“Respira fundo. Inspira. Sem pânico.”

Rebecca repetia essas palavras mentalmente, sentada no chão úmido de um lugar que ela imaginava nunca ter estado antes. Não havia luz, e quando gritava ouvia a sua voz reverberar. Após um tempo, quando alcançou a parede e tateou-a até dar uma volta completa, constatou que não se tratava de um lugar imenso, e sim de um quarto com isolamento acústico.

Não fazia noção da hora. Da última vez que checara eram exatas 18 horas. Ela acabava de sair de uma cafeteria que ficava perto da faculdade quando um carro vermelho passou perto dela. Homens encapuzados saíram do carro, seguraram e jogaram a menina no carro, tapando sua boca e seu nariz com um pano. Depois disso ela acordou deitada no chão do quarto escuro.

Não sabia quais as intenções que alguém poderia ter para sequestrá-la (não era famosa, nem rica, e passava longe de ser importante). Tudo aquilo não se encaixava em sua cabeça. Não era possível encontrar uma razão para estar jogada num lugar estranho e escuro... Ela não estava machucada, nenhuma parte do seu corpo doía, mas estava com medo.

“Ok, Becky... Calma.”

As luzes se acenderam, e a garota olhou em volta, analisando o lugar. No centro do quarto havia um alçapão, e no canto mais afastado um tipo de adaga. Rebecca se levantou o mais rápido possível e correu para a adaga sem pensar duas vezes.

Hesitante, ela foi em direção ao alçapão e segurou a corda que servia como puxador. A madeira era pesada, mas ela conseguiu abrir o caminho para uma escada de ferro.

Observou o local abaixo antes de descer. Uma luz precária estava acesa, e era o suficiente para saber que o lugar também estava vazio. Rebecca desceu lentamente, temendo cair da escada de degraus enferrujados.

Enquanto descia, Rebecca imaginou estar numa casa abandonada, pois mais uma vez não havia nada no quarto. Quando alcançara o chão, foi capaz de perceber uma porta, e a abriu tentando manter sua mão firme enquanto todo seu corpo tremia. Atrás dessa porta havia um longo corredor sem iluminação, mas que ao final havia um ponto de luz — uma porta aberta. Não havia opção, era para aquele cômodo que ela deveria ir. Qualquer que fosse a razão para estar ali, ela sentiu que chegara a hora de ver o que de fato a aguardava. Segurando a adaga em frente ao corpo, pronta para qualquer ataque, ela saiu do quarto.

Com a adaga em riste, ela atravessou o corredor escuro o mais rápido possível, e entrou entrou no cômodo iluminado sem parar para pensar.

— O que...?! – Ela exclamou, confusa.

— Becky? O que você está fazendo aqui? – Ele falou, surpreso. Estava segurando a mão de sua namorada Jenny, e ela parecia mais assustada que sempre. Em uma das mãos dele estava um punhal da metade do tamanho da adaga de Rebecca.

—Nathaniel?

Três meses atrás

Nate estava de pé, perto da janela do quarto de Rebecca, olhando para ela. Ele estava voltando de Nova York após uma semana de viagem. Esta se mantinha sentada na cama, olhando para o chão, seu rosto não mostrava nenhum sentimento, mas ele sabia que isso era dor. Sabia que estava partindo o coração de alguém que o entregou em perfeito estado com a maior confiança.

— Por favor, diz alguma coisa. – Ele implorou, após alguns minutos do mais puro silêncio.

— O que você quer que eu diga? Algo que te deixe menos culpado? Que te faça pensar que estou ótima, e que te livre de toda a responsabilidade? – Rebecca se levantou, andando lentamente. Sua expressão era de ódio. – Ou quer que eu te diga que estou magoada? Que você está acabando com a minha mente? Você quer se sentir o cara mais foda do planeta?

— Não...

— Você quer que eu chore ou rasteje aos seus pés? Você quer que eu sorria e te dê um grande abraço? E então, o que você quer?

— Amizade...

— CALA A BOCA! Você não tem direito de pedir isso. Você não tem direito de me propor amizade. Você não tem sequer o direito de respirar o mesmo ar que eu. – Rebecca se virou para o outro lado do quarto. – Sai daqui. – Ela sussurrou.

— Becky, não precisa ser assim.

— Sai daqui. – Em um tom um pouco mais alto que um sussurro. Ele esperou que ela dissesse algo mais, e depois de uns segundos andou até ela. Levantou sua mão direita e encostou no ombro dela. – SAI DAQUI!

Nate fechou os olhos e respirou fundo, se afastando. Não tinha mais jeito, Rebecca não queria conversar, e isso o queimava por dentro. Abriu os olhos e foi até a porta, hesitou antes de pegar a maçaneta, mas saiu do quarto dela.

Por instantes ficou aliviado com fato de os pais dela não estarem em casa.