Segundo Mundo

15 Capítulo 15 - Reencontro


Deitada em minha cama, não conseguia fechar os olhos. As lágrimas me deixavam incapaz de fazer qualquer coisa, a não ser chorar. Eu me odiava a cada lágrima caída, me odiava por estar chorando.

Levantei-me, fui para a área das mesinhas e também onde havia um sofá que tinha dormido a noite passada.

Deitei-me no sofá. O perfume masculino e ao mesmo tempo doce de Marcus, ainda estava lá, entrando facilmente por minhas narinas, como o ar que respirava.

Limpei minhas lágrimas.

Estava preocupada com o que poderia acontecer com Marcus, e pensar que ele poderia ser morto por Conan, era uma possibilidade que infelizmente, era impossível de não se pensar.

Recusava-me a pensar numa vida sem Marcus, por mais dramático que seja, não iria ter aqueles olhos verdes me encarando, quando tudo estivesse desabando para me acalmar, não teria motivo para sorrir quando estivesse triste... isso era tão enlouquecedor.

E o que era mais horroroso, era pensar que tudo poderia ser destruído por alguém num piscar de olhos.

Por um mísero segundo, tive um desejo completamente egoísta. Desejei que Marcus estivesse ali, com os braços em volta de mim e que o mundo acabasse. Se nós tínhamos que morrer, morreríamos nós dois. Mas, felizmente, o desejo de luta vencera esse mísero desejo de fim em minha cabeça. Era uma promessa. Lutaria a qualquer custo, seja qual for o resultado da batalha, e mesmo se fraquejasse arrumaria forças de qualquer modo. Espero cumprir, pois infelizmente, admito que não era muito autoconfiante, e me odiava por isso. Porém, emergências exigem mudanças.

Esperei ansiosamente pelo sono que custou a chegar, eu estava com dor de cabeça. Meus olhos não se fechavam na escuridão silenciosa.

Meus pensamentos me torturavam.

A cada segundo.

A cada minuto.

A cada hora.

Meus olhos se abriram rapidamente. Eu me sentia cansada, apesar de ter conseguido dormir, parecia que eu não tinha dormido há semanas e eu me sentia realmente abismada pelas míseras horas de sono acabarem tão rápido.

— Oi. – Disse uma voz não familiar.

Eu estranhei, me sentei num movimento vagaroso, estava sonolenta.

— Oi. – Respondi.

Vi uma garota de cabelos caramelo cacheados, parecia não ser mais velha do que eu. Sentada num puff colorido próximo ao sofá, ela me encarava gentilmente com seus olhos escuros.

— Marcus me pediu para ficar de olho em você, te fazer companhia. – Ela contou. – Ele está conversando com Liv.

Eu estava meio perdida, cocei a cabeça.

— Ah, é! Desculpe, Alice. Não me apresentei. Sou Kimberly.

A Protetora de Sophie e sua irmã, lembrei-me.

— Oi, Kimberly. – Foi a única coisa que eu disse.

Sinceramente, eu queria mesmo era ficar em silêncio, com meus pensamentos, mas se Kimberly estava lá a pedido de Marcus, seria meio chato se fizesse isso, então tratei de pensar em algum assunto:

— Kimberly, as crianças que vivem aqui, não contam para os outros que esse mundo existe?

Ela ficou em silêncio por um momento, e depois olhou para mim e respondeu:

— Algumas contam, outras não. – Ela contou com tristeza. – Ninguém acredita. Todos acham que é imaginação.

Não fiquei nem um pouco surpresa ao ouvir isso, e me faz pensar como as pessoas acham que precisam de tudo, menos de imaginação.

— Isso é triste. – Suspirei.

— As pessoas não conseguem ver além do que podem ver. As pessoas só veem o que está a frente de seus rostos, e só o que querem ver. Nada além disso. – Ela lamentou.

— Infelizmente, essa é a realidade "feliz" das pessoas, não ver nada além de suas vidas, por trás da ignorância de seus olhos. – Comentei.

— Sophie é a prova viva disso. – Contou num longo suspiro. – Ela insistiu em contar para os pais que esse mundo é verdadeiro, os pais dela a internaram em um hospital psiquiátrico. Eles são doidos. Eu a salvei como pude, tirando-a de lá. Sophie só vive aqui agora e nunca mais a deixarei voltar para o Mundo dos Mortais. Aquele mundo não merece uma menina como Sophie e ela só tem 6 anos.

Estava horrorizada ao ouvir aquilo e me imaginar sozinha em um hospital psiquiátrico.

— Sinto muito. – Disse.

Ela me encarou com um sorriso triste, com a frustração estampada em seus olhos. Um silêncio entrou ali por minutos.

— Oi. – Disse Marcus baixinho.

Eu me virei de vagar para o rapaz que amava, e ele me encarou com os olhos verdes mais gentis do mundo, quando sentou ao meu lado.

— Oi. – Eu disse.

Ele sorriu e se virou para Kimberly.

— Obrigado por "vigiá-la", Kimberly.

Kimberly tirou os cabelos dos olhos e tentou sorrir.

— Não precisa agradecer. – Ela abandou o puff. — Até mais.

— Tchau, Kimberly. – Disse eu me despedindo.

Ela saiu em silêncio dali.

— Você está bem? — Marcus voltou-se para mim.

Eu abri a boca para falar.

— Não precisa nem dizer. – Ele me encarou. – Eu consigo ver em você.

— Então por que perguntou?

— Para ver se me contava com sinceridade, mas vi que seus olhos já fizeram isso por você, eles sempre fazem. Não há nenhum segredo que os olhos não possam esconder por muito tempo.

Eu sorri.

— Quero que saiba de uma coisa... – Ele começou.

— Fale. – Ergui a sobrancelha.

— Se algo acontecer, se ele nos separar, se ele apagar as suas memórias, eu corro atrás de você, onde estiver e te convenço de que esse mundo é real. De que eu sou real e de que meu amor também o é.

— Você não vai precisar me convencer de nada. – Eu acariciei o rosto dele. – Eu vou saber, vou sentir o vazio no meu peito sumir.

Ele sorriu.

— E se ele apagar suas memórias, eu vou... – Comecei a falar:

— Eu sei. – Ele me calou passando os dedos em meus lábios por um momento, num sorriso. -Vai ficar tudo bem. – Ele garantiu. – Eu vou matá-lo.

Marcus disse essas palavras tão seguro de si próprio, que a segurança dele se tornou a minha.

— Espere aqui.- Ele piscou para mim. – Só um minuto.

Ele saiu.

Tentei não pensar em nada em seus minutos de ausência.

Quando voltou trazia consigo, uma caixa-preta, e parecia pesada. Ele colocou a caixa em meu colo, com cuidado e eu olhei através da tampa de vidro, cuja borda era de um veludo preto grosso, e um fecho em V de prata.

Fiquei fascinada com que vi: armas, adagas e punhais lotavam a caixa, repousados em seus devidos moldes em veludo vermelho que cintilavam num brilho intenso.

Eu amava armas, porém nunca toquei em uma e nunca tive uma, nem sequer um canivete. Estava maravilhada admirando as adagas e os punhais. Não reparei que no canto da caixa, havia um revólver prata, que brilhava mais que todas as armas dali.

— Todas são minhas? – Perguntei sem tirar os olhos da caixa.

— São todas suas. – Ele respondeu.

— Obrigada.

— Eu lamento que esse seja o primeiro presente que dou a você.

— Não se sinta assim. – Sorri. – Eu amo armas.

— Você o que? – Ele estava surpreso.

— Acha que ainda sou aquela garotinha que não queria sair do balanço? – Meu tom saiu provocativo, era estranho não sabia o que estava acontecendo.- Agora eu mudei, assim como tempo muda em milésimos de segundos. Agora gosto de coisas mais interessantes.

— Como me beijar? – Ele ergueu a sobrancelha, num tom desafiador e ao mesmo tempo provocador.

— Exatamente. — Mordi o lábio.

Num movimento rápido, Marcus beijou-me e logo após beijou meu pescoço, como antes já havia feito — mas desta vez foi diferente. Seus lábios me envolveram numa sensação que não havia descrição. E sinceramente a palavra intensidade já não era mais apropriada para essa descrição, se houvesse uma.

— Querem que eu pegue um extintor? – Ouvi a voz de Liv.

Nós dois nos afastamos, sem graça. Se fosse Nina que tivesse feito aquilo eu e Marcus ficaríamos furiosos, mas como foi Liv, ficamos somente envergonhados.

— Eu lamento ter estragado o Momento Hot de vocês.- Ela completou.

Marcus coçou a cabeça.

— Só estávamos conversando. – Ele disse.

— Não é bem o que meus olhos viram. – Ela sorriu para nós. – Mas não sou ninguém para contradizer as suas palavras pelo que vi. – Ela piscou para nós.

Marcus piscou para ela, eu apenas sorri.

Liv se aproximou do sofá e viu a caixa.

— De quem são essas belezinhas? – Liv assoviou, encantada.

— São minhas. – Falei orgulhosa.

— Marcus as deu para você?

— Sim, dei, — Ele respondeu por mim.

— São lindas! – Liv arregalou os olhos diante da tampa de vidro. – O revólver está carregado?

Olhei para Marcus eufórica por uma resposta. Ele sorriu, fez suspense com o silêncio e depois respondeu sorridente:

— Está, Alice Scott.

— Se quiserem, eu arrumo qualquer tipo de arma, tenho contatos. É só me dizer, o que querem e quando. – Liv foi falando e me deixando ainda mais animada.

— Com certeza! – Falei.

— Bom, vou ver se alguém precisa de mim por aqui. – Liv disse e cruzou os braços, nos deixando ali.

Abri com a maior cautela possível. O brilho das armas era mais forte do que qualquer luz ali, que quase me cegava, mas eu realmente não me importava, eram magníficas.

As encarei com precisão, uma a uma, como se o tempo não existisse. Tinha de ser uma escolha perfeita e precisa, porém, era um pouco urgente.

Peguei uma adaga, era digna de um rei, sua prata brilhava como uma estrela triunfante no céu escuro. Passei a mão num punhal pequeno que tinha um desenho de um coração partido, desbotado no cabo, que me fez lembrar Romeu e Julieta. E o peguei também, e entreguei a Marcus, colocando com cuidado em sua mão.

— Fique com elas. É uma ordem. – Encarei-o.

— Precaução. – Concluiu.

— Use-as quando for a hora certa. – Avisei. – Faça os estragos que precisar fazer e se defenda. Sem moderação.

Ele concordou firmemente com a cabeça, me olhando nos olhos, e fechou a mão e depois as colocou no bolso.

Peguei uma adaga, o revólver e coloquei tudo no bolso. Depois peguei a caixa e a coloquei debaixo da cama.

Marcus pôs-se ao meu lado.

— Quer ir comigo até o jardim? – Seu tom era tão calmo.

— Sim, claro. – Tentei responder no mesmo tom calmo que ele tinha perguntado, apesar de estar totalmente tensa.

Ele pegou minha mão e me guiou até o jardim.

Eu sentia inveja da calma que Marcus tinha, ou fingia ter.

Uma sensação terrível apertava meu coração, como se fosse prensado entre duas pedras.

O tempo naquele mundo parecia diferente, os dias passavam em horas, os minutos em segundos. Tudo era totalmente diferente e de algum modo exclusivo.

Eu estava com medo.

Aquilo parecia um pesadelo devastando um sonho bom.

Nos sentamos no balanço gigante de madeira, debaixo da gigantesca árvore, que naquele momento não estava florida, o que me chateou.

— Gosto de te ver perdida em seus próprios pensamentos, sabia? – Ele encarava o horizonte. — São pensamentos bons?

— Não exatamente. – Suspirei olhando para o pôr do sol, que parecia um mar em chamas, e acredite ou não, demoraria horas para passar, aquilo era mega confuso. – Quer dizer, eu não sei.

Apesar de tudo, o pôr do sol, levava consigo aquele momento e trazia um futuro que não sabia qual seria, e era temido por mim. O tempo me deixava maluca, e às vezes, não desejo tê-lo nos ponteiros, desejo que momentos sejam apenas momentos, sem tempo.

— Você tem medo do futuro? – Perguntei tentando me distrair.

— Medo? – Ele franziu o cenho. – Eu não tenho medo de algo qual você vai fazer parte.

— Eu sei. – Suspirei. – Mas você não tem medo do mal, que nos ronda agora?

— O mal existe, assim como existe o bem, assim como existe o começo e o fim. O mal está em tudo, e em todos, por mais que isso seja negado, adormecido ou escondido, esperando o momento certo para aparecer, por um segundo ou muito além. Viver com o mal não é uma questão de escolha.

Eu olhei para cima, observando a árvore sem folhas, que agora pairava sobre nós.

— Por que está pensando no futuro? — Ele olhou para mim.

— Porque estou com medo de não ter...

— Terá um futuro belo neste mundo. – Ele prometeu. – Comigo aqui, ou em qualquer outro lugar.

— É o que mais desejo.

— Cuidado, os desejos mais verdadeiros se tornam realidade.

— Então que seja.

— Vai ter que aturar pelo resto da vida.

— Isso não é um problema, é uma honra.

— Honra é ter teu sorriso nos meus dias.

Ele me abraçou.

— Tudo será como quisermos. – Sussurrou.

As folhas se agitaram acima de nós de modo frenético. Tudo se movimentava estranhamente.

Surgiu uma repentina luz estranha e negra, e tudo se transformou numa explosão, uma só escuridão.

Abri os meus olhos, encarando um céu cinzento que obviamente não era o mesmo que encarei há míseros minutos. Me levantei devagar, estava um pouco tonta, e reparei que o chão era de mármore branco, sujo, raízes pretas e mortas brotavam. Pilares também de mármore, eram o que mais havia naquele lugar. Não havia som, exceto a morta natureza que se impregnava ali, que se movia com o vento.

Olhei ao redor.

Marcus estava inconsciente a metros de mim.

Corri para ele.

— Marcus! – Gritei.

Nada.

— Marcus, por favor! Acorde! – Implorei, agarrando e o sacudi.

Nada.

Eu estava desesperada com o silêncio, e pensei no pior. E me detestei por fazer isso. De repente, ele abriu os olhos com tanta leveza, que eu fiquei paralisada de alívio.

— Você está bem? – Tentei manter a calma.

— Alice? O que aconteceu?

— Eu não sei.

— A luz...

— Que luz? – Ainda estava meio tonta.

Marcus se levantou rapidamente.

— Calma. – Tentei impedi-lo, mas ele já estava de pé.

— A luz negra nos trouxe para cá. – Continuou.

— Que lugar é esse? Onde estamos?

— No Reino das Trevas. – Ele informou.

Se aquela era a escuridão, eu não sentia medo. Eu sentia medo do que a fazia ser escura.

— Como você tem tanta certeza?

— Li sobre isso. – Marcus me encarou. – A luz são servos das trevas, almas-perdidas na escuridão. Podem roubá-las, possuir corpos humanos e matar. Fazem tudo o que os Trevanos querem.

Engolia seco.

— Eu tenho que confessar uma coisa: achei que você estivesse morto.

— Alice...

— Eu sei, eu...

— Alice!

Eu me virei e vi uma criatura.

Um tigre preto como uma pantera, que não era somente um tigre, envolvendo-o, havia uma cobra cinza gigante cujo corpo começava com o corpo do tigre. As duas criaturas eram uma só, corpo a corpo, e parecia que vivam em harmonia.

Eu estava tão horrorizada que, se não fosse por Marcus agarrando meu braço, me fazendo começar a correr, eu teria ficado ali.

Entramos em uma mata, cheirava a sangue e coisas podres. Apenas corria tendo Marcus como guia, e o medo como aliado.

Podia sentir as patas pesadas da criatura no chão, enquanto corria, eram como pequenos terremotos, porém, o chão tremia bastante.

Marcus parou, estava suando.

— Marcus...

— Shh. – Ele tampou minha boca com a mão.

Ele estava muito nervoso, seus olhos me encavam de forma profunda e estavam muito arregalados.

Os tremores estavam mais fortes no solo.

— Me obedeça uma vez na vida. – Marcus disse. – Por favor. Saia daqui!

— Sem você eu não vou!

— Por favor!- Ele gritou. – Não seja teimosa pelo menos agora!

— Não!

Marcus tirou do bolso a adaga e segurou firmemente em uma das mãos.

Naquele exato momento, a criatura saltou de trás dos arbustos. A parte réptil movia a cabeça de modo estranho, certamente porque iria dar o bote, e sua língua era como duas lâminas pontiagudas. A parte felina permanecia ereta, nos encarando.

— Eu te amo... – Sussurrou Marcus. – Vá!

Eu não saí do lugar.

Num piscar de olhos, antes que eu tentasse fazer algo, a criatura pulou em cima de Marcus que conseguiu gritar:

— Vá!

Eles lutavam, sem nenhuma trégua, debatiam-se corpo a corpo em meio a ruídos, rosnados e gritos. Aquela foi a luta que observei por milésimos de segundos.

Como num movimento involuntário, minhas pernas me tiraram dali. Agora eu corria por uma trilha, que também cheirava a sangue e a coisas mortas. Infelizmente pude ver animais em decomposição, o que quase me fez tropeçar em alguma coisa, que provavelmente seria um animal.

Eu estava tão apavorada que não notava os galhos das árvores, cortando meu rosto. Porém, eu ouvia o "Eu te amo" de Marcus em minha cabeça. Se aquilo fosse um adeus, foi o melhor adeus que já tive.

Chorava sem rumo, correndo no silêncio e na escuridão que praticamente eram infinitos. Eu não conseguia ver nada enquanto corria. Infelizmente, a voz de Marcus sumiu, dando lugar a zumbidos que quase me deixavam louca e surda. Era alto demais, eu estava descontrolada, mas consegui pensar o quanto tinha sido extremamente burra, por não ter atirado naquele tigre, cobra, ou sei lá o que era aquilo. Eu poderia tê-lo salvado.

Sou tão estúpida!

Decidi voltar, para salvar Marcus.

Mas o que antes eram zumbidos, agora em sussurros, gritos, e vozes que quase me faziam gritar, minha cabeça parecia que ia explodir.

O que estava acontecendo?! Eu não conseguia me mover, não tinha força, por mais que lutasse para sair dali, eu não conseguia, tanto que, ao tentar dar um passo, caí no chão úmido.

Podia ouvir as vozes em minha cabeça:

"Você não tem saída"

"Você agora é dele"

"Não resista."

Tudo era dito com clareza, e repetidamente, num tom sombrio que não parava.

Naquele momento, senti que algo envolvia minhas pernas e braços. Eram raízes negras, que apertavam todos os meus membros, de modo lento, mas doía intensamente. Agora estava gritando de dor, com a sensação de que iria desmaiar ou morrer, pois o mundo todo estava girando, e nunca tinha sentido nada parecido.

Todos dizem, que quando está prestes a encontrar a morte, sua vida passa diante de seus olhos, como um filme. Minha vida foi uma vida boa, não perfeita, e me orgulhava por tê-la vivido, apesar de tudo o que faltou.

O filme que passou diante dos meus olhos não foi bem o que eu esperava. Não era minha vida, em um longa-metragem, e sim, um filme de terror. Todos a quem amava morriam na minha frente, de formas diferentes, mas com mesmo destino.

Vejo a minha mãe na cozinha, e de repente, quando me viro, o chão está um mar de sangue e ela está morta, com uma tesoura cirúrgica atravessada na boca.

Meu pai cai de cima do telhado.

Meus primos morrem queimados.

Meus amigos morrem num trilho de trem.

E Marcus está ajoelhado, amarrado pelos braços, preso em duas árvores. Um homem de capa cinza, que já tinha visto no pesadelo de Liv, saca uma espada e enfia no peito de Marcus, e seu coração é arrancado junto a espada.

O coração ainda pulsava vivíssimo e eu podia ouvir a pulsação gritando em meus ouvidos, como um grito de socorro.

O homem joga num movimento rápido, o coração para o monstro, metade tigre metade cobra, que devora o coração por inteiro e alguém sussurra:

— Você é minha.

Tudo parecia ser real, mas ao acordar fiquei feliz, por ser só um sonho, ou uma visão terrível.

Naquele momento, a dor de cabeça paranormal me trouxe de volta a realidade, quando percebi que ainda estava amarrada pelas raízes, naquele pátio.

De repente, alguns arbustos se mexem, e eu com minha cabeça a ponto de explodir, ainda sim... consegui ficar paralisada, e ver Conan surgir, estava diferente, usando uma capa cinza, agora musculoso, seus cabelos eram marrons-escuros, seus olhos eram tão azuis que pareciam de vidro, que eu adoraria transformar em cacos.

— Olá, Alice. – Ele sorriu de maneira sombria. – Agora você infelizmente sabe de tudo. – Ele ergueu a sobrancelha. – Mas eu lhe prometo que em breve, esse mundo não existirá para você, e ninguém que está nele, e você ficará comigo.

— Nun... – Eu estava gritando de dor que não pude terminar a palavra.

Conan se aproximou de mim lentamente, se agachou tão perto, que quase subiu em cima de mim. Infelizmente, ele me olhava diretamente nos olhos, cara a cara. Estava com muita dor, mas ainda sim, estava inteiramente enojada.

Eu queria ter feito algo para impedir que tudo acontecesse, mas o poder dele e a dor, eram muito forte para alguém como eu.

Ele tinha controle sobre tudo, eu sentia a energia dele ali sob mim, influenciando tudo.

Continuava gritando, vendo ele colocar as mãos em meus pulsos, em meio as raízes.

Tossi e sangue saiu pela minha boca, eu podia sentir que agora estava mesmo morrendo.

Conan se aproximou de meu ouvido.

— Parem. – Sussurrou.

A dor sessou, mas não a ponto que eu parasse de gritar.

Fiz uma coisa que não devia.

— Por favor! – Gritei implorando.

Eu não devia ter implorado.

— Parem! Seus surdos! – Conan gritou.

A dor parou, mas agora eu não conseguia respirar. Eu estava morrendo e minha cabeça começou a doer de novo, a trégua, durou pouco, o que me fez pensar que as ordens de Conan não foram obedecidas o quanto desejava, por seus servos, mas ele ainda tinha muito controle.

Sentia a pulsação quase inotável de meu coração, fraco na nuca e ao mesmo tempo, o ar se esgotando em mim.

Conan fechou os olhos liberando uma luz brilhante, cheia de vida e com isso, saíram em disparada de todos os cantos como cometas negros de luz, e subiram ao céu. Eram os servos.

Minha boca se abriu, eu não consegui fechar, e como se isso não bastasse, um fio grosso de luz escura saiu de dentro de mim lentamente. Isso fez parar a dor definitivamente, porém ainda sentia falta de ar.

— Shh..- Conan deu um sorrisinho. – Relaxe, senão seu coração não suportará.

Conan colocou a mão em meu coração, fazendo um gesto, como se fosse arrancá-lo. Fiquei apavorada, arregalei os olhos.

— Faça o que eu digo, se não vai morrer! – Conan rosnou.

— Que diferença vai fazer? Você deseja me matar! — Conseguir dizer.

Ele me ignorou. Ainda com a mão em meu coração, me olhou nos olhos e sussurrou:

— Acalme-se.

Uma energia forte me inundou, fazendo-me relaxar em segundos e eu sabia que ele estava fazendo isso. Naquele mesmo segundo, meu coração parecia que ia saltar para fora; então ele deu um tranco, empurrando-o para dentro do peito, e isso me fez gritar, segundos depois eu estava respirando normalmente.

— Sua energia, sua alma... seu corpo...- Ele respirou bem fundo, e fechou os olhos, ainda estava com a palma sob o meu coração. – Você é mais forte do que pensa. Não quero te matar.

Houve uma coisa estranha, Conan sorriu ao me ver bem, como sorria ao me ver no colégio, quando nos conhecemos.

Ele também fez num piscar de olhos, as raízes me soltarem.

Eu me levantei e fiquei na "retaguarda."

— Por que está fazendo tudo isso? – Quase gaguejei. – O que quer?

Conan sorriu, agora estava andando em volta de mim como um tigre cercando a presa.

— Você é minha ruína e minha força, ao mesmo tempo. – Ele disse. — Você pode me destruir, mas será muito poderosa ao meu lado.

— Destruir você não é má ideia.- Disse

— Deixe eu tê-la para mim. Deixe eu possuir você. Eu posso te dar uma vida. Eu a amo. – Ele estendeu a mão para mim.

Não acreditava no que ouvia, era mentira!

— Eu tenho uma vida! – Gritei.

Antes que pudesse pôr a mão no bolso para pegar alguma arma, Conan me agarrou, e um fio de luz amarrou minhas mãos. Conan colocou-se atrás de mim, passando o braço em meu pescoço sem me enforcar, nossos corpos se encostavam, quase vomitei.

— Você não me deixa escolha! – Gritou, furioso.

Ele tentava colocar uma das mãos em minha cabeça e só podia significar uma coisa: apagar minhas memórias. Eu me mexia, o quanto pude, para tentar escapar.

Ali no silêncio, um rugido doloroso foi ouvido. Tive esperanças. No exato momento, a mata ali perto se mexeu e Marcus surgiu, com a camisa toda rasgada pelas garras e coberta de sangue. Ele estava vivo!

— Solte-a! – Ordenou.

Conan virou para ver quem surgia, me agarrando mais forte.

— Marcus! – Não pude me conter.

— Cale a boca! – Conan ralhou comigo.

— O que quer?! – Marcus gritou. – Deixe Alice em paz!

— O que você mais ama. — Respondeu Conan

— Você nunca a terá.

— Isso é o que você imagina. Tudo será fácil, como naquela noite memorável que eu te dei uma surra, e Alice ficou te chamando, enquanto eu apagava a memória dela, mas agora há uma grande diferença: você irá morrer!

Marcus tirou do bolso um punhal, e veio correndo em direção a Conan, que me jogou para o lado.

Os dois lutavam.

Conan deu três socos seguidos em Marcus. Os dois rolavam em meio a socos, chutes, tudo o que era possível de se fazer. E eu ali paralisada e amarrada por uma luz.

Marcus tentava usar o punhal no momento certo, mas esse momento não chegava. Marcus deu socos em Conan, que seu punhal voou de sua própria mão.

Em meio a luta, Conan conseguiu pegar o punhal e olhou nos olhos de Marcus que estava exausto, e parecia que ele não tinha notado o punhal com Conan, e esse por um segundo, olhou para mim com um sorriso sombrio, e no mesmo segundo enfiou o punhal no peito de Marcus, que deu um grito. Conan riu ao ver minha expressão de pavor, que foi substituída por um grito também, ao ver o punhal sendo arrancado do peito de Marcus.

Ele não podia estar morto! Não!

Eu corri para ele, mas Conan me agarrou.

— Marcus! Não! – Gritei.

— Está tudo bem. – Conan disse num tom feliz. – Seremos só nós. Para sempre.

Percebi que o fio que prendia minhas mãos tinha sumido.

— Só nós dois. – Disse ironicamente.

O amor e o ódio andam lado a lado como irmãos, estão sempre em harmonia e em equilíbrio em tudo, e em todos. São sentimentos que transformam o mundo no que realmente é, não se pode negar. Sempre haverá uma semelhança entre eles: os dois te dão força para fazer coisas que nunca pensamos que iremos fazer.

Naquele momento, senti como se nunca mais teria medo de nada, dando espaço a coragem, formada pelo amor e o ódio.

Conan me abraçou e eu cuidadosamente peguei a adaga em meu bolso. Segurei firme, e antes que fosse tarde, cravei em se peito num grito odioso. Conan arregalou os olhos azuis, não crendo no que estava acontecendo. Ele caiu gemendo.

— Devil! – Gritou enquanto o sangue jorrava de si.

Do nada, o monstro de dois seres, o tigre e a cobra pulam dos arbustos e correm para mim. Pude notar a adaga de Marcus ainda enfiada no peito do monstro, devo admitir que isso me orgulhou.

Sem mais nem menos, peguei o revólver e atirei, como vi nos filmes, até transformar o monstro num queijo suíço.

O sangue espirrou em mim; ele caiu lentamente dando seu último rugido e chiado.