Segundas Intenções
19 Capítulo 18
Notas iniciais
ARIZONA PDV
UMA HORA ANTES
Antes de ter a minha mente fodida por Callie Torres, no escritório que eu já conhecia bem, meu estômago estava me matando lentamente. O líquido amargo subia por minha garganta e saía por meus lábios repetidas vezes. Eu me seguro na lateral do vaso sanitário e tento liberar tudo aquilo de dentro de mim. Meu estômago revirava e minha cabeça doía como nunca.
– Jesus... eu nem bebi como Callie e sou eu que estou nesse momento trancada no banheiro vomitando. – resmungo, apertando a descarga.
– Talvez seja o remorso pela merda que está fazendo? – a voz de Teddy ressurge do lado de fora da porta. Eu estava pronta para retrucar minha amiga quando novamente a ânsia volta e eu me inclino dentro do vaso. – Quer que eu segure seu cabelo, amor? – provoca a loira.
– Cala a boca... – choramingo, limpando a lateral da minha boca. Eu respiro fundo e me sinto um pouco melhor. Tento colocar peso no joelho e lentamente me coloco de pé. Aperto a descarga de novo e saio do banheiro com Teddy segurando uma risada. – O quê? – rosno, caminhando até o lavatório.
– Você está engraçada com essa blusa de gola alta. – responde Teddy, colocando a mão na frente da boca para segurar a risada ainda mais. – E olha que nem está tão frio para usar isso.
– Argh... pare!
– Ela encarnou a Bella de Crepúsculo e tentou sugar seu sangue, foi? – provoca Teddy não resistindo e dando uma risada alta.
– Ha-ha-ha... engraçadinha! – resmungo, jogando um pouco de água dentro da minha boca para começar escovar novamente os dentes. – Ela praticamente me expulsou do meu próprio quarto! – rosno, com a boca cheia de espuma.
– Bem... se você fez o mesmo que ela fez em você... com certeza estressada vai ser a última coisa que ela estará. – retruca Teddy, erguendo as sobrancelhas sugestivamente.
– Se ela pelo menos se lembrasse. – retruco.
– O quê? – pergunta a loira, confusa.
– Ela não se lembra de nada. – respondo, com um suspiro cansado. – E eu apenas me lembro de alguns flashes como, por exemplo, ela dançando, bebida e mais bebida. E umas cenas confusas que não vem ao caso agora. – completo, forçando mais minha mente a se lembrar, mas nada vinha como resposta.
– E isso não é bom, não é? – pergunta Teddy, com um sorriso triste.
– É claro que não. – respondo, cuspindo na pia. – Como vou poder pensar em cumprir... aquilo... se nós duas não lembramos?
– Droga... – suspira Teddy, passando uma mão por seus cabelos loiros. Eu paro meus movimentos no instante que sinto meu estômago revirar novamente. – Oh, de novo? – resmunga a loira, cansada de ouvir o barulho desagradável dos meus vômitos.
– Eu devo estar grávida, só pode ser. – choramingo, tentando fazer piada da situação.
– Só se os dedos de Callie Torres forem mágicos, minha amiga. – retruca Teddy, rindo. – Ou a língua. – completa e sua risada aumenta. Eu lanço para a mulher um olhar de soslaio e ela para no mesmo instante. – Você começou com a piada, não eu!
– Eu estou me sentindo horrível. – murmuro, encostando-me à pedra de mármore fria.
– Tome algum remédio, oras.
– Eu não estou falando disso, idiota. – rosno, revirando os olhos. – Eu tive a chance de evitar isso ontem. Eu me lembro da luta intensa que estava.
– Você chegou a hesitar antes de levá-la para cama? – pergunta Teddy, de fato surpresa.
– Sim. – respondo, receosa. – Isso não significa que eu...
– Que você se importa? – completa a loira, com um sorriso triste. – É bem provável que sim.
– Droga... – resmungo, passando as mãos pelo rosto.
– Então você está de volta à estaca zero? – pergunta a loira.
– Eu estou de volta à estaca zero. – repito, concordando com tristeza.
Eu respiro fundo e viro-me. Abro a torneira e jogo um pouco de água gelada em meu rosto para tentar melhorar minha expressão cansada. “Oh, você não parece ter dormido a noite passada...” meu cérebro me tortura. E quando eu fecho a torneira sinto algo vibrar no meu bolso de trás. Enxugo minha mão na toalha disponível e retiro meu celular do meu jeans surrado.
– Alô? – digo, colocando o celular na orelha ao ver um número desconhecido.
– Arizona Robbins... quanto tempo! – a voz de Preston Burke ressurge na linha. Meu sangue gela por completo e Teddy pergunta quem é ao ver minha expressão. Eu esboço com os lábios a resposta e ela bufa.
– Como você conseguiu o meu celular? – pergunto, séria.
– Tenho meus contatos não se preocupe com isso. – responde Burke, com desdém. Ao fundo escuto o barulho de várias pessoas conversando, mostrando que o homem parecia estar em uma festa. – Apenas quero saber como vai indo nossa pequena aposta.
– Estou tentando. – murmuro, com veneno nas palavras.
– “Estou tentando” não é resposta para mim, Arizona. – retruca Burke, com a voz firme. – Quer que Richard tenha uma surpresinha amanhã em sua caixa de correio?
– Vá se danar! – rosno, batendo a mão contra a pia.
– Canalize essa raiva Arizona e use-a para cumprir a maldita aposta!
– Eu preciso de mais tempo!
– Mais tempo? – repete o homem, dando uma risada doentia. – Callie Torres está mesmo dando trabalho para você? Achei que ela seria mais um rabo de saia fácil.
– Não fale assim dela! – grito, olhando meu reflexo no espelho. Teddy me observava confusa. A raiva era evidente nos meus olhos.
– Já está defendendo a honra dela? Que bonitinho! – cantarola Burke, ainda rindo. – Cuidado para que o feitiço não volte contra o feiticeiro.
– Me dê duas semanas. – rosno, sentindo nojo de mim mesma. – Me dê duas semanas e eu terei Callie Torres na palma da minha mão.
– As palavras são acordos, Arizona. Não prometa ou peça algo que não vai cumprir em tempo determinado! – ameaça Burke.
– Eu estou dizendo, não estou? – grito, com a raiva me corroendo por dentro. – E aí você irá terá a sua vingança e vai destruir a maldita foto!
– Se você fizer a sua parte eu farei a minha, simples assim. – responde Burke, rindo. – Ou você não confia em mim, parceira? – pergunta. Eu estremeço com o termo “parceira”.
– Eu tenho outra escolha? – rosno.
– É... eu acho que não. – replica o homem, sarcástico. – Lembre-se... não é porque não estou na universidade que eu não tenho ouvidos aí. Cuidado com o quê faz ou fala, Arizona. Minha paciência tem limite.
– Você não é nada para me ameaçar, Burke. – digo, entredentes.
– Veremos. – diz o homem, com a voz fria.
A linha cai e eu continuo estática em frente ao espelho. Teddy hesita por alguns segundos antes de fazer uma expressão de “E aí, o que aconteceu?”. Eu respiro fundo para controlar minha raiva, mas de novo sinto o líquido amargo subindo por minha garganta. Eu estava sentindo nojo de mim mesma.
UMA HORA DEPOIS
Quando Callie fechou a porta atrás de si o mesmo nojo voltou. Eu e Callie Torres havíamos transado e ela se lembrava dessa vez. E o problema é que foi fácil demais. Bastou lançar o bom e velho charme em cima da mulher que ela estava ali... entregue por completa. E eu sentia nojo de mim... profundamente.
O jeito que ela me tocou havia feito minhas emoções uma completa bagunça. Eu sempre me orgulhei por não misturar um orgasmo com emoções, mas era impossível distinguir aquilo no meio do caos. Era um grande novelo que cada vez ia ganhando mais tamanho. “Admita que você está criando sentimentos...” meu cérebro me tortura. Balanço a cabeça negando. Não. Isso não podia estar acontecendo.
– Isso já é praticamente toda a aposta cumprida! – comemora Alex, enquanto caminhávamos ao lado de Teddy, George e Mark em direção da lavanderia para que eu tivesse algo para vestir na festa de Jackson.
– Não encha o saco dela, Alex. – adverte Teddy, dando um tapa na cabeça do homem.
– O que Burke quer? – pergunta George, remexendo novamente em sua filmadora.
– Ele quer que ela agilize as coisas. – responde Teddy na minha vez. Eu me mantinha em silêncio, segurando a cesta de roupas sujas. – Você não se cansa de mexer nisso?
– Não enche, ok? – rosna George, revirando os olhos. – Você tem quanto tempo?
– Duas semanas. – sussurro, enquanto Alex empurrava a porta de vidro para nós. Adentramos no estabelecimento mediano, com cerca de dez máquinas de lavagem a seco. Eu sento em um dos bancos e espero que Teddy usasse a primeira máquina.
– Você não está tão feliz para quem teve um orgasmo há cerca de uma hora. – provoca Alex.
– Cala a boca... – rosno baixo, passando a mão por minhas têmporas doloridas.
– Qual é... você deveria estar comemorando o fato que finalmente conseguiu abrir as pernas de Callie Torres! – caçoa George, dando uma risada alta.
A raiva emerge de todos os meus membros e eu empurro o homem contra uma máquina de lavar, segurando a gola da blusa dele com força e fazendo sua filmadora cair no chão.
– Não fale assim dela! – rosno, empurrando-o para longe de mim.
Todos ficam em silêncio, inclusive a mulher que tomava conta do balcão e duas jovens que lavavam suas roupas ao longe. George me encara, com um olhar frio. Ele arruma sua blusa amassada e sua compostura. Eu encaro o homem, ofegante.
– Lembre-se de quem são seus amigos, Arizona. – murmura o homem, sério. – Você vai renegar seus amigos só por causa de uma mulher?!
– Pare de falar como se mulheres fossem apenas objetos! – grito de volta. – Nós não somos objetos!
– Você a trata como um. – rosna George, perto do meu rosto. – Você acabou de nos contar que fez tudo por causa de uma aposta e agora quer sentir culpa? Conta outra, Arizona!
– Ah, cala a boca... – resmungo, virando-me de costas para sair do estabelecimento. Aquele assunto já havia chegado ao fim para mim.
– A verdade dói, não é? – grita George, nas minhas costas.
– George, pare! – pede Alex. Eu rosno de raiva e viro-me novamente.
– Você apenas diz isso porque quase a beijou na festa de Derek. – retruco, com uma risada sarcástica. – Você está com ciúmes, pois nunca teve coragem de falar com ela depois daquilo e está se odiando pelo fato dela estar gostando de mim e não de você.
– Eu com ciúmes dela? – caçoa George, rindo. – Tenho melhores coisas para me importar!
– Oh, que bom para você! – rosno, dando passagem para ele. – Então porque não dá o fora daqui antes que eu ache um tijolo e acerte na sua cara!
– Você está me expulsando do meu grupo de amigos? – pergunta George, parando de rir. – Você não manda nisso aqui, Arizona!
– Eu não vou avisar de novo. – ameaço, apontando para a porta.
O homem me lança um olhar frio e pega sua filmadora no chão. Com um movimento brusco, pega sua cesta de roupas sujas e passa por mim, não se intimidando. George abre a porta de vidro e sai rangendo os dentes. Teddy, Alex e Mark me olhavam surpresos e em silêncio. Eu estava em uma constante luta interna contra as lágrimas e tudo o que queria fazer era apenas conversar com Callie... vê-la... saber como ela estava.
Suspiro e pego minha cesta de roupas novamente. Saio da lavanderia e ignoro os chamados de Teddy e Alex. Cabisbaixa, faço meu caminho de volta para o alojamento A. Pego o elevador e pouco depois eu já estava em frente à porta do meu quarto. Passo o cartão na porta e receosa, adentro.
Resmungo baixo ao ver que o quarto estava vazio. Pego meu celular e hesito alguns segundos antes de ligar para Callie, pois primeiro, a morena não havia me dado seu número de celular e eu apenas o tinha porque Teddy havia pedido para Addison. E segundo, eu não tinha intimidade o suficiente de ligar para a mulher. “Vocês transaram duas vezes... é claro que tem intimidade!” meu cérebro rosna. Eu reviro os olhos e sento na minha cama, apertando o botão verde para chamar o número da morena.
A linha sequer fica ativa, sinalizando que o celular ou estava fora de área ou desligado. Passo as mãos por meus cabelos e deito na cama, começando então minha longa sessão de encarar o teto do quarto. “Ela deve estar em alguma aula.” meu cérebro alerta. Eu não perco tempo e pego minha mochila jogada ao lado da minha cama.
Saio do alojamento e vou direto ao prédio principal. Olho pelas janelas das salas em busca da morena, mas nenhum sinal dela. Mais um xingamento baixo sai por meus lábios. Reviro os olhos e entro na sala de Histologia II, aproveitando que eu já estava no prédio, pois pelo menos aquilo manteria minha mente ocupada pelo resto da tarde.
E quando termino minhas anotações da última aula a noite já começava a acoplar todo o cenário da cidade de Seattle. Saio da sala junto ao restante da turma e caminho pelo campus até ao meu alojamento. O fato de não ver nem Teddy e nem Alex pela universidade significava que os dois haviam saídos juntos. Talvez fosse esse o meu castigo... ganho a aposta, mas perco meus amigos.
O quarto continuava vazio e eu já começava a ficar preocupada com o desaparecimento de Callie. Eu não podia cogitar o fato dela ter ido para casa, pois eu havia escutado a sua conversa com sua mãe pelo telefone e sua família ficaria alguns dias em Londres. Ela estava em outro lugar com outra pessoa.
Jogo minha mochila no mesmo canto e saio do quarto. Pego o elevador e vou para o segundo piso. Bato à porta de Teddy e Addison e ninguém atende. Eu sabia que a loira estava com Alex, mas o sumiço de Addison poderia explicar com quem Callie possivelmente estava. “Você está começando a ficar obsessiva!” meu cérebro caçoa.
Volto para o meu quarto e vejo no relógio em cima da mesa que já era próximo das 19h30min. A festa na casa de Jackson seria por volta das 22 horas, mas todos sabiam que precisávamos estar fora da universidade antes das 23. Eu não tinha outra opção do que encontrar Callie naquela festa.
Então eu começo a me arrumar. Tomo um banho e coloco um vestido cor vinho com minha jaqueta por cima. Gasto o tempo típico que toda mulher gasta para se arrumar para uma festa e depois disso ligo para Teddy. A loira me atende e diz que ela e Alex já estavam na casa de Jackson.
Pego meu capacete e minhas chaves e saio do quarto. Callie não havia voltado ali naquela tarde, então ela precisou trocar de roupa em outro lugar. Tento retirar essa obsessão da minha mente e caminho até o estacionamento da universidade. Monto na minha moto e coloco o capacete. Giro a chave na ignição e dou partida em minha T-100 Triumph.
Era de se esperar que a casa de Jackson Avery estivesse na área nobre da cidade, pois ele era filho de uma famosa Urologista, a Catherine Avery. Quando viro uma esquina meu sangue gela ao reconhecer a vizinhança. Eu diminuo a velocidade e paro a moto no meio da rua. Levanto o vidro do capacete e observo a casa de dois andares que eu vivi por quase toda a minha vida.
Uma luz no segundo andar estava acesa, deixando claro que meu pai estava em casa. Minha mãe morava no extremo do bairro e isso significava que a distância entre meus pais era primordial. Eu poderia entrar ali e negociar com o homem para que ele devolvesse minha mesada e meus cartões de crédito, mas meu orgulho era maior que aquilo. Eu ainda tinha algum dinheiro guardado e Joe’s prometera me emprestar por alguns meses caso eu trabalhasse horas extras depois.
Um murmúrio de cansaço sai por meus lábios e eu abaixo o vidro do capacete. Giro a chave na ignição novamente e acelero a moto, continuando minha viagem até cerca de seis ou sete quarteirões dali. Eu sabia que estava perto por causa dos carros de todos os tipos estacionados.
A música eletrônica ecoava pelas enormes árvores ao redor do jardim. Eu procuro uma vaga para minha moto e a estaciono. Salto dela e retiro meu capacete em busca de arrumar qualquer fiapo loiro que tenha bagunçado e deixo-o em minha moto. Caminho até os degraus que davam acesso ao jardim onde várias pessoas dançavam e bebiam. As luzes neon que vinham de dentro da casa iluminavam o gramado.
Três garotas de biquíni passam correndo por mim e pulam na piscina, fazendo-me esquivar das gotas da água. Os homens que ali nadavam gritam, aprovando e eu dou uma risada. Avisto Mark no lado esquerdo do jardim e ele me cumprimenta, já apontando para a direção onde Teddy e Alex estavam, no lado direito da piscina.
– Casanova! – grita Teddy, levantando os braços para cima. Eu franzo o cenho ao observar a loira já bêbada com uma garrafa de cerveja na mão. Jackson e Alex riam da mulher.
– O que vocês deram para ela beber assim? – pergunto, rindo. Alex pega uma garrafa de cerveja dentro de um balde cheio de gelo e joga para mim que pego o vidro no ar.
– Apenas quero curtir um pouco, posso? – pergunta Teddy, tentando fazer uma careta.
– Só não beba tanto de uma só vez, ok? – caçoo, tomando um gole do liquido gelado.
Mas o olhar da loira não estava em mim, eu sigo seu olhar e viro-me achando o que chamava sua atenção. Addison Montgomery sorria para Teddy do outro lado da piscina. A ruiva estava apenas de biquíni e eu entendia o que deixava minha amiga tão sem palavras... as pernas de Addison... Eu seguro uma risada e viro-me para Teddy novamente que tinha um sorriso bobo no rosto.
– Está esperando o que? – sussurro, dando um cutucão em seu braço. Pego uma garrafa de cerveja no balde e entrego para a mulher. – Ofereça uma bebida para ela!
– Essa é uma das suas artimanhas? – pergunta Teddy, erguendo uma sobrancelha.
– Não! Isso é apenas educação. – respondo, revirando os olhos. – E um pouquinho de charme...
– Eu... eu estou nervosa. – gagueja a loira. Eu sorrio para tranquilizá-la
– Você se lembra de que no primeiro dia de volta às aulas você disse que iria me manter na linha? – pergunto e Teddy concorda. – Eu estou aqui para fazer você sair da linha, amiga. Agora vá lá e converse com a mulher. E por favor... não vomite nela dessa vez.
Teddy revira os olhos e caminha em direção de Addison pedindo licença para os jovens que dançavam ao som da música. Eu, Alex e Jackson observávamos tudo do outro lado.
– Pelo menos ela está tentando. – provoca Alex, rindo.
– Isso aqui encheu mais do que eu imaginava. – comenta Jackson, olhando para a quantidade de pessoas tanto fora quanto dentro da casa. – Você não faz ideia o caos que está lá dentro... Oh, Deus... April vai me matar!
– Ela não sabe? – pergunta Alex, tomando um gole de sua cerveja.
– Ela sabe, mas eu disse que seriam apenas alguns amigos. – responde Jackson, pegando outra garrafa gelada. – Não conheço um terço das pessoas que estão aqui! Nem adiantou eu ter distribuído braceletes por aí...
– Não sabe como o assunto “festa” ronda rápido por aquela universidade, meu amigo. – digo, dando um tapinha no ombro do homem, pois eu era uma das pessoas que entrara sem bracelete. – E se eu fosse você... providenciaria mais cerveja. – comento, apontando para o barril que já estava prestes a terminar.
– Droga... – rosna Jackson, se distanciando de nós para providenciar mais álcool para os jovens desesperados.
– Você está melhor? – pergunta Alex, um pouco receoso.
– Estou. – respondo, com um sorriso amistoso. – George ficou furioso, não foi?
– Nunca vi o cara daquele jeito. – murmura Alex. – Acho realmente que ele gosta de Callie.
– Não é problema meu. – digo, dando de ombros. Eu e meu amigo começamos a andar em meio às pessoas em direção à entrada da casa.
– Mas eu tenho certeza que vai ser. – responde Alex.
– O que você quer dizer com isso? – pergunto, franzindo o cenho.
– Ele está aqui na festa e... ela também. – cantarola Alex, tomando um gole de sua cerveja para disfarçar. Resmungo baixo, amaldiçoando mentalmente George O’malley.
– É melhor eu ir procurá-la. – murmuro, virando a cabeça para trás para terminar de beber minha garrafa.
– Oh... acho que não vai ser tão difícil assim... – sussurra Alex e eu percebo a surpresa em sua voz.
– Por quê? – pergunto, passando pela porta principal. Em vez de responder Alex aponta para frente, ainda surpreso.
Um grupo de homens e mulheres gritava desesperadamente ao redor de uma morena que bebia sem parar para respirar um litro de cerveja gelada.
– Vai! Vai! Vai! Vai! – todos gritavam em coro, enlouquecidos com a coragem da mulher.
Meu queixo cai ao ver que a morena era Callie virando líquido gelado dentro da boca. Meu coração de um modo estranho bate mais rápido e eu franzo o cenho me perguntando que mulher era aquela. Quando o tubo de vidro fica vazio um grito de aprovação vem da sala de estar inteira, comemorando. Callie cambaleia para o lado, mas grita junto, mostrando o tubo vazio.
– Eu acho que estou apaixonado por Callie Torres. – gagueja Alex, ao meu lado, também surpreso.
Callie olha em minha direção e dá um sorriso pervertido, secando uma gota de cerveja na lateral de sua boca com a língua. Eu ainda estava estática, sem saber o que fazer. A morena me lança um beijo com a palma da mão e some em meio às pessoas.
Só então eu balanço a cabeça e saio do transe, ignorando o chamado de Alex e começando a procurar por Callie em meio às pessoas. Olho em todas as direções, mas parecia que Callie havia virado fumaça. “Uma pessoa não pode sumir assim!” meu cérebro brada. Tento olhar entre as pessoas dançando e o neon, mas não a via em lugar nenhum.
– Aquela era a nerd que conhecíamos? – pergunta Alex, ao meu lado no corredor.
Reviro os olhos para o comentário de Alex e continuo procurando. Só depois de minutos sem sucesso eu rosno, pegando uma garrafa de cerveja em um balde cheio de gelo na cozinha.
– Ela sumiu! – rosno, arrancando a tampa e bebendo um gole do líquido gelado.
– Parece que não... – diz Alex, apontando para as minhas costas.
Termino de beber e olho para frente e a visão que me é apresentada faz o álcool voltar por minhas narinas. Eu procuro por ar, engasgando-me com o líquido gelado. Alex me ajuda dando tapinhas nas minhas costas e eu respiro fundo para aliviar a ardência meus pulmões. Levanto o olhar novamente vejo que a cena continuava... Callie e George se beijavam contra uma parede do corredor da casa.
Ver aquilo fazia uma raiva que eu não conhecia nascer em meu corpo. George a prendia contra uma parede, com sua língua dentro da boca da mulher e suas mãos vagando por suas curvas. Meu coração acelera e eu fecho meu punho.
– Arizona? – chama Alex, estranhando minha calmaria. Eu apenas continuo encarando aquela cena.
Eles precisariam se separar em algum momento para respirar, pelo amor de Deus, mas... isso nunca acontecia. Callie retribuía o beijo com fervor e aquilo estava me enojando. Finalmente, os dois desconectam os lábios e o homem começa a beijar o pescoço da morena. Callie ainda estava de olhos fechados, mas de repente os abre e me flagra observando tudo. Um sorriso malicioso nasce em seu rosto enquanto ela inclinava ainda mais o pescoço para dar mais pele quente para o homem. Eu rosno e aperto a garrafa de vidro na minha mão esquerda.
O olhar de Callie continuava fixo no meu e eu vejo que a mulher estava adorando me ver remoer em raiva. Porém, eu não daria aquele privilégio a ela. Bebo mais um gole da minha cerveja e saio dali. Passo pelas pessoas e vou para a sala de estar onde outras pessoas dançavam e bebiam. Eu viro o álcool em minha garganta em busca de me acalmar. “Não é como se Callie me devesse alguma obrigação. É tudo uma maldita aposta! Não temos nada...” rosna meu cérebro.
– Ei, querida... – a voz azucrinante de Leah ecoa nas minhas costas. Eu reviro os olhos por ela ser uma das últimas pessoas que eu queria ver naquele momento. – Eu não vi você estes últimos dias. – murmura e eu sinto suas mãos nas minhas costas, me abraçando por trás. Então a loira aparece no meu campo de visão com um sorriso malicioso.
– Eu estive evitando várias pessoas. – respondo, com um sorriso falso. Ela apenas dá uma risadinha e pega a garrafa da minha mão para tomar um gole. Eu lanço um olhar de soslaio para a loira que ignora prontamente.
– Eu senti saudades, sabia? – cantarola, colocando os braços ao redor dos meus ombros. “Maldita festa de Derek que eu decidi beijá-la na frente de todos... agora ela acha que temos algo.” resmungo mentalmente.
– Oh... legal. – suspiro, com desdém. Eu olho para trás para ver se eu avistava Callie e George ainda contra a parede e eu vejo que os dois não estavam mais quase se engolindo ali.
Mas então, um casal se move e eu vejo Callie encostada contra uma mesa com uma garrafa na mão e me observando atentamente. George não estava mais por perto. Seu olhar ainda continuava fixo no meu e o mesmo sorriso pervertido que fazia um formigamento entre minhas pernas estava em seu rosto. E então eu sorrio decidida em pagar na mesma moeda.
Agarro uma boa porção de cabelo na nuca de Leah e puxo a loira para um beijo forte. A loira geme contra meus lábios, feliz e surpresa ao mesmo tempo, mas não perde tempo em querer aprofundar o beijo. Leah já estava pronta para pedir acesso à minha boca quando eu sinto uma mão forte puxando meu ombro esquerdo para trás. Eu abro os olhos ao perder os lábios da loira contra os meus e vejo Callie empurrando Leah para o outro lado da sala de estar.
– Ei, o que tem de errado com você? – brada Leah, confusa.
– Saia daqui, vadia! – grita Callie quase na altura da música eletrônica. As pessoas que estavam na sala observam tudo em silêncio.
– Vadia é você, sua vagabunda! – retruca Leah, partindo para cima da morena. Eu, ainda meio atordoada, corro para ficar entre as duas para evitar que unhadas e puxadas de cabelos começassem. – Quem é você para me mandar?
– Se enxerga, Leah, nem Arizona lhe atura! – retruca Callie, rindo. – Ela está com você só porque é gostosa. Na verdade, é só isso que você oferece porque nem cérebro para perceber que é ignorada você tem! – continua a morena. As pessoas ao redor soltam um grito de aprovação e incentivo.
– Parem vocês duas! – grito, abrindo o braço para evitar que Callie apontasse um dedo no rosto de Leah. Alex aparece do meu lado e começa a guiar Leah em direção ao jardim.
– Vamos, vamos sair daqui... – resmunga o homem, empurrando a loira pela porta. Viro-me para Callie e vejo que o sorriso malicioso agora estava misturado com um vitorioso.
– Que merda você pensa que está fazendo? – rosno, com raiva.
– Ela estava prestes a engolir seu rosto. Deveria me agradecer. – responde Callie, tomando um gole de sua cerveja tranquilamente. Eu cerro os olhos, ainda confusa com aquilo. Callie já estava levemente bêbada. – Argh... eu não estou bêbada. – resmunga a mulher, quase lendo meus pensamentos.
– Você quase transa com George contra a parede do corredor e eu não posso beijar outra pessoa? – pergunto, revirando os olhos. – Essa é boa...
– Você pode transar com quem quiser, Arizona. – retruca Callie. – Na verdade... você já faz isso!
– Por que você está agindo assim? – pergunto, tentando não me mostrar preocupada.
– Assim como? – cantarola Callie, rindo. – Está acostumada com a Callie coitadinha?
– Não estava acostumada com a sua bipolaridade, é só. – retruco, dando o mesmo sorriso falso.
– Eu? Bipolar? Sério? – caçoa a morena, dando uma risada alta. – É você que estava se remoendo de ciúmes a me ver beijando George, que na verdade, tem uma pegada que... oh meu Deus! Você deveria provar... oh esqueci, você é apenas de mulheres. – geme, fechando os olhos.
Eu travo o maxilar ao ver que Callie estava fazendo aquilo para me provocar e eu estupidamente estava caindo. Ao fundo começa a tocar a música Man! I Feel Like a Woman da Shania Twain e todos dão um grito bêbado para comemorar.
– Oh meu Deus! – geme a morena. – Eu amo essa música!
– Nós precisamos conversar! – digo, tentando manter minha sanidade. – Sobre o que aconteceu.
– Por que você sempre quer conversar sobre tudo o que acontece? – pergunta Callie, dando de ombros. – Não é você que gosta de curtir? Estamos curtindo! – grita, erguendo os braços para cima.
– Callie... – rosno.
– Eu preciso dançar! – ela grita.
– Qual é... – resmungo, revirando os olhos.
A mulher me entrega sua garrafa de cerveja às pressas e olha para os lados à procura de algo. Ao achar, ela pega um chapéu no alto da cabeça de um homem que estava sentado no sofá de couro conversando com outra mulher.
– Callie, o que você está fazendo? – pergunto, confusa.
– Eu estou vivendo a minha vida, Arizona. – responde Callie, dando uma piscadela para mim.
Ela coloca o chapéu na cabeça e caminha entre as pessoas que dançavam na sala de estar. Uma grande mesa estava no centro e Callie com um pulo ágil se coloca em pé em cima dela. Os homens ao redor ao ver a morena bonita logo dão um grito aprovando. Callie começa a fazer movimentos sensuais em cima da madeira, acompanhando astutamente o ritmo da música. Sua descendência latina dava à mulher mais facilidade na hora de mover sua cintura.
Olho ao redor e vejo os homens comentando uns com os outros sobre a morena e isso fazia uma raiva enorme me corroer por dentro. Eles assoviavam e elogiavam as pernas e curvas apertadas pela calça jeans escura de Callie e isso apenas incentivava mais a morena a rebolar em cima da mesa.
Callie coloca a mão no chapéu e desce até o chão, olhando diretamente para mim. Eu engulo seco na tentativa de diminuir o nó na minha garganta, mas era quase impossível. Seus seios na camiseta que usava estavam ainda mais convidativos. Ela coloca a mão no chapéu e o segura para colocar-se de joelhos na minha frente.
Callie cantarola o refrão perto do meu rosto e eu observo o sorriso malicioso em seu rosto, junto com seu hálito quente. Ela levanta e continua a andar pela mesa. Os homens agora batiam palmas. Um loiro alto decide ser mais ousado e levanta a mão para tocar na coxa esquerda de Callie, mas eu dou um tapa primeiro em sua mão.
– Ei! – grita o homem, nervoso.
– Não toque nela! – rosno, apontando o dedo no rosto dele. – Ou eu irei lhe capar!
Ele bufa e continua batendo as mãos no ritmo da música. Callie continuava rebolar e segurar o chapéu na cabeça. Observo o lustre acima de sua cabeça e sabia que aquilo não terminaria bem. E segundos depois, Callie dá um pulo para ajudar no seu rebolado e bate a cabeça contra a luminária.
Seu corpo fica mole por causa do álcool e cambaleia para o lado, começando a cair da mesa, porém eu corro e seguro seu corpo evitando que ela caísse contra o chão. A morena coloca a mão na cabeça resmunga algo em espanhol. Eu continuo segurando seu peso contra meu corpo e ela finalmente abre os olhos.
– Oi... – sussurra Callie, com um sorriso megawatt bêbado.
– Oi... – respondo, sorrindo também. – Vamos sair daqui, Callie.
Eu ajudo a mulher a ficar de pé, mas como resposta ela cambaleia para o lado. Eu a seguro de novo e passo seu braço no meu pescoço, ajudando-a a equilibrar. As pessoas continuaram a dançar ao som da música e eu retiro o chapéu de sua cabeça colocando de volta na cabeça do homem sentado no sofá.
– Você está bem? – pergunto, analisando seu couro cabeludo em busca de algum corte enquanto caminhávamos pelo jardim.
– Eu estou bem. – resmunga a morena. Eu tento colocar ela em pé sozinha, mas ela cambaleia para o lado de novo.
– Você não está nada bem. – suspiro, passando de novo seu braço pelo meu pescoço.
– Arizona? – a voz de Teddy corta a música. Eu olho para trás e vejo minha amiga ao lado de Addison Montgomery. – O que aconteceu?
– Callie se machucou? – pergunta Addison, examinando a amiga.
– Ela bateu a cabeça no lustre enquanto dançava em cima da mesa. – respondo, com um olhar de soslaio.
– Eu apenas quero tirar um cochilo... – choraminga Callie equilibrando-se contra meu corpo.
– Nada disso! – advirto, séria. – Não se pode dormir depois que você bateu a cabeça, isso pode gerar uma concussão.
– Eu adoro quando você fala termos médicos... – cantarola Callie, dando uma risadinha. Minhas bochechas coram e eu vejo Addison e Teddy segurarem uma risada.
– Preciso levá-la embora. – digo, puxando mais a morena contra meu corpo para que ela não cambaleasse novamente.
– Faça isso. – murmura Teddy. – Eu levo a sua moto. Eu vim com Alex de qualquer jeito.
– Você faria isso? – pergunto, com um sorriso amistoso.
– É claro, é pra isso que amigas servem... hora do porre. – caçoa Teddy, rindo. Eu sorrio e Addison joga pra mim uma chave.
– Ela passou à tarde na minha casa, à proposito. – diz a mulher, quase conseguindo imaginar meus pensamentos daquela tarde. – O carro dela está naquela esquina. – completa Addison, apontando para o lado leste da rua.
– Obrigada. – murmuro, sorrindo.
Eu começo a guiar Callie pela rua enquanto a morena cantarolava a música que continuava a tocar dentro da casa de Jackson. Com certa dificuldade nós chegamos à esquina apontada por Addison e eu aperto o alarme em busca do carro. As luzes de um Thunderbird azul bebê acendem e eu sorrio, sabendo que aquele de fato seria o carro que Callie Torres teria. Damos a volta no veículo e eu coloco a morena contra lataria.
– Seus olhos... – cantarola Callie, com as mãos ao redor do meu rosto, apertando minha bochecha. – Eles são tão azuis que dá vontade de mordê-los.
– Você não vai morder meus olhos, Callie. – respondo, dando uma risadinha baixa.
– Eu gostaria de morder outra coisa... – ronrona a mulher, dando um sorriso malicioso. Eu pigarreio e tento abrir a porta do passageiro. Callie senta no banco e eu fecho a porta, dando a volta no carro e sentado no lado do motorista. Dou partida e sinto o motor potente. “Eu sempre amei carros...” meu cérebro comemora. Eu coloco a primeira marcha e acelero o veículo.
Observo por cima do ombro Callie ligar o rádio e começar a cantarolar ao som de Bad Reputation da Joan Jett. Pelo menos aquilo manteria a mulher acordada durante a viagem de 10 minutos até a universidade. Eu seguro um sorriso ao vê-la, mesmo que bêbada e zonza, cantarolando a música com fervor.
A letra combinava perfeitamente com sua personalidade forte. Ela era teimosa, mandona e irritante na maioria do tempo, mas também era carinhosa, protetora e extremamente sensual. Tinha algo nela que era diferente de todas as mulheres que eu já havia ficado e eu sabia que isso era um sinal que eu estava quebrando as regras do meu próprio jogo.
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