Segundo Mundo

9 Capítulo 9 - Voltando no tempo


Marcus colocou a mão em meu ombro.

— O que tem dentro dela? – Perguntou ele curioso apontando para a mochila pendurada na cadeira.

Peguei a mochila, sentei no chão de madeira lisa, fiz um sinal para que ele sentasse ao meu lado.

— É minha caixa de lembranças e meu álbum de infância. – Disse enquanto abria a mochila. – Achei que gostaria de ver.

— Claro! – Disse-me num tom de entusiasmo.

Respirei fundo antes de falar, pois queria deixar bem claro, de uma vez por todas, que ele parasse de se culpar.

— Marcus, sei que você não teve culpa do que aconteceu no passado. O "rapto" e a perda de nossa conexão.

— Alice...

— Shh... – Eu o calei. – Ouça-me, por favor.

Ele abriu a boca para falar, mas desistiu.

— Não se sinta culpado por isso, por mais difícil que seja, faça isso por mim, por favor.

Ele cruzou os braços e sua expressão era de desaprovação.

— Por mim, por favor. – Pedi de novo.

Ele pegou minha mão que estava sobre a mochila.

— Por você, somente por você. — Disse ele.

Mas ainda podia ver a desaprovação em seus olhos. Mas se ele fizesse isso por mim, mesmo com desaprovação, ficaria aliviada.

— Obrigada.

Ele beijou minha bochecha.

— Posso pedir só mais uma coisa? Posso te chamar de Anjo da Guarda? – Disse eu. – Acho "Protetor" muito sério, embora só te chame pelo nome. Falei num sorriso

— Está bem, chega de pedidos por hoje. – Completei.

— Também acho que ser chamado de "Protetor" é sério demais. — Claro que pode me chamar de Anjo da Guarda e de namorado também.

Nós sorrimos e eu o beijei rapidamente.

Ele acariciou minha mão, que estava coberta pela dele e falou:

— Então, não vamos ver sua caixa e seu álbum? – Perguntou.

— Claro que sim. – Respondi.

Coloquei o álbum em meu colo e abri devagar. Marcus se aproximou ainda mais de mim, encarou o meu álbum e disse:

— Ainda gosta de cor-de-rosa? Quando você era pequena e vinha aqui, você era fanática por cor-de-rosa.

— Não, agora gosto mais de roxo e preto.

— Percebi. – Ele sorriu examinando minha mecha roxa no cabelo.

Folheei o álbum com leveza e lentidão. Marcus olhava todas as fotos detalhadamente, prestando muita atenção.

Até que vi a foto de quando tinha quatro anos, segurando uma boneca e o medalhão, era a foto que queria que ele visse. Então falei:

— Vi essa foto milhões de vezes nos anos anteriores, e só hoje, mais cedo, percebi que segurava o medalhão em uma das mãos. – Como não percebi isso antes?

Marcus respirou fundo e disse:

— Penso como seria nossa vida, se aquilo tudo não tivesse acontecido.

— Talvez, se aquilo tudo não tivesse acontecido, nós não estaríamos aqui juntos e...

— Apaixonados. – Marcus completou.

Eu acariciei seu rosto.

— Eu te amo. – Ele disse. — Mas... Quando era pequena, queria ter protegido você, cuidado de você... Ter enxugado suas lágrimas quando caísse ou machucasse...

Eu pude sentir de novo a frustração em sua voz. Isso acabava comigo. Destruía-me.

— Eu estou aqui. Isso é tudo que importa agora. — Disse eu num sussurro

Ele afagou meu rosto, e completou dizendo:

— Estamos juntos agora e nada, nem ninguém, vai nos separar.

— Nada, nem ninguém. – Repeti

Eu fechei o álbum com cuidado.

— Eu queria de algum modo, voltar no tempo. – Disse Marcus.

Respirei fundo.

— Não podemos voltar no tempo. – Disse. – Mas podemos recuperar o tempo perdido.

Marcus concordou com a cabeça, enquanto pegava minha mão.

— Podemos começar a recuperar o tempo perdido agora, não acha?

Ele se levantou, e me puxou pelo braço de leve, me ajudando a levantar também. Fomos para o andar de baixo, e percebi que estávamos indo em uma nova parte do jardim, que não conhecia.

O céu estava estrelado e havia um balanço enorme de madeira branca, com alguns detalhes esculpidos de rosas, embaixo de uma árvore com flores lilás. Eram lindas.

— Aqui é lindo. – Marcus quebrou o silêncio.

— Parece cenário de livros infantis. – Completei – Aqui é incrível.

— Sabia que ia gostar deste lugar. – Disse ele.

— Sim, eu adorei, obrigada! – Disse, um pouco surpresa

— Então, quero te conhecer de novo. Suas qualidades, seus defeitos, suas manias, seus gostos.

— Tá legal. – Respondi enquanto sentava no balanço. – Até porque não fui muito amigável, quando nos reencontramos.

Ele sorriu e disse:

— Acho que reagiria da mesma forma.

— Mas fui muito antipática e dura com você. Eu sinto muito.

— Acredite não foi e para falar a verdade foi até engraçada.

Fique sem graça.

Marcus sentou-se ao meu lado no balanço.

— Conte-me algo sobre você. – Disse ele olhando fixamente para o céu lotado de estrelas.

— Bem, toco guitarra e amo rock, moro com meus pais e estou no terceiro ano do ensino médio.

— Hum... Adora rock e toca guitarra? Temos algo a mais em comum, além da teimosia.

— Sério? Qual instrumento você toca?! – Perguntei extremamente animada.

— Violão e um pouco de baixo. Por que não tocamos juntos algum dia?

— Adoraria!

Ele deu um sorriso largo.

— Agora me conte sobre você. – Pedi.

— Sou o Anjo da Guarda de uma menina muito teimosa e eu a amo muito.

Ele me beijou por um longo momento.

Ficamos nos olhando, quando me dei conta que já era tarde da noite.

— Já é tarde! Tenho que ir! Disse levantando do balanço.

— Espere. – Disse pegando minha mão. – Estar com você aqui, agora, é como se estivéssemos voltado no tempo.

Saímos do jardim, e voltamos para frente da mansão. Ao lembrar da minha mochila esquecida na sala, falei:

— Tenho que pegar minha mochila. – Fui andando até a porta.

— Eu pego. – Disse ele. – Só um minuto. Não saia daqui.

Eu parei alguns centímetros a frente da porta da mansão, e dei espaço para Marcus entrar. Ele entrou, me afastei alguns metros da porta, e fiquei pensando que, não queria ir embora e deixá-lo, mas também não podia lagar tudo em minha vida. E se nós perdêssemos nossa conexão novamente? Me arrepiei num medo de pensar nessa possibilidade.

Marcus surgiu na porta, segurando a alça de minha mochila, se aproximou e disse gentilmente:

— Aqui está.

Eu peguei a mochila que estava estranhamente leve como uma pluma, e murmurei:

— Obrigada.

— Disponha.

Respirei fundo.

— Preciso ir agora. – Falei por fim, com um tom de tristeza.

Ele bufou.

— Quando é que vou te ver novamente, Alice?

— Volto assim que puder. Eu prometo.

Eu não queria dizer adeus, embora pudesse vê-lo quando quisesse, mas estava com medo de perdê-lo e tinha medo de que essa era a última vez que o via.

Eu respirei fundo e fechei os olhos.

— Nada nem ninguém vai nos separar. – Lembrou-me num sussurro, enquanto acariciava meu rosto.

Eu sorri mesmo com meu coração apertado em meu peito.

Ele me beijou por alguns segundos. E em seguida eu o abracei fortemente, e pude sentir seus braços em minha cintura.

— Eu te amo. – Sussurrei.

— Eu também te amo.

Segurei sua mão por um segundo, mas tive que largar, para pegar o medalhão na minha calça jeans e antes de abri-lo, olhei para Marcus e disse:

— Até breve.

— Até breve. – Repetiu.

Abri o medalhão sem pressa e vi Marcus sumir com a luz.