Segundas Intenções
29 Capítulo 28
Notas iniciais
ARIZONA PDV
Um grunhido sai por meus lábios, fazendo-me despertar lentamente por causa da dor vinda da minha mandíbula e dos meus pulsos. Meus braços queimavam por sustentarem o peso na posição que se encontravam. Abro os olhos, ainda zonza. A primeira imagem que me é apresentada é o piso branco do laboratório, percebo que eu não tocava com meus pés nele e vejo também que meu vestido estava rasgado e que meus pés estavam amarrados por uma fita adesiva.
Ao notar que havia algo errado levanto meu olhar e a dor profunda na minha mandíbula aumenta por causa do movimento súbito. A luz do laboratório não era mais avermelhada, mas as imagens ainda continuavam pregadas nas paredes. Olho para cima e vejo minhas mãos amarradas por uma corda que estava presa no suporte do ventilador no teto. Jesus... eu estava presa como um animal em um açougue. Meu primeiro instinto é puxar a corda para baixo e me soltar, mas ela estava muito bem amarrada no metal.
Olho para frente e pisco algumas vezes para entender a silhueta sentada na cadeira do professor. Meu coração acelera ao ver que se tratava de Callie desacordada. Suas mãos estavam para trás, provavelmente amarradas ou presas.
– Calliope... – gemo. – Callie?
A mulher não responde, mas eu não entro em desespero porque eu podia ver seu tórax se mexendo, sinalizando que respirava. O silêncio no restante da universidade mostrava que o baile já havia terminado. Procuro pelo relógio e vejo que já eram 4 horas da manhã. Todos já haviam ido embora e isso apenas fazia meu medo aumentar. Continuo analisando o local e vejo um corpo masculino no chão na lateral esquerda.
– Deus... – sussurro, ao ver Carlos Torres. – Carlos? – eu o chamo, na tentativa de acordá-lo. – Carlos, você está bem?
Um gemido de dor sai pelos lábios do homem e ele se remexe no chão, acordando. Percebo por sua farda policial que ele estava em horário de trabalho. Carlos tenta colocar a mão esquerda na cabeça que tinha um corte profundo, mas então vê que estava preso a sua própria algema. Ele olha para seus pés e os veem presos por uma fita adesiva.
– O que está acontecendo? – pergunta Carlos, ainda grogue. – Eu... eu estava em um expediente e... – ele começa a explicar, mas ao ver sua filha desacordada na cadeira ele tentava se levantar.
– Se eu fosse você não faria isso! – a voz de Alex ressurge. Eu olho ao redor e vejo o homem sair de meio à sombra da sala. Alex caminha até a mesa principal, perto de Callie e onde os materiais de fotografia ainda estavam espalhados.
– O que está acontecendo? – pergunta novamente Carlos, procurando por sua arma no cinto de sua calça, mas uma risada doentia sai pelos lábios de Alex.
– Está procurando por isso? – pergunta Alex, levantando a blusa branca social e mostrando a pistola no cós de sua calça.
– Pai? – a voz sonolenta de Callie nos faz olharmos para a morena. Ela abre os olhos, procurando pela voz de Carlos. Ao perceber o que estava acontecendo ela franze o cenho com medo. – Pai? O que você est... o que está acontecendo aqui?
– Arizona ainda não teve a oportunidade de lhe contar o que está acontecendo, não é? – provoca Alex, apontando para mim. Callie olha para frente e me vê. Não era como se eu esperasse que a mulher sorrisse, mas o que eu encontrei em seu olhar foi puro ódio e dor.
– Callie... – eu tento falar, mas ela vira o rosto em desgosto.
– Oh... isso é triste! Eu realmente shippava vocês duas. – caçoa Alex, dando uma risada alta. – Calzona, certo? – ele continua, com sua risada ecoando.
– Você é doentio! – sussurro, encarando o homem que eu considerava meu melhor amigo.
– O que é tão engraçado? – a voz de Erica ecoa. A loira e Mark entram, desenrolando alguns fios e os colocando perto da mesa.
– Mark? – gagueja Callie, sem entender. – Alex? O que é isso?
– Isso é a minha família! – uma voz que eu não estava acostumada surge também. Olho em direção à porta e vejo a governanta de Callie adentrando no laboratório.
– Nicole? – pergunta Callie, assustada. A morena começa a chorar ao analisar fotografias minhas e dela pela parede. – Alguém pelo amor de Deus pode me explicar o que está acontecendo aqui?
– É a sua vez, Arizona. – caçoa Alex, se encostando contra uma das paredes revestidas. – Eu sei que você viu a fotografia da minha família. E, não precisa agradecer, porque eu retirei as fotos que estavam nos cordões. – ele provoca, sorrindo. – Os papais de vocês não precisam ver as filhinhas nuas.
– Papais? – gaguejo. Mal tenho tempo de racionar quando outro homem adentra no laboratório.
Meu coração aperta quando vejo Robert sorrindo para mim com o corpo desacordado de meu pai em seus ombros. Ele pega uma boa respiração e joga o corpo no chão, perto de Carlos. As pernas e mãos de Daniel estavam amarradas por fita adesiva e com a pancada, ele suspira acordando. Suas roupas sinalizavam que ele estava trabalhando quando fora capturado. Daniel olha a redor, ainda zonzo.
– Jesus... esse homem é pesado. – reclama Robert, se alongando. – Nem parece que por anos carreguei fardos maiores que esse no exército.
– Falta de prática, pai. – responde Erica, sorrindo para o homem.
– O que... – tenta falar Daniel, mas Alex bufa alto.
– Oh! Se mais alguém falar “O que está acontecendo aqui?” eu juro que cortarei a jugular dele. – rosna Alex, ficando ereto com um supetão.
– Controle-se, Alex! – ordena Herman, lançando um olhar de advertência para o homem. Alex rosna e caminha até ao lado de Mark e Erica.
– Bem... parece que estamos todos reunidos aqui, não é? – pergunta Robert caminhando até ficar em frente a mim. – Como você está, querida? Sua mãe estava preocupada com você!
– Vai para o Inferno! – rosno, perto de seu rosto.
– Educada assim como o pai. – retruca Robert, controlando sua raiva. Ele caminha até perto da mesa onde Callie que estava e analisa a morena. Callie ameaça gritar por socorro, mas Mark é mais rápido e coloca a mão sobre sua boca.
– Você pode gritar o quanto quiser. – rosna Mark, perto do rosto dela. Eu tento me soltar novamente da corda, porque uma raiva enorme nascia em mim por aquele homem a estar tocando. – Mas, ninguém vai te ouvir aqui dentro.
– Herman... – choraminga Callie, entre soluços quando Mark solta sua boca. – Por que está fazendo isso?
– Por quê? – pergunta Herman, caminhando até a mesa ao lado de Robert. Ela inspira fundo e sorri para o marido. – Porque família é a instituição que mais abrange segredos.
– Quando eu vi aquela fotografia a minha primeira reação foi não acreditar. – sussurro.
– Que fotografia é essa? – pergunta meu pai. Eu estava prestes a responder quando Robert me interrompe.
– Foi uma fotografia que tiramos um ano atrás. – responde Robert, encostando-se contra a mesa. – Eu beijava minha mulher e meus filhos sorriam segurando cada um uma vara de pescar.
– Foram ótimas férias aquelas, querido. – completa Herman, dando um beijo na bochecha do homem. Eu forço a minha memória para tentar lembrar algum momento de um ano atrás que fosse suspeito. Mas, nada parecia ser... nada.
– Eu sei, querida. – murmura Robert. Eu faço uma cara de nojo ao pensar que aquele homem beijava a minha mãe e em seguida isso é substituído pela raiva. Ele tocava a minha mãe... ele casou com a minha mãe...
– Seu desgraçado! – grita Daniel. – Esse tempo todo você está enganando a Barbara?
– Vai me dizer que você se importa com ela? – pergunta Robert, sorrindo. – Espera... você ainda gosta dela! Foi por isso que você nunca deu paz para ela! Achou mesmo que me convidando para ir ao clube faria a relação entre nós dois melhorar?
– Ela casou com você! – rosno, com raiva. – Seu filho de uma pu...
– É melhor ter respeito, Arizona! – retruca Robert, lançando um olhar frio para mim. – É você que está amarrada à minha mercê.
– O que isso tem haver conosco? – pergunta Carlos, olhando para Callie.
– Vocês dois já se conheciam, Carlos. – sussurro, com a imagem do jornal voltando a minha mente conturbada.
– Um ponto para Arizona! – comemora Robert, batendo palmas. – Eu sempre soube que você era esperta.
Carlos e Daniel se entreolham, temerosos.
– Não vão contar? – pergunta Erica, rindo. – Andem! Abram o jogo e falem do acordo.
– Acordo? – eu e Callie perguntamos ao mesmo tempo.
Os dois homens continuam em silêncio e Alex perde a paciência. Ele dá passos rápidos na minha direção, retirando o metal do cós de sua calça e coloca a arma de Carlos na minha garganta. Eu choramingo, tentando não mostrar meu medo.
– Não! – pede Callie e meu pai ao mesmo tempo.
– Não, por favor! Tudo bem, eu conto! – grita Daniel, com os olhos arregalados. – Eu e Carlos já nos conhecíamos, porque há 13 anos fizemos um acordo!
– E... – Erica ordena, mas meu pai fica calado.
– Deixe-me explicar melhor... – murmura Robert. – Um acordo que incluía roubar 100 milhões de dólares em uma transação que tinha destino Afeganistão meses após o atentado de 2001.
“Oh meu Deus...” penso. Eu e Callie encaramos nossos pais, perplexas e eles abaixam a cabeça, envergonhados.
– Como assim? – gagueja Callie, com lágrimas cessando.
– Daniel Robbins foi o principal responsável pelo roubo. – responde Robert, caminhando até perto do meu pai. – Mas ele não conseguiria transferir todo esse dinheiro para sua conta sem que a polícia de Seattle descobrisse. Então Carlos Torres, após sair de sua depressão, precisava de dinheiro para quitar suas dívidas de jogos que havia acumulado. – explica o homem. – Foi um acordo perfeito. Cada um ganharia a sua parte.
– Eu estava no início da minha carreira! – grita Daniel, tentando se justificar. – Eu precisava daquele dinheiro! Eu e Carlos prometemos nunca mais tocar no assunto!
– Você já era reconhecido pela Casa Branca, seu imbecil! O que mais você queria? – grita de volta Robert, com a raiva lhe consumindo. Ele dá um murro no rosto do meu pai e eu choramingo, pedindo que ele parasse. – Sabe o que esse desvio gerou? – pergunta Robert, segurando a mandíbula do meu pai. – Minha esterilidade! Eu servia no Afeganistão naqueles meses e tive um corte na minha virilha. Se o dinheiro tivesse chegado ao Afeganistão eu teria médicos suficientes para me tratar! E quando consegui médicos, foram péssimos e sem medicamentos! Eu tive febre alta por semanas que acabou com a minha chance de ter filhos! – grita novamente, dando outro murro em pai. Daniel cai sobre as pernas de Carlos que tenta ajudar o homem a se levantar.
– Se acalme, querido... – pede Herman, tocando o ombro do marido. – Por favor, se acalme!
– Pelo visto você também sofre de surto pós-guerra, não é? – meu pai geme, com o sangue escorrendo pela lateral de seu rosto. – A raiva que você sente eu também sinto. – rosna Daniel, cuspindo o sangue para o lado. – É mantem a gente vivo!
– Eu precisei da minha mulher para acabar com a raiva que apenas aumentou quando fui deportado de volta para os EUA por não ter mais utilidade para o exército americano, porque eu estava apático e mal conseguia me levantar. Quando cheguei aqui tive o tratamento que mereci, mas eu perdi a chance de ter filhos! – sussurra Robert, caminhado para longe de meu pai. – Eu havia prometido para a minha esposa que voltaria e que teríamos filhos, mas eu não pude dar isso a ela por sua culpa! – grita, fechando os olhos.
– Eu me lembro... – gagueja Carlos. – Herman, você disse que seu marido havia sofr...
– Marido havia sofrido um acidente. – completa Herman, com um suspiro triste. – Sim, naquela época eu ainda era fiel a vocês.
Tudo fazia sentido. O porquê que Carlos Torres nunca me prender... era porque ele conhecia o meu pai. Era por isso que suas investigações nunca eram concluídas em relação a mim. Ele e Daniel prometeram nunca mais tocar no assunto e por isso que quando Carlos viu meu nome na minha carteira ele hesitou.
– Mas... como eles são seus filhos? – pergunto, olhando para Alex, que ainda segurava a arma no meu pescoço.
– Somos adotados, idiota. – responde Alex, tranquilamente.
– Quando eu estava totalmente recuperado, mas estéril, eu havia perdido o sentido de viver. Eu e Nicole estávamos em constantes brigas, porque não estávamos mais na mesma página. Eu havia perdido a minha honra e ela a oportunidade de ter filhos comigo e nenhum de nós queria um filho de outro homem ou um gerado artificialmente. – diz Robert, me encarando. – Então os anos passaram e a dor entre nós dois não diminuía. Era 2005 e eu estava em uma depressão profunda. Na televisão aparecia sua imagem, como um grande empresário. Eu adorava você... – diz Robert, semicerrando os olhos para meu pai. – Porque eu achava que você havia feito de tudo para que os soldados do Afeganistão recebessem os melhores atendimentos. E em das noites que eu saía para beber para tentar diminuir minha dor...
– Ele me viu. – completa Erica. Olho para a mulher que estava com os braços cruzados em frente ao corpo, observando tudo. – Eu tinha 15 anos e chorava sentada em um ponto de ônibus com minha mochila cheia de roupas ao lado. Meus pais biológicos tinham acabado de me pegar com uma garota dentro do meu quarto e descobriram que eu era gay. Eles me bateram e disseram que isso era porque eu não ia à igreja e que eu estava doente. – enquanto Erica falava ela olhava para Callie e isso me enojava. – Eu fugi de casa, porém parei para chorar em um ponto de ônibus ao ver que eu não tinha outro lugar para ir. Então Robert, sóbrio, me perguntou o que estava acontecendo e ao ouvir minha história ele não hesitou em me ajudar. Ele sequer me conhecia e me deu um lugar para passar a noite e comida. Depois de três dias morando com ele e Nicole, eles perguntaram se eu queria ficar ali... definitivamente.
– E nós decidimos fazer isso com mais jovens que passavam pelas mesmas situações: os pais não aceitavam ou estavam em dificuldade. – diz Robert, passando a mão pelas costas de Herman. – Eles seriam os filhos que nunca pudemos ter.
– O próximo a entrar para a família fui eu... um ano depois. – diz Mark, caminhando até perto da janela do laboratório. – Eu tinha 16 anos. Eu havia acabado de perder meus pais em um acidente de avião e estava em um reformatório. Eu também fugi do reformatório e comecei a viver como um morador de rua.
– O que... – sussurra Callie, sem acreditar.
– Sim, Callie. Eu fui morador de rua. – responde Mark, com um olhar mortal para a mulher. – Até que Robert me achou e me ofereceu uma casa e comida. Bem... eles eram melhores que o reformatório.
– Eles me acharam um anos depois de Mark.– completa Alex, retirando a arma do meu pescoço e eu respiro com um pouco mais de alívio. – Eu tinha 17 anos e era o mais velho da minha antiga família. Eu morava com a minha mãe e mais meus três irmãos biológicos. Meu pai era um bêbado que havia fugido com outra mulher e mal conseguíamos viver com o pequeno salário de garçonete que minha mãe recebia e os trocados que eu ganhava em um açougue. Ela trabalhava em um café e Robert a conheceu. Ela contou sua vida e ele decidiu ajudar, nos dando dinheiro. Entretanto, eu estava cansado daquela vida e pedi para morar com os dois. – diz Alex, com um olhar orgulhoso para o homem. – Robert salvou minha vida, porque eu estava cansado de sofrer abusos do meu pai que voltava de tempos em tempos atrás de dinheiro.
– E então de repente a minha família estava completa. – diz Robert, olhando para as quatro pessoas. – Eu nunca havia amado tanto três jovens na minha vida. Eu fiz uma coisa boa! Eu mudei o curso deles!
– Você os tornou em loucos! – retruca Callie. – Loucos como você e Nicole!
– Eles são a minha família! Somos leais de um jeito que vocês nunca foram uns com os outros! – diz Herman, apontando para a morena e para seu pai.
– Do que você está falando? – grita Carlos. – Eu lhe dei emprego! Eu lhe dei dinheiro!
– Você me deu um emprego? – retruca Herman, irônica. – Eu vivia praticamente como uma escrava da sua mulher! Você sempre esteve ciente de como ela tratava os empregados, mas nunca teve coragem de pará-la... até porque... é ela quem te sustenta, não é?
– Como assim? – pergunta Callie, confusa.
– Pelo visto andou guardando esse segredo até mesmo de sua filha predileta. – provoca Herman, sorrindo para Carlos. – Callie não sabe a razão de ser a predileta, não é?
– Cala a sua maldita boca! – grita Carlos, furioso.
– Aria é a sua meia-irmã, querida. – diz Herman, olhando para Callie. Meus olhos arregalam e eu olho para Callie e vejo sua expressão de pavor. – Lucia, a mulher que dizia ser uma mulher da igreja, traiu o marido. E o pior, ao descobrir da infidelidade, ele aceitou a filha do empregado pelo fato de sua esposa ser reconhecida mundialmente e ser ela quem dava impulso na sua carreira policial. Carlos apenas deu uma quantia razoável para o homem sumir no mundo e ele fez isso. Talvez por remorso que Lucia sentiu obrigação em lhe ajudar quando entrou em uma profunda depressão.
– Como você sabe disso? – gagueja Carlos, atordoado.
– Você não faz ideia das coisas que os empregados ouvem atrás das portas! – responde Herman. – Você e Lucia nunca se preocuparam em abaixar o tom de voz em suas discussões. E foi em uma delas, onde sua mulher pedia que você se aposentasse que eu descobri que você e Daniel foram amigos no passado. Não precisei de muito para entender tudo o que havia acontecido. Então pensamos em como nos vingar de ambas as famílias e foi... muito fácil, porém demorado.
– Não faz ideia como... – caçoa Alex.
– Primeiro Robert precisou se aproximar de Barbara – continua Herman. – E, bem... eu precisei de aproximar ainda mais da família Torres. Alex, Mark e Erica ingressaram na faculdade onde sabíamos que as filhas de ambos estudariam. Aprenderíamos cada coisa sobre vocês, seus defeitos, suas qualidades, tudo! Mudaríamos as vidas de vocês de um jeito que nem perceberiam e só precisávamos fazer com que Callie e Arizona se conhecessem... mas Alex fez muito bem a parte dele. – diz a mulher, com uma piscadela para o homem.
– Espera... – gagueja Callie, já não chorando mais pelo fato de estar tão surpresa. – Minha mãe sabia sobre o acordo dos dois?
– Tanto Barbara quanto Lucia sabem de tudo. – responde Erica, ao lado de seus irmãos. “Até a minha mãe?” meu cérebro grita. “Como ela pôde aceitar uma coisa dessas? Como meu pai pôde fazer isso?”
– Quando notei que Carlos tinha uma ligação com Daniel eu fui procurar saber mais sobre isso e então descobri todos os podres de ambas as famílias. – rosna Herman. – Foram vocês quem tiraram a oportunidade do homem da minha vida de ter filhos biológicos comigo.
– E o que vocês vão fazer com a gente? – pergunto, olhando principalmente para Alex.
– Elas são todas suas, Alex! – responde Robert, com um movimento banal. – Agora Daniel e Carlos são meus! Então iremos pegar os vídeos das câmeras e apagá-los e depois de matar os quatro iremos atrás do restante dos integrantes das famílias, até que não existam nem mais um Robbins e nem mais um Torres em Seattle. – diz, calmamente.
– Não, espera, não! – imploro desesperadamente ao ver Robert caminhando em direção ao meu pai e Erica caminhando em direção a Callie.
Alex caminha em minha direção e coloca um saco preto na minha cabeça e tudo o que vejo é escuridão. Com minha respiração pesada rapidamente o oxigênio ficou escasso. Ao fundo eu podia ouvir os gritos de luta do meu pai e de Carlos. Tento me debater, mas Alex me segura. Segundos depois o silêncio apodera do local e as piores imagens passam por minha mente.
O medo percorria meu sangue. Minutos depois, finalmente Alex retira o saco da minha cabeça e eu posso respirar. Olho ao redor e vejo que ninguém mais estava ali além de Callie. Alex anda até a morena e também retira o saco de sua cabeça. O meu olhar e o da morena se cruzam, fazendo-me ver o medo neles.
– Alex... por que está fazendo isso? Eu... eu pensei que... – gaguejo, com minha voz trêmula por causa do choro.
– Achou que eu era seu amigo? – pergunta Alex, pegando sua mochila ao lado da mesa principal. – Me poupe, Arizona!
O homem retira um objeto de sua mochila e pega os outros fios no chão que Mark e Erica haviam trazido. Ele conecta os fios no objeto e meu coração dispara ao ver do que se tratava. Callie também choraminga ao ver a quantidade de TNT* enrolada por fita adesiva e um cronômetro com o tempo de 5 minutos. (*explosivo).
– Vocês não fazem ideia como é fácil fazer uma dessas quando se tem um pai ex-militar. – murmura Alex, caminhando até a mesa principal e colocando a bomba relógio em cima. – Seu pai lhe ensinou a fazer isso, Arizona?
– Sério? Alex, sério? – gaguejo, desesperada. – Pare com isso, cara! Ele fez uma lavagem na cabeça de vocês! Vocês eram boas pessoas!
– Pare de falar comigo como se eu fosse seu amigo! – rosna Alex, apontando para mim. Meu coração aperta. – Eu não sou seu amigo e nunca fui uma pessoa boa! Eu sempre te odiei e precisei lhe aturar durante anos! Todas as merdas que aconteceram com você depois da morte do seu irmão ridículo foram por minha causa! E sabe o que eu me arrependo? – pergunta. Uma lágrima escorre em meu rosto, ao meu sentir humilhada. – De não ter sido culpa minha a morte de Timothy.
– Maldito desgraçado! – grito, puxando a corda do ventilador, mas a base sequer se mexia.
– Pense pelo lado positivo... – murmura Alex, apertando o botão de iniciar e o cronômetro começa a regredir. – Você pelo menos vai morrer ao lado de sua amada.
Callie olha para mim, confusa. Eu suspiro, frustrada. Alex dá uma risada vitoriosa e caminha em direção da saída do laboratório assoviando tranquilamente.
– Ah... não se preocupe! – ele diz, antes de passar pela porta. – Isso é apenas para eu ter certeza que não verei seu rosto novamente! – murmura Alex, com uma piscadela e sumindo no corredor. – Adiós!
Callie instintivamente tenta se soltar da cadeira, forçando seus braços para cima. Eu faço o mesmo, tentando usar o resto da força nos braços para puxar a corda, mas nós duas estávamos muito bem amarradas e presas. Um suspiro de decepção sai por meus lábios e meus músculos dos braços perdem as forças. Callie choraminga, ainda tentando rasgar a fita de suas mãos. Faltavam apenas 3 minutos.
– Socorro! – grita a mulher, para as paredes. – Socorro! Alguém me ajude!
– Callie... ninguém vai nos escutar! – sussurro, com o suor escorrendo pela lateral do meu rosto. Ela me ignora completamente.
– Socorro! – ela implora, quase se entregando às lágrimas. – Por favor!
– Para! – eu peço, mais alto.
– Só porque você desistiu da sua vida não significa que eu preciso desistir da minha! – brada Callie, com raiva. Eu me assusto ao ver a quantidade de raiva expressa em seus olhos. Eu nunca havia a visto daquele jeito.
– Callie... me desculpe... – eu gaguejo.
– Não! – grita Callie, me lançando um olhar frio. – Não vamos fazer isso... ainda mais se esses forem os meus últimos minutos de vida. Eu não vou gastá-los fazendo isso!
– Eu... eu... – tento falar, mas um barulho no corredor me chama a atenção.
Mark aparece, olhando para os lados e afobado, e rapidamente eu e Callie entramos no modo defensivo. Mark fecha a porta do laboratório e encara nós duas por alguns segundos. Vejo o sangue em suas mãos e a raiva em seu rosto.
– Não me perguntem o porquê de eu estar fazendo isso. – sussurra o homem. No movimento de sua perna seu blazer levanta e eu vejo um revólver no cós de sua calça. Meus olhos arregalam. – Eu não vou machucar vocês. – ele diz, caminhando na minha direção.
– Saia de perto de mim! – grito, me debatendo para ele não me tocar.
– Arizona, pare! – pede Mark, erguendo as mãos em sinal de rendição. – Eu... eu... quer saber... eu não preciso me explicar! – rosna, balançando a cabeça.
Ele pega a arma e a coloca em cima da mesa principal. O ruivo enfia a mão no bolso e retira um canivete. Ele caminha até perto de mim e eu fecho os olhos, esperando a lâmina fria entrar em alguma parte do meu corpo, mas em vez disso sinto um atrito contra a corta que segurava meus braços. Mark envolve um braço ao redor de mim e quando a corda é cortada ele me segura até que eu caísse sem força ao chão.
Passo minhas mãos por meus pulsos avermelhados e movimento meus braços doloridos. Mark então caminha até Callie e corta a fita adesiva que segurava seus braços atrás da cadeira. Eu e Callie nos entreolhamos, confusas. O homem guarda o canivete e caminha de volta em direção à saída do laboratório.
– Por que você nos ajudou? – pergunta Callie, franzindo o cenho.
– Eu nunca fui um assassino! Mas isso não importa... agora vão embora! Não tentem salvar seus pais, porque eles merecem isso! – murmura Mark, com um suspiro cansado. – Só me faça um favor, Arizona, quando você encontrar com o Alex... coloque uma bala no meio da testa dele por matar minha namorada. – conclui, fechando a porta do laboratório atrás de si. “Mark viu Lexie dentro do elevador” penso.
Sentada, eu olho para o cronômetro da bomba e vejo que faltavam menos de um minuto e meio. Eu sussurro um xingamento e sinalizo para que Callie fosse mais rápida. Começo a retirar a fita adesiva de meus tornozelos e me coloco de pé. Callie também já havia retirado a fita de seus pés e analisava a bomba que faltava apenas 55 segundos.
– Vamos correr! – digo, correndo em direção da saída do prédio.
– Não vai dar tempo! – retruca a morena. – Está vendo aquilo? – pergunta, apontando para o fio que saía da bomba e percorria o chão. Sigo o fio até de fora do laboratório e vejo mais uma bomba no final do corredor. – Deve ter bombas como essa distribuídas por todo o prédio. Não importa o quanto corrermos, vamos morrer.
Olho para o corredor, questionando-me se corria ou não. Callie me olha e espera minha decisão. Não, eu não a deixaria. Corro de volta até ela e vejo-a franzir o cenho, confusa.
Analiso a quantidade TNT e tento calcular quantos pedacinhos de mim iriam sobrar se caso eu puxasse o fio errado. Tinham as cores vermelho, branca e amarela e todas estavam conectadas em partes diferentes da bomba. O cronômetro marca 30 segundos e eu começo a entrar em desespero.
– Saia daqui, Callie! – peço, fechando os olhos. – Você corre mais do que eu e talvez consiga sair a tempo.
– Não! – responde a morena. Eu abro os olhos e a fito.
Sua expressão ainda era séria, mas ela me olhava com menos raiva. Eu tentava buscar os mesmos olhos que eu havia olhado profundamente tantas vezes e os vejo ali... comigo.
– Vamos achar nossos pais e dar um fim nisso! – diz Callie.
– Por quê? – pergunto, franzindo o cenho.
– Porque não tenho outra escolha. – responde Callie. – Nesta situação somos duas vítimas e... eu não vou deixar você agora, por mais que eu queira fazer isso.
Eu faço um afirmativo com a cabeça, ainda atordoada com tudo. Sabíamos que tínhamos mais chances de morrer do que sobreviver, apenas puxando o fio errado. Eu queria dizer que a amava, mas... ela não escutaria. Suspiro novamente e pego no fio branco, sem ao menos saber o porquê. Um grunhido de desespero sai por meus lábios e eu puxo o fio nas direções opostas, rompendo-o.
“Pelo menos seria ao lado da mulher que eu amava...”.
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