vou te ensinar um pouco antes de mostrar o que eu aprendi. Ou pelo menos... – A morena que estava fuçando no armário metálico à procura de equipamentos voltou seu olhar para a loira, que se encontrava há uns 7 metros atrás de si, no meio da “passarela” de esgrima. – Tenho que tirar a ferrugem, Miss Swan. E é você quem está aqui. – Voltou a ficar de costas para a monitora.

—Eu não sei...

—Pare de pensar e venha. Vou te dar equipamento e te explicar o básico. – Emma andou até perto de Regina, onde ficou com o rosto perto da nuca da morena, que secretamente guardou um arrepio para si. – Aqui estão as suas vestes, Swan. A máscara de florete, o fato, a proteção de peito, os tênis e meias, o gile eléctrico de florete e as luvas de florete.

—Fato?

—É o conjunto calça e casaco. Enquanto você se veste, eu vou ajustando as coisas aqui.

—Ok...

Algum tempo depois, a loira voltou com algumas partes da roupa soltas, as quais Regina teve de ajeitar. O equipamento elétrico da roupa fora ajustado com êxito, tanto em Emma quanto na morena. A juíza explicou o básico de esgrima para a monitora, que aprendeu rápido. Basicamente, no modo florete, indicado para mulheres e iniciantes, pode-se tocar apenas o tronco do adversário para pontuar. Há também o “direito de passagem”, o qual da prioridade de marcação de ponto a quem começar o ataque, caso haja toques simultâneos. Se o ataque for errado, ou o adversário defender, antes da resposta, a vantagem é passada para o adversário. Se ocorrer toques simultâneos sem prioridade, não há pontuação. A pista possui quatorze metros, se para fugir de um ataque o esgrimista sair pelo fundo, o oponente ganha um ponto. A morena trazia a máscara levantada, e tomou a palavra enquanto terminava de colocar as luvas:

—Lembro-me de ter começado a treinar com o sabre quando parei com a esgrima...

—E essa modalidade é mais difícil?

—Um pouco. Mas não vou entrar em detalhes sobre isso nesse momento. – Terminou de encaixar as luvas, pegou as armas. – Vamos ao que interessa. – Entregou o florete de Emma e ligou o rádio. Algumas músicas aleatórias estavam tocando – Nessa modalidade não se pode desviar a arma do adversário, mas quero abrir uma exceção. Vamos deixar por conta das máquinas a nossa pontuação, ok? – A loira assentiu afirmativamente com a cabeça. Ambas abaixaram as máscaras e afastaram-se dois metros. – Em guarda, Swan. O cumprimento.

Ambas se cumprimentaram. Regina continuou.

—Vou demonstrar alguns ataques e você repete meus gestos.

E dessa forma foi feito, algumas vezes a morena utilizou as batidas das músicas para mostrar os ataques, fazendo com que ambos os corpos tomassem ritmo. Era útil para que o cérebro de Emma se acostumasse com a sequência repetida por cada parte do seu corpo. Em guarda, ataque, parada, resposta. Em guarda, ataque, parada, resposta. A mesma sequência fora repetida diversas vezes. Então, partiram para diferentes ataques, um que o braço é esticado para frente, outro que exigia da esgrimista que ela se abaixasse e o ataque viesse por baixo e outros golpes, cada vez mais duros e fortes. E Regina exigia mais:

—Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Atenção, Swan. Miss Swan, deixou a guarda baixa.

Emma desequilibrou-se e foi ao chão, cansada e esbaforida, necessitando se recompor. Enquanto o fazia, acabou deixando algo escapar.

—E você é ótima em não abaixar a guarda, não é, senhorita Mills?

Nesse momento, as máscaras foram levantadas, e os olhos encontraram-se, faiscantes. Tudo retornou às suas mentes. Quando se conheceram, a cartola, os vagalumes na viagem, a fogueira a qual compartilharam, os dias nas lojas de roupas, cinema e pipoca, os ensaios, as risadas, os olhares felizes, alguns momentos nos quais sentiram-se tão à vontade e tão tranquilas uma com a outra, o vento nos rostos no dia do penhasco, a cachoeira, a praia, o cais... e o beijo. E todo aquele rebuliço.

Os raios solares entravam avermelhados a batiam na pista e no chão. O tempo parou por alguns instantes. Desafio, mágoa e um relance de confusão brilhava nos olhos das duas mulheres. O pó levantado se fazia presente e flutuante, tal qual a primeira vez que se encontraram no velho teatro, palco dos ensaios de Regina naquela temporada. A morena baixou a máscara e apontou seu florete para uma Emma meio ajoelhada ao chão, que se levantava a certo custo, com os olhos fixos na morena enquanto abaixava o equipamento que lhe cobria a cabeça, branco pálido, com o centro negro.

—Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, Miss Swan: como anda seu pretendente?

—Pretendente? – A loira levantou seu florete. Em guarda, as duas preparavam-se para iniciar uma nova sequência de golpes, enquanto iniciava-se a música Try, cantada por Pink, ao fundo.

—Pretendente?

Ta, ta, ta-ta-ta! Sons de golpes ecoavam pelo salão em meio as questões e respostas colocadas pelas bocas afiadas de cada uma delas.

—Sim, aquele seu amigo, Tomás.

Ta, ta, ta.

—Ele não é meu pretendente, Regina.

—Você disse que ele a ama.

—Sim, ele me ama. Idaí?

—Bom, você também disse que quer filhos. Qual melhor chance que essa?

—Também quero gostar da pessoa com a qual eu estou vivendo.

—E não gosta dele?

—Não.

—Tem certeza?

Depois dessa questão, nada mais fora dito durante alguns instantes. Apenas os golpes ressoavam por todo o ambiente, ritmados pela música.

—Sim, eu tenho. — Emma abaixou-se e atingiu Regina com a ponta de seu florete, que brilhava quando era acalentado pelos insistentes rios solares que não paravam de atingi-lo.- Não tente usar o Tom como desculpa para fugir de mim e daquilo que venho demonstrando, Regina.

A morena calou-se. Retirou os fios da sua roupa, ajustou a postura e observou a loira fazer o mesmo. Semicerrou os olhos por dentro da máscara. Ambas em guarda. Quando a música se agitou novamente, a batalha entre elas recomeçou, mental e física, dividindo-se entre amor e ódio, os movimentos ganharam força e naturalidade, e foram então que se modificaram, não era mais esgrima, não era um esporte, era uma batalha entre duas espadachins medievais, com direito a rodopios, defesas, investidas. Os braços ergueram-se e o estalar metálico de golpe contra golpe explodiu do grande salão de treinos. Os braços se abaixaram e um novo ressoar as acompanhou. Nuvens cobriram o sol e a luta se deu nas sobras, como jazia dentro de cada uma.

—E não estou fugindo de nada, Miss Swan.

—Pare de ser tão orgulhosa, senhora Mills.

As passadas se deram firmes, os pés seguros e cada uma demonstrou habilidades até então desconhecidas. Com seu florete a morena impulsionou o da loira para longe, precisando apoiar-se e usar o peso de seu corpo, que, por consequência, girou. Rapidamente evitou a investida de Emma em suas costas, movendo sua arma para proteger a nuca. Parou em 180 graus e retornou no inverso do movimento, o que fez com que a monitora tivesse que dar passos para trás para não ser atingida. Ambas deram passos para frente e as pseudo-lâminas se seguraram, praticamente coladas aos corpos das duas mulheres na altura do peito, o que deu uma brecha para a juíza, que levantou seu braço, obrigando a amiga a fazer o mesmo. As duas, com os braços direito levantados, estavam próximas o suficiente para sentir cada uma a respiração da outra após levantarem as máscaras e olharem-se nos olhos. Olhos afiados, da forma que seus floretes não estavam. E nem chegavam perto. Então, Regina armou-se mais uma vez de afiadas palavras.

—Pare você de meter-se onde não é chamada.

Fora a gota d’água para Emma, que, com maestria, tomou conta da luta física e voltou o movimento para a altura do peito. Foi com fúria que fez a morena recuar a passos rápidos, até saírem da pista e adentrarem a área dos bancos, fitando os olhares preocupados e vacilantes da morena que só podia andar para trás.

—O que está fazendo, Emma?

Elas pararam apenas quando a morena sentiu a parede atrás de si.

—O que estou fazendo? Estou me metendo, Regina. Talvez isso seja o que eu nasci pra fazer, me meter nas suas coisas e atrapalhar a sua vida. Ou será que é me meter na sua vida e te trazer algo de bom? Porque eu não acredito que você sorria tão livremente antes de mim, eu não acredito que você acampava antes de mim, eu não acredito que teria visto aquela exposição se não fosse por mim¹

—Emma!

—Quieta, agora você vai me ouvir. Eu dei espaço pra você, eu me senti culpada por ter errado, eu estou tentando, Regina, mas eu gosto o suficiente de você pra não aceitar essas suas barreiras, esses seus muros, porque sei que aí dentro tem um ser humano, alguém que quer ser feliz, e alguém interessante e divertido que vale a pena! – Regina abrira a boca, mas nada conseguiu dizer. – Eu te conheço há pouco tempo, fui impulsiva e intrometida, algo que não é do meu feitio, eu sempre me contenho. Tenho medo de me machucar, mas com você as coisas funcionaram diferente, Regina.

As lágrimas da morena começaram a rolar. Seus olhos ficaram marejados. Como poderia conter a emoção. Emma muito perto, perto demais. Sentia-se sufocada. Com medo e acuada. Emma queria ter filhos. Era tudo tão complicado, tão difícil. Tinha que sair, tinha, precisava sair dali desesperadamente. Precisava de ar. Precisava pensar.

—Não importa, Emma. Você se tornou minha amiga e passei um tempo com você. Nada a mais que isso.

—Como nada a mais?

—Nada. Você é uma pessoa que eu conheci e que deve ir embora.

—Está chorando, não quer que eu vá embora.

—Estou chorando de nervoso.

—Mas Regina.

—Saia, Emma.

—Regina, por favor...

—Você foi meu passa tempo, Swan!

A loira ficou estática e afastou-se ligeiramente da juíza. Sem reação, com grandes olhos surpresos e com brotos de lágrimas.

—O quê?

—Exatamente isso, Miss Swan. – A juíza enxugava as lágrimas e recompunha-se. –Você ouviu bem. Eu falei do seu amigo porque não queria falar a verdade. Você foi muito longe e não significa tanto pra mim. Tirou essas coisas da sua cabeça.

—Não significo? –Os olhos de Emma, com as lágrimas, inchados, tristes, tocaram profundamente a mulher dura que era Regina. Mas como ferro, ela não dobrou-se. Poderia esmigalhar-se, mas não se dobrava.

—Isso mesmo, Miss Swan. – Ela a olhou com o nariz empinado. – Você era só meu passa tempo. Nada mais que isso. Volte para a sua vida.

A loira a olhou, tonta, esmorecida, acabada. Regina se fez mármore. A loira deixou a máscara cair ao chão, mas a morena ainda tinha a sua presa a cabeça. E Emma foi-se embora sem pensar nas vestimentas, em Regina ou em si própria, com um buraco no lugar do coração.

Notas finais
Bom... se quiserem comentar, ficarei feliz.