Segundo Mundo
14 Capítulo 14 - Verdade
Eu e Marcus ficamos quietos em pé, lá sozinhos, no meio da sala, até que ele sentou no chão e estendeu a mão para mim, dizendo:
— Quero você perto de mim.
Eu me sentei, com um sorriso largo, ao lado dele.
— Você é muito fofo! – Sussurrei.
— Só com quem eu amo de verdade. – Sorriu.
— Você confia em Liv? — Perguntou Marcus.
Pensei: Confiança não é o tipo de coisa que se conquista em questão de segundos, isso leva tempo, anos, porque às vezes, quando se dá confiança demais, a vida de alguém pode ser arruinada por uma decepção. Pode parecer exagero, mas é verdade.
— Bem... confiança é uma palavra muito forte, eu diria que ela tem um ponto positivo comigo. E você confia nela?
— É um risco bem grande. Um risco que temos que correr.
— Bem... ela disse que tinha palavra. — Lembrei a ele.
— Confiança vale muito mais que palavras, Alice.
Houve um silêncio maravilhoso de novo.
— Agora eu entendo. — Eu disse
— Entende o quê? — Marcus franziu a testa.
— Agora eu entendo por que esses anos todos me senti sempre sozinha, como se um rasgo fosse feito no meu peito e eu sempre esperava que alguém o preenchesse, mas não, as pessoas sempre o aumentaram ao longo do tempo, com partidas, idas e vindas. Agora eu sei, esse rasgo sempre tinha que ser preenchido por você.
Marcus sorriu, e disse:
— Eu também senti quando você voltou, senti como se minha vida tivesse voltado, senti como se minha vida estivesse livre de novo, para viver em mim.
Marcus beijou minha bochecha.
— Eu te amo, Alice.
— Eu também te amo e vou estar sempre com você.
— Mesmo se as trevas estiverem atrás de nós? – Marcus riu.
— É claro né, seu bobo! — Joguei nele uma almofada que estava perto de mim.- Que venham trevas, morcegos, demônios, criaturas das trevas, eu sempre estarei com você. – Completei.
Me levantei do chão, pois minhas pernas estavam começando a ficarem dormentes, e sentei-me no sofá. E logo depois Marcus sentou-se ao meu lado, onde dormimos a noite toda.
Pela manhã, abri os olhos e vi que Marcus ainda dormia ao meu lado. Levantei-me cuidadosamente para não acordá-lo e coloquei as pernas dele no sofá, fazendo-o deitar bem devagar, mas, mesmo assim, senti que ele estava desconfortável ali, se eu pudesse e se tivesse forças o levaria para sua cama. Mas eu não era uma supermulher para fazer isso, infelizmente, e também não queria acordá-lo.
Andei devagar, praticamente nas pontas dos pés e o deixei ali adormecido. Segui para o refeitório. Por estranho que pareça, a quietude era boa. Atualmente, ando percebendo o quanto o silêncio é bom, nos momentos certos.
Entrei e Nina estava lá, debruçada no balcão, onde havia uma pilha de copos descartáveis, e uma cafeteira elétrica que nunca vira por lá..
Me aproximei, Nina ergueu a sobrancelha ao me notar.
— Oi. – Disse eu.
— Oi.
Ao encostar no balcão, ela perguntou:
— Quer café?
— Quero, por favor. – Eu a encarei.
Nina pegou um copo no balcão, coloco-o debaixo da cafeteira, e apertou um botão cinza e depois deu para mim.
O café não estava muito quente, porém pude encarar algumas bolhas e uma fumacinha saindo.
— Essa cafeteira é nova? – Bebi um gole. — Eu nunca a vi antes, só uma outra.
— Estava guardada, essa é bem melhor. – Comentou.
Fiquei em silêncio.
— Você já sabe da novidade? – Nina perguntou com um risinho chato.
— Não, qual? — Perguntei desinteressada.
— A Trevana foi embora. – Anunciou. – Aqui não era o lugar dela, eu avisei, e agora nós vamos pagar o preço.
Eu quase derrubei o copo que segurava, e pensei:
Será que Liv desistiu de nos ajudar? Iria nos entregar? Ela parecia ter palavra, como ela mesma disse, e algo me dizia para ter confiança, que voltaria, ou que isso era uma mentira de Nina. E eu desejei que minha intuição estivesse certa. Será?
— Como sabe? – Tentei parecer desafiadora, mas não saiu como eu esperava, saiu num tom casual.
Nina riu.
— De madrugada, levantei para beber água e a vi saindo.
Eu a encarei, muito descrente, e não disse nada.
Bebi todo o meu café e joguei o copo num lixinho próximo ao balcão. Peguei outro copo e repeti o processo que Nina tinha feito – iria levar um copo de café para Marcus – e sai dali.
Voltei-me para Marcus que ainda estava adormecido. Deixei o copo numa mesinha ao lado do sofá, no qual ele dormia.
Fiquei olhando, era uma cena qual não me importaria de ver por toda a vida.
Ele começou a se mexer no sofá, estava acordando.
Seus Lindos olhos verdes se abriram.
— Oi. – Ele disse com voz de sono, num sorriso.
— Oi. – Sorri.
— Está muito tempo aqui?
Eu não disse nada, apenas sorri.
— Você estava me olhando dormir, Alice Scott? — Ele abriu um sorriso lindo.
— Sim, estava. – Admiti. – Acredite, nem roncou.
— Muito engraçadinha você.
Ele piscou para mim.
— Peguei café para você. – Apontei para a mesinha.
— Você fica me olhando dormir, pega café para mim, ainda diz que o fofo sou eu? – Ele riu e tomou um gole.
Eu peguei a mão dele.
— Não me mime. – Ele acariciou minha mão. – Eu é que tenho que mimar você.
Enquanto ele tomava o café, contei a ele o que Nina tina me dito.
Naquele mesmo momento, a maçaneta da porta girou.
A porta se abriu. Liv abriu a porta e trazia consigo duas malas enormes com rodinhas, na cor vinho, pareciam pesadas.
— De onde você veio? Das trevas?! – Marcus disse desesperado. – Você nos traiu?! Contou a eles?
— Claro que não! – Liv revirou os olhos. – Fui buscar minhas coisas. Ninguém me notou lá, se é o que quer saber.
— Melhor assim. – Marcus tentou se acalmar.
— Chega de paranoia, meu caro Marcus. – Pediu.
— Eu sinto muito... eu... – Desculpou-se ele.
— Eu entendo. – Ela suspirou e parecia que ela ia falar mais alguma coisa, mas desistiu, e saiu carregando suas malas.
Marcus deu de ombros, calçou seus tênis e me beijou no rosto.
Eu retribui com um sorriso.
Depois de uns minutos, Liv voltou e disse:
— Preciso conversar com vocês dois a sós. – Ela disse. – Vocês sabem de algum lugar mais reservado, onde podemos conversar?
— Eu sei. – Marcus disse. – Sigam-me.
Eu e Liv o seguimos, ele nos levou em uma das salas, quando queríamos ficar sozinhos. Marcus fechou a porta quando entramos. Nós pegamos algumas cadeiras de plástico que estavam ali e nós sentamos.
Liv parecia nervosa.
— Eu sei de tudo. – Ela começou. – Sei que vocês tinham perdido a conexão.
— Quem contou a você? – Marcus estava surpreso
— Ninguém.
— Então como sabe? – Marcus estava indignado.
— Porque eu sei quem fez isso com vocês.
A expressão de Marcus era de ódio agora, seus olhos verdes estavam enfurecidos.
— Quem foi, Liv?! Me diga quem foi! – Marcus disse.
Liv não disse nada, colocou a mão no bolso de seu jeans e tirou uma foto, e me entregou.
Não podia crer no que estava vendo: Conan estava na foto, com cabelos cor de chocolate, olhos azuis, e com um olhar sombrio.
— Conan Winner. – Ela completou. – Ele é meu irmão.
Fiquei paralisada. Isso queria dizer que...
— O que isso importa?! – Marcus perguntou, interrompendo meus pensamentos.
— Foi ele quem separou vocês . – Liv suspirou. – Ele deseja a morte de vocês.
— Por quê? – Marcus estava atordoado.
— Ele se sente ameaçado. – Liv respondeu.
— Ameaçado?! – Marcus ecoou.
Eu não podia acreditar, parecia um pesadelo! Era... Ele era o culpado de tudo! Eu confiei nele! Conan sabia de tudo! Sabia sobre esse mundo, sabia sobre Marcus!
Por isso ele agiu daquele jeito na festa! O medalhão!
Joguei a foto no chão o mais rápido que pude, eu estava apavorada, estava chorando.
— Você o conhece, não é? – Liv olhou para mim.
— Você o conhece, Alice?! – Marcus perguntou, furioso.
— Eu... – Não consegui terminar a frase.
— Ela não sabia quem ele era. — Explicou Liv.
— Eu estou com medo.... – Falei aos soluços.
Marcus deixou sua cadeira e ficou de frente para mim.
Estava cabisbaixa em lágrimas.
— Ei, olhe para mim. – Ele levantou meu rosto delicadamente com as pontas dos dedos.
Olhei os olhos de Marcus, cheios de vida.
— Não vai acontecer nada, eu juro. – A voz dele era calma. – Eu vou te proteger, nem que para isso eu tenha que morrer.
— Quieto! Nunca diga isso! Você não se importa como eu ficaria sem você?! Você não se importa comigo?! Com seus amigos?! – Falei indignada.
Marcus bufou.
— Minha missão é te proteger, sou seu Protetor e não me importo de morrer por você.
— Eu não quero um Protetor! – Exclamei. – Seja apenas meu namorado, o amor da minha vida!
Marcus me abraçou, eu praticamente o agarrei, porque tinha medo de perdê-lo de novo.
— Alice, eu preciso de um tempo sozinho, de um tempo para pensar. – Ele suspirou. – Você se importa de ficar com Liv?
Balancei a cabeça negativamente.
— Liv, você cuida dela por mim? – Marcus perguntou.
— Cuido. – Ela garantiu num sorriso.
Marcus olhou para mim, afagou meu rosto.
— Tudo vai ficar bem. – Prometeu num sussurro.
— Eu acredito em você. — Disse sorrindo.
Ele beijou minha testa, caminhou até a porta, e antes de sair, me olhou e disse:
— Eu te amo.
Tudo ficou quieto, podia ouvir a respiração acelerada de Liv, com seus lindos olhos azuis.
— Por que está nos ajudando, Liv? – Quebrei o silêncio.
Liv ergueu um pouco a cabeça, e fechou os olhos por um instante.
— Você quer mesmo saber?
— Quero.
— Conan destruiu tudo que eu mais amava e conhecia. Nem sempre a escuridão significa o mal, pode significar angústia, medo, e acredite, na escuridão também existe amor.
Eu acreditava nela, acreditava que em todo lugar existia amor, por mais diferente que ele seja demonstrado, afinal de contas, nenhuma forma de amar é sempre igual, mas o sentimento será sempre o mesmo.
— Em todo lugar existe amor, Liv. – Comentei.
Ela sorriu por um momento, mas continuou a falar tristemente:
— Conan destruiu tudo. Tudo que eu amava – Ela disse.- Desde então eu decidi que iria destruir todos os planos dele e tudo que ele ama, se é que ele ama. Mas fico feliz de ajudar vocês, é uma causa nobre, vi como vocês se amam.
Eu senti um arrepio sem motivo, mas agradeci.
— Obrigada, Liv. – Eu sorri. – Mas sua família, quero dizer, seus pais não estão preocupados com você? Já que você está 'sumida'...
Liv respondeu chorando:
— Não, não estão. – Lágrimas rolavam por seus olhos azuis. – Conan os matou.
Estava horrorizada, Conan era um monstro! Como eu pude ter sido tão burra!
— Por quê? – Agora quem estava chorando era eu.
— Meus pais eram os Trevanos mais poderosos do Reino das Trevas. – Liv contou. – E Conan queria esse posto.
— Eu sinto muito.
— Acredite, eu também sinto – Liv enxugou as lágrimas.
— Por isso você quer se vingar...
— Bem, não chamo isso de vingança, isso é uma Troca Profunda de Favores.
— Entendo. – Admiti.
Ela ergueu a sobrancelha e disse:
— É mesmo? Bom saber.
— Eu também faria a mesma coisa. – Contei.
Ela não disse nada, apenas me encarou.
— Liv , tenho perguntas e preciso de respostas.
— Então as faça. – Liv disse.
— Os seres desse mundo são imortais, então como Conan matou os seus pais?
Eu esperava que ela tivesse uma resposta, uma resposta que nos ajudasse a lutar contra Conan, ou até entregá-lo a morte, e devo admitir que meu coração estava esperançoso.
— Eu não sei. – Disse Liv num tom de lamento. – Tento descobrir isso há anos, e são anos de fracasso.
— Quem nunca caiu, nunca saberá como vencer uma batalha. – Eu disse.
Meu pai já me disse isso, quando era criança e estava aprendendo a andar de bicicleta. Ele tirou meu capacete rosa, colocou as mãos em meu rosto, olhou em meus olhos e me disse. Eu nunca me esqueci, até mesmo depois de levar vários tombos de bicicleta.
Liv deu um sorriso que revelou seus dentes brilhantes.
— Mas um dia eu encontrarei alguma forma de matar o Conan – Ela pensou em voz alta.
Eu a encarei de modo gentil, por um momento, e disse:
— Eu não me lembrava de Marinix até poucos meses, você tem alguma... –Ela me interrompeu dizendo:
— Conan tem o poder de apagar memórias, por isso você nunca se lembrou de nada, e isso, de certo modo, facilitou a perda da conexão entre vocês. Ele seguiu cada passo seu, durante todos esses anos, para que você não descobrisse nada.
Eu me arrepiei. Não podia acreditar que Conan me vigiou por tanto tempo, e como eu não percebi nada! Agora eu entendo porque me sentia como se alguém estivesse me olhando. Agora eu sabia quem tinha me estrangulado às escuras: Conan.
Eu estava pasma.
— Não se surpreenda. – Liv sibilou. – Conan é capaz de tudo quando quer, mas isso vai acabar.
— Sim, vai. – Falei séria.
Um silêncio misturado com a tensão, se espalhou pela sala.
Liv cruzou os braços.
— Sem querer me gabar, mas fui eu quem colocou o seu medalhão debaixo da cama para você o encontrar.
— Obrigada, Liv! – Ela foi surpreendida por meu abraço. – Se não fosse por você, eu não teria conhecido Marcus!
— Ah, de nada! – respondeu sorrindo.
Uma coisa inédita acontecia: eu confiava em Liv apesar do pouco tempo que a conhecia, pois Liv tinha me dado motivos suficientes para isso.
— E também fui eu, quem fez você sonhar o pesadelo em algumas noites. Era o único modo de você acordar, antes que Conan a matasse.
— Obrigada por tudo, Liv.
— Eu é quem agradeço.
Eu me encolhi, estava com um pouco de frio.
— Se não se importar, deixe que eu fale com Marcus sobre o que conversamos aqui. Pediu Liv.
— Claro.
— Não se preocupe. Tenho certeza que tudo ficará bem.
Eu tentei sorrir.
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