Segundas Chances
3 Pequena Bella.
Notas iniciais
Isabella
As palavras de Alice até agora não haviam se tornado realidade.
"Ninguém é infeliz para sempre pequena Bella" Então por onde andava a minha tão desejada felicidade?
As coisas só pioravam a cada dia, meu pai já não voltava mais para casa depois de um dia de bebedeira. Acho que não tinha forças para isso. A nova rotina era todas as noites, minha mãe ir procurá-lo nos bares ao redor.
Quando não o achava, ligava para mim desesperada e um tanto agressiva.
Realmente não sabia como ainda tinha um emprego. Estava sempre chorando no trabalho e atrasando-me quando o turno era de manhã.
Renée cansou de limpar vômitos de Charlie pela casa, então a tarefa acabou sobrando pra mim. Por que ela não me deixava ajudá-lo? Ele precisava de um tratamento. Era isso que ela queria para o resto da vida? Limpar vômitos, ouvir ofensas e praticamente criar um adulto? Pois eu não.
Mas, isso não importava nesse momento, porque eu estava procurando meu pai, que como de costume havia sumido.
Pressionei o tecido quente e macio do casaco contra a minha pele e mordi os lábios.
Onde esse infeliz estava?
Cheguei ao local que queria, um dos bares mais antigos de nosso bairro. Meu pai não costumava ficar li, mas não custava checar. Minha intuição gritava que algo estava muito errado, claro, além dessa situação de merda.
Charlie estava brindando com alguém que não pude ver por conta de uma parede que tampava metade da mesa. Haviam várias garrafas de cerveja e de tantas outras bebidas.
Um sorriso nojento estava estampado no rosto de Charlie, ele falava com os olhos quase se fechando e a boca um pouco torta, apontava para algo a sua frente, seu dedo gorducho tremia.
Respirei fundo e tentei controlar minha raiva.
Soltei o tecido do meu casaco, que nem havia reparado estar amassando entre os meus dedos.
— Charlie! – gritei. – Charlie!
Meu pai virou a cabeça e sorriu, continuei andando até ele, determinada e preparada psicologicamente para as suas ofensas.
— Isabella! – disse com a voz arrastada. – Por que tão cedo queridinha?
Parei a sua frente, sem ver quem estava encostado na parede.
— Você faz ideia de que horas são? Minha mãe está surtada em casa! Como consegue ficar ai bebendo a noite toda sabendo o quão isso faz mal a ela? – Respirei fundo e esperei qualquer reação de arrependimento de sua parte, que infelizmente não veio. — Vamos para casa. – falei pegando um de seus braços, o qual ele puxou bruscamente e o usou para me empurrar pro lado, onde quase cai em cima do estranho.
— Ela não é um docinho, Edward? – Charlie disse irônico.
Antes de achar seus olhos que já se tornaram um pouco familiares, senti seu cheiro diferente. Não era nada mal e de certa forma, me atraía.
Seus braços me impediram de cair diretamente em seu colo e ele parecia até bem sóbrio.
— Olha quem está aqui... – Edward disse com os lábios repuxados e um hálito suave de bebida alcoólica.
Soltei-me de suas mãos e arregalei os olhos de horror. Então era isso? Ele estava mais perdido do que pensei.
— Esse cara é bem legal Isabella! Senta aqui com a gente! Vamos beber um pouco! Festejar a merda que é nossas vidas! – Charlie disse alto, pegando um dos copos que estavam na mesa e virando na boca.
Só haviam eles ali e um cara tão porco quanto no balcão.
— Você faz da minha vida um inferno e de minha mãe também. Vamos para casa pai, vou me atrasar para o trabalho. – eu disse inutilmente.
Será que por uma fração de segundos ele conseguia entender que sem o meu emprego, estaríamos na rua?
— Oh, não pequena Bella... Não pode se atrasar! Preciso do dinheiro que você ganha, aliás obrigada por ele.
Charlie jamais agradecia pelos meus esforços, do que ele estava falando?
— Que dinheiro Charlie? – perguntei respirando pausadamente.
Comecei a remexer em minha bolsa a procura da minha carteira, havia recebido ontem o meu salário do mês e não pude passar na casa da Alice para deixá-lo. Então estava tudo na carteira. Tudo que era meu ou de valor, eu deixava na casa dela, assim meu pai não teria acesso e nem minha mãe. Se dependesse deles, já não teríamos nada.
— O que achei na sua bolsa Isabella! Há! Como assim que dinheiro? Não fique com vergonha, obrigada por trazer dinheiro ao seu pai.
Seus olhos piscaram repetidamente de maneira confusa. Ele me fitou como se eu fosse uma retardada.
— Não...Não! – gemi abrindo a carteira e não achando sequer uma nota do meu pagamento. — Você roubou o meu dinheiro! — gritei incrédula.
— Mas o que é isso! Seu pai só precisava beber um pouco e você sabe, pagar algumas dívidas. Um homem precisa de diversão!
As dívidas de Charlie se tratavam única e exclusivamente relacionadas com bebidas, mulheres e no passado, drogas.
Lágrimas quentes de raiva inundaram meus olhos e respirei fundo, controlando os soluços que começavam a sacudir meu corpo.
Quando abri os olhos, Edward me fitava assustado.
— Seu imbecil! Como vamos pagar as contas agora? Quer saber? MORRA! Morra sentado nessa cadeira bebendo até cair, eu cansei de você! Cansei dessa merda! – gritei histericamente virando as costas e andando de volta para casa. — Porco imundo.
***
Alice tinha vindo me buscar para deixar-me no trabalho, não tinha dinheiro nem para uma passagem de ônibus, Charlie pegara cada centavo da minha carteira.
À noite eu iria para seu apartamento e lá poderia pegar pequenas economias que eu havia guardado para casos extremos. Por enquanto, seriam o suficiente para ao menos eu poder chegar no trabalho.
Minha mãe era desequilibrada, porém entendia que a situação não estava nada boa e não fora grossa comigo ao telefone quando contei a situação e avisei que não voltaria para casa tão cedo.
Renée apenas chorou e pediu para que eu não virasse as costas para eles. "Você é tudo que me restou"
Às vezes eu sentia inveja do meu irmão que se livrara de tudo isso, era um pensamento mesquinho e idiota, mas não dava para evitar.
Minha maior vontade era largá-los, esquecer que tinha pais e poder construir uma vida para mim, um futuro que em algum dia eu pudesse me orgulhar.
Tudo que eu tinha nesse momento era Alice e Jasper. Nada além disso.
O dia no trabalho passou como um borrão, fiz tudo mecanicamente, tentando não chorar. Quebrei algumas coisas, porém sai de lá viva e ainda empregada.
Meu chefe resolveu liberar os funcionários mais cedo e agradeci mentalmente por isso. Pelo menos não andaria no escuro.
— Vá com Deus Bella e cuidado na rua!- Sheyla disse para mim.
Agradeci com um aceno e abri a porta da lanchonete, sentindo o vento frio bater contra o meu rosto.
Em meio aos pensamentos, acabei perdida e lembrei-me da noite que a mesma coisa aconteceu e havia pegado um atalho pelo parque, onde encontrara Edward pela segunda vez.
Bom eu não tinha escolha, teria que ir por lá.
Suspirei e pus meus pés para funcionar, andei pelo parque com calma. O vento fez as folhas caírem aos meus pés e a beleza do lugar me chamou a atenção.
Como sempre, em todo o momento que conseguia certo sossego, problemas invadiam minha mente. O caso de hoje de manhã veio, fazendo-me chorar um tanto alto. O que fiz para merecer um pai assim? Nunca mudava! Não entendia como minha mãe suportava. A situação já havia extrapolado qualquer limite. Minha paciência acabara, o dinheiro por hora estava no fim e minhas forças também.
Alice havia dito que eu poderia ficar o tempo que precisasse em sua casa, poderia até me mudar para lá, que não seria nada mal e que achava melhor. Porém, eu não conseguiria nem se quisesse. Era fraca o suficiente para tentar ajudar meus pais até o fim. Talvez, eles nem estivessem mais vivos se não fossem pelos meus esforços.
Precisava continuar a ajudá-los.
E lá estava o que eu queria esquecer, ou melhor...Quem. O outro cara perdido que se intrometera de maneira abruta em minha vida. Edward. Estaria ele tão no fim do poço a ponto de virar um Charlie da vida? Isso me incomodava e eu nem sabia direito o porquê.
Pelo menos Edward levou meu pai para casa em segurança. Apesar de toda a merda, Charlie seria o meu pai para sempre.
— Isabella. – Ouvi sua voz e encontrei seus olhos verdes. Estaquei no meio do parque e olhei-o. Deixei que ele me visse com o rosto inchado, o lábio tremendo e as lágrimas escorrendo por meu rosto.
— O que você quer? — perguntei fungando.
— Não quero nada. Só...Sinto muito. – ele disse olhando para os próprios pés.
— E por que sentiria? É tão imundo quanto meu pai! Ficou a noite toda bebendo com ele as custas do meu dinheiro, não foi? — perguntei com raiva.
— Não! Lógico que não! E-eu...Consegui um emprego. — gaguejou um pouco.
— Conseguiu um emprego? – murmurei.
— Sim...Sou bom em matemática, então trabalho em um mercado agora. Não usei um centavo de seu dinheiro, que nem sabia ser seu.
— Não é mais um assaltante? — Arregalei os olhos e engoli em seco.
— Não, enquanto tiver um emprego não assaltarei ninguém.
Não soube o que dizer naquele momento, então apenas abaixei a cabeça por alguns segundos e optei por mudar de assunto.
— Charlie detona com qualquer chance que tenho de nos reerguer, de tentar melhorar nossa vida.
— Conheço seu pai há tempos Isabella, quando ele estava mais em baixo.
— Mais em baixo? – perguntei desconfiada.
Não...Ele não saberia, saberia? Ninguém sabia!
— Sim foi James, o homem loiro que você viu na lanchonete quando eu te...Assaltei — Fechou os olhos como se aquela ideia o causasse dor. — que vendeu drogas ao seu pai.
— Você é o cara que o tirou de lá? – perguntei.
Houve um tempo que Charlie queria ir além da bebida, algo mais forte e foi atrás de drogas, o que no bairro onde moramos, não era algo difícil de conseguir. Chegou a fumar maconha algumas vezes e a usar coisas piores. Muito piores. Nesta época eu perdi a cabeça, só trabalhava e pagava as contas, porém ficava longe de casa.
Minha mãe ia buscar Charlie sozinha e cuidava sem qualquer traço de ajuda minha, eu só cobria as contas. Dava-me nojo ver Renée presa há um ser tão desprezível e eu tinha esperanças que ela largasse dele naquele momento. Mas isso não aconteceu e em uma certa folga que tive, voltei para casa e ela estava vazia. Horas depois minha mãe chegou quase carregando meu pai, que gritava como um lunático e dizia ver e sentir coisas completamente absurdas.
Eram as drogas.
Naquele dia, ajudei Renée, pois estava cansada de vê-la chorando por Charlie. Ela me contara que um jovem a tinha ajudado, tirando meu pai daquele lugar e lhe garantindo de que ele não voltaria nunca mais ali. E assim aconteceu, meu pai jamais voltou. A bebedeira não cessou é claro, mas esse jovem misterioso o convenceu a não entrar naquele meio.
— É, eu tirei Charlie daquele lugar fodido.
— E o que você fazia lá?
— Isabella eu era um assaltante, eu morava ali.
— V-você também se drogava? — gaguejei e mordi os lábios em seguida.
O que eu tinha com isso afinal?
— Não. Minha vida não é tão fodida assim. – sorriu sem humor.
Fiquei ali parada, apenas olhando o seu rosto por alguns minutos. Passei as mãos por meu cabelo e rosto e sentei-me em um dos bancos do parque.
— Minha mãe diz que ele não foi sempre assim... Eu tinha um irmão sabe? Era a coisa mais linda de todo o mundo... Ele me chamava de "Pequena Bella", cuidava de mim, pois eu era mais nova alguns anos. Charlie era ex-policial e chefe de uma empresa de segurança particular, aqui em Chicago e não tínhamos nenhum desses problemas que enfrentamos hoje, porém um colega de trabalho lhe passou a perna e ele foi tirado do cargo, logo depois meu irmão sumiu e foi descoberto com um grupo de assaltantes. Nunca mais voltou...E nunca achamos seu corpo também. Não me lembro de nada com clareza para falar a verdade, mas minha mãe sim, logo depois Charlie começou a ir atrás de qualquer coisa que o tirasse da realidade. Foi expulso da empresa e toda renda que tínhamos, foi para o ralo.
Fiquei em silêncio após falar do motivo de toda a desgraça da minha família. Não sei o que levou-me a despejar tanta coisa nos ouvidos de Edward. Mas tive vontade de falar. Se depois de tantos meses ele reapareceu em minha vida, tinha um motivo, certo?
— Charlie me contou sobre isso, eu sinto muito Isabella, sinto muito que tenha passado por tanta coisa na vida e que seja obrigada a cuidar de seu pai nessas condições. Charlie é apenas...Fraco.
— É, eu sei. Mas estou cansada de ser forte e aturar essas merdas. Não foi só ele que perdeu um filho ou um irmão. Minha mãe não merece passar por isso e nem eu. – Lembrei dos olhos escuros de meu irmão, negros como os de Charlie e mais lágrimas vieram aos meus olhos.
— Sabe, meus tios sempre me diziam "Não pense que não há uma salvação, não importa o quão ruim esteja".
— Obrigada, eu espero que eles estejam certos... Que tudo isso tenha uma salvação. – sorri um pouco.
— Não que ajude, mas hoje de manhã eu estava tentando fazer seu pai voltar para casa, porém ele disse que só iria depois que eu bebesse algo com ele. Eu não sabia que você era a filha dele.
— Eu imaginei que não soubesse e que diferença faria? Bem-vindo ao meu mundo. Charlie é insuportável.
— Seu pai é um homem fraco Isabella e acha que não vivendo na própria realidade, achará algum conforto.
— Eu sei. – Limpei os olhos e olhei ao redor. Deus! Já estava escuro! – Eu tenho que ir.
— Claro, desculpe-me. Boa sorte Isabella e cuidado.
— Diz o cara que um dia me assaltou. – Ri baixinho.
Ele sorriu de volta, levantei-me e segui andando. Olhei para trás e o sorriso dele ainda estava em seus lábios.
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