Notas iniciais
E as coisas vão ficando cada vez melhores... Obs: Recomendo que ouçam a música Sail do Awolnation, porém vai ser de um modo diferente. Começam ela no PDV da Arizona, quando ela pensa "Elogie o cérebro" e a pare quando Callie fecha o jeans surrado. E a continue no PDV da Callie quando Callie procura a página que havia parado de ler O Morro dos Ventos Uivantes. E me perdoem por qualquer erro de português. Pretendo revisá-lo depois.

ARIZONA PDV

– Você está maluca? – grita Teddy, parando de andar no meio de nosso quarto ou futuro ex-quarto.

– Não...

– Isso está indo longe demais! – continua a loira, andando de um lado para o outro. – Trocar de quarto? Nem a pau!

– Teddy, eu preciso fazer isso... – digo, tentando me defender. Levanto-me da minha cama, mas a loira me empurra de novo pra baixo. – Eu preciso virar amiga primeiro! Eu preciso entrar na vida dela aos poucos! Se necessário, eu preciso até pintar as unhas delas, mas eu vou fazer! E eu não vou conseguir fazer isso sendo apenas colega de laboratório.

– Eu não posso ser colega de quarto de uma mulher que eu vomitei na última noite! – choraminga Teddy, passando a mão pelos cabelos. Eu seguro uma risada e a mulher me lança um olhar mortal.

– Não é culpa minha se você ainda não se acostumou com o álcool. – retruco, dando de ombros.

– Esse não é o ponto, Arizona! – rosna a loira, apontando o dedo para mim. – Você precisa parar com isso! – diz Teddy, séria. – Pare, Arizona, antes que seja tarde demais!

– E fazer com que eu seja expulsa? Fazer com que certa pessoa seja demitida? – retruco, aumentando também o tom de voz.

– Se você não fosse tão irresponsável nada disso teria acontecido!

– Ah, me poupe! Não me venha com seus discursos encorajadores. – rosno, virando-me de costas em direção à porta.

– O que você vai fazer? – pergunta Teddy, batendo a mão na porta, evitando que eu a abrisse.

– Eu preciso pensar em uma desculpa para conseguir mudar de quarto. – respondo.

– E quando tudo isso terminar, Arizona? – pergunta a loira, diminuindo seu nervosismo para que finalmente pudéssemos conversar. – O que você vai falar para Richard? “Oh, Richard, eu levei minha colega de quarto pra cama e cumpri uma aposta, agora eu posso voltar pro meu antigo quarto?” – cantarola Teddy, imitando minha voz.

– Eu não posso pensar no futuro, Teddy. – respondo, respirando fundo. – Eu apenas preciso cumprir essa maldita aposta!

– Isso apenas vai te trazer mais problemas!

– E eu tenho outra escolha? – pergunto, com uma parcela mínima de culpa me incomodando.

– Ela é uma boa mulher, Arizona. – tenta de novo a loira. – Ela não merece isso.

– Mas o pai dela merece!

– Isso realmente se tornou algo pessoal? – pergunta Teddy. Eu abro a porta e dou um passo para fora.

– Sim... – digo, convicta.

– Droga... – suspira a loira, derrotada. – Vou precisar te ajudar de novo... – completa Teddy, com um suspiro cansado. Ela sai atrás de mim e fecha a porta. Eu dou um sorriso de agradecimento para minha amiga, mas ele vai se dissolvendo aos poucos.

– Você provavelmente não vai gostar disso, Teddy... – digo, receosa.

– Oh, Arizona, o que você tem em mente? – pergunta a loira, parando de andar no meio do corredor.

– No que posso ajudar você, Srta. Robbins? – pergunta Richard, sem tirar os olhos do papel que lia em cima de sua mesa.

A reitoria era um lugar grande e o homem se encontrava em seu escritório. Richard deveria ter aproximadamente uns cinquenta anos, com alguns fios brancos lutando em meio aos negros no alto de sua cabeça.

– Eu queria mudar de quarto, Vossa Magnificência. – respondo, tímida. Maldito problema com autoridades.

– Perdão? – pede o homem, retirando seu óculos de leitura por alguns segundos. – O que aconteceu para querer isso? Vocês duas entraram em algum tipo de conflito? – pergunta, apontando com o óculos para mim e para Teddy, que estava ao meu lado.

– Não, Vossa Magnificência, de jeito nenhum... – gagueja Teddy, nervosa. Eu dou um cutucão na mulher e mando-a se acalmar.

– Não, Vossa Magnificência, não houve nenhum conflito. – respondo, calma.

– Então não existe razão cabível para haver mudanças. – responde Richard, colocando seu óculos e voltando a ler seus papeis.

– Vossa Magnificência, eu preciso de... alguém para me ajudar nos estudos. – retruco. Teddy me encara, assustada.

– Teddy Altman tem ótimas notas. – murmura Richard, desconfiado. – Ela pode lhe ajudar sem problemas. Além que isso não é um problema meu, Srta. Robbins.

– Tenho certeza que Teddy tem ótimas notas, mas eu prefiro não atrapalhá-la em sua bolsa. – sussurro. Eu podia sentir o olhar frio de Teddy em cima de mim e eu sabia que iria me arrepender disso depois. – Queria alguém que pudesse me ajudar sem nenhuma dependência.

Richard retira seu óculos de leitura novamente e estuda a situação.

– Você está de acordo com isso, Srta. Altman? – pergunta Richard. Teddy hesita por alguns segundos.

– Sim, Vossa Magnificência. – responde minha amiga. – Não quero ser prejudicada por Arizona Robbins. – rosna, com veneno nas palavras. Eu fecho os olhos, sem coragem de olhá-la.

– E quem você teria em mente, Srta. Robbins? – pergunta o moreno.

– Calliope Iphegenia Torres. – respondo, com um sorriso de lado. – Ela é minha colega de laboratório, então pode ter certeza que não haverá conflitos.

– E ela está ciente dessa mudança? – pergunta Richard.

– Ainda não, mas tenho certeza que não irá se importar. – respondo, amigavelmente. – Tenho certeza que Addison Montgomery não se incomodará em mudar de piso.

– E por que você quer mudar logo agora? – pergunta Richard, me estudando. – Eu conheço sua ficha e tenho vergonha em dizer que sua capacidade poderia ser mais aproveitada.

Eu engulo meu orgulho e dou um sorriso falso.

– Eu sei disso, Vossa Magnificência. Eu realmente decidi mudar e correr atrás do tempo perdido.

– Não me faça arrepender disso, Robbins. – anuncia Richard se levantando. – Volte para seu quarto e faça suas malas. Irei contatar Ellis para que ela ajude-a na mudança.

– Obrigada, Vossa Magnificência. – digo, dando um sorriso vitorioso.

Eu e Teddy saímos da reitoria. Descemos as escadas que davam em frente ao pátio da universidade. Percebo por cima do ombro que a expressão da minha amiga não era uma das melhores.

– Teddy... – tento falar, mas a mulher imediatamente me corta.

– Não! Fica calada! Vai ser melhor para você dessa vez! – rosna a loira, apontando o dedo para mim. – Falar sobre meus estudos? Não... isso eu não aceito! Dessa vez você foi longe demais, Arizona! Longe demais!

Teddy termina de falar e continua andando pela calçada. Algumas pessoas estavam debaixo das árvores conversando e rindo tranquilamente. Eu observo minha amiga desaparecer entre o verde e a culpa finalmente começa a pesar. “Pelo menos agora você é colega de quarto de Callie. Faça isso valer alguma coisa!” meu cérebro grita em dor.

E em cerca de uma hora eu arrumei minhas coisas do modo mais rápido possível. Joguei meus livros na mochila, meus utensílios dentro de uma caixa e arrumei de qualquer modo minhas roupas nas malas. Coloquei meus óculos de sol escuros e minhas mochilas nas costas. Ellis não olhava para mim, provavelmente por causa de todos os problemas, inclusive o fato de ter sido presa, precisarem passar por ela primeiro antes de chegar a Richard. Eu sabia que eu estava por um fio naquela universidade.

Pegamos o elevador em silêncio para o último piso do alojamento. Teddy não voltou para o quarto naquele intervalo de tempo e eu não podia julgá-la. As mulheres que viviam ali passavam por mim, me olhando dos pés à cabeça. Sabia que a mudança de quarto entraria para a lista de mais comentada da semana.

Nós duas paramos de andar em frente ao apartamento 315 e Ellis bate na porta. Addison a abre com um telefone no ouvido, mas ao ver que se tratava da Sra. Grey, ela desliga o celular sem ao menos se despedir.

– Sra. Grey... o que posso ajudar? – gagueja a ruiva, me estudando com as malas e uma caixa na mão.

– Haverá uma mudança de quarto. – responde Ellis, formalmente. – Arrume sua mala! Você será colega de quarto de Teddy Altman no segundo piso, apartamento 225.

– Ah... espera... hãm... – balbucia Addison, completamente confusa. –– Por quê? O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa?

– Não. Richard tomou essa decisão. – responde Ellis, fazendo um sinal com a mão para que a mulher se apressasse.

Addison decide não questionar e pega sua mala debaixo da cama. Ela a abre e joga rapidamente suas roupas dentro. Eu, atrás de Ellis, seguro um sorriso e a ruiva me lança um olhar mortal. A mulher pega a mochila e empurra seus livros e canetas.

– Não se preocupe em pegar tudo agora, Srta. Montgomery. – diz Ellis, nunca entrando no quarto, porém nunca saindo da porta. – Terás tempo de voltar e retirar tudo com calma.

– Eu... eu preciso avisar Callie. – responde Addison, saindo às pressas com as malas e a mochila nas costas.

– Onde está a Srta. Torres? – pergunta Ellis.

– Está no banheiro. – responde a ruiva, já caminhando em direção ao fim do corredor.

E como obra o destino Callie aparece na porta enrolada em uma toalha de banho. Eu ergo uma sobrancelha, analisando a cena. Precisava admitir que meu corpo estava reagindo positivamente àquilo. Eu engulo seco em busca diminuir o nó na minha garganta com a pele molhada à mostra. Porém, o olhar que vinha dos olhos castanhos da morena chegava a me intimidar.

– O que está acontecendo? – pergunta Callie, assustada. – Por quanto tempo eu fiquei no banho?

– Tempo suficiente para que isso acontecesse... – responde Addison.

– Calliope, vista-se! – ordena Ellis Grey. – Haverá uma mudança de quarto.

– Bom dia... colega de quarto. – cumprimento, retirando meus óculos de sol e dando um sorriso.

– Porque, Vossa Magnificência? – pergunta Callie, caminhando até perto de nós. Ela evitava fazer contato visual comigo, provavelmente por medo de me matar apenas com o olhar. – O que aconteceu?

– Richard decidiu que será melhor para o futuro da Srta. Robbins se ela trocasse de quarto. – responde Ellis.

– Como assim? – pergunta Callie, rangendo os dentes. – Por que precisa ser logo a minha colega de quarto?

– Porque a senhorita tem ótimas notas e um ótimo exemplo.

– A falta de responsabilidade dela não é minha culpa! – retruca Callie. Eu sinto uma espécie de tapa contra o rosto, mas como resposta continuo dando um sorriso forçado. – E nem dá minha conta, obviamente.

– Essa universidade tem valores cristãos, Srta. Torres, e nós tentamos ajudar os alunos o máximo que conseguimos. A Srta. Robbins veio nos procurar, pedindo ajuda, então daremos uma chance a ela. – responde Ellis, encarando Callie. O queixo da morena treme, querendo retrucar a provocação, mas ela e nem ninguém naquela universidade tinha coragem de fazer isso com Ellis Grey. – E eu quero respeito da sua parte!

– Tudo bem... – diz Callie, engolindo o orgulho. Ela dá um sorriso falso e me encara pela primeira vez. – Por favor, entre primeiro... colega de quarto. – rosna, com o veneno nas palavras.

Eu respondo o sorriso com outro ainda mais falso e faço questão de obedecê-la. Adentro no quarto e observo a decoração de sua cama. Um pôster do AC/DC estava do seu lado da parede. Anotações estavam espalhadas pela única e longa mesa do quarto. Viro-me e Callie também entra no quarto.

– A Srta. Montgomery irá voltar mais tarde para retirar o restante de suas coisas. – diz Ellis, entregando-me o cartão de identificação da ruiva, que agora seria meu, e fechando a porta.

Eu hesito alguns segundos antes de me virar. Callie me encarava, com sangue nos olhos e os braços cruzados na frente da toalha úmida. Eu lutava interiormente para não rir daquela situação, pois eu sabia que se fizesse isso, a morena iria surtar. E quando eu ameaço abri a boca para falar a morena faz um sinal com a mão para que eu ficasse em silêncio.

– Eu não sei o que você tem em mente, mas eu tenho certeza que ela não funciona muito bem. – diz Callie, dando um passo à frente. – Não sei também o que você viu em mim e essa sua estranha obsessão. Mas, apenas digo que...

– Espera... – sussurro, com um tom de voz baixo em busca de não começar uma briga. – Antes de tudo, digo que estou aqui para ser sua amiga.

– Minha amiga? – pergunta Callie, com desdém.

– Sim. Sua amiga. – respondo, colocando minha caixa na antiga cama de Addison. – Eu realmente preciso de ajuda nos estudos e nada além disso. Você mesmo viu que nós duas damos certo como parceiras!

– Ah, sério? – retruca a morena, revirando os olhos.

– Sim. Você viu que terminamos antes que qualquer um aquele trabalho de Anatomia Patológica. Nós temos raciocínios parecidos. E eu estou aqui para pedir sua ajuda nos estudos. – digo. A mulher me estuda por alguns segundos tentando decidir se aquilo era uma mentira ou não. “Por favor, seja inocente...” meu cérebro implora.

– Mas não era necessária a mudança de quartos...

– Sim, era. – retruco, não deixando a mulher pensar por muito tempo. – Eu preciso me afastar o máximo que consigo de... Alex e sua turma.

– Você? Se afastar de Alex? – cantarola Callie, dando uma risada sarcástica alta. Eu engulo a raiva e afirmo que sim. – Ah, por favor, me conte outra piada Arizona. Acha que eu nasci ontem?

– Não estou brincando, Calliope... – digo. A mulher para de rir e me lança um olhar frio.

– Não me chame de Calliope! – rosna, apontando o dedo para meu rosto. Eu arregalo os olhos, assustada com sua reação. – Eu não te dei autorização para fazer isso!

– Tudo bem... me desculpe! – sussurro, erguendo as mãos em sinal de rendição. – É apenas Callie...

– Para você é apenas Callie. – corrige a morena.

– Tanto faz... – cantarolo baixo, sem um pingo de interesse. – Mas voltando ao assunto... – digo, mais alto. – Eu estou por um fio nessa universidade e eu realmente quero ter notas para conseguir créditos e fazer uma boa prova no final do ano. E eu não conheço outra mulher mais inteligente que você para me ajudar.

Callie ergue uma sobrancelha e me estuda novamente. “Elogie o cérebro!” a voz de Alex estava na minha mente. Isso era um dos tópicos no papel que ele me entregara sobre ela. A mulher revira os olhos e caminha até o guarda-roupa, abrindo a porta para mim. Eu sorrio e abro minha mala para começar a colocar minhas roupas no espaço que antes era de Addison.

Callie pega algumas peças de roupa e dá um passo para trás. Eu olho por cima do ombro o porquê da mulher se afastar de mim.

– Você poderia, por favor, se virar para que eu troque de roupa? – rosna Callie, apontando a direção contrária que eu deveria olhar.

– Se você me mostrar algo diferente do que já vi até hoje juro que lhe pago um dólar. – respondo, rindo baixo. Callie me lança um olhar mortal e eu peço perdão em silêncio. Decido obedecer a mulher e me viro para o lado da janela.

A vidraça não era totalmente transparente então o reflexo que me era oferecido era retorcido. Mas, mesmo assim, eu conseguia ver a mulher se inclinar para vestir a calcinha. Eu podia arriscar olhar por cima do ombro, mas eu sabia que Callie me vigiava constantemente. Minha respiração aos poucos foi acelerando. Eu era gay, pelo amor de Deus. É claro que eu reagiria ao fato de uma mulher estar nua nas minhas costas.

Eu dou um sorriso pervertido quando ouço o “click” do sutiã se fechando. Mesmo sabendo que a mulher estava seminua eu decido me virar.

– Arizona! – grita Callie, colocando a blusa na frente do busto. Eu faço uma expressão de desentendia e analiso a pele morena de suas pernas à mostra.

– Me desculpe! Eu achei que você tinha terminado! – retruco, virando-me lentamente. Eu seguro uma risada quando ouço um rosnado da mulher. Meio minuto se passou e eu reviro os olhos, cansada de esperar. – Pronto?

– Sim... – responde Callie. Eu me viro e a vejo terminando de fechar a calça jeans surrada.

Eu pego algumas peças de roupa e continuo organizando no guarda-roupa. Callie enquanto isso arrumava algo em sua mochila. Eu continuo organizando minhas coisas. E quando retiro a última blusa de dentro da mala um porta-retratos me chama atenção. Eu o retiro com cuidado, imaginando que na pressa de arrumar minhas coisas eu o havia jogado de qualquer jeito no fundo. Coloco-o em cima da pequena escrivaninha e fecho minha mala.

Vejo Callie analisá-lo por cima do ombro, mas ela não teve coragem de perguntar quem era. Eu abaixo o olhar, pela primeira vez não tendo coragem de encará-la. Callie percebe meu desconforto e decide terminar com a tensão.

– Não vai arrumar sua mochila? – pergunta a morena, colocando a dela no ombro.

– Arrumar mochila para quê? – pergunto, franzindo o cenho.

– Para uma pessoa está correndo atrás de créditos as aulas de Sábado e Domingo são exatamente para isso. – responde Callie.

– Não costumo vir às aulas nos finais de semana. – sussurro, pegando meus utensílios na caixa.

Na minha cabeça tudo o que se passava eram cálculos de quantas horas eu precisaria trabalhar no bar do Joe’s para conseguir pagar o maldito advogado que meu pai havia contratado para me retirar da cadeia. E só de pensar na minha família minha cabeça ameaçou começar a doer.

– É melhor começar... já que diz estar por um fio. – murmura Callie. Eu reviro os olhos, tentando não ser rude. “Você está aqui para ser amiga dela e não inimiga”.

– E por que você está indo? – pergunto, dando-a um olhar mortal. – Já não tem mais que a metade dos créditos?

– Gosto de aulas complementares. – retruca a morena, dando de ombros. – Se estão na grade é porque são importantes.

– Gostaria de pensar assim. – sussurro, com um suspiro cansado.

– É como eu disse... é melhor começar. – murmura, caminhando em direção à porta. A morena fecha-a e eu finalmente fico sozinha no quarto.

Durante os finais de semanas havia aulas mesmo durante o almoço. As disciplinas eram complementares e às vezes nem sequer tinha haver diretamente com a própria medicina. Porém alunos exemplares, como Callie, ou alunos desesperados, como eu, sempre frequentavam a universidade nos finais de semana mesmo tendo passe livre para irem para casa.

Termino de arrumar minhas coisas em poucos minutos, porque não havia muito. Decido ajudar Addison e coloco suas coisas sobre a cama, pois mesmo cumprindo aquela aposta eu não queria nenhuma inimizade. Pego minha mochila e a jogo nas costas.

Fecho a porta e caminho pelo corredor até pegar o elevador. A luz do segundo andar brilha e a porta se abre. Meu sangue gela ao ver que se tratava de Teddy. A loira solta um suspiro audível e se junta a mim no cubículo de metal.

– Você ainda... – tento falar, mas ela me interrompe.

– Sim. – responde a loira, friamente.

– Você vai me perd...

– Eu ainda não sei. – responde novamente, sem deixar que eu terminasse minha fala. Teddy observava atentamente a luz do térreo acender.

Decido então ficar em silêncio e respeitar o espaço da loira. Provavelmente Addison já havia se acomodado no meu antigo quarto. A porta do elevador se abre e Teddy ao menos se despede antes de fazer seu caminho rapidamente para o prédio principal. Eu caminho atrás dela, pois tínhamos as mesmas aulas.

Subimos os degraus e adentramos no prédio principal, indo diretamente para a sala 4. Owen Hunt era um homem alto, ruivo, forte e lecionava Políticas Sociais. Eu sabia de rumores que ele Cristina Yang tinham um caso, mas nunca fora confirmado. “Pelo menos não foi apenas eu que tive um affaire com um professor”.

O homem sinaliza que entrássemos. Teddy sobe os degraus e vai diretamente para o fundo da sala, onde Mark, George e incrivelmente, Alex, estavam sentados. Meu foco vai em direção oposta, do outro lado, onde Callie estava sentada. A morena me olha e eu hesito por alguns segundos, ao ver que estava em uma encruzilhada. Se eu fosse em direção dos meus amigos, Callie rapidamente desconfiaria que eu estava mentindo. Se eu fosse em direção de Callie, Teddy não seria a única com raiva de mim.

Eu solto um suspiro cansado e escolho a segunda direção. Caminho lentamente e me sento na carteira ao lado de Callie, sendo ela uma das primeiras.

– Realmente tentando mudar, huh? – provoca a mulher, segurando um sorriso. – A tentação está grande?

– Cala a boca... – rosno. Callie dá uma risada rouca e eu reviro os olhos.

Owen começa a aula e eu me inclino na carteira, em uma tentativa de não dormir. O ruivo começa a falar sobre o tema de terrorismo e meu sangue gela. “Oh, não...” meu cérebro rosna, mas era tarde demais.

– E como exemplo de tentativas contra atos terroristas temos a “Robbins Company”. – anuncia o homem, escrevendo o meu sobrenome no quadro negro. Eu fecho os olhos, sabendo que aquela demoraria passar mais que o normal.

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CALLIE PDV

A última meia hora foi de longe os minutos mais longos que já se passaram na minha vida. Precisar ficar nua em um quarto compartilhado com Arizona Robbins não estava nos meus planos naquela manhã. A loira parecia apreciar o fato de me irritar e ela fazia de propósito.

O lado bom e cristão da minha mente insistia em dizer que eu deveria acreditar no que a mulher dizia. Talvez ela realmente quisesse mudar e estava pedindo minha ajuda verdadeiramente. Mas, o lado racional e preservativo continuava dizendo que aquilo estava estranho demais.

E minhas desconfianças apenas se dissiparam quando Arizona deixou de se sentar com seus amigos e veio se sentar ao meu lado. Não perdi a oportunidade de provocá-la e pela primeira vez eu ri de uma situação em que a loira não foi irritante. Mas o sorriso da loira diminuiu à medida que Owen Hunt, que lecionava Políticas Sociais, começou o assunto sobre terrorismo e exército americano.

Percebi por cima do ombro a mudança de postura da loira na carteira. Seu punho se fechou automaticamente e sua expressão estava séria. A imagem do porta-retratos me veio à mente: era uma adolescente e um jovem de talvez vinte e poucos anos. Ele vestia uma farda militar e tinha um sorriso parecido com o dela, de covinhas, e olhos azuis tão intensos quanto. Arizona parecia feliz naquela foto, diferente de agora.

– E como exemplo de tentativas contra atos terroristas temos a “Robbins Company”. – anuncia Owen, escrevendo o nome da empresa no quadro negro. Arizona fecha os olhos e se encolhe ainda mais. – Daniel Robbins é dono de um grande capital que é investido em saúde de primeira qualidade para ex-combatentes feridos ou aposentados. E como prova disso, temos a filha dele, Arizona Robbins, aqui conosco.

Arizona sequer se mexe. Ela apenas dá um sorriso para Sr. Hunt, que retribui outro. Ao fundo alguns rapazes comentavam alguma coisa e eu sabia que a loira estava escutando o zumbido também. Eu simplesmente odiava o fato de todos gostarem de comentar sobre a vida dos outros.

A aula continuou. Enquanto eu tomava nota de alguns pontos importantes, Arizona olhava para o nada. E isso continuou durante todas as aulas naquela tarde, pois a loira insistia em caminhar comigo para as salas. Mesmo em silêncio, ela estava ali. Eu queria questionar qual o fato que milagrosamente fez a mulher parar de falar por tanto tempo.

Quando ela falava algo, era para retirar alguma dúvida de algum tópico que era ressaltado na aula. Eu, como aparente responsável, respondia sem nenhum problema. Já era próximo das cinco horas da tarde. Estávamos mudando de sala em sala havia seis horas e no dia ainda teria mais duas aulas.

– Quer um refrigerante? – pergunta Arizona, enquanto caminhávamos pelo corredor em direção à sala 15 no segundo andar.

– Sim... – respondo. Mas antes mesmo que pudesse retirar o dinheiro do meu bolso, a loira coloca duas notas na máquina perto da parede. Ela pega as latas de Coca-Cola geladas no suporte perto do chão e me entrega uma. – Obrigada... – sussurro, sorrindo.

– De nada. – responde a mulher, com um sorriso de covinhas fraco. Continuamos a andar e viramos uma esquina. – Então... você... – gagueja Arizona, parecendo procurar por palavras. – Quer estudar mais tarde? – pergunta, parando de andar no corredor. E antes mesmo que eu pudesse responder sua pergunta um grito agudo ressurge ao meu lado.

Arizona! – a voz de Leah Murphy estava ao meu lado. Eu dou um passo para o lado, assustada, enquanto a loira mais nova dava um abraço desajeitado em Arizona que fica surpresa com o ato.

– Leah... – responde Arizona, sendo sufocada pelos braços magros da mulher. – O que... você... está... fazendo?

– Você não me ligou desde segunda na festa do Derek! – retruca a mulher, fazendo um beicinho de criança. Eu reviro os olhos, questionando o que havia feito para estar vendo aquilo.

– Eu... nunca... te liguei. – rosna Arizona, arrancando as mãos da loira mais nova de seu pescoço com certo esforço. Arizona dá uma risadinha sem graça e aponta com a cabeça para mim. – Leah... essa é Callie. Callie... essa é Leah.

– Oi... – me cumprimenta Leah, com desdém e voltando a me ignorar. – Então... – cantarola a mulher, fazendo uma espécie de desenho invisível no busto de Arizona que revira os olhos, visivelmente. Eu ameaço dar um passo na direção contrária e ir embora, mas Arizona implora com o olhar que eu não fizesse isso. – Nós vamos sair hoje, querida?

– Oh... nada de “querida”. – corrige Arizona, dando um passo para trás. – E não, eu não sair hoje.

– Por quê? – choraminga Leah, voltando a fazer contato com a loira. Seguro uma risada ao ver como a mulher era insistente e manhosa.

– Porque hoje eu vou... eu... – gagueja Arizona, tentando procurar uma desculpa.

– Ela vai estudar comigo. – completo a frase. E como resposta imediata Leah vira-se na minha direção, com um olhar de desdém.

– Arizona? Estudar? – cantarola a loira, dando uma risadinha. – Ela usou essa mesma desculpa comigo, querida...

– Ah, isso é mentira! – grita Arizona, girando Leah para a outra direção. Eu cerro os olhos e encaro Arizona que engole seco. – Mas, o que Callie diz é verdade. Nós realmente iremos estudar, por isso não posso sair com você hoje, Leah... e... provavelmente não poderei sair com você por um bom tempo.

Eu coloco a mão na frente da boca para segurar uma risada com o fora que a loira mais nova acabara de receber. Mas Leah sequer havia entendido o recado, pois continuou com o olhar de superioridade e desdém para cima de mim.

– Além que, nós temos aula agora. – completo, dando um sorriso sarcástico e de fato enfrentando também. – Você teria, mas está apenas no segundo da faculdade. Então... vá fazer sua lição de casa, ok?

Leah trava o maxilar e me lança um olhar frio. Arizona morde os lábios, segurando uma risada. A loira mais nova grunhe alguma coisa e começa a andar na direção contrária, podendo-se ver fumaça saindo de seus ouvidos. E quando Leah desce as escadas, Arizona solta uma gargalhada doce e eu não resisto em rir também.

– Essa foi ótima! – sussurra a mulher, em meio ao riso. – Lição de casa...

– Foi o único jeito de ela perceber que era para sair de perto. – respondo, também rindo.

– Obrigada, sinceramente! – diz Arizona, pegando uma boa respiração para beber um gole de seu refrigerante. – Eu não sei mais o que fazer para ela sair do meu pé.

– De nada. – respondo, sorrindo. Nós voltamos a andar pelo corredor, sabendo que estávamos de fato atrasadas.

– Mas... eu realmente preciso estudar hoje. – murmura Arizona, me estudando com seus olhos azuis. Eu desvio o olhar em busca de não encará-los.

– Infelizmente hoje não vai dar. – respondo, dando um sorriso sem graça. – Preciso dormir cedo para voltar para casa amanhã.

– Por quê? – pergunta a loira. Eu ergo uma sobrancelha ao ver que estávamos entrando no campo pessoal. Arizona rapidamente gagueja, tentando se desculpar. – Se não quiser falar... tudo bem, eu entendo...

– Não é nada demais. – respondo, sincera. – É apenas aniversário do meu tio José e eu prometi para minha mãe que a ajudaria nos preparativos.

– Família unida? – pergunta Arizona, cabisbaixa. Eu franzo o cenho com o tipo de pergunta, mas não questiono.

– Totalmente. – respondo, no mesmo tom.

A conversa terminou quando nós duas adentramos na sala para outra aula. O começo de noite passou do mesmo jeito... lento. Depois das últimas duas aulas, Arizona comentou alguma coisa sobre ir ao refeitório comer alguma coisa. Eu disse que apenas voltaria para o quarto, pois tudo o que queria era tomar um banho e dormir.

Ao chegar ao apartamento 315, percebi que as poucas coisas de Addison já não estavam mais ali. Eu sentiria muita falta da minha amiga. Mas, eu não podia questionar a decisão de Richard por mais que todas as partículas do meu corpo dissessem o contrário. Arizona pelo menos havia parado com seus comentários irritantes e parecia estar de fato interessada em estudar.

Ao caminho do banheiro eu tento ligar para Addison, na tentativa de conversar direito com a ruiva já que não havia encontrado com ela em nenhuma das aulas. A linha chamava até cair e pela primeira vez temi que a ruiva estivesse com alguma raiva de mim. Solto um suspiro de exaustão e adentro no box do chuveiro.

Não demorando tanto quanto de manhã, poucos minutos depois eu já saída do banheiro. Precisei, contra minha vontade, começar o hábito de vestir minhas roupas dentro do banheiro para evitar a mesma cena que de manhã. Passo meu cartão na porta e adentro no quarto que ainda permanecia vazio.

Na busca do que fazer, eu pego meu MP4 e coloco meus fones no ouvido. Sento-me na cama e pego meu livro de Anatomia Patológica e começo a folheá-lo, mesmo sabendo por completa toda a matéria do último bimestre. Apenas quando vejo o vulto da porta se abrindo que desvio meu olhar do livro. Arizona entra e sorri para mim, balançando um saco nas mãos.

– O que é isso? – pergunto, retirando meus fones.

– Trouxe algo para você comer, porque pelo visto não pode largar os livros nem para repor as energias. – responde a loira, rindo baixo.

Eu dou uma risada envergonhada e pego o saco. Arizona caminha até o guarda-roupa e pega seu nécessaire e uma toalha de banho. Minutos depois eu estava sozinha, comendo o que parecia ser um hambúrguer. Minha cabeça martelava constantemente, procurando uma explicação do porquê de Arizona Robbins estar sendo tão gentil comigo. “Ela nunca foi rude...” meu cérebro se contradiz. Porém, ainda assim ela espalhara aquilo sobre Addison.

Termino o hambúrguer e decido arrumar minha cama para finalmente dormir. Olho por cima do ombro e vejo que já se tratava de 21 horas. Aos poucos, toda a agitação do campus diminuía, pois a maioria dos jovens ia embora ou ficava nos quartos estudando. Retiro de dentro da minha mochila o livro O Morro Dos Ventos Uivantes e me deito na cama.

Era a segunda vez que eu o lia, mas, para mim, nunca perdi o interesse. Contava-se a história de Heathcliff, que fora adotado pelo pai biológico de Catherine e Hindley e começou a viver com eles em Morros Uivantes. Heathcliff era pobre e Catherine rica, mas isso não impediu que um amor proibido nascesse entre os dois. Mas isso não durou muito até que o pai biológico morresse e Hindley assumisse as responsabilidades. Catherine recebe uma proposta de casamento e aceita, com medo de não ter a vida que queria por Heathcliff ser pobre, e o homem, ao ouvir a conversa dela com a governanta da casa fica magoado e vai embora.

Anos depois Heathcliff voltara e se tornara um cavaleiro rico. Catherine se vê divida entre seu marido Edgar e Heathcliff. Porém, a mulher ao dar a luz ao seu filho com Edgar, morre. Heathcliff se sente arrasado e jura vingança a todos aqueles que o separaram de Catherine. Ele destrói a vida de Edgar e toma a fazenda e a história termina com sua morte. E mesmo com o final fúnebre, aquele era meu livro favorito.

Procuro a página que havia parado na última vez que li e continuo, tranquilamente. Perco-me nos minutos e apenas sou resgatada de meus pensamentos quando a porta se abre. Arizona adentra e fecha novamente. Eu me assusto ao ver que a loira estava apenas de toalha. A única luz que era fornecida no quarto era a do abajur em cima da grande mesa.

Eu sabia que Arizona já havia me avistado ali, pois era meio óbvio. Mas ela se deslocava pelo quarto como se estivesse sozinha. Enrolada em sua toalha ela vai até o guarda-roupa e o abre, em busca de alguma roupa para dormir. E a cena que vejo a seguir faz meu corpo congelar por completo.

A toalha cai polegada por polegada do corpo da loira. Meus olhos estavam arregalados enquanto eu estudava as curvas da mulher. Eu sequer piscava, fascinada no tom da pele dela na pouca luz. Suas costas nuas... suas pernas... suas nádegas... Vejo-me, automaticamente, com a boca semiaberta e uma súbita falta de ar.

Lentamente, Arizona vira o rosto e me estuda por cima do ombro. Seus olhos azuis cruzam exatamente com os meus e um calor inexplicável alastra meu corpo. Eu não podia ver a parte da frente de seu corpo, por mais que meu cérebro implorasse que a loira se virasse. E como uma grande resposta para meu impasse, Arizona vira-se totalmente.

Nesse momento meu pulmão para de funcionar por alguns segundos. Com tantas informações para processar eu analiso cada parte do seu corpo rapidamente. Seios fartos, mamilos rosados, curvas maravilhosas e um centro liso. Pensamentos impuros passavam por meus olhos. Arizona estava nua na minha frente. Mentalmente, eu consigo amaldiçoar o fato da luz do quarto não estar acesa para que eu pudesse ver melhor.

– Callie, você poderia, por favor, virar-se para que eu troque de roupa? – ronrona Arizona, com seu olhar fixo no meu.

Eu demoro alguns segundos para raciocinar e rapidamente coloco o livro no meu rosto, tentando parecer que eu lia algo. Respiro fundo em busca de normalizar minha respiração e parar de reproduzir aquelas imagens na minha mente. Eu sentia minhas bochechas vermelhas e quentes como carvão e o fato de saber que Arizona ainda estava ali não ajudava em nada.

Pronto... – sua voz ecoa pelo quarto escuro. Lentamente eu retiro o livro do meu campo de visão e vejo Arizona apenas com um conjunto de roupas íntimas pretas. – Espero que você não se importe... mas... eu gosto de dormir com pouca roupa... – diz a mulher, sentando-se na sua cama e me encarando com um sorriso malicioso.

– Tudo bem... – eu finalmente gaguejo alguma coisa. Meu coração ainda estava disparado e Arizona percebia isso, porque uma risada rouca sai dos seus lábios ao se deitar.

Eu pisco algumas vezes e tento retomar minha leitura, mas meu cérebro não pensava perfeitamente. Tudo o que ele reproduzia era aquelas imagens misturadas com o meu sonho daquela manhã. “Como as coisas podem mudar tão rapidamente?” meu cérebro grita. Uma semana atrás eu sequer havia trocado alguma palavra com Arizona Robbins e agora eu já havia visto-a nua.

“É isso que ela quer fazer com você!” meu cérebro continua. Arizona estava me provocando e eu precisava admitir que no fundo, e contra a voz na minha mente, eu estava gostando daquilo. Mas, eu sabia que era muito mais complicado para mim do que para ela. E pensar em sucumbir aos meus desejos era algo quase impossível, por mais que fosse prazeroso... muito prazeroso.

Perdida em pensamentos, vejo-me relendo a mesma frase por cinco minutos. Desisto então de ler e me levanto para desligar o abajur. Não resisto à tentação e espio a mulher na outra cama. Seus olhos estavam fechados e a respiração estabilizada. Suspiro e deito-me novamente, encarando o teto. “Como ela poderia dormir depois daquilo?” meu cérebro grita.

“Porque eu sou a única aqui lutando contra meus desejos”.

Notas finais
OMG! *faíscas* Deixem seus comentários, ideias e opiniões sobre a história! :D