Segundo Mundo
6 Capítulo 6 - Lembranças
O sol da manhã de sábado entrou pela janela quase me cegando, o céu estava incrivelmente azul e eu não queria levantar da cama, mal consegui dormir a noite. Estava totalmente confusa.
Com muita lentidão e nenhum ânimo, eu levantei e fui para o meu banheiro, tomei um banho quente, bem demorado e relaxante. Coloquei minha blusa do Paramore que estava muito amarrotada, mas, eu a adorava de qualquer jeito.
Desci a escada e fui para a cozinha, meus primos e meus pais estavam tomando café da manhã:
— Está de ressaca? – Perguntou meu pai.
— Ou entrou em coma alcoólico? – Acrescentou meu primo Bruno.
Eu fechei a cara:
— Sem gracinha vocês dois! – Exclamei.
Sentei na cadeira, minha mãe se levantou e foi fazer café.
— Ah! Olá Alice TPM! – Disse meu primo me encarando e rindo.
— Ah, parem de bobagem! – Disse minha mãe.
— Desculpa a sinceridade, prima, você está com uma cara péssima – Falou Isabella.
— Já chega! – Falei levantando bruscamente da mesa, fui para o quarto e bati a porta.
Peguei a guitarra e comecei a tocar algumas notas, estava com muita, acho que precisava fazer igual aos caras do Kiss: pegar a guitarra e quebrar, mas, eu não podia.
Larguei a guitarra num canto e me joguei na cama novamente, cobri a cabeça com edredom. Mexia-me sem parar, inquieta me levantei da cama, peguei o medalhão de prata em cima do criado-mudo e deitei novamente.
Alisei cada detalhe do medalhão, estava intacto, completamente novo sem nenhum arranhão, enferrujado, amassado ou coisa do tipo. Observei os relevos que o envolvia, era como uma proteção ou coisa do tipo. Eu não tinha reparado como ele era magnífico.
Analisei o medalhão durante horas, como se estivesse presa a ele, completamente em transe.
Pisquei os olhos e decidi abrir o medalhão novamente, abri com as pontas dos dedos sem fazer força nenhuma.
Fechei os olhos com a luz que saiu de dentro dele, e ao abrir vi novamente a mansão de paredes brancas, portas e janelas cor bege. Mas, eu estou sonhando de novo? Pensei comigo mesma.
Tudo estava silencioso, de repente senti alguém colocar a mão no meu ombro, fiquei paralisada, quem poderia ser? Virei-me com rapidez e me deparei com dois olhos verdes.
Tudo bem, já estava na hora de admitir que aquilo tudo não era sonho.
—Alice, é você? – Perguntou o rapaz de olhos verdes.
Fiquei pasma por um instante:
— Marcus. – Foi a única palavra que saiu da minha boca.
Ele sorriu.
— Achei que nunca mais a veria.
— Você é real? – Perguntei abobalhada.
— Sim, como você pode pensar que eu não sou? – Ele sorriu.
Ele aproximou-se, e eu não conseguia me mover.
— Você não se lembra, não é mesmo? – Perguntou ele
— De que? – Perguntei.
— De tudo, desse lugar, de mim. – Falou ele.
— Sei que de algum modo eu estive aqui ontem e...
—Não estou falando de ontem, estou falando de quando tínhamos a conexão. – Interrompeu-me ele.
— Conexão? – Perguntei confusa.
Marcus respirou fundo.
— Venha comigo. – Disse ele fazendo sinal para que eu o seguisse.
O tom de fala de Marcus soou como uma ordem para mim. Eu o segui e nós entramos na mansão de janelas e portas cor bege.
O chão de madeira clara era extremamente limpo, que podia ver meu reflexo nele. Havia muitos sofás azul bebê que pareciam ser de veludo, mesinhas brancas com lápis coloridos e papel. Aquele lugar parecia uma creche ou orfanato.
Entramos num corredor claro e avistei a porta de um elevador, Marcus entrou primeiro e eu entrei logo em seguida.
Pude perceber a frustração nítida em seu rosto pálido. Ele apertou alguns botões, e depois de alguns segundos senti o baque do elevador parando, e a porta abriu, então saímos do elevador. O andar não era muito diferente do outro, com sofás, mesinhas e janelas cor bege.
Entramos em um corredor novamente, Marcus entrou numa sala e eu entrei bem atrás dele. Havia algumas cadeiras e uma mesa com um laptop.
Marcus sentou-se em umas das cadeiras e fiz o mesmo.
Eu o fitava.
— Alice , eu te conheço há muito tempo, desde quando você era pequena...
— O que? – Perguntei confusa.
— Olha, eu sei que é meio complexo de entender, mas, me ouça e confie em mim. – Disse Marcus, num tom tranquilo.
Eu simplesmente fiquei pasma, não conseguia dizer nada. Havia algo nele que fazia com que eu confiasse sem conhecê-lo.
Marcus puxou a cadeira para mais perto de mim.
— Alice, eu sou seu Protetor. – Disse Marcus.
Eu franzi a testa.
— Eu estou muito confusa, eu tenho um Protetor?! Como assim?! – Falei.
Ele me olhou e sorriu.
— Algumas pessoas, por algum motivo, são escolhidas por medalhões para receber a proteção de um Protetor ou Guardião, como a maioria nos chama formalmente.
Eu estava perdida, sem resposta. Deveria fugir? Ou ficar? De algum modo eu não queria fugir, queria escutar Marcus e queria confiar nele ainda mais.
— Tá bem, está me dizendo que sou protegida por você, e que você é um Anjo da Guarda ou coisa do tipo? – Perguntei, tentando buscar algum modo de processar, ou algo do tipo, em minha mente. Tentando ignorar também a tontura que sentia, sem perceber que estava fazendo as perguntas que ele acabara de responder com a explicação.
— Exatamente. – Disse ele.
— Por que uma coisa me diz que devo acreditar plenamente em você? – Perguntei.
— Está voltando. – Sussurrou.
Marcus aproximou de mim e me abraçou, de repente estava vendo um tipo de visão nostálgica:
Eu com quatro anos de idade brincando num salão enorme, que parecia ser de ouro, estava correndo e sorrindo para Marcus que estava ao meu lado. Havia muitas pessoas em volta, e pareciam felizes.
Eu me senti saindo da nostálgica visão.
— O que foi isso?! – Disse eu boquiaberta.
Marcus sorriu.
— Eu te disse que a conhecia há muito tempo. – Disse ele sorrindo.
Eu sorri sem graça.
— Então, essa tal conexão que tínhamos está... Como posso dizer... Está "ligada" entre nós novamente? – Perguntei ansiosa.
Marcus concordou acenando com a cabeça.
Ele me olhava fixamente.
— Achei que seria um pouco mais difícil de você entender tudo isso. – Admitiu.
Eu sorri.
— Ainda estou confusa, mas, acredito em você, por favor, conte-me mais sobre tudo isso. – Pedi .
— Bom, o que você quer saber?
— Como você se tornou Protetor?
— É como uma sina, fui escolhido pelo medalhão para ser Protetor, e ele te escolheu para ser minha Protegida.
— Porque eu fui escolhida?
— Não sei, considero essa dúvida um verdadeiro enigma sem resposta. Todos os Protetores consideram.
— Desde quando você é um Protetor?
— Há anos...
— Quantos anos você tem?
Marcus riu alto.
— Dezoito anos. Sou Imortal. Mas quantos anos você me daria se você não soubesse?
Fiquei boquiaberta novamente.
— Vinte anos. — Falei olhando diretamente nos olhos verdes de Marcus.
Ele pareceu satisfeito e feliz com minha resposta, me olhava com suavidade.
— Quer ir conhecer o jardim? – Perguntou.
— Adoraria. – Sorri.
Nós saímos da sala, atravessamos o corredor e descemos de elevador. Marcus abriu uma das portas enormes que havia perto dos sofás e das mesinhas.
O jardim estava cheio de crianças com aproximadamente oito anos de idade, também havia adultos e adolescentes.
Era tudo tão verde, a grama e as folhas das árvores eram quase do mesmo tom dos olhos de Marcus.
Nós sentamos em um balanço.
— Você adorava esse balanço, não saia daqui. Houve um dia que ficou quatro horas inteiras balançando e não queria sair, então eu a tirei à força, e você ficou duas semanas sem falar comigo. — Falou ele.
Eu ri alto imaginando a cena.
— Você era muito teimosa. – Ele riu.
— Pode acreditar, isso não mudou. — Garanti a ele.
Nós rimos juntos.
— Há um detalhe que esqueci de te contar: alguns Protegidos acabam se tornando Imortais também, ou seja, que não morrem ou envelhecem. – Disse Marcus.
Fiquei boquiaberta novamente.
— Isso é bom? – Perguntei.
— Na minha opinião, sim... é bom. – Disse ele.
— Então agora posso ser Imortal também? – Disse eu entusiasmada com a ideia.
— Sim, você é. — Afirmou sorrindo.
Avistei um garotinho de cabelos loiros e olhos castanhos, com uma blusa do desenho Ben 10, se aproximar de nós.
— Ei, Marcus, vamos jogar bola? — Perguntou o garoto.
—Ah ... oi, Dylan, pode ser mais tarde? Eu estou meio ocupado agora, mas prometo que jogo uma partida com você, quero ser o goleiro, tá bem? – Disse Marcus.
— Hum... Tá bom. – O garoto riu.
— Onde está Jason? — Perguntou Marcus ao garoto.
O garoto olhou em sua volta.
— Está ali. – Disse o garoto apontando um rapaz alto e loiro.
O garoto foi correndo em direção ao rapaz que o cumprimentou, com uma espécie de cumprimento especial.
— Até mais, Marcus. – Berrou o garoto lá de longe.
Marcus acenou para o garoto.
— Esse garotinho é Imortal? – Perguntei curiosa.
— Eu não sei. Nem todos os Protegidos são Imortais, o medalhão os escolhe, e você é uma escolhida, como vários outros. – Explicou Marcus. — Como perdemos a conexão você cresceu como uma mortal, mas agora que recuperamos a conexão, tudo está como deveria ser . – Completou.
— Isso é tão surreal. – Disse eu sorrindo.
Ele sorriu também.
— Alice, vamos para outro lugar. – Disse ele pegando minha mão.
Nós voltamos à mansão novamente, atravessamos corredores, pegamos o elevador e entramos na sala que havíamos estado antes.
Marcus fechou a porta e nos sentamos.
— Alice, eu não te contei toda a verdade. O por quê perdemos a conexão. Eu sou o culpado de tudo. – Disse ele com uma expressão séria.
Eu franzi a testa, e ele continuou a falar:
— Você foi tirada de mim ou sequestrada, ou como você quiser chamar. Eu não me lembro de tudo, só me lembro de ter levado uma pancada na cabeça, desmaiar e estar um pouco acordado alguns segundos depois, e desmaiar de novo com outra pancada na cabeça e chutes, e ainda pude ouvir você gritar, e não pude fazer nada. Eu sou o culpado.
Eu franzi a testa novamente.
— Depois disso nunca mais a vi, o tempo foi passando e perdemos a conexão. Não conseguia achar você. Até que um dia consegui te encontrar, mas, queria que você lembrasse de mim e de tudo isso sozinha. E você reencontrou o medalhão, mas, não se lembrou de nada. – Completou ele.
Eu comecei a chorar, mas ainda tentei segurar.
— Não, você não é o culpado! – Gritei em lágrimas e me aproximando de Marcus.
— Eu não fiz nada para salvar você! – Respondeu ele num tom elevado.
— Você não pode fazer nada! Estava apanhando e desacordado! – Exclamei.
— É essa minha missão proteger você! Eu fui fraco, irresponsável e covarde!
— Quieto! Nunca mais diga isso, você não foi covarde! Você não pôde fazer nada! Jure pra mim que você nunca mais vai dizer isso! Você não é o culpado! – Exclamei ainda em lágrimas.
— Alice...
— Jure! — Implorei
— Eu juro! – Marcus bufou.
Eu abracei Marcus e chorei ainda mais.
— Alice, por favor, não chore. – Sussurrou.
Ele enxugou minhas lágrimas.
— Sorria pra mim, Alice. Se você chorar eu fico mal também.
Eu parei e tentei sorrir.
— É assim que gosto de te ver, sorrindo. – Disse ele.
Me afastei um pouco e perguntei:
— Qual seu sobrenome?
— Lerman, por quê?
— Você é muito teimoso, Marcus Lerman!
— Digo o mesmo Alice Scott.
Olhei os olhos dele por uns segundos e disse:
— Bom, agora tenho que ir.
— Qualquer coisa abra o medalhão. — Ele disse.
— Pode deixar! — Eu sorri.
— Há mais um detalhe. O medalhão me avisa quando você está em perigo. -
— Isso é tudo tão incrível! Bom... foi bom conhecer meu Protetor novamente!
— Também foi bom te conhecer de novo, Alice.
Respirei fundo e abri o medalhão.
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