Segundo Mundo
10 Capítulo 10 - Encurralada
Abri a porta do quarto, encarei o corredor escuro e longo. Andei na ponta dos pés cuidadosamente. Fui para a cozinha e acendi o interruptor da luz. Vasculhei cuidadosamente a geladeira. Tudo estava absolutamente quieto, quando de repente, ouvi alguém descer a escada e me encolhi.
— Alice? – Perguntou uma voz na porta da cozinha.
Eu me virei um pulo, e percebi que quem estava na porta era meu pai. Com meias arrastando os chinelos, com seu pijama azul-marinho e seus cabelos grisalhos.
— Ah...Oi, pai.
— Por que está assaltando a geladeira essa hora? Você não tem que ir para o colégio de manhã?
— Estava tocando guitarra, daí adormeci, acabei de acordar e estou com fome, então vim para cozinha.
— Hum...
— E você, pai? O que faz zanzando pela casa uma hora dessas? – Retruquei.
— Perdi o sono. – Ele dobrou a manga do pijama. – Quer um chocolate quente com marshmallows e canela?
— Com certeza! Adoro seu chocolate quente!
Ele sorriu.
Preparou o chocolate quente e o cheiro maravilhoso da canela ao fogo, se alastrou pela casa. Nós nos sentamos no sofá da sala.
— Estou procurando um emprego, olhando o jornal toda manhã. – Disse ele enquanto encarava sua caneca de chocolate.
— Você vai encontrar um emprego pai, o senhor é ótimo em tudo, até mesmo em fazer chocolate quente com canela.
— Obrigado, Alice.
Eu sorri e tomei mais um gole de chocolate.
Meu pai bocejou.
— O chocolate já está fazendo efeito.
— Você sempre me disse que chocolate quente "puxa" o sono.
Ele concordou com a cabeça.
— Vá dormir, pai.
— Invertemos os papéis? Você parece a minha mãe falando assim.
Ele riu e dei de ombros.
— Já vou dormir. – Disse ele enquanto subia a escada.
— Boa noite, pai.
— Boa noite e ah! Vá dormir também, garota.
Vi-o arrastando os chinelos lentamente e depois sumir pelo corredor e tudo ficou silencioso novamente. Fiquei parada olhando o teto, durante longos e eternos minutos.
Fui para o meu banheiro e tomei um breve banho, depois vesti meu camisão de dormir de caveirinhas cor lilás, escovei os dentes e me joguei na cama.
O barulho irritante e infernal do meu despertador me acordou.
— Droga! – Ralhei e bati a mão no despertador.
Eu bufei e apertei meu rosto contra o travesseiro macio. Eu me levantei num pulo e meu primeiro pensamento do dia foi o sorriso perfeito e os olhos serenos de Marcus.
Coloquei minha calça cor-de-rosa xadrez e meu tênis All Star e a camisa branca, desci a escada rapidamente e percebi que minha família estava na mesa.
— Bom dia. – Disse eu puxando uma cadeira.
Eu me sentei.
— Bom dia. – Disserem eles.
Olhei em volta e estranhei a cadeira vazia ao lado de minha mãe.
— Mãe, onde papai está? – Perguntei enquanto pegava o cesto de pães.
— Saiu bem cedo, certamente foi procurar emprego. – Ela sorriu.
— Saiu daqui todo engomado. – Completou Bruno.
Isabella riu e concordou com a cabeça.
— Ele estava um gatão! – Ela murmurou. – Não é, tia Emily?
Ela concordou com um sorriso.
— Mas demorou meia hora para dar o nó na gravata. – Minha mãe zombou – Tive que ajudá-lo.
— Com certeza ele vai conseguir um emprego. – Disse eu ao acabar de comer um pão.
— Vai sim! – Disse ela positivamente animada.
Eu me levantei da cadeira num pulo, com pressa.
— Já vai para o colégio? – Perguntou minha prima brincando com as migalhas de pão, que havia na toalha estampada da mesa.
— Sim, até mais tarde! – Girei a maçaneta da porta e sai.
O tempo estava nublado e não havia ninguém na rua. Andava com passos largos e rápidos, me encolhia a medida que os ventos gelados daquela manhã batiam em meu rosto, e faziam meus cabelos dançarem.
De repente, avistei o meu colégio e minha garganta estava se fechando de pavor, pois lembrei de Conan. Andei rapidamente para dentro do colégio, e pensei:
Será que ele estava lá? Será que ele viria falar comigo? Como ele agiria? E como eu deveria agir depois de tudo que aconteceu na festa?
Minha garganta agora estava totalmente fechada.
— Oi. – Disse uma voz feminina atrás de mim.
Eu dei um pulo e me virei rapidamente. O cabelo loiro de Cloe estava amarrado com um rabo de cavalo, usava um vestido rosa choque curtíssimo.
— Oi, Cloe. – Gaguejei na última palavra.
— Sua festa estava ótima, mas não te vi o resto da noite.
— Eu fiquei indisposta e fui descansar. – Menti e fingi um pigarro.
— É uma pena. Conheci sua prima, Isabella, não é?
— Sim, é.
— Ela é uma fofa.
Eu sorri.
— Pena que você e Conan não curtiram a festa.
Eu me encolhi e senti um arrepio em minha espinha.
— Sério? – Engoli o seco.
— Ele disse que tinha um compromisso.
Eu me encolhi ainda mais.
Que tipo de compromisso ele teria? Pensei.
Me arrepiei e dei de ombros.
— Ele estava quieto. – Cloe completou.
O sinal tocou e respirei aliviada.
— Que aula é agora? – Perguntei tentando mudar de assunto.
— De História, com o Sr. Ben.
— Ah. – Disse com má vontade, pegando o livro no armário.
Ela riu. Fechei o armário, eu e Cloe andamos lentamente pelo corredor do colégio lotado. Depois de uns minutos entramos na sala e nos sentamos em nossos lugares. Cloe puxou o vestido curtíssimo rosa choque para baixo, depois de se sentar.
Olhei a sala lotada e tive medo de ver Conan em meio as pessoas.
Uma mulher de cabelos negros, compridos, japonesa entrou na sala. Ela usava um terno vermelho sangue, sapatos brancos de salto fino, batendo firmemente no chão, segurando alguns livros. Parecia ter trinta anos ou mais e se sentou na cadeira.
— Bom dia, eu sou a senhorita Young. – Disse ela olhando a sala lotada. – Vim substituir o Sr. Ben.
— Bom dia. – Disseram algumas vozes no fundo da sala de um jeito desanimador.
Ela sorriu.
Começou a falar sobre a matéria e eu não estava a fim de prestar atenção na aula de História hoje. Minha cabeça estava cheia de pensamentos, principalmente na possibilidade de Conan aparecer, em algum momento naquele dia.
Me debrucei sobre a minha desconfortável carteira de madeira, repousei minha cabeça em cima dos meus braços.
A sala estava quieta e alguns alunos olhavam a professora com um sorriso babaca e malicioso. A maioria dos garotos do terceiro ano eram assim, pelo menos na minha escola, os garotos eram assim, só faltavam babar em suas camisetas estilosas e eu não duvidava que em breve logo isso iria acontecer.
Mas nem todos os garotos são assim, existem exceções; uns são românticos, fofos, poéticos e isso hoje em dia é muito raro.
Particularmente, eu amo garotos românticos porque acho que sei lá, os românticos expressam seus sentimentos com verdade e clareza, acho também que isso é o que mais importa.
O sinal tocou e levantei preguiçosamente da carteira.
— Vamos? –A voz de Cloe surgiu atrás de mim.
Eu saltei num pulo. Estava sonolenta e me assustava facilmente.
— Te assustei? Desculpe. – Ela se afastou um passo de mim.
— Tudo bem. – Sorri sem graça. – Estou sonolenta e distraída hoje.
Ela riu sem humor.
Me levantei, peguei a mochila pendurada na cadeira e joguei uma das alças no ombro.
— Vamos para o refeitório? – Ela perguntou.
Meu estômago fez um barulho baixinho.
— Vamos, meu estômago agradece. – Respondi tocando minha barriga. – Só comi um pão de manhã.
Ela riu sem humor novamente.
Cloe andou sobre o salto cor-de-rosa, em passos largos e lentos. Eu andava com meu tênis com passos curtos e rápidos, ao contrário de Cloe.
Percorremos o corredor longo e estreito cheio de armários e, alguns metros depois, chegamos ao refeitório. Pegamos uma bandeja com legumes, uma gororoba que aparentava ser de batata, uma caixinha de suco de laranja e uma maçã pequena vermelha de sobremesa. Sentamos numa mesa com exatamente duas cadeiras, digeri lentamente meu almoço e Cloe fez o mesmo.
A gororoba não tinha um gosto tão ruim: tinha gosto mesmo de batata.
Cloe fez uma careta ao olhar a gororoba.
— Que nojo! – Ela fez uma careta novamente.
— Não está ruim. — Comentei
Ela afastou a badeja para longe de si.
Eu ri.
Ela abriu a caixinha de suco e devorou sua maçã. Eu já tinha devorado todo o conteúdo da bandeja. E Cloe acabara logo após.
Eu me levantei, deixei a badeja no canto da mesa e Cloe colocou sua bandeja amarela sobre a minha, se colocou ao meu lado, e disse:
— Vou ao banheiro.
— Tudo bem. Já vou indo para a sala.
Ela saiu andando até o banheiro e eu fui para sala.
Não havia ninguém, estava escuro. Andei lentamente até minha carteira, percebi que havia um papel minúsculo sobre ela, eu peguei:
Senhorita Scott,
Favor comparecer à quadra imediatamente.
Era só o que havia escrito no papel. Não tinha assinatura. Será que a treinadora queria falar comigo? Não me lembrava do nome dela, também não era boa na natação e nem queria ser líder de torcida. Dei de ombros.
Percorri o imenso corredor e desci a escada, fui para o portão cinza claro. A luz da imensa quadra estava acesa e entrei.
— Treinadora? – Minha voz ecoou pela quadra.
Nenhuma voz respondeu.
— Treinadora? – Perguntei novamente.
Silêncio.
Houve um estalo alto na quadra e tudo ficou escuro. Eu saltei num pulo e me encolhi imediatamente.
Estava tudo silencioso. De repente, o portão cinza claro se fechou. O pavor me dominou. Não ouvia passos na quadra, somente o silêncio contínuo e agonizante.
— Quem está ai? – Perguntei em pânico.
Silêncio.
Ouvi e senti uma respiração próxima ao meu rosto, mas não ouvi passos.
Meu coração estava acelerado e minha respiração também.
Alguém ou alguma coisa agarrou meu pescoço, de um jeito feroz e estúpido, percebi que era uma mão.
Doía e começou a apertar o meu pescoço. O ar suAlice lentamente de meus pulmões.
O estrangulamento estava cada vez mais forte e agonizante a cada minuto, não conseguia gritar, nem reagir de alguma forma. Iria morrer?
Fui empurrada contra a parede fria atrás de mim, agora eu estava completamente encurralada. Meus braços e pernas se debatiam. Tudo ficou ainda mais escuro e senti meu corpo cair no chão.
Abri meus olhos e ainda estava escuro e quieto, não havia mais ninguém a me estrangular. Eu comecei a chorar, ainda em pânico, e lágrimas escorriam pelo meu rosto. Me levantei esperando que alguém pulasse em cima de mim, e começasse a me estrangular novamente, e isso não aconteceu.
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