Segundas Chances
2 Túnel Escuro.
Notas iniciais
Isabella
Merda! Que inferno! Como manteria a casa? Se não fosse por mim, nem comida na mesa teríamos.
Claro que fui demitida, assim que meu chefe porco chegou na lanchonete, eu estava irritada e não havia um tostão no caixa. Pelo menos ele acreditou que foi um assalto, vai que aquele homem louco cismasse que roubei alguma coisa?
Fui demitida por não ter chamado a polícia, mas como poderia fazer isso?
Minha colega de trabalho estava em seu turno na hora do assalto, uma boate totalmente fora da lei. Impossível a polícia ir a lanchonete e não querer subir na boate. Era no espaço de cima.
Não interessava que eu não era amiga daquela mulher, não poderia fazer isso.
Aquele bastardo tinha fodido com a minha vida! Ainda mais. Quem daria emprego para uma menina de dezessete anos, que mora em um dos bairros mais pobres de Chicago?
Meus estudos eram o meu segundo maior foco, fui bem na escola minha vida toda, tentei ingressar em uma faculdade e graças ao bom Deus, consegui. Se não, seria o fim do meu futuro. Jamais conseguiria pagar uma faculdade particular.
Infelizmente, até agora não havia conseguido botar meus pais em um bairro decente. Não que eles ajudassem... Muito pelo contrário. Meu pai gastava toda a renda que conseguia em bebidas e outras coisas mais. E minha mãe com seu trabalho artesanal mal vendia algumas coisinhas.
Não podia me dar ao luxo de ficar desempregada.
Por isso hoje não voltaria para o meu "lar", sexta-feira era o pior dia naquela casa.
Já haviam dois dias que estava nessa...Não conseguia um novo emprego e minha mãe gritava comigo assim que eu passava pela porta, chamando-me de imprestável.
Hoje dormiria na casa da minha única amiga. Alice, que é casada com Jasper, que por consequência, virou meu amigo também.
Peguei as chaves da casa dela e entrei no prédio. Alice e eu tínhamos uma grande diferença de renda, era só olhar ao meu redor. O bairro totalmente diferente do meu, parecia que tinha saído de Chicago.
Agradeci mentalmente por ela ter me dado cópias das chaves. Já era tarde e não queria acordar ninguém.
Precisava de um banho, jantar e cama.
Subi o elevador de olhos fechados, lembrando da gritaria de hoje.
"Você não serve para nada mesmo Isabella, até ser demitida daquele emprego ridículo conseguiu ser!"
As palavras de minha mãe ecoaram e lágrimas rolaram por meus olhos.
Não conseguia entender o que fiz de tão mal para os dois. Segundo minha avó, (que morreu quando eu tinha doze anos) nunca dei muito trabalho aos meus pais e ela gostava de cuidar de mim.
Meu pai era alcoólatra há anos e às vezes acabava em coma alcoólico. A única coisa que minha mãe fazia era chorar, brigar e se isolar da civilização.
O trabalho de manter a casa era meu desde que arrumei meu primeiro emprego, minha mãe dizia que eu já era grande o suficiente para "ajudar em casa", maravilha se fosse só isso! Seu trabalho artesanal mal dava alguns trocados, e o máximo que eu conseguia oferecer aos meus pais, era uma casinha apertada, caindo aos pedaços e comida simples na mesa.
Ouvi a voz eletrônica do elevador e pulei de susto. Com um sorriso amargo e os olhos molhados saí em direção ao apartamento.
Abri a porta e as luzes estavam acessas, Alice estava sentada em uma poltrona creme, dava a visão perfeita da porta. Usava um robe branco e assim que me viu abriu um largo sorriso triste.
— Oi amiga! — Disse levantando-se e entendendo os braços.
Não aguentei, abracei-a forte e desabei em seus braços. Os soluços eram altos e meus olhos mais pareciam rios.
Ela não me perguntou nada, apenas ficou ali. Afagando meus cabelos e murmurando um "Você ainda vai ser muito feliz" em meu ouvido.
Meu peito começou a doer de tantos soluços e a cada pensamento de como minha vida estava sendo, mais lágrimas vinham.
Passar necessidade todos poderiam passar e nunca seria algo fácil. O que mais doía era que meus pais pouco se importavam comigo. Eu era a responsável ali.
Se faltava algo em casa a culpa era minha. E meus pais faziam o enorme favor de deixar bem claro que ou os sustento, ou saio de casa. Sair de casa... Meu sonho! Como se fosse tão fácil, não podia deixar os dois lá. Iam acabar se matando. E apesar de tudo, sempre seriam meus pais.
Meu irmão jamais iria querer que eu os abandonasse.
— Vem cá Bella, vamos tirar essas roupas e tomar um banho quentinho.
Meus lábios e braços tremiam, meu peito doía. Porém, nada se comparava a dor emocional.
Quem gostaria de ter uma vida como a minha? E como eu podia fazer algo para melhorar? Fazia o máximo que podia e nunca conseguia resultados muito diferentes. Começava a achar que no túnel escuro em que vivia, não havia nenhuma luz no final.
Antes mesmo que eu percebesse, Alice já tirava minhas roupas e preparava a banheira de uma das suítes de seu apartamento.
— Onde está Jasper? — Perguntei, fungando logo em seguida.
— Está de plantão no hospital... Emergência, uma criança caiu do sofá e abriu a cabeça. — respondeu tranquila.
— Ah! Desculpe Ali, eu... Precisava desmoronar, estive quieta por muito tempo.
— Vou fingir que não escutei isso. Sou sua melhor amiga, quero mais é que você desmorone, isso sempre te deixa mais leve. E acredite...Não vai ser assim pra sempre Bella, não há pessoa no mundo que sofra a vida inteira. Tenha fé minha flor – levantou meu queixo com a mão — Você vai ser muito feliz.
— Obrigada Alice. Você é tudo que tenho – abracei-a fortemente.
— Muito bem, chega de choro. Vamos já para o banho. Vou pôr mais cobertas em sua cama, está uma noite fria.
— Você parece uma mãe, Alice.
— Bom que vou treinando! — deu de ombros.
Rimos e ela saiu do banheiro. Deixando-me só com meus pensamentos.
Ah, se eu visse aquele assaltante de merda de novo! O cara fodeu com a minha vida!
Por um breve momento, relembrei a pequena conversa que tivemos. Só as lembranças de seus olhos claros, lindos e intensos me fizeram tremer. Seu sorriso irônico e cansado. Olheiras e cabelos bagunçados. Deus pai, como alguém podia ficar tão bonito com olheiras?
Balancei minha cabeça e funguei novamente.
Afundei na banheira e gostei de ficar de baixo da água. Nenhum barulho, nenhuma dor, nada.
— Isabella, porra! Está tentando se matar? — Alice gritou puxando-me para cima.
Respirei fundo e passei os dedos pelos olhos.
— Calma, Alice.
— Estou gritando por você na porta e nenhuma resposta. Quando entro você está afundada na banheira? Vá se matar em qualquer lugar Isabella, na minha casa não!
— Quanto drama! Eu só estava desfrutando da água quentinha.
— Você escutou o que acabou de dizer? Ok, que você tem problemas mentais eu já sabia, mas está na hora de parar né? Fora dessa banheira! — Disse alterada.
Arqueei uma sobrancelha e olhei incrédula para ela. Sua cara não era das melhores.
— Está bem, estou saindo, mamãe! — Ironizei.
Três meses depois
Andava pelas ruas frias de Chicago, passava das cinco da manhã e eu estava à procura do meu pai.
Apesar de sempre estar bêbado, ele voltava para casa. Mas noite passada não voltou e a culpa era de quem? Minha! Pois não "tomo conta da família", segundo a minha mãe.
Andei até o bar que ele costumava ficar e nada avistei.
Odiava chegar atrasada no trabalho por conta daquele irresponsável.
Depois de um mês procurando emprego, finalmente havia conseguido.
Me candidatei a uma vaga de garçonete e não pude deixar de me lamentar, por ainda não ter maiores qualificações para tentar algo melhor. O importante era não ficar parada, estava me dando bem e o solário era um pouco maior do que recebia na antiga lanchonete. E as coisas eram bem diferentes nesse novo trabalho...O bairro era um dos mais sofisticados de Chicago e o lugar era bem limpo e administrado. Meu chefe era um tarado, mas pouco me importava. Estava ganhando dinheiro, isso bastava.
Minha mãe claro não havia me dito nem um "Obrigada por nos sustentar", recebeu a notícia do meu novo emprego com cara de poucos amigos e um "Graças a Deus garota, arrumou alguma coisa! Chega de ficar coçando saco em casa, não é?"
Dormir cinco horas por noite para ela era ficar atoa. Acordava todos os dias cedo e ia à busca de qualquer tipo de trabalho que podia. Passei um mês apenas com bicos, porque se não...Nem a casa teríamos mais.
Continuei andando e apertei os braços ao meu redor. Eu gostaria de poder andar um pouco mais agasalhada.
Fui em todos os lugares que meu pai poderia estar e nada. Nem sinal.
A não ser que... Não, ele não faria isso.
Andei rapidamente até o estabelecimento sujo, nada havia mudado nesse tempo longe. Era a mesma espelunca com paredes encardidas e pisos arranhados e manchados. Graças a Deus eu não trabalhava mais ali.
Ao passar pela porta, não pude acreditar no que via. Sim, lá estava meu pai, Charlie. Quebrando cada objeto que via pela frente.
— Eu quero saber onde ela está! Isabella é minha filha e ela tem que fazer o que eu mando! — Ele gritava e jogava copos de vidro na parede.
Meu ex-chefe estava de olhos arregalados e sem reação. Charlie já era conhecido na área, assim como sua fama de ex-policial.
— Charlie! Pare com isso. — falei alto.
Ele não se demorou a virar todo o corpo para mim.
Seus cabelos estavam grudados e bem sujos. Suas roupas mais que pretas e seu rosto um horror. Os olhos mal se abriam, rodeados de marcas escuras, acúmulos de anos e anos de olheiras.
— Isabellaaaa — arrastou a voz — Por que sumiu? — perguntou enquanto andava até mim, cambaleando tanto que tive que ir ao seu encontro antes que caísse.
— Pai, vamos para casa. — Com cautela, estendi as duas mãos para que ele se apoiasse.
— Não! Eu não tenho mais dinheiro, preciso de dinheiro e sei que você tem! — gritou, aproximando o rosto do meu.
Parei de querer arrastá-lo e o segurei pelas duas mãos, ficando de frente para ele.
— Você é alcoólatra Charlie, precisa de ajuda. Já disse isso centenas de vezes, mas nunca ninguém me escuta. Não lhe darei um tostão do meu dinheiro – disse com a voz serena.
— Sabe o que você é pequena Isabella? Uma vadiazinha! Como pode negar dinheiro ao seu pai? Me obedeça garota! — Seus olhos se fechavam enquanto gritava e o seu hálito estava me dando ânsia de vômito.
— Chega Charlie, você vai para casa e minha mãe cuidará de você.
Charlie abaixou a cabeça e caiu em meus braços, estava consciente, porém, não se mantinha mais de pé.
Meu ex-chefe olhava-me com pena e logo virou o rosto para avaliar os estragos da lanchonete.
— Terá que pagar por isso. — disse.
— Pagarei assim que possível e desculpe — falei e comecei a arrastar meu pai até em casa.
Dois meses depois
— Bella feche a lanchonete hoje, por favor? — Minha amiga de trabalho, Sheyla, pediu.
— Claro — disse suspirando.
Meu trabalho ia bem e eu estava gostando desse lugar, não tive problemas nenhum aqui e o salário estava dando conta. Porém, o inferno em casa só continuava. Por que Senhor? Por que meu pai não achava outra forma de descontar a tristeza que sentia? Tinha que ser se matando?
— Pode ir Bella, apareceu um pequeno problema ali no caixa e vou resolver. — Sheyla falou e fez uma careta.
— Ok. Boa noite – Sorri e acenei em despedida.
Novamente não voltaria para casa hoje e segundo minha mãe, era melhor eu ficar fora mesmo. Assim não "atrapalhava" ninguém. Não podia dar nem bom dia para Renée que ela vinha com sete pedras na mão.
Ela só se esquecia, que se eu não voltasse para casa, não teria comida e muito menos dinheiro para as demais necessidades. Eu me perguntava o porquê dos meus pais serem tão ingratos comigo.
Eu também sabia a resposta, só não queria aceitá-la.
Despertei de meus pensamentos quando tropecei na calçada.
Onde eu estava? Parei e olhei aos arredores, não havia nenhum ponto de ônibus ali.
— Legal, muito legal. Onze horas da noite e estou perdida, puta sorte Bella. — murmurei para mim mesma.
Olhei mais uma vez ao redor e vi um parque a frente. Resolvi seguir por lá e ver se achava um ponto de ônibus do outro lado dele. Comecei a andar novamente e o mais atenta possível.
Chicago. A noite. Uma mulher sozinha. Ruas desertas. Não é algo exatamente relaxante.
O parque estava iluminado e muito bonito. Como nunca havia notado-o ali? Não havia ninguém há vista e o vento estava cada vez mais forte, o frio era cortante.
Talvez sem querer aquele cara – o assaltante de araque — tenha me ajudado.
O meu atual trabalho era bem mais animador, as pessoas eram mais gentis e o salário maior. Além disso, era mais perto da casa de Alice.
Pensar no tal assaltante me confundia, simplesmente porque era ridículo pensar nele. Nunca mais o veria na vida! Deveria estar por ai enganando os desatentos com aquela arma de brinquedo.
Enquanto passava por um dos bancos do lindo parque, observei um homem deitado olhando para as estrelas. Coberto com um cobertor velho e rasgado, porém parecia quente o suficiente.
Estaquei como uma mula ali. Não era qualquer homem, era ele. Era o assaltante de araque.
Não é possível!
Só que era.
Suas mãos não estavam a vista, estava tentando se cobrir todo, só a cabeça ficava de fora.
Os olhos estavam bem abertos, apesar da luz do poste estar logo acima. Os cabelos muito bagunçados e com a luminosidade pareciam loiros escuros, o preto esquisito que tinha visto da última vez, não estava mais presente.
Não parecia confortável, afinal como poderia estar? Dormindo em um banco, em pleno começo de inverno, com um cobertor velho e meio rasgado.
Olhando-o pensei que poderia ser eu ali.
Se meus pais me botassem para fora de casa- como minha mãe já ameaçou-, e eu não conhecesse a Alice, pararia na rua. Igualzinho a ele. Nós não estávamos em situações de vida muito diferentes, os dois na merda.
Forcei minhas pernas a continuarem em movimento, se ele me notou, não disse nada.
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