Segundo Mundo
13 Capítulo 13 - Aliada
O céu azul daquele dia lindo de Marinix iluminou meus olhos e era uma sensação de alívio.
Marcus e eu entramos na mansão como se a vida não tivesse tempo.
Avistamos alguns Protetores com seus Protegidos brincando nas mesinhas ou só conversavam. Aquela área da mansão estava mais cheia do que eu costumava ver.
— Oi, tio Marcus!
Uma garotinha veio correndo até nós. Parecia ter oito anos, tinha cabelos cor avelã cacheados, olhos marrons-claros, pele branca, usava um vestido de abelhinhas, parecia uma boneca.
— Oi, Sophie! – Marcus sorriu.
— Senti saudades, tio Marcus.
— Eu também senti, Sophie. – Marcus disse. – Por que eu não te vejo mais aqui faz tempo?
— Jess não queria voltar – Contou.
— É mesmo? Por quê?
— Ela e Kimberly ficam brigando... – Ela bufou. – Isso é muito chato.
— Eu sei. – Ele suspirou.
— Quem é ela? — Sophie perguntou olhou para mim.
— Sophie, esta é Alice, eu a protejo. Alice, esta é Sophie.
— Oi, Sophie. – Sorri
— Oi, Alice. – Ela acenou.
— Sophie! – Chamou uma voz feminina, vindo de longe.
Eu olhei e vi uma garota provavelmente mais velha do que eu, com cabelos escuros, o rosto parecido com o de Sophie.
— Tenho que ir, tio Marcus, Jess está me berrando.
— Não vai me dar um abraço de despedida? — Marcus ergueu a sobrancelha.
Sophie riu. Marcus se abaixou e ela o abraçou com seus braços finos.
— Sophie! – Jess berrou novamente.
— Tchau, tio Marcus. Tchau, Alice! – Falou a garotinha e saiu correndo.
— Tchau, Sophie! – Falamos.
Eu e Marcus andamos para dentro da mansão, e sentamos num sofá.
— Há quanto tempo você as conhece? – Perguntei.
— Há muito tempo. – Ele sorriu. – Está com ciúmes de novo, Alice?
— Não, só queria saber...
— Aham...
Ele sorriu.
— Essa tal de Kimberly é Protetora de Sophie? – Perguntei enquanto pegava uma almofada e colocava no colo.
— Sophie e Jess são Protegidas dela. – Contou. – É um caso raro, o medalhão as escolheu como Protegidas de Kimberly, porque são irmãs.
— O que acontece quando vocês, os Protetores, descobrem sua sina?
— O medalhão nos encontra, nos traz para Marinix, e depois nos mostra nosso Protegido.
— Onde você encontrou seu medalhão? Quer dizer, onde seu medalhão encontrou você?
— Num cemitério.
— É sério, Marcus! – Joguei a almofada nele. – Isso é importante para mim!
Ele pegou a almofada.
— Não estou brincando! — Ele deixou a almofada de lado. – Eu na época, só queria saber de me divertir com os amigos e às vezes ia a lugares incomuns.
A vida, às vezes, nos dá caminhos estranhos para seguirmos o destino que realmente temos.
— Mas você gostava de tudo isso?
— Sim, gostava, mas descobri que haviam coisas mais importantes. – Ele sorriu. — No começo foi tudo complicado, mas depois que te conheci... vi tudo como realmente era.
Meu celular vibrou, minha mãe estava ligando.
— Só um minuto. – Disse a ele.
Ele piscou para mim.
— Oi, mãe. – Atendi.
— Alice? Tudo bem?
— Tudo e você?
— Tudo. Alice, esse trabalho é tão grande a ponto de você ficar dias fora de casa?
— É, o trabalho é enorme mesmo.
— Você vai voltar para casa hoje, não vai, Alice?
— Não, mãe, minha amiga está com uma gripe muito forte, e seria muito chato se eu fosse embora agora, já que a família dela foi tão hospitaleira comigo.
— Você está certa, filha. E como está o trabalho?
— Já estamos finalizando.
— Que bom. Ah! Seus primos vão ficar por aqui por tempo indeterminado. – Ela riu. – Já que seus tios vão para Portugal.
— Que bom, mãe. Tenho que ir, tchau, a mãe da minha amiga está me chamando.
— Ok. Um beijo, filha.
— Beijo, mãe.
Eu olhei para Marcus por um segundo e sorri, enquanto guardava o celular no bolso.
À noite, tive um pesadelo.
Sonhei que estava em uma rua escura, neblinando e o ar tinha um cheiro estranho. Uma "figura" de capa cinza olhava para o horizonte. Eu não conseguia ver o rosto dele – era um homem. De repente, ele se virou e com um sorriu malicioso, veio em minha direção. Eu comecei a correr, e ele veio atrás. Podia ouvir gritos abafados, mas não eram meus. Eu corria na escuridão, até que conseguiu me agarrar — e eu lutava para me libertar. Então,gritei.
Acordei gritando, suada e agarrada ao cobertor. Estava assustada. Por que tive esse sonho estranho? Me levantei e vi que a janela estava aberta, as cortinas balançavam de modo extremamente estranho quando fui fechá-la, e tive a sensação de estar sendo observada. Depois de fechar e trancar a janela, voltei correndo para cama (eu era medrosa, admito).
Não consegui dormir, fiquei rolando de um lado para o outro na cama, sem perceber que já era manhã, e que não conseguiria dormir, então levantei e fui ao refeitório.
Jason já estava sentado em uma das mesas, aliás aquela era a única mesa que estava ocupada.
— Por que acordou tão cedo? – Perguntou ele ao me ver.
— Pedi o sono. – Contei. – Você se importa se eu me sentar aqui?
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Também perdi o sono. – Comentou enquanto eu me sentava. – Então somos dois.
Houve um breve silêncio.
— Jason, posso te fazer uma pergunta?
— Claro, se eu souber a resposta...
— Como esse mundo surgiu?
— Ninguém sabe exatamente como isso tudo surgiu, mas quase todos acreditam numa lenda. – Ele riu. – Isso é meio engraçado.
— Qual lenda?
— Um casal, Marina (por isso o nome Marinix) e Bruce eram apaixonados. Mas Bryan, um homem perigoso queria Marina como seu amor. Bruce e Marina tinham um tipo de refúgio, onde se amavam e pretendiam ter filhos, etc. Ao descobrir que Marina poderia correr perigo, Bruce deu um medalhão para ela e de algum modo, ele sabia que o medalhão era mágico. Então transportou Marina e o refúgio deles para um lugar seguro. Bruce era o único que tinha acesso a esse mundo, além de Marina, mas Bryan de algum modo também descobriu esse mundo. Bruce e Bryan brigaram. Bruce morreu depois de beijar Marina, com uma facada nas costas dada por Bryan que também morreu logo depois, não se sabe como. Bom, mas ninguém sabe se isso realmente aconteceu e como os medalhões se espalham por ai.
— Então Bruce foi o Protetor de Marina. – Conclui em voz alta.
— É. – Jason bocejou.
— Já está acordada? – Ouvi a voz de Marcus.
Eu me virei, vi os olhos verdes de Marcus me encarando gentilmente.
— Já. – Falei.
Ele sorriu.
— Oi, Jason. – Marcus disse.
— Oi e tchau, Marcus — Jason riu se levantando da cadeira. – Vou ver se consigo dormir de novo.
Jason saiu.
Marcus franziu a testa e riu, se sentou onde Jason estava sentado.
— Dormiu bem? – Ele me encarou.
— Dormi.
— Não parece.
Deitei minha cabeça no ombro dele, me sentia segura.
O silêncio era bom.
— Oi! – Nina entrou no refeitório dizendo, e se aproximou da nossa mesa.
— Oi. – Eu disse.
— Vou fazer um piquenique no jardim e vocês dois estão convidados. Só para os íntimos, e não vou deixar nenhum pirralho daqui atrapalhar, quer dizer, nenhum Protegidinho atrapalhar. – Nina arrumou seu vestido branco.
Eu estava surpresa, nunca ouvira ninguém falar assim de nenhuma criança da mansão.
— Você não é a única que vive aqui, sabia? — Marcus rosnou. -Você não pode simplesmente impedir alguém de andar por aqui. Esse piquenique...
— Você manda aqui? Pelo que eu saiba Jason manda aqui, então você não tem o direito de questionar nada!
— Escuta, sua...
— Eu não vou discutir com Protetor, que não foi nem capaz de proteger sua Protegida. — Disse Nina.
Eu quis dizer alguma coisa para defendê-lo, mas em vez disto, sussurrei:
— Deixe-a. — Eu o puxei.
Marcus suspirou, levantou-se rapidamente e pegou minha mão.
Eu pude ouvir o risinho de Nina malicioso, enquanto caminhávamos para o jardim.
Também pude sentir o braço contraído de Marcus, segurando a minha mão, enquanto sentávamos num balanço de madeira.
— Nina me tira do sério. — Marcus suspirou.
— Eu deveria ter te defendido. — Lamentei
Eu olhei para o céu azul, por um instante.
— Não preciso que ninguém me defenda. — Ele disse orgulhosamente.
Agora Marcus era quem olhava para o céu azul limpinho, sem nenhuma nuvem.
— Nina não é Protetora, é? -Perguntei
Marcus suspirou de novo.
— Acredite, não é uma coisa que você precisa saber, não é uma coisa que mudará sua vida, não é importante.
— Se não vai fazer importância na minha vida, por que não me diz?
Marcus desviou o olhar do céu azul, e agora olhava para algo do outro lado da rua, segui o olhar dele, e vi do outro lado da rua, uma garota cabisbaixa de cabelos pretos.
— Está perdida? — Marcus gritou para a menina.
De repente o céu se cobriu de nuvens absolutamente pretas.
Eu tinha visto há poucos minutos um céu azulzinho, como aquilo era possível?
Marcus gritou de novo:
— Está perdida?
A menina levantou a cabeça, olhou para os lados e parecia insegura, como se estivesse com medo de estar sendo seguida. Ela atravessou a rua com passos rápidos, como se o asfalto fosse uma ponte, que iria se quebrar. Atravessou com passos rápidos depois, de nos encarar por um breve momento. E chegou até nós, cabisbaixa ainda, usava um vestido preto com meia calça, botas, então, percebi que ela tinha olhos azuis.
— Está procurando alguém? — Marcus perguntou.
A menina apenas sacudiu a cabeça positivamente. Marcus olhou para o céu e franziu o cenho.
—Vamos conversar lá dentro! Parece que vai cair uma tempestade, Alice .
Nós fomos para dentro da mansão, sentamos em puffs coloridos, a garota nos seguiu em silêncio.
— Sente-se. — Marcus disse a garota
A garota sentou-se e nos encarou com seus olhos azuis.
— Qual seu nome, garota? — Perguntou Marcus.
— Liv.- Ela suspirou. — Liv Winner.
— E quem você está procurando, Liv?
— Já achei quem procurava.
— É mesmo? Quem? — Marcus perguntou surpreso.
Liv suspirou de novo e respondeu:
—Vocês dois.
— Por quê?
Quem era aquela menina, e por que ela nos procurava? Perguntei-me.
— As trevas estão atrás de vocês. Só isso.
Aham, só isso? Pensei indignada.
Marcus perguntou:
— Como você sabe? Por quê?
— Eu sou do outro lado da divisão. Não se preocupe, eu vim em paz e, bem.... eu não sei porque exatamente, mas vou descobrir.
— Você é uma ... — Disse Marcus.
— Se ia dizer Trevana... Não, não sou. Não mecho com as forças profundas das trevas.
— Como eu posso confiar em você? Como posso saber que você não vai nos trair? — Perguntou Marcus
Ela respondeu:
— Cara, você acha mesmo que eu ia ter esse trabalho todo para desmanchar o campo de proteção de vocês, atravessar a divisão, fazer este percurso todo, para mentir? Ah, fala sério.
— Ela tem razão. — Eu disse concordando.
Ele ignorou o que eu disse e gritou para Jason:
— Venha aqui embaixo, e chame todos, é importante!
— O que ele vai fazer? — Liv arregalou os olhos para mim. — Vai chamar os outros para me linchar?
Dei de ombros.
— Não somos iguais a seu povo. – Marcus ralhou.
— Acredite, eu também não. — Ela sorriu.
Aos poucos, pessoas, crianças se aglomeravam na sala com rostos curiosos. Jason foi o último a chegar.
— O que está acontecendo? — Perguntou assustado.
Marcus limpou a garganta, e disse:
— Essa Trevana, diz que as trevas estão atrás de nós.
— Qual é seu nome, Trevana. — Perguntou Jason.
— Não sou Trevana! Já disse! — Liv pareceu ofendida. – Não mexo com forças profundas, tenho poderes fracos.
— Alguém te seguiu? — Jason perguntou.
Liv sorriu e disse:
— Sou inútil para eles, não se darão conta, se eu entrar ou sair de lá.
— Por quê as trevas estão atrás de Marcus e Alice, o que eles querem? — Jason perguntou.
— Eu não sei, já disse, mas irei descobrir.
Liv se levantou e anunciou:
— Eu não vim aqui para fazer mal a ninguém e não estava a fim de voltar para as trevas, mas tenho uma proposta a fazer: serei uma espiã e descobrirei o que eles querem, e em troca vocês me deixam ficar aqui. Serei útil, posso controlar sonhos, posso fazer qualquer pessoa sonhar o que eu quiser, mesmo quando não estão dormindo. Alguns são tão reais, que podem causar loucuras. Posso ajudar as crianças quando tiverem pesadelos. Não vou pegar pesado, eu juro.
Observei que algumas crianças ficaram animadas com a proposta de Liv, já vi crianças tendo pesadelos lá na mansão, algumas ficam descontroladas e seus Protetores não sabem o que fazer.
— O que acham? -Jason perguntou a todos.
Alguns Protetores falavam e gritavam: sim, não, você está louco, onde está o seu senso?
—Não vou trair vocês, tenham a minha palavra. – Liv prometeu.
Nina saiu do meio da multidão e disse:
— Ela não pode ficar aqui, ela vai nos trair, ela está mentindo.
Jason ergueu a cabeça e anunciou:
— Você esqueceu, Nina, de quando você chegou aqui com medo que as trevas abduzissem você? Nós praticamente anulamos seu destino. Ela por outro lado, está aqui de boa vontade e pode nos ajudar, ao contrário de você. Então direitos iguais, minha cara.
Jason parecia um sábio falando daquele jeito.
— Eu não tive tempo de descobrir as artes das trevas, já ela sim, e pode nos trair. -Nina se defendeu.
— Você não sabe a sorte que tem por não descobrir as artes das trevas, Nina. Isso é tão... ah, deixa pra lá. -Disse Liv.
Liv era engraçada, tive que admitir. Pensei
Nina saiu em disparada dali, irada.
Jason completou a fala:
— A decisão não pode ser concluída por mim: Liv está aqui para ajudar Marcus e Alice. Então cabe a eles essa decisão. Qual é o veredicto de vocês?
Marcus deu um passo à frente:
— Se é para proteger a Alice, é claro que eu concordo.
— Se é para proteger todos nós. – Corrigi. — Eu concordo também.- Eu disse.
— Então está decidido. Ela fica. — Jason anunciou.
Com o tempo os outros curiosos sumiram dali, e tudo ficou silencioso por um tempo, até que Liv perguntou de um modo presunçoso:
— Onde será meu quarto?
Jason disse:
— Oh sim, eu a levo até ele. — Disse animadamente. – Siga-me, por favor.
Então os dois nos deixaram sozinhos novamente, numa quietude maravilhosa.
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