Notas iniciais
Arizona vai se meter em confusão de novo? Ou... não? Obs: Recomendo que ouçam três músicas. A primeira é no primeiro PDV da Arizona que é Behind Blue Eyes do Limp Bizkit, logo no começo. Depois no PDV da Callie é Let It Go do James Bay quando Arizona gagueja que faltou naquela aula (oi...?). E por último é Wherever You Will Go na versão da Charlene Soraia no segundo PDV da Arizona, quando Arizona toca no assunto da Callie e da Erica. E me perdoem por qualquer erro.

ARIZONA PDV

Eu retiro o capacete da minha cabeça e desço da moto. O vento forte batia contra o meu corpo sinalizando a tempestade próxima. Retiro a chave da ignição e começo a andar pelas pequenas vielas entre as lápides. “Como se você não soubesse esse caminho perfeitamente...” caçoa meu cérebro.

Coloco as mechas de meu cabelo loiro atrás da orelha e desvio com as mãos as poucas folhas que voavam. Eu não sentia frio por causa de meu sangue borbulhando nas veias. Callie Torres não tinha o direito de dizer aquelas coisas para mim, porque ela não me conhecia. Continuo andando até que estava no pico do cemitério e paro em frente ao túmulo de Timothy Robbins. Analiso sua foto por alguns segundos, hesitando no que fazer.

Meu cérebro estava em um constante nó. Era como se eu estivesse mergulhada em um mar de problemas sem soluções. Tudo o que eu queria era ter um interruptor e desligar, nem que por um minuto, minhas emoções. São elas que destroem qualquer raiz racional em nosso corpo.

Eu estava inquieta. De qualquer maneira, eu me torturava em busca de qualquer resposta para o que estava acontecendo. Sinceramente, eu não acreditava em destino ou sorte, nem que havia algo maior me guiando para algo já-predeterminado. Aí eu me pergunto: por quê? Como resposta eu tinha outra pergunta: por que um jovem de 21 morreria com uma filha recém-nascida?

Eles dizem: “O tempo passa e o que não te mata te deixa mais forte”. Tenho certeza que quem disse isso tem sérios problemas ou... sou eu a infeliz nessa situação toda. O tempo passou, mas todas as coisas que me aconteceram não me deixaram mais forte. Porém, mesmo assim ele passa quando isso parece impossível. Mesmo quando cada tique do relógio faz sua cabeça doer como se fosse um fluxo de sangue passando por uma ferida. Ele passa desigual, em estranhos solavancos e levando a calmaria embora, mas ele passa.

E quando finalmente minha vida havia começado a se estabilizar após tanto caos, finalmente depois que eu havia aceitado o fato que minha família não era mais uma família e que cada membro já havia encontrado seu próprio caminho, finalmente depois que eu havia saído das festas, bebidas e drogas... isso acontece. Aquela maldita corrida acontece. A fotografia aparece. Callie Torres... aparece.

– Eu estou... argh... eu estou com muita raiva de você! – rosno para a lápide do meu irmão. – Eu estou com raiva de você ter me deixado aqui com esses idiotas! Você não podia ter me avisado? “Olha, Arizona, eu me realistei”?

Eu inspiro fundo novamente, com uma voz azucrinante na minha cabeça rindo de mim pelo fato de eu estar falando sozinha no meio de um cemitério.

– É... isso realmente está acontecendo. – murmuro, dando uma risada triste. – Eu estou oficialmente conversando em voz alta com uma lápide. E eu mereço isso, sinceramente... porque eu julguei a mãe milhares de vezes por fazer isso há cada um ano que você se fora. Ela pelo menos, não chora mais. Nem Sofia. – digo. Uma lágrima quente escorre por meu rosto. – Ela é linda. Eu queria tanto que você tivesse tido a chance de conhecê-la.

Caminho até a lateral da lápide e sento, me encostando nela. Eu pego o maço de cigarros dentro da minha jaqueta e retiro um. Acendo-o e deixo a nicotina tentar me acalmar.

– Sabia que ela vai participar de uma gincana? – pergunto, olhando para o céu turbulento. Diversas nuvens dançavam prestes a desmoronarem. – Ela desenha tão bem! E isso me faz duvidar se ela é realmente sua filha, porque você apenas sabia fazer rabiscos. – completo, dando uma risada sem graça. Mas meu sorriso morre rapidamente. – Sofia com certeza é sua filha. Ela é... apenas... perfeita. A única coisa inocente em meio a nossa família. Nossa mãe adora mimá-la, mas ela tem o meu gênio forte. Já nosso pai... ele está cada vez mais... distante.

Inalo a fumaça e fecho os olhos, com a cabeça contra a pedra.

– Tudo estava começando a melhorar, irmão. – sussurro. – Até que eu sucumbi novamente ao desejo de correr. Eu sei... eu sei... – digo, imaginado o homem retrucando comigo. – Eu sei que prometi para a mãe que pararia com isso e eu parei. Eu parei com tudo aquilo que não me fazia bem. Mas... novamente... eu sucumbi ao desejo e isso apenas me trouxe mais problemas. Eu perdi a corrida por causa de um idiota que manipulou meu carro e... eu não daria sua moto! Não mesmo! Então eu aceitei essa maldita aposta e isso me trouxe Calliope Torres.

– O pai dela e ela são completamente iguais. – rosno, abrindo os olhos. – Mas... por um segundo, um mísero segundo quando ela quase caiu daquele maldito prédio que eu disse que era perigoso... eu disse, eu avisei! Eu precisei puxá-la de volta e naquele segundo eu tive a oportunidade de olhar finalmente em seus olhos. Eu... eu não sei explicar, irmão, mas tinha algo diferente neles. Porém, tudo se dissipou quando ela tentou caçoar você. Aí eu percebi que estava deixando meus sentimentos interferirem de novo.

– Ela me dá nos nervos! – murmuro, tragando o cigarro. – Sim, eu consegui algumas informações sobre o que ela mais gostava. Eu sei os CD’s que ela ouve, eu sei as bandas que ela gosta, eu sei dos esportes que pratica, eu sei o suficiente sobre sua família. Mas ela não sabe nada de mim e insiste em me julgar! Você... a mamãe... qualquer pessoa diria que eu deveria falar com ela. Mas... eu não consigo ficar perto dela sem que meu corpo reaja. Eu sei... isso é loucura! Mas ela é diferente... diferente de um jeito que eu não quero que ela seja por ela é apenas uma maldita aposta! – rosno, mais para mim do que para a lápide ouvinte. – Eu fiz tudo o que precisava fazer, Tim! A resposta seria focar nos estudos? Tudo bem, eu faço isso! A resposta seria parar com essa palhaçada? Tudo bem, eu mudo de quarto e volto a não existir para ela... mas... por que tudo parece tão complicado? Eu simplesmente não aceito a resposta clássica: “Ah, querida... isso vai passar... é apenas uma crise que todos passam nessa idade!” – resmungo, fazendo outro tipo de voz. – Continuo tentando recomeçar, porém eu não chego a lugar nenhum porque eu... estou perdida. Eu estou perdida, irmão e eu preciso de algo bom na minha vida.

Paro de falar e percebo as lágrimas em constante fluxo por meu rosto. Minhas pálpebras pesavam e eu olho novamente para o céu. Uma gota fria cai na minha testa e eu solto um suspiro alto de decepção. Hesito por quase um minuto, ainda atordoada sobre o que fazer. Outra gota cai em meu ombro e eu reviro os olhos, dando uma última tragada no cigarro e o jogando longe.

Levanto-me e olho pela última vez a imagem de Timothy. Um pouco mais calma, eu começo a descer pela grama verde. Os pingos já caiam com mais intensidade ao meu redor, mas eu não me importava em ser rápida. Quando chego perto da minha moto a chuva já estava começando a ficar intensa. Coloco meu capacete e giro a chave na ignição. Aperto o manete esquerdo, passo a marcha com o pé e giro meu pulso, acelerando.

Mentalmente, eu pedia que fosse apenas uma chuva passageira, pois minha viagem de volta para a universidade seria de no mínimo vinte minutos, porém, ao mesmo tempo, eu gostava do castigo que estava recebendo.

Paro em um dos primeiros semáforos do trajeto já com as roupas completamente encharcadas. Os raios cruzavam o céu e um trovão assustou as pessoas que caminhavam apressadas pelas calçadas. Mesmo com o vidro do capacete abaixado, eu precisava limpá-lo constantemente. Quando sinal abriu, eu voltei a minha viagem, mas não muito longe dali eu precisei parar novamente. Meu corpo já dava calafrios com o líquido gelado dentro das minhas roupas. No termômetro da rua marcava 10 ºC e pela primeira vez amaldiçoo o fato de não ter saído com uma capa de chuva.

Um sinal vermelho no painel da moto me chamou atenção e eu semicerro os olhos para entendê-lo através das gotículas no vidro do capacete. Eu xingo baixo e retiro a carteira do bolso de trás da minha calça. Abro-a e outra decepção bate contra o meu rosto com a força de um homem de dois metros. Apenas 5 dólares.

Não adiantaria tentar qualquer cartão de crédito, pois eu tinha certeza que dariam bloqueados. Não adiantaria ir ao banco, pois minha conta estaria zerada. Uma risada desesperada sai baixo por meus lábios e eu sussurro um “obrigada pai”. O sinal abre e eu guardo minha carteira novamente. A quantidade gasolina que estava ali não daria nem para metade dos dez minutos que ainda restavam.

“Obrigada pai...” repito mentalmente.

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CALLIE PDV

Eu revezava em olhar através da janela, caminhar pelo quarto, checar o telefone e voltar a olhar através da janela. Os barulhos dos trovões me assustavam e tudo o que passava por minha mente era que Arizona esta lá fora com raiva e sendo inconsequente como sempre era. Tudo por causa da minha maldita boca grande e por causa da minha maldita teimosia.

Uma hora se passou e a chuva apenas ficou mais forte. Eu pouco me importava com o fato que as aulas estavam acontecendo no prédio principal e que Addison já havia me ligado milhares de vezes me procurando. Olho pela janela novamente privilegiada por estar no terceiro piso e foco na portaria. Nenhum sinal daquela maldita moto. E de repente meu sangue congela por alguns segundos.

A silhueta de uma mulher empurrando uma moto me é apresentada. Eu não preciso pensar duas vezes antes de deduzir que aquela era Arizona e então saio correndo do quarto com um guarda-chuva em mãos. Desço as escadas, impaciente para esperar um elevador. Abro o guarda-chuva para atravessar o campus inteiro correndo. Meu coração aperta quando vejo Arizona a poucos metros de mim, trêmula e empurrando o metal pesado.

– Arizona? – eu chamo, caminhando até perto dela para deixá-la debaixo do guarda-chuva. A loira me ignora por completo e continua andando pela chuva. Eu reviro os olhos com a infantilidade da mulher. – Sério? Vai preferir pegar uma pneumonia?

Ela não responde novamente e continua sua caminhada. Rosno baixo, me questionado porque eu insistia em ajudá-la. Eu deveria deixá-la ali já que era teimosa o suficiente para recusar. Mas não. Novamente eu me deixo levar pela bondade. Então eu caminho rente a ela, mesmo com Arizona me lançando um olhar mortal. Ao chegarmos ao estacionamento ela para a moto em uma vaga.

Só então eu percebo seus lábios azuis e a pele pálida. Arizona cambaleia para o lado completamente fraca e eu corro para segurá-la pelos ombros. A mulher sequer tinha forças para retrucar meu toque. Deixo o guarda-chuva de lado e passo seu braço por meu pescoço. As gotículas frias caiam sobre meus ombros e eu suspirava de frio.

Olho para os lados em busca de alguém para me ajudar a carregar Arizona para o interior da recepção, mas não havia ninguém. Todos estavam em suas determinadas aulas. Eu choramingo e observo o rosto pálido de Arizona contra o meu ombro.

– Arizona... você precisa me ajudar a te ajudar. – sussurro, afagando seu rosto com uma das mãos. Eu a balanço e seus olhos tremem também lutando contra o ponto de dormência de seus membros. Ela estava com início de hipotermia. – Você consegue mover suas pernas? – pergunto, limpando o excesso da chuva no meu rosto com a minha blusa. Sinto a mulher tentar se mover contra o meu corpo e colocar forças nas pernas. – Eu vou te levar para a enfermaria.

– Não! – sussurra Arizona, com a respiração irregular. Seus olhos se abrem e me encaram. Meu coração se despedaça por completo. Eu ignoro a voz na minha cabeça que dizia que eu deveria levá-la, mesmo que obrigada, para a enfermaria.

Então dou um passo à frente e Arizona me acompanha. Eu sustentava boa parte do seu peso, procurando ajudá-la se equilibrar. Provavelmente ela estava com falta de sensibilidade nas mãos e nos pés. Aos poucos, nos aproximávamos dos alojamentos.

Quando passamos pela porta da recepção do alojamento A, rapidamente eu procuro por Olivia para nos ajudar. Eu engulo um gemido de raiva ao ver que a recepção estava vazia. “Onde se enfiaram as pessoas quando se precisam delas?” meu cérebro brada. Olho para Arizona e cada vez mais era visível suas veias através da pele branca.

Ela estava trêmula contra o meu corpo. Continuo guiando-a através do corredor até pegarmos o elevador. Adentramos no cubículo de metal e eu aperto o terceiro piso. Eu também suspirava de frio, mas Arizona estava em pior situação. Quando a porta de metal se abre, eu puxo Arizona novamente contra mim e a levo até em frente à porta do nosso quarto.

Com certa dificuldade eu passo o cartão e abro a porta. Eu guio Arizona até a cama e a coloco sentada. A mulher mal conseguia se manter daquele jeito. “Você precisa ser rápida!” meu cérebro ordena. Eu corro e abro o guarda-roupa em busca de roupas grossas.

– Tire as roupas, Arizona! – ordeno. Arizona me olha assustada e eu reviro os olhos. – Não temos tempo!

A loira lentamente começa a retirar a jaqueta. Eu decido ajudá-la. Subo sua camiseta, retirando-a por sua cabeça e tento ignorar a parte do meu cérebro que focou nos seios apertados no sutiã preto. Agacho-me ajudo-a a abrir os botões da calça e desço o zíper do jeans. Eu me levanto e nossos rostos ficam centímetros um do outro. A respiração de Arizona estava acelerada. Ela termina de descer o tecido encharcado e contrair os braços junto ao corpo.

Eu respiro fundo e continuo meus afazeres. Pego os cobertores no guarda-roupa e envolvo-os na loira. Eu podia ouvir seus dentes batendo uns nos outros. Ela estava prestes a perder a consciência. Apresso meus movimentos e pego mais cobertores e lençóis. Retiro também minha blusa e calças encharcadas e troco por secas. Arizona estava de olhos fechados, apertando o tecido contra o corpo.

Parcialmente seca, eu levanto Arizona e ela abre os olhos. Abro os cobertores e abraço seu corpo contra o meu com toda a força que tinha. Ela estremece contra mim, provavelmente questionando o que eu estava fazendo. Eu sinto meu calor passando para seu corpo. Eu fecho os olhos e meu coração acelera quando sua essência entrando por minhas narinas.

– O... q-que... vo-você... está fa-fazendo? – gagueja Arizona, contra meu pescoço.

– Envolva seus braços em mim, Arizona. – peço, abraçando-a ainda mais forte. Arizona hesita por alguns segundos, mas depois obedece. – Eu estou usando o calor do meu corpo para te esquentar.

– Po-por que? – sussurra contra meu ouvido.

– Se deixarmos o sangue dos seus braços e pernas voltarem ao seu coração muito rápido... seu coração pode parar. – respondo, passando minhas mãos por suas costas em busca de aquecer a pele.

– E-eu acho que fal-faltei nessa au-aula... – murmura a loira, dando uma risadinha. Eu não resisto e faço o mesmo.

Aos poucos os membros da mulher param de tremer. Sua respiração ainda estava irregular, mas não quanto no início. Seu corpo frio contra o meu lentamente foi ganhando mobilidade.

– Como está se sentindo? – pergunto, procurando seu rosto.

– Be-bem melhor. – responde Arizona, tentando dar um sorriso malicioso.

Eu reviro os olhos e analiso seus lábios e olhos. Seus lábios estavam menos azuis. Eu analiso sua pupila e vejo que ela estava menos dilatada. Então, lentamente eu dou passos para trás e ouço um suspiro de desaprovação baixo vindo da loira. Ela fecha os cobertores ao redor do corpo novamente.

– Você será uma boa médica. – sussurra a loira, sentando-se na cama.

– Você precisa de roupas quentes. – digo, mais para mim do que para ela. Eu caminho até a sua parte do guarda-roupa e retiro uma calça de moletom grossa e uma blusa de mangas longas. Volto até a loira e ajudo-a, retirando os cobertores e lençóis de envolta do seu corpo. Mas, quando eu estava prestes a tirar o último, Arizona segura o meu pulso.

– Por que você está fazendo isso? – pergunta a loira, séria.

– Deixe-me lhe ajudar, Arizona! – peço. – Você precisa de roupas quentes.

– Por que você está fazendo isso? – repete a pergunta.

– Porque você precisa. – rosno, soltando meu pulso de sua mão.

Eu ignoro a expressão emburrada da mulher e passo a blusa por seu pescoço. Deixo a calça ao seu lado e procuro por uma toalha seca para nossos cabelos. Agacho-me e a pego na gaveta debaixo. Viro-me e Arizona terminava de vestir a calça de moletom. Eu começo a enxugar o meu cabelo aos poucos. A palidez já havia deixado sua pele, mas ela ainda estava um pouco trêmula. A mulher cambaleia para o lado e eu a seguro para que não caísse.

– Você precisa ir para a enfermaria, Arizona. – digo, colocando-a sentada novamente.

– Eu não... – gagueja, com os olhos arregalados. – Não!

– Por que não? – pergunto, entregando-a a toalha. – Eu não sei diagnosticar o tipo de hipotermia perfeitamente e você precisa de um soro aquecido e...

– Callie, eu não posso ir à enfermaria. – sussurra, cabisbaixa.

– Como assim? – indago, sentando-me na minha cama a sua frente. Arizona fica em silêncio, enxugando seu cabelo. – Arizona... por favor... – sussurro. A loira levanta o olhar e eu vejo a dor neles.

– A enfermaria não é incluída na fatura da universidade. – responde Arizona, envergonhada. – Meu pai cortou meus recursos... meus cartões de crédito, minhas contas bancárias, qualquer forma de conseguir dinheiro dele. – diz, abaixando a cabeça novamente. Eu fico em silêncio por longos segundos processando aquilo.

– O que aconteceu? – atrevo-me a perguntar.

– É como eu disse, Callie... – sussurra Arizona, com um sorriso triste. – Minha família não é como você pensa.

Arizona hesita por alguns segundos, me encarando. Ela parecia estar em uma luta interna em se abrir ou não. Eu não podia julgá-la, pois uma guerra também estava ocorrendo no meu interior. Mas, eu não conseguia resistir à estranha vontade de saber o que a atormentava.

– Você pode conversar comigo se quiser. – sussurro.

– Eu não quero envolver mais pessoas nisso, Callie. – responde Arizona, com um suspiro cansado. – Você já tem os seus próprios problemas e... – tenta continuar, mas ao ver minha expressão calma ela fica em silêncio de novo. Seu queixo treme e eu vejo o início de formação de lágrimas no canto dos seus olhos. – É que... tudo desmoronou há alguns anos.

– Desde que seu irmão morreu? – pergunto, recordando-me de já ouvir comentários nos corredores da universidade.

– Sim. – murmura Arizona, enxugando a lágrima que ousou escorrer. – Quando Timothy morreu eu tinha 20 anos. Meus pais ainda estavam casados e aparentemente felizes. Quando eu estava fazendo o meu segundo ano de bacharel, veio a notícia de sua morte... – começa a loira.

Eu continuo em silêncio ouvindo tudo. Eu absorvia cada palavra, cada lágrima, cada soluço que vinha do fundo da alma de Arizona. Franzo o cenho, pois nunca havia visto a mulher tão frágil e despedaçada. Eu estava acostumada com uma Arizona irritante e sarcástica, que apontava defeito em tudo e todos.

Ela havia visto seus pais se separar, ela havia visto sua mãe casar com outro homem, seu pai abandonar a família, seu irmão morrer, uma sobrinha aparecer... Jesus, ninguém merecia passar por isso. Os minutos pareciam ter congelado enquanto eu analisava sua expressão. Meu coração estava apertado e acelerado, dando intensidade a um sentimento que eu nunca havia experimentado na vida. Eu sentia a dor de Arizona.

– E meu pai insiste em dizer que foi minha culpa. – sussurra a loira.

– Por quê? – pergunto, angustiada. – Que tipo de pai faz isso?

– O meu faz. – responde Arizona, com um suspiro. – Era o vigésimo primeiro aniversário de Timothy e estávamos comemorando aqui em Seattle. Tudo ainda estava perfeito. Ele havia servido um ano e meio em algum lugar do Afeganistão. Mas, ele estava vivo e aqui. Meu pai já estava orgulhoso, porque apenas pediu que Timothy servisse uma vez para seguir com a linhagem de militares da família e Tim obedeceu prontamente, pois ele e meu pai eram... melhores amigos. Porém, no meio da festa Timothy me chamou para conversamos em particular no escritório de nosso pai. Ele queria se realistar e não era por causa da família e sim porque ele gostou do que fez. Ele queria voltar por causa de seus companheiros. E Tim sabia que minha mãe não aceitaria e que meu pai sempre ficaria do lado da mulher, então... ele aclamou à mim.

– Ele pediu sua ajuda para convencê-los?

– É claro que ele pediria, pois eu era a única que não temia meu pai. – responde Arizona, com uma risada triste. – Eu tinha respeito, eu honrava a família, mas... eu sempre dizia o que era preciso. Eu sempre defendia quem eu amava e o quê essas pessoas amavam. E Timothy amava servir e não pensei duas vezes em ajudá-lo com isso.

– Arizona... – tento falar, mas a loira continua.

– Meus pais não conseguiram resistir à persuasão Robbins. – diz a loira, com as lágrimas voltando. – E meu pai não precisava mais assinar nenhuma permissão porque Timothy já era maior de idade. Então, com o consentimento de nossos pais, meu irmão se despediu de todos e partiu para o Iraque... o problema foi que ele nunca mais voltou... apenas seus pedaços. – sussurra Arizona, olhando para o nada. – Uma maldita bomba implantada debaixo do Humvee de seu Pelotão. Bastou a chave na ignição e boom! – rosna a loira, imitando o som da explosão. Eu me assusto, imaginando a cena. – Ele sobreviveu apenas três meses do seu segundo alistamento.

– Jesus... – sussurro, colocando a mão sobre a boca.

– E meu pai insiste em me culpar. – sussurra Arizona, com a voz rouca. – E... ele está certo, sabe... se eu não tivesse insistido para que Tim fosse... talvez ele ainda estivesse aqui, cuidado da filha dele.

– Arizona não foi a sua culpa. – advirto, pegando na sua mão. – Não teria como você prever uma coisa dessas!

– Então me responda... por que isso aconteceu? – pergunta Arizona, com a raiva substituindo a dor. – Você acha que Tim merecia isso?

– Claro que não! – retruco, balançando a cabeça. – Mas não controlamos essas coisas...

– Oh, claro... Deus controla. – debocha a loira, se levantando e puxando sua mão da minha. Eu reviro os olhos e solto um suspiro cansado. – Se Deus controla tudo isso ele deve estar rindo de mim agora! – rosna, abrindo os braços para cima.

– Arizona, pare! – imploro, encarando-a. – Você não precisa provar nada!

– Provar o quê? – retruca Arizona, parando de andar.

– Provar que você está machucada. – respondo, levantando-me e andando em sua direção. – Você não precisa provar isso! Você não precisa machucar outras pessoas apenas para que não se sinta sozinha com a sua dor, porque querendo ou não, você faz isso! Você tem medo de sofrer sozinha! E adivinha o quê? Você não precisa sofrer sozinha! Existem pessoas boas para isso!

– Pessoas boas? – pergunta, cínica. – Nada é inocente!

– Pessoas boas necessariamente não precisam ser inocentes, Arizona. – retruco, séria.

Arizona fica em silêncio, me estudando por longos segundos. Ela suspira e balança a cabeça negativamente. A loira pega um cobertor e caminha até a porta. Arizona a abre e a fecha bruscamente. O silêncio me faz entender que eu precisava ajudar Arizona, mesmo que aquilo fosse a decisão mais estúpida e errada da minha vida.

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ARIZONA PDV

Eu me enrolo no cobertor, ainda sentindo os espasmos de frio pelo meu corpo. A mobilidade em meus pés e mãos já havia voltado. Meus dentes já não batiam mais e eu não sentia como se cada osso do meu corpo fosse partir ao meio. Mas tudo o que meu cérebro reprocessava era o corpo de Callie contra o meu. Seu calor passando para mim. Sua respiração queimando minha pele fria. Suas palavras no meu ouvido.

Toda essa mistura de sensações e sentimentos não me fizeram hesitar em contar toda a minha vida para Callie. Foi algo estúpido e eu me martirizava por isso enquanto me agachava com certa dificuldade contra a parede do corredor. Agora Callie seria mais uma que iria rir de mim e cochichar com outras pessoas por perto. Ah, como eu apenas queria fugir de tudo.

De repente eu sinto o barulho da porta se abrindo. Eu olho para o lado e vejo Callie me estudando com os braços cruzados na frente do corpo. Seu cabelo molhado caía sobre os ombros e sua expressão era calma, mas ao mesmo tempo, séria. Aquela mulher me confundia profundamente.

Ela caminha até a máquina de salgadinhos e refrigerantes e insere uma nota. A máquina trava, como sempre, e a mulher dá um bom tapa contra a lataria para que ela funcionasse direito. Eu sorrio, sabendo que a razão do resmungo da mulher era para me fazer rir. Ao ver que seu objetivo foi alcançado ela sorri vitoriosa e pega o saco de batata e uma Coca-Cola. Callie faz o caminho inverso e senta ao meu lado, enquanto eu analisava tudo por cima do ombro.

– Tire os olhos, não é para você! – rosna a morena, escondendo o saquinho atrás do corpo. Eu não resisto e dou uma risada com uma parcela do peso saindo dos meus ombros. Callie enfia a mão no bolso e retira meu maço de cigarros, fato que me faz rir ainda mais. – Oh, eu sabia que você ia gostar disso!

– Achei que você fosse contra quem fumasse. – digo, pegando o maço para mim. Retiro um cigarro e coloco na boca.

– Eu sou, acredite. – responde Callie, abrindo o saquinho de batata. – Isso é o mesmo que tragar a própria morte, mas... acredito que a nicotina acalme às vezes. – diz. Eu ergo uma sobrancelha e ela bufa. – Eu disse às vezes, Arizona!

– Tudo bem... – murmuro, segurando um sorriso. A morena me entrega também um isqueiro e eu acedo o cigarro no canto da minha boca. Dou uma profunda tragada e sinto a onda de relaxamento em meu corpo. – Sabe... – suspiro, soltando a fumaça para o lado contrário da mulher. – Eu não costumava fumar tanto. Na verdade, eu sequer fumava antes dos meus pais se separarem.

– Sua mãe sabe?

– Ela sabe e odeia isso. – respondo, encostando a cabeça na parede. – Na verdade, ela e Sofia são as únicas razões de eu não ter desistido ainda.

– Sofia é a filha de seu irmão?

– Sim. – digo, tragando novamente o cigarro.

– É um nome bonito. – murmura Callie. Eu me viro e vejo o sorriso genuíno em seu rosto.

– Ela é linda. – completo.

– Sabe... não é só você que tem uma família bagunçada. – diz Callie, encostando também a cabeça na parede.

– Estou à ouvidos. – digo, com um sorriso fraco.

– Sabe qual é a grande diferença entre nossas famílias, Arizona? – pergunta Callie, com seus olhos fixos nos meus. Eu sinalizo que não. – A sua não vive de aparências. A minha... oh, Deus, é apenas aparências... status... poder. Eu não me lembro da última vez que ouvi meu pai dizendo para minha mãe que a amava ou sequer me lembro da última vez que vi os dois se beijando. – diz, cabisbaixa. Eu franzo o cenho, confusa. Não era o que eu imaginava.

– Então por que eles...

– Então por que eles estão juntos? – completa Callie, quase conseguindo ler meus pensamentos. – Eu não sei, sinceramente. Eu tenho a hipótese que é por causa da minha irmã e de mim. Eu... eu apenas não suporto mais ser o que une os dois. Meu pai vive criando expectativas em cima de mim e minha mãe me pressiona, pois queria que eu seguisse a profissão dela. Jesus... eu odeio estilismo. Olhe só as minhas roupas! – rosna, apontando para a camiseta do AC/DC que estava usando. Eu não resisto e dou uma risada alta. – Você ainda ri? – choraminga a morena, segurando um sorriso.

– Me desculpe... – suspiro, tentando parar de rir. – É que você meio que tem razão!

– Ah... – bufa, me lançando um olhar de soslaio. – E é por causa disso... – diz Callie, apontando para si mesma. – Que eu não tenho o mínimo interesse de ser estilista.

– Meu pai queria que eu trabalhasse com ele na empresa. – digo, tragando o cigarro. – Antes de Timothy morrer... ele queria que eu fizesse administração de empresas. E depois que Tim morreu e eu me tornei a única herdeira da família... ele insistiu ainda mais nisso.

– Então você escolheu medicina para contrariá-lo? – pergunta Callie, franzindo o cenho.

– No início não. – suspiro, envergonhada. – No início eu havia escolhido medicina porque eu queria salvar vidas. Não foi para ser Deus, nem para ser a filha predileta. Apenas para salvar vidas. Mas depois... sim. Eu vi nisso uma forma de contrariá-lo.

– Eu queria ter a mesma coragem que você. – sussurra Callie, mordiscando uma batata.

– Por quê? – pergunto, confusa.

– Meu pai não aceita muito bem “rebeldia”. – responde, fazendo um sinal de aspas com a mão. Meu sangue gela quando Carlos Torres entra na conversa. Eu fecho meu punho atrás do corpo esperando que Callie não visse. – Ele... teve problemas com bebidas no início de sua carreira. Ele fazia parte do serviço de proteção a testemunhas e foi designado para um caso simples. Porém um homem entrou na casa da vítima e a assassinou. Isso fez com ele começasse a beber descontroladamente e entrar em dívidas de jogo de cartas.

– Seu pai? – pergunto, com meu queixo tremendo de raiva.

– Sim, ele é chefe de polícia aqui de Seattle. – completa Callie, com um suspiro cansado. – Mas quando ele voltou do fundo do poço ele se tornou destaque na delegacia. Desde então ele vem cobrando mais e mais de mim. Eu apenas queria conhecer novos lugares, novas pessoas, novas sensações, mas... meu pais não suportam a ideia.

– Talvez você apenas seja a filha predileta deles. – sussurro. Callie me olha em silêncio e magoada.

– Não, Arizona, é mais que isso. – retruca a morena, com as lágrimas formando no canto de seus olhos. – Tem algo que eu não sei... tem algo que não se encaixa nisso tudo.

– É desse jeito que eu me sinto sobre a minha família também, Callie. – digo. – Só não esperava que seu pai fosse assim...

– O que você quer dizer com isso? – pergunta Callie, franzindo o cenho.

– Hãm... – gaguejo, mordendo minha língua. – Eu ouvi falar sobre seu pai, apenas isso.

– O que você ouviu falar sobre ele? – insiste Callie, ficando com a postura ereta para me olhar melhor. Eu engulo seco.

– Que ele é meio... radical. – murmuro, procurando uma palavra que não ofendesse o homem do jeito que eu queria.

– É apenas o jeito dele. – responde Callie, passando a mão pelos cabelos. – Meu pai nunca me negou nada. Se eu recompensasse com boas notas e bom comportamento, eu tinha tudo o que queria.

– Bem... isso parece que não deu certo. – completo, com uma risada cínica. Dou outra tragada e o cigarro termina. Eu miro e jogo-o na lixeira em frente de nós. Viro meu rosto e vejo Callie me estudando, confusa. – Quero dizer... sobre você e Erica...

– Oh... – suspira. Entretanto, Callie fica em silêncio, não dando continuidade no assunto. Deduzo então que ali era algo mais complicado e o silêncio se apodera entre nós.

Viro o rosto e analiso o perfil de Callie Torres. Por mais que eu ainda tivesse raiva do pai, pela primeira vez eu vi que ela não tinha culpa disso. Nós duas não tínhamos culpa dos pais que tínhamos.

Ela lutava em busca do restante de batata dentro do saquinho. Ao sentir meu olhar em cima dela, Callie vira-se lentamente e me vê a observando. Eu não desvio o olhar, mas ela parecia estar intimidada. Callie pigarreia e pega a lata de Coca-Cola e abre, com o barulho típico ecoando pelo corredor. Ela toma um gole longo, esperando que nesse intervalo de tempo eu parasse de encará-la, mas eu não paro.

– Quer? – oferece a morena, tentando quebrar o silêncio. Afirmo com a cabeça e tomo um gole do líquido frio. Meu corpo ainda se recuperando estremece, mas era algo que eu poderia suportar. – Você está se sentindo melhor? – pergunta Callie, de fato preocupada.

– Por que você está se preocupando tanto comigo, Calliope Torres? – provoco, usando seu nome completo. – Não é muito do seu feitio fazer isso.

– Infelizmente, Arizona Robbins... – rosna Callie, revirando os olhos. Ela me estuda e suspira. – Infelizmente, eu estou me importando com você.

– E por que você está fazendo isso? – sussurro. Eu sentia sua respiração bater contra o meu queixo com a distância de dois palmos de mim.

– Não é você quem disse que às vezes na vida nem tudo precisa de uma razão? – pergunta Callie, com um sorriso fraco. – Eu apenas estou me importando e acredite, eu me odeio por isso!

– Me desculpe... – digo, com a culpa ardendo nas minhas entranhas.

– Pelo o quê? – murmura Callie, confusa.

– Por estar fazendo você se importar comigo. – completo.

– Eu não estou me martirizando, Arizona. – retruca Callie, com seus olhos fixos nos meus. – Eu estou com raiva, é diferente. – diz, sorrindo. Eu dou uma risada.

– Você é uma peça rara, Callie. – digo, antes mesmo de perceber.

O sorriso da mulher vai diminuindo aos poucos depois que aquelas palavras saíram da minha boca. Seu olhar fica temeroso e vai para os meus lábios. E eu não resisto, fazendo o mesmo para o seus carnudos e convidativos. Deus, eu estava morrendo de vontade de beijar aquela mulher. As imagens das duas vezes que nos beijamos baila por minha mente e eu engulo seco, tentando diminuir o desejo, mas era quase impossível. Levanto o meu olhar e Callie faz o mesmo. Lentamente a distância entre nós foi diminuindo e eu então me entrego ao sentimento.

Eu levanto minha mão e afago a lateral de seu rosto, puxando o mais para mim. Callie não luta e desliza sua mão até minha nuca. Fecho os olhos e sinto seus lábios contra os meus, a suavidade, a textura... tudo. Tudo o que o desejo das outras vezes não me deixou perceber.

Callie me dá acesso à sua boca e eu obedeço. Sua língua encontra a minha e começamos uma dança lenta. Nunca havíamos nos beijado assim. Eu sinto seu gosto doce e meu coração acelera. Sua mão emaranha na base dos meus cabelos e eu suspiro, levando uma boa quantidade cabelos negros para trás para deixar seu rosto livre. Eu não consegui determinar quanto tempo aquele beijo durou, mas pareceu uma ótima eternidade. Eu me distancio o suficiente e abro os olhos. Callie já me observava, também atônita.

– O que estamos fazendo? – sussurra a morena, contra meu rosto. Eu não solto seu cabelo e continuo sentindo-os entre meus dedos.

– Eu não sei. – respondo, sendo sincera.

Eu respiro fundo em busca de acalmar meu coração. Solto seus cabelos e encosto a cabeça na parede. Fecho os olhos, tentando organizar aquela bagunça dentro de mim. De repente, sinto um peso no meu ombro esquerdo. Eu abro os olhos, virando minha cabeça o suficiente para ver os cachos negros de Callie, apoiados em mim.

– Nós vamos sobreviver às nossas famílias. – provoca Callie e eu pude até imaginar seu sorriso sarcástico.

– Oh, não temos outra escolha. – respondo, também sorrindo. Mas, meu sorriso morre logo depois.

Callie Torres estava se importando comigo e isso era uma etapa da aposta cumprida. “Você está indo bem...” uma voz azucrinante comemora.

Notas finais
Arizona sentindo ou não sentindo? Eis a questão... Deixem seus comentários, ideias e opiniões sobre a história. :)