Segundas Intenções
12 Capítulo 11
Notas iniciais
ARIZONA PDV
A água morna caía do chuveiro diretamente no meu corpo nu. Passo a mão por meu cabelo e encaro o nada. Na minha mente, milhões de imagens se passavam. Eu estava de fato desejando Callie Torres e aquilo estava errado... completamente errado. Uma tensão inexplicável estava entre meus músculos e eu precisava relaxar. Pensei rapidamente em fazer eu mesma o trabalho ali... rápido e fácil. Mas, eu nunca precisei fazer aquilo.
Uma parte de mim ainda questionava o porquê que comprei aquela maldita comida para ela. Mas parecia o certo ao se fazer depois que a mulher não comera nada durante o dia. “Você não é uma pessoa má!” meu cérebro sussurrava. “Não há razão de você ser uma. A única coisa que precisava fazer é ganhar território”.
Eu respiro fundo e desligo o chuveiro. Enrolo-me na toalha e caminho pelo corredor até meu novo quarto. Eu me questionava até quando Teddy ficaria magoada comigo e queria saber como ela estava lindando com Addison. Passo o cartão na porta e adentro no quarto. A pouca luz e o ambiente silencioso me faz ter uma ideia meio... pervertida.
Eu evito um sorriso e fecho a porta. Callie estava deitada na própria cama lendo um livro que eu não podia designar o nome. Caminho tranquilamente, sentindo o olhar da morena sobre mim. Abro a porta do guarda-roupa e finjo estar procurando por alguma peça em especial. Meu coração estava disparado e meu corpo em chamas.
Levo os braços um pouco e sinto o tecido da toalha escorregar por meu corpo. O silêncio apoderava o quarto e segundos depois, o mesmo é preenchido por uma respiração irregular. Eu seguro um sorriso vitorioso e olho por cima do ombro, com nossos olhares cruzando.
Não resisto à tentação e me viro por completo, lentamente. Callie me estudava com os lábios entreabertos e surpresa. Seu olhar era puro desejo e aquilo me excitava. Eu estava excitada por Callie Torres e não podia negar. Ela estuda minhas curvas, franzindo o cenho como se estudasse uma obra. Eu já havia ficado nua na frente de mais mulheres que podia contar, mas havia algo diferente em seu olhar. Engulo o desejo e decido falar algo.
– Callie, você poderia, por favor, virar-se para que eu troque de roupa? – pergunto, com a voz rouca.
Suas bochechas coraram e ela colocou o livro na frente do rosto, provavelmente tentando voltar a ler a história. Pego um sutiã e uma calcinha quaisquer e visto.
– Pronto... – sussurro, caminhando até minha cama e me sentando. Continuo mantendo contato visual com a mulher que retribui. – Espero que você não se importe... mas... eu gosto de dormir com pouca roupa. – provoco.
– Tudo bem... – ela gagueja, tentando desfazer o nó da garganta. Eu vejo sua respiração irregular e sorrio maliciosamente, deitando-me. Encaro o teto por alguns minutos até que, vitoriosa por aquela noite, eu me entrego ao sono.
“Callie Torres já estava na palma da minha mão e nem sabia”.
O barulho constante de duas mulheres conversando no corredor fazia com que eu me arrastasse lentamente para fora do meu inconsciente. Eu estendo o máximo que consigo meu corpo, retirando toda a preguiça de meus músculos ainda de olhos fechados. Abro-os lentamente, procurando por minha melhor amiga loira na outra cama, mas tudo o que vejo é uma cama vazia oposta a minha.
Só então meu cérebro começa a trabalhar, reproduzindo imagens de tudo o que acontecera no último dia. Eu era colega de quarto de Callie Torres. Callie era de fato uma mulher divertida. Callie havia me visto nua. E o que era mais óbvio, Callie fora embora para casa, deixando-me sem o que fazer em um grande Domingo.
Sem a responsabilidade de continuar com a minha aposta, eu decido que era hora de pedir desculpas sérias para Teddy e procura-la pelo campus... caso ela não tenha ido embora com Alex. Levanto-me e vou ao banheiro para me preparar para o dia.
Cerca de quinze minutos depois eu já estava dentro do elevador do alojamento a caminho do segundo andar. A porta de metal se abre e eu saio do cubículo. Não havia uma mulher andando pelos corredores e eu me sinto sozinha, pois há muito tempo eu não passava um Domingo na universidade. Olho em meu celular e era próximo das nove horas da manhã e as aulas começariam daqui uma hora.
A preguiça reina em mim e como Callie não estava por perto, eu não precisava fingir que estava interessada em estudar e conseguir meus créditos. Bato à porta do meu antigo quarto e espero, dando um passo para trás. Alguns segundos se passam e uma ruiva com o cabelo despenteado abre a porta. Addison ao cerrar os olhos ao me reconhecer faz uma expressão séria e com raiva. Ela ameaça fechar a porta e eu bato a mão, impedindo-a.
– Ei... se acalme! – grito, segurando a porta.
– O que você quer? – rosna Addison, com raiva.
– Eu quero saber onde Teddy está. – respondo, franzindo o cenho.
– Ela disse para mim algo em sair com Alex. – responde a ruiva, dando de ombros. – Não conversamos muito, mas pelo visto eu não sou a única com raiva de você!
– Olha... me desculpe. – digo e a mulher revira os olhos. – Eu estou falando sério, Addison. – minto. – Eu apenas quero alguém que me ajude nos estudos.
– E Richard realmente caiu nessa bobagem?
– Não é bobagem. – reforço a mentira. – Você mesmo viu, eu e Callie estamos de fato estudando.
– Eu conheço muito bem a desculpa de estudar... – rosna Addison, dando um passo à frente e apontando um dedo na minha cara. – Olha aqui, Arizona, eu conheço sua fama e seus amigos. Eu considero Callie Torres a minha irmã e se você ousar fazer alguma sacanagem com ela eu juro que você vai se arrepender!
– Tudo bem... – digo, erguendo as sobrancelhas.
– Eu posso confiar em você? – pergunta Addison, me encarando. Eu engulo seco por alguns segundos.
– Teddy disse para onde foi? – pergunto, dando um passo em direção ao outro lado do corredor. Addison suspira, cansada.
– Disse algo sobre um clube. – responde a ruiva, antes de bater a porta com toda a força.
Eu dou de ombros e caminho de volta para o elevador. Meu destino agora era um clube na área nobre da cidade.
Eu manobro a moto e passo entre alguns carros que esperavam na fila para passarem pela portaria para entrarem no clube. Um homem calvo buzina atrás de mim e eu ignoro. Retiro meu capacete e uma mulher de aproximadamente vinte e poucos anos aparece para pedir minha identificação. Eu coloco um sorriso malicioso no rosto e me inclino na moto, esperando que a mulher parasse de ler sua prancheta e olhasse para mim.
– Olá, Joanne... – digo, com um sorriso de covinhas.
– Arizona... – suspira mulher ruiva, com algumas sardas na ponta do nariz. Ela tinha um ótimo corpo e curvas. Nós costumávamos... “curtir” o clube juntas durante as férias do início do ano. – Quanto tempo eu não te vejo... – diz, mordendo o lábio inferior com desejo. Eu ergo uma sobrancelha sob meu óculos escuros e continuo sorrindo.
– Você continua linda. – elogio, fazendo um simples jogo com ela.
– E você sabe que não posso deixá-la entrar. – responde Joanne, já entendendo tudo. – Não depois que seu pai ligou para cá cortando sua conta.
– Eu sei disso... – suspiro, fingindo um mero desdém. – Foi apenas uma pequena briga, nada demais...
– Mesmo assim eu não posso deixar você entrar. – retruca Joanne, anotando algo em sua prancheta.
– Ah, qual é... Joanne. – ronrono, pegando na mão da mulher. Vejo um suspiro longo sair por seus lábios e volto a sorrir. – Pelos velhos tempos... maravilhosos, a propósito. – digo. Joanne morde novamente o lábio inferior.
– Apenas se você prometer me ligar. – cantarola a ruiva, dando-me uma piscadela. Eu seguro uma risada e afirmo com a cabeça que sim. – Argh... por que você diz que sim se você não vai ligar?
– Porque você me conhece. – respondo, lançando-a outra piscadela. Joanne revira os olhos e aperta um botão para o portão se abrisse. Eu ligo minha moto e coloco o capacete de novo.
Demoro alguns minutos até achar uma vaga para estacionar. E quando acho, eu pulo da moto e retiro o capacete. Retiro meu óculos escuros para ver a quantidade de mulheres de biquíni passando por mim. Um sorriso nasce em meu rosto e eu continuo andando perto da piscina. Crianças e adultos pulavam na água. Um grande escorregador terminava no fundo das águas. Seattle não tinha muitos Domingos de sol, então quando aconteciam todos tratavam de aproveitar ao máximo. Continuo caminhando até que avisto uma loira e um homem tomando sol.
– Não acredito que vocês vieram sem me convidar. – rosno, fazendo uma sombra no rosto dos dois. Alex e Teddy retiram os óculos escuros e me encaram.
– Achamos que você estava ocupada demais com sua “Calliope”. – retruca Alex, errando a pronuncia propositalmente. Ele coloca os óculos de novo e volta a se deitar. – Com licença, você está atrapalhando meu sol!
– Ah, qual é... vocês sabem que eu preciso ficar amiga dela. – respondo, revirando os olhos. – Adivinha quem me viu nua ontem à noite? – pergunto, falando cada palavra lentamente.
– O quê? – grita os dois, sentando em questão de segundos para me encarar. Teddy dá uma risada alta e eu seguro outra.
– Eu sabia que você estava armando alguma coisa. – provoca a loira.
– Não é à toa que fiz aquela sacanagem com você, loira. – respondo, com um sorriso amigo. Teddy me lança um olhar de soslaio e finge ainda estar magoada. – Você me perdoa?
– Vou pensar no seu caso. – responde, deitando-se novamente.
– Ah, você está ganhando ao ter uma mulher como Addison como colega de quarto... – provoca Alex, dando uma risadinha. – Quem sabe uma coisa não leve a outra e...
– Pare! – rosna Teddy, jogando o protetor solar no homem. – Arizona ficou nua na frente de outra mulher ontem, não eu.
– Por falar nisso... me conte mais. – pede Alex, erguendo as sobrancelhas sugestivamente.
Eu dou uma risada e puxo uma cadeira para me sentar com meus amigos. Conto tudo o que acontecera, mas deixando omitida a parte que eu de fato me senti atraída por Callie. Foi algo momentâneo e eu sabia que não se repetiria. Eu estava nua, pelo amor de Deus, é claro que me sentiria atraída por quem estava observando.
As horas pareciam estar rápidas demais. Riamos e bebíamos durante toda a tarde, como se não houvesse nenhuma preocupação. Eu já estava de biquíni e mergulhando na água. Às vezes uma morena me observava do outro lado da piscina e eu retribuía o olhar, com um sorriso de covinhas que eu sabia que a chamaria atenção.
– Então... acha que vai demorar mais quanto tempo? – pergunta Alex, aproveitando o sol das quatro horas.
– Para o quê? – pergunto, bebendo meu suco através do canudo.
– Para levar Callie pra cama. – responde Alex, como se fosse óbvio.
– Ah... eu acho que não demora mais do que uma semana. – respondo, dando de ombros. – Diferente de Leah, Callie de fato se preserva.
– Levanto em consideração a integridade das mulheres agora, Arizona? – provoca Teddy, dando uma risada. – Achei que não fizesse isso.
– Não durmo com qualquer uma e vocês sabem disso. – retruco, revirando os olhos. – Vocês precisam admitir... Callie é gostosa.
– Nunca disse o contrário. – cantarola Teddy.
– Jesus... aquelas pernas... – rosna Alex, com um suspiro. – Sério... se ela não fosse sua aposta, eu juro que notaria aquelas pernas um dia.
– Você apenas a notaria porque já pegou quase todo o alojamento, Alex. – provoco, e eu e Teddy damos uma risada alta enquanto o homem bufa.
– Você está ciente que vai precisar estudar de verdade para que ela compre essa sua desculpa, não é? – pergunta Teddy, abaixando os óculos para me encarar com seus olhos claros.
– É... eu sei. – bufo. – Vai ser um preço que vou precisar pagar.
Aproveitamos até o último raio de sol que lutava para driblar as nuvens densas que nasciam no céu de Seattle. Na minha mão esquerda estava o número de telefone da morena que me encarou na piscina, depois que nós duas “acidentalmente” nos encontramos no banheiro do clube. Poderia ter acontecido algo a mais naquele banheiro, mas Alex e Teddy insistiam em me gritar para irmos embora, por causa de algo relacionado a estudar.
Como primeira reação eu resmunguei, dizendo que deveríamos ficar mais. Mas, só depois minha parte racional percebeu que de fato eu precisava estar para estar pelo menos um pouco comparável à Callie Torres.
Teddy foi de carona no carro de Alex e eu em minha moto. As ruas começavam a mudar de pessoas, com o ambiente anterior cheio de trabalhadores e funcionários para um ambiente cheio de jovens, luzes e músicas. Depois de passarmos por inúmeros semáforos, finalmente nos aproximávamos da área universitária.
Adentramos na Universidade de Seattle e estacionamos. Teddy dizia algo sobre tomar um banho e estudar, enquanto Alex apenas pensava em quanto gastaria para beber o que queria beber naquela semana. Poucas pessoas perambulavam pelo pátio, provavelmente voltando para seus alojamentos depois do final de semana. Alex se despede vai em direção à ala masculina. Teddy e eu caminhamos em direção à ala feminina.
– O que vai fazer agora? – pergunta Teddy, enquanto apertava o botão do elevador.
– Ah... provavelmente ir direto para cama. – respondo, massageando meu ombro esquerdo por causa de um incomodo de onde tomávamos sol.
– Burke procurou você? – pergunta a loira, receosa.
– Não. – sussurro, franzindo o cenho. – Ele te procurou? Ele disse alguma coisa?
– Não. – murmura Teddy. A prova de metal se abre e adentramos. – É que... não acha que ele está quieto de mais pra quem está no poder da situação?
– Acha que ele está blefando sobre o fato de mostrar a foto?
– Se ele realmente quisesse lhe arruinar já não teria mostrado? – devolve a pergunta Teddy. Eu hesito por alguns segundos pensando. – Eu acho que ele está armando algo maior.
– Burke não tem inteligência para isso. – rosno, revirando os olhos.
– E como você pode afirmar isso?
– Hãm... – gaguejo. Eu respiro fundo. – Já fomos amigos uma vez.
– O quê? – balbucia Teddy, enquanto a porta de metal se abria no segundo piso.
– Era na época que eu... você sabe. – digo, fazendo uma careta triste. – Ele costumava comprar de mim.
– Ele é usuário? – pergunta a loira, atônita.
– Na época ele dizia que sabia controlar e que não era um dependente. – respondo. – Mas... eu acho que é por isso que ele continua correndo... para ter dinheiro.
– Você não...
– Se eu usava? – digo e timidamente Teddy afirma. A loira segura à porta de metal que ameaçou a fechar. – Não. Nunca fiquei perto disso. Eu apenas... gostava da adrenalina.
– Gosto do fato de saber que você largou isso. – comenta a loira e eu dou um sorriso amigo.
– Já estava na hora de eu criar um pouco de juízo.
– Só um pouco, não é? – provoca e eu dou uma risadinha. Ela sai do cubículo de metal e eu continuo.
– Apenas o necessário. – digo. Teddy revira os olhos e nos despedimos.
A porta de metal, sem o obstáculo que a segurava, se fecha totalmente. E quando a porta se abre de novo, avisto uma silhueta em frente a minha porta. Eu reviro os olhos ao ver que se tratava de Leah Murphy. “Jesus... não achei que ela fosse tão grudenta!” meu cérebro rosna. “Talvez seja por isso que Alex largou dela”.
– Por que você não me atendeu hoje? – pergunta a loira, a me ver saindo do elevador.
– Você me ligou? – retruco, caminhando pelo corredor.
– Seis vezes. – responde Leah, cruzando os braços na frente do corpo. Eu bufo e retiro o cartão do meu bolso para passar na porta. – Arizona! Por que está me ignorando?
– Não estou te ignorando, Leah. – suspiro, virando-me para ela.
– Você deixou aquela sua coleguinha de quarto me tratar mal ontem! – rosna a loira.
– Você mereceu. – respondo, sincera. – Já disse para não fazer aquilo.
– Não posso nem lhe dar um beijo? – pergunta Leah, franzindo o cenho.
– Leah... não estamos namorando. – rosno, tentando não ser rude. – Olhe... foi uma coisa de uma noite só e...
– Uma noite só? Sério? – pergunta a loira, sarcástica. – Porque por minhas contas se somarmos todas as noites e dias que transamos dará mais que uma noite.
– E foi apenas isso, Leah. – digo, fazendo uma expressão de “me desculpe”. A loira me lança um olhar frio. – Você sabia isso desde o início.
– Eu sei. – sussurra a loira, decepcionada. Eu sussurro um “Boa noite” e viro-me de costas. Passo o cartão na porta e ela se abre. Acendo a luz e já estava prestes a fechar a porta quando sinto uma mão quente na minha cintura, por trás. Eu seguro um sorriso sarcástico, sabendo que ela não iria resistir. – Apenas mais uma noite não fará diferença, huh? – ronrona no meu ouvido. Dou uma risada rouca e empurro a mulher contra a porta, fechando-a e atacando seus lábios.
“Oh, eu amo a universidade”.
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CALLIE PDV
Eu misturava pela milionésima vez o suco no meu copo enquanto observava as pessoas conversando uma com as outras. Meus tios que chegaram do México há poucas horas estavam entretendo meus pais em uma conversa que parecia ser interessante. Bebo um gole do líquido gelado e suspiro, com mais uma festa em família “animada”.
– Calliope... venha aqui! – a voz do meu pai me retira dos pensamentos monótonos.
Eu sorrio falsamente e levanto da cadeira. Estávamos no jardim dos fundos de nossa casa. Diversas mesas enfeitadas estavam espalhadas pela grama verde para acomodar aquela enorme família. Minhas tias e seus filhos conversavam com Aria do outro lado, provavelmente sobre roupas. Tudo ficou mais intenso depois que minha irmã disse que queria seguir o exemplo da minha mãe e se tornar estilista.
– Sim, papai... – respondo, caminhando até meu lado. Eu cumprimento minha Tia Rosia e meu tio José. – Como vão?
– Nós estamos ótimos, “mi querida”. – responde minha tia, arranhando na pronuncia perfeita por estar acostumada com apenas o espanhol. – E contigo?
– Estou bem. – respondo, educadamente.
– Seu “padre” estava nos dizendo sobre a universidade. – comenta meu tio, sorrindo.
– Calliope se tornará a melhor médica do estado. Ou até do país. – completa meu pai, orgulhoso. Eu apenas dou um sorriso fraco e concordo com a cabeça que sim.
– Não acha que é algo “peligroso”? – pergunta Rosia. – Se eu tivesse um “hijo” médico ficaria muito orgulhosa! É como ser um super-herói! – diz, pegando na minha mão. Eu abro a boca para retrucar, mas meu pai me interrompe novamente.
– Ela com certeza irá descobrir a cura de algo, não é minha Calliope? – pergunta meu pai, me encarando. Eu hesito por alguns segundos e engulo seco.
– Vou dar o meu melhor para que isso aconteça. – respondo, dando um sorriso largo e falso.
– Irei rezar todos os dias para que isso aconteça, mi querida. – murmura Rosia, me dando um beijo de ternura na testa.
– E Aria? – pergunta meu tio. – O que ela vai querer fazer?
– Ah, ela diz que quer seguir o caminho da mãe. – responde meu pai, com desdém. – Não acho que ser estilista é algo tão prestigiado como ser um médico. – diz Carlos, acariciando minhas costas e sorrindo sempre. Eu continuo com a mesma expressão.
– Ou um policial. – completa Rosia e eles dão uma risada. – Por falar nisso, como vai indo a cidade de Seattle?
– Turbulenta, como sempre. – responde Carlos, dando de ombros. – Mas nada que um pouco de pulso firme não conserte.
– Admiro o fato que em meio a tantas tentações você continue sendo quem é. – diz meu tio.
– Nunca aceitaria suborno, acredite. – retruca meu pai, com ar superior. – Não sou influenciável por filhos de empresários ricos.
Meu pai, Carlos Torres, era chefe de polícia de Seattle há mais de 16 anos. No início de sua carreira ele era um policial do serviço de proteção a testemunhas, mas depois de um desfecho nada bom para uma de suas vítimas meu pai entrou em um período de decadência na vida. Ele começou a beber e entrar em dívidas de jogos e apenas retornou do fundo do poço graças à minha mãe que esteve sempre ao lado dele. Desde então, ele se tornou um homem responsável e direito. E eu e Aria sofríamos com isso, pois nosso pai vivia cobrando de nós sobre o nosso futuro.
Eu olhava ao redor e me via cercada de coisas que não gostava. Pessoas que eu tinha um afeto enorme, mas não acrescentavam nada em quem eu realmente queria. Assuntos e objetos de valores supérfluos estavam por todos os lados. Eu apenas estava cansada daquilo. A mesma rotina, as mesmas pessoas, as mesmas conversas por anos seguidos.
O que era uma preparação para o almoço tomou conta de todo o dia. Durante a tarde, toda a família de quase quinze integrantes, contando com todas as idades, se reuniram perto da piscina e debaixo da grande árvore de carvalho branco. Fiquei a par de como meus tios e tias dos dois lados da família estavam vivendo no México e na Flórida.
Meu pai insistiu em repetir sobre meu futuro promissor e minha mãe, em contra partida, falava sobre Aria. Mentalmente eu me questionava o fato que meu passado nunca era mencionado, nada sobre homo ou bissexualidade eram tocados. Mesmo que meu tio Bento, sentado do outro lado da grande roda, fosse o único solteiro da família e eu tinha grandes desconfianças que ele fosse gay. Era uma família exemplar, eu repetia para mim mesma. Assuntos polêmicos como esse não eram discutidos.
Minha irmã durante toda à tarde sempre sorria para mim e eu sabia que aquilo apenas significava uma coisa: ela estava armando algo. Quando todos se levantam para se servir de alguns refrescos em cima de uma grande mesa, eu me levanto e caminho até perto da minha irmã.
– Como você está? – pergunto, receosa. – Não conversamos durante todo o dia.
– Eu estou maravilhosamente bem, minha irmã. – responde Aria, com um sorriso forçado. Eu cerro olhos ao ver que ela citou a palavra “irmã”.
– Você está armando algo, Aria, e eu seu disso. – rosno, cruzando os braços na frente do corpo.
– E por que acha isso, Calliope? – pergunta a latina, sarcasticamente.
– Pelo seu tom. – retruco. – O que você fez?
– Eu? Eu não fiz nada! – diz Aria, colocando a mão no peito fingindo estar surpresa e magoada. – Nunca faria nada para lhe prejudicar, irmã.
– Ah, pelo amor de Deus, dá para parar de ser cínica por pelo menos trinta segundos? – rosno e a latina dá de ombros.
– Não preciso da sua aprovação para nada. – retruca Aria. – É visível que você já tem a do papai!
– Você está com ciúmes? – pergunto, segurando uma risada que parece apenas irritar ainda mais a mulher. – É isso? Sério, Aria?
– Não estou com ciúmes! – bufa a adolescente. – E eu não preciso de vocês dois, porque eu conheci um rapaz.
– Um rapaz? – provoco, rindo. – Quem foi o infeliz?
– Cala a boca... – bufa Aria. – E não é da sua conta. Só digo que pelo menos o meu relacionamento meus pais irão aprovar.
– Eu acho que não. – rosno. Eu simplesmente odiava quando Aria jogava na minha cara sobre Erica. – Até porque... nossos pais só lhe deixarão namorar se eu namorar... então... isso vai ser meio impossível.
– Não somos esse tipo de família...
– Ah, não somos? – retruco, dando uma risada cínica. – Basta um conselho meu que nos tornaremos.
– Callie... por favor... não. – balbucia Aria.
– O quê?– digo, colocando a mão na orelha. Aria rosna e respira fundo procurando coragem para falar.
– Não faça isso, por favor! – implora a latina.
– Eu ainda não estou escutando...
– Ah, vá se danar, Callie! – sussurra Aria, com os nervos à flor da pele.
– “Nossa mãe não gosta que você fique falando esse tipo de palavreado.” – repito a mesma frase que ela vivia dizendo para mim. A latina me lança um olhar frio e se distancia, com raiva.
Um sorriso vitorioso nasce em meu rosto e eu volto para a roda onde meus familiares já estavam novamente. O resto da tarde e o início da noite correram normalmente. Já em meu quarto, eu aproveitar para tomar um banho e arrumar minhas poucas coisas para voltar para a universidade. Com a mochila nas costas, eu desço a enorme escadaria para o segundo andar.
– Onde está indo, querida? – pergunta Carlos, no pé da escada. – Já está voltando para a universidade?
– Sim. – respondo, correndo para lhe dar um beijo na bochecha.
– Não quer que eu lhe leve? – oferece, gentilmente. – Eu lhe trouxe, seria o mínimo que poderia fazer.
– Não, pai, obrigada. – digo, sorrindo. – Mas prefiro ir de carro, porque assim ele fica no estacionamento sempre que eu precisar. E... onde está a mãe?
– Ela e Aria saíram comprar algo para a ceia. – responde meu pai, caminhando pelo grande corredor em direção ao seu escritório que era no fim do mesmo.
– Porque elas não pediram...
– Para que eu fizesse isso? – pergunta Herman, caminhando até perto de mim para me entregar um livro. Eu sorrio ao ver que estava esquecendo-o. – A senhora e senhorita Torres disseram que queriam um tempo juntas.
– Apenas as duas se aguentam... – sussurro e a mulher mais velha dá uma risada doce enquanto arrumava a gola da minha jaqueta de couro preta.
Herman era a única pessoa naquela casa que eu era confidente. Eu contava sempre que podia sobre meus problemas e ela era uma boa ouvinte e confiável, sempre me livrando de problemas na medida do possível.
– Não fale assim, Callie! – corrige a mulher. Apenas quando estávamos verdadeiramente sozinhas que ela me tratava pelo primeiro nome, graças às inúmeras vezes que pedi para que fizesse isso. – Você apenas tem mais afinidade com o seu pai. É comum acontecer em famílias com duas irmãs tão...
– Diferentes? – completo, com um sorriso triste. – É... eu sei... os gostos de Aria são completamente diferentes dos meus... na maioria dos sentidos.
– Ainda assim continua comum. – retruca Herman, dando-me um olhar de advertência. – Sei que não é da minha conta, Callie, mas eu acredito que você deve ser quem você é primeiro.
– Eu sei disso, Nicole. – suspiro. – Eu tento ser, acredite. Eu tento.
Herman dá um sorriso amigo e um beijo na testa. Eu respondo outro sorriso e saio pela porta principal em direção à garagem. Ignoro os carros dos meus pais e o carro de Aria e vou direto ao meu pequeno amor: meu Thunderbird azul bebê.
Eu abro a porta do motorista e jogo minha mochila no banco do carona. Sento-me no acolchoado e ligo o carro. Aperto no acelerador para sentir o motor forte e engato a ré para sair da garagem. Percorro todo o caminho cantarolando uma música que tocava no carro e seguindo o ritmo batendo contra o volante firme do carro.
Paro em todos os semáforos necessários e observo as pessoas caminhando pelas calçadas. A cidade mudava completamente quando a noite chegava. Olho no meu relógio de pulso e vejo que era próximo das 22 horas. Desacelero meu Thunderbird apenas quando chego próximo da área universitária. Adentro e estaciono ao lado do que eu sabia que era o carro de Alex.
Caminho nas calçadas observando os jovens conversando no campus da universidade. Já era noite e todos voltavam para seus respectivos quartos. Entro no alojamento A e cumprimento Olivia. Pego o elevador e minutos depois já estava no corredor do piso 3. Continuo cantarolando a música que estava escutando no rádio e passo meu cartão na porta. E o que ouço em seguida faz o som parar na minha garganta. Era... gemidos.
Eu abro a porta totalmente e acendo a luz, ação que eu me arrependi perdidamente com a cena que me foi apresentada. Arizona arregala os olhos e puxa o lençol da sua cama sobre os corpos nus dela e de Leah Murphy. Viro-me de costas com a mão sobre os olhos.
– Oh meu Deus! – grita Leah. Eu rosno baixo, com a raiva percorrendo meu corpo em primeiro instante.
– Saiam do meu quarto! Agora! – grito, apontando para a porta aberta.
– Callie... espera! – pede Arizona. Eu olho por cima do ombro e vejo a loira mais velha cambaleando para o lado enquanto vestia suas roupas.
– Não quero ouvir! Saia do meu quarto agora! – grito para Leah. A mulher mais nova também vestia suas roupas.
– Esse quarto também é da Arizona! – retruca Leah, com um ar superior. – E só irei sair se ela...
– Leah, saia do quarto! – ordena Arizona, apontando para a porta assim como eu fazia. A loira mais nova abre a boca, surpresa com a situação. Eu sorrio, com a sensação de vingança.
– O quê? – pergunta Leah, atônita e segurando sua blusa contra o busto. – Como você pode...
– Saia do quarto! Não entendeu? – grita Arizona. Os olhos de Leah lagrimejam e ela me encara.
Eu dou um sorriso vitorioso e aponto novamente para a porta. Ela engole o choro e corre através da porta e pelo corredor. Arizona dá alguns passos à frente e fecha a porta.
– Callie... eu posso explicar. – começa a loira, com o discurso típico. Eu a ignoro e caminho em direção à minha cama.
– Ew... esse quarto está cheirando à sexo. – rosno, revirando os olhos. – Nem comece, Arizona! Eu realmente achei que estávamos começando a nos entender.
– Eu também... me desculpe eu... – tenta a loira, mas eu interrompo.
– Eu disse “nem comece, Arizona” – repito, de frente para ela. – Nenhuma dessas desculpas universais vai funcionar comigo.
– Ok... – suspira Arizona, com um olhar de desdém. – Nós estávamos mesmo transando.
– Oh, sério? – pergunto, irônica. – Eu nem tinha percebido isso, sabia? – digo e a mulher bufa. – Nós tínhamos apenas uma regra! Não trazer outras pessoas para o quarto...
– Espera aí! – retruca Arizona. – Você tinha essa regra com Addison! Você nunca falou nada disso comigo!
– Era necessário? – pergunto, abrindo os braços. – Isso não parece a tarde de uma mulher que queria estudar mais.
– Eu estava estudando. – responde Arizona, com um sorriso pervertido. – Eu estava estudando Anatomia Feminina. – completa, com uma risada alta. Reviro os olhos com a ignorância da mulher.
– Ah, me poupe... – rosno.
– O quê, Callie? – pergunta Arizona, dando um passo em minha direção. Automaticamente, eu dou outro para trás para manter aqueles olhos azuis o mais distantes de mim possível. – Eu achei que fossemos apenas amigas...
– O quê você quer dizer com isso? – pergunto, dando uma risada nervosa. Arizona ergue uma sobrancelha sugestivamente e eu engulo seco. – Nós somos apenas amigas!
– Sério? – retruca, com o mesmo tom de desdém que eu. – Amigas não sentem ciúmes!
– Eu? Sentindo ciúmes de você? – gaguejo, não de fato mentindo, mas sim intimidada por seu olhar firme.
– Eu vi o jeito que você nos olhou... – ronrona, dando outro passo.
– E teria outro jeito de olhar? Não é todo dia que encontro duas mulheres transando no meu quarto. – respondo, com outro passo para trás. Meu coração acelerava à medida que aquela conversa continuava.
– Mas adoraria encontrar, não é? – sussurra Arizona. Eu analiso sua roupa amassada e a cena dela nua atravessa meus olhos. “Oh, como eu queria ser Leah Murphy há cinco minutos.” meu cérebro suplica. Eu balanço minha cabeça em busca de limpar minha mente daqueles pensamentos. – Não? – pergunta Arizona, achando que eu havia a respondido.
– Eu não ligo para o quê você pensa. – balbucio. A loira dá outro passo e eu tento ir para trás até que bato contra a madeira fria da longa mesa de estudos. Arizona aproveita que eu estava encurralada e dá outro passo em minha direção. – Já que disse que não estava a par da regra... aqui está! Eu não quero que você traga mulheres para transar no meu quarto.
– Essa regra aplica a você também? – pergunta Arizona, ficando com a distância de dois palmos do meu rosto.
– Claro que sim. – respondo rapidamente. A loira segura uma risada e eu percebo o quê havia acabado de responder. – Quero dizer... não que eu vá trazer uma garota...
– Está tudo bem, Calliope. – cantarola meu nome. – Eu não vou julgá-la. Até porque eu tenho certeza que se você precisasse escolher... escolheria as mulheres.
– Oh... e porquê faria isso? – pergunto, semicerrando os olhos. Uma risada nervosa sai por meus lábios. – Por que você se acha a melhor na cama? – pergunto e ela se assusta com a pergunta. Automaticamente um sorriso pervertido nasce em seu rosto.
– Calliope... – sussurra meu nome e dá mais um passo a frente. Eu me empurro contra a mesa ainda mais, mas eu estava presa. – Acredite em mim quando digo que mulheres entendem melhor do que homens na cama. – ronrona Arizona. A mistura de sua respiração quente contra meu pescoço e o ambiente que ainda cheirava a sexo me levava à loucura. – Vai me dizer que a suavidade... – diz, colocando a mão na minha cintura. – A textura... o peso... o gosto de uma mulher contra sua língua não é melhor? Vai me dizer que quando você tem o seu orgasmo... não é melhor?
Eu continuo em silêncio com um nó gigante formado na minha garganta. Arizona me encarava e eu estava completamente hipnotizada por seus olhos. Eu mordo meu lábio inferior na tentativa de segurar um gemido involuntário. Ela olha para meu lábio, me desejando. “Mas que droga é essa?” meu cérebro grita.
Seu olhar sobe novamente e sua boca fica entreaberta, provavelmente em busca de ar. Meu coração estava disparado e apenas piora quando sinto a mão de Arizona escorregar para a base das minhas costas. Ela me puxa contra seu corpo e eu suspiro alto.
– Eu sei que você quer me beijar... – ronrona, perto do meu rosto. Engulo seco e analiso seus lábios rosa e convidativos. E antes mesmo que eu pudesse pensar muito, Arizona puxa meu rosto e une nossos lábios.
Eu suspiro e ela me empurra contra a mesa. Meu cérebro gritava para que eu saísse daquela situação, mas eu não processava nada além de seus lábios contra os meus. Era um beijo urgente e forte. Sua língua serpenteia para fora e pede acesso em minha boca e eu aceito. Minhas mãos automaticamente emaranham em seus cabelos loiros, puxando mais a loira para meu corpo.
Nossas línguas se encontram e eu sinto seu gosto. Um gemido nasce no fundo da minha garganta e Arizona desliza suas mãos por minha cintura até parar nas minhas pernas. Eu estava perdida contra o calor do corpo da mulher.
Sua mão segura uma boa parte da minha carne morena e aperta. Com um gemido também saindo por seus lábios, Arizona levanta minhas pernas e me empurra para cima da mesa, comigo as fechando ao redor de sua cintura. O barulho de meus livros e canetas ecoa ao fundo, batendo contra o chão. O calor entre minhas pernas era excitante.
Arizona mordisca meu lábio inferior e segue sua trilha de beijos até meu pescoço. Eu reviro os olhos com meu coração disparado. Meu corpo pulsava em desejo. Tudo o que meu cérebro sentia eram as mãos de Arizona em todos os lugares do meu corpo. Ela distribui beijos molhados por meu queixo e eu gemo baixo.
Ao fundo escuto algo fora do comum além de meus gemidos. Eu ignoro primeiramente, mas depois abro os olhos procurando a fonte azucrinante. Olho em cima da minha cama e vejo meu telefone tocando. Mesmo com Arizona mordiscando meu pescoço, eu forço minha visão para ver quem me ligava e meus olhos arregalam ao reconhecer o nome “Lucia Torres” no visor, fazendo tudo voltar à tona.
Eu empurro Arizona para trás com um supetão. A loira me olha confusa e com os lábios inchados e avermelhados. Pulo de cima da mesa e corro para pegar meu celular. E antes mesmo que a loira pudesse argumentar alguma coisa, eu dou passos rápidos em direção a porta, a abrindo e fechando atrás de mim.
Coloco meu corpo contra a porta e tento normalizar minha respiração. Meu celular para de tocar, sinalizando que a primeira ligação se fora. Eu ainda sentia Arizona contra meus lábios... suas mãos na minha cintura... seu gosto contra minha língua. Meu corpo estava em êxtase e eu me sentia mal por quase ter sucumbido ao desejo. O celular toca novamente e eu respiro fundo antes de responder.
– Filha? – a voz da minha mãe ecoa na linha.
– Me desculpe, mãe... eu deixei meu telefone no quarto enquanto fui tomar banho. – digo, já deixando clara a razão de não ter atendido para evitar desconfianças.
– Ah, bom... tudo bem. – suspira Lucia.
– O quê você precisa? – pergunto, ainda respirando fundo.
– Como você foi embora sem se despedir de mim... eu não consegui lhe avisar que eu, sua irmã e seu pai vamos para Londres amanhã em um desfile da minha nova coleção. – diz minha mãe.
– Meu pai vai largar mesmo o emprego para ir com você nisso? – pergunto, com desdém.
– Parece que sim. – responde minha mãe, com uma risadinha. Eu tento dar outra, mas meu corpo ainda estava extasiado. – Você não quer ir conosco?
– Para onde? – pergunto, atônita.
– Londres... – responde Lucia, como se fosse óbvio. – Filha, você está bem?
– Eu estou bem, mãe. – retruco, rapidamente. – E... não vai ser possível ir pra Londres com vocês. Tenho que estudar.
– Oh... tudo bem então. – murmura minha mãe. – Por alguns dias? Por que eu não sei quanto tempo isso irá durar.
– Sim... eu vou ficarei bem por alguns dias... – respondo, revirando os olhos.
– Então vou desligar, porque preciso arrumar minhas malas. – diz. Eu arrependo por ter terminado o assunto tão depressa. Eu não queria entrar naquele quarto. – Boa noite, querida. Que Deus fique com você
– Ah... boa noite. – choramingo. – Que Ele fique com você também.
Segundos depois a linha fica muda. Olho para os lados, vendo o silêncio no corredor e percebo que ainda estava contra a porta. Rosno baixo, ao ver que precisava entrar ali, até porque era meu quarto e eu não tinha outro lugar para passar a noite. Arizona não deixaria aquilo barato. Eu não sabia explicar o que eu estava pensando ao beijá-la de volta. “Você não estava pensando!” retruca meu cérebro.
Eu respiro fundo e viro-me em direção a porta, passando cartão. Giro a maçaneta e sou cumprimentada pela escuridão no quarto. Meus olhos rapidamente procuram por Arizona e eu vejo a claridade saindo de uma tela. Ela estava sentada em sua cama, mexendo no que parecia um notebook. Eu fecho a porta e caminho em direção à minha cama, em silêncio.
Com a claridade contra seu rosto, vejo seus olhos azuis me encararem. Ainda estava um tom mais escuro de desejo. Eu suspiro e caminho em direção ao meu guarda-roupa para retirar alguma roupa para dormir, mesmo sem sono. Ignoro meu cérebro gritando ao contrário e retiro minha blusa e jeans ali mesmo.
Eu podia sentir o olhar pesado de Arizona em meu corpo e eu, mesmo negando, gostava daquilo. Visto minha roupa e fecho o guarda-roupa. Pego meu MP4 e me deito na cama. Por cima do ombro vejo Arizona dando um sorriso malicioso de lado e voltando a digitar no teclado.
“Ainda está apenas no começo...”.
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