Segundas Chances
4 Ajuda
Notas iniciais
Três meses depois
Edward
As coisas não estavam boas.
Meu trabalho no supermercado não duraria muito tempo, eu sentia.
Já passei fome, dor, frio e necessidades. Sabia bem como era ser julgado pela sociedade. Nenhuma daquelas pessoas entendiam o que eu já havia passado ou simplesmente algo sobre mim, esse deveria ser um dos motivos que se sentiam desconfiadas.
Assim que cheguei ao supermercado de manhã cedo, o gerente me chamou em sua sala pequena. Eu estava dispensado por conta dos rumores que chegaram aos ouvidos de algumas pessoas e elas não se sentiam seguras perto de mim. Parece que James andara abrindo a boca sobre o meu antigo “emprego", para as pessoas erradas.
Com a cabeça erguida e um sorriso frio sai dali olhando cada rosto que impossibilitou a chance de que eu continuasse em uma vida honesta.
E agora? O que faria para me manter?
A resposta eu já sabia, só não queria aceitar. Assaltar! Era isso que sabia fazer. Assaltar...Isso me lembra Isabella. Depois de nossa conversa no parque nunca mais tinha visto-a e confessava que tinha vontade de sentir sua presença novamente.
Era quase absurdo ficar pensando nela, mas eu não conseguia evitar. Toda noite, olhando o céu aberto no banco do parque, seu rosto vinha a minha mente.
Cabelos longos, escuros, tão bonitos que me faziam ter vontade de passar os dedos entre os seus fios. Olhos verdes. Lábios cheios em forma de coração, além de um pouco avermelhados que me davam o desejo de querer ter aquela boca na minha. Sua pele branca e lisa, dando-me vontade de acariciá-la e sentir aquela maciez. E o mais estranho, eu conseguia sentir o cheiro dela. Aquele cheiro adocicado, tão convidativo.
Peguei-me lamentando. Lamentando que jamais ela me daria esse tipo de confiança e que eu nunca poderia revelar o misto de emoções que sentia ao tê-la perto de mim. Talvez, fosse apenas saudade do tempo que tinha uma amizade ou alguém para me abraçar, alguém para pelo menos conversar. Porém, algo me dizia que era mais que isso.
Senti meu estômago queimando e um vazio grande em minha barriga. Hoje não daria para esperar até o almoço para comer, teria que tomar café da manhã. Com o dinheiro que ganhei pela demissão, conseguiria tomar um café da manhã bom e ainda sobraria.
Passei pelo parque que considerava minha casa e uma cafeteria me convidava. O cheiro de café e folhados doces me davam água na boca e queimação no estômago. Como seria bom poder tomar café da manhã todos os dias.
Entrei na cafeteria e sentei-me na única mesa vazia, pegando o cardápio. Senti uma sensação estranha, de que estava sendo observado. Virei-me, dando de cara com Isabella que estava com sua bolsa nos ombros, pronta para ir embora. Eu não sabia o que fazer, se sorria, acenava ou se ficava quieto.
Para minha surpresa ela sorriu e saiu de trás do balcão vindo em minha direção.
— Posso me sentar? — Sua voz doce soou ao meu lado.
Levantei meu olhar para o dela e quase perdi a fala.
— Claro...Fique à vontade.
Não sei como ela conseguia, mas a cada encontro inesperado que tínhamos, ela estava ainda mais bonita e fiquei surpreso ao notar que parecia melhor do que da última vez que a vi. Não tinha muitas olheiras e parecia um pouco mais descansada.
— Não acredito que nos encontramos de novo. — Ela riu.
— É, parece que virou uma sina, encontros inesperados depois de meses — sorri.
Olhei para os lados e uma garçonete veio em minha direção, anotou meu pedido e olhou feio para Isabella, a qual manteve o olhar firme e a expressão nada agradável.
— E...Como você está?- perguntei tentando não parecer muito estranho em questionar isso.
— Na medida do possível, estou bem. Não houve nenhuma mudança se quer saber... Mas já desisti de pôr alguma esperança em Charlie. — suspirou e pegou o cardápio o avaliando. — E você? — Olhou-me rapidamente.
A garçonete retornou com o meu pedido e saiu logo em seguida, ainda fitando Isabella. Qual era o problema dela?
— Eu acabei de ser demitido — Admirei-a mordendo os lábios e ajeitando o cabelo.
Seus olhos se arregalaram e ela largou o menu no mesmo instante.
— O que?! Por quê? — perguntou.
— Parece que meus colegas de trabalho se intimidavam com a minha presença e os rumores rolavam do que eu fazia antes, então...Estou desempregado.
Ela mordeu os lábios mais uma vez e me fitou.
— E o que vai fazer agora?
— Voltarei a fazer o que fazia, a única coisa que sei fazer.
Sua postura mudou, ficando ereta e a expressão se tornando dura e firme. Ela parecia tão mais velha quando fazia isso.
Resolvi mudar de assunto, não era algo agradável de se falar e não queria responder as possíveis perguntas que Isabella faria.
— O que faz aqui? — perguntei.
— Eu trabalho aqui — respondeu automaticamente, levantando-se e indo até o balcão. Voltou alguns minutos depois e não me olhou nos olhos. — Não acredito que seja a única coisa que você saiba fazer.
Outra garçonete veio à nossa mesa e deixou um café em frente a Isabella.
Vendo o meu pedido em nossa mesa a fome me tomou novamente. Comecei a comer e pensei em não respondê-la.
O silêncio não era confortável e notei que ela esperava minha resposta.
— Por que você se importa? — perguntei de repente.
— Porque vejo em você, o que eu poderia ter sido. — Eu prendi seu olhar. — Merece uma chance de melhorar. De tentar algo novo Edward!
Ela estava mesmo falando sério? Queria me ajudar?
Botei um pedaço de panqueca com calda de frutas vermelhas na boca e me perdi em lembranças.
Quase a minha vida toda nunca tive uma pessoa que pudesse contar, nem meus pais, que tinham me abandonado quando ainda era uma criança. Fiquei na casa dos meus tios até os quatorze anos. Porém, minha vida virou do avesso quando os dois morreram em um acidente aéreo. Não tinha mais ninguém nesse mundo, apenas uma "criança" abandonada. Por sorte, dinheiro não foi problema, até o governo liberar todas as contas que mesmo após a morte, permaneciam.
Resultado? Falido!
A grande casa onde morava foi hipotecada e vendida, dinheiro virou areia em meus dedos. Fiquei sozinho, perdido e sem nada.
Meus tios me educaram muito bem e sempre diziam "Não pense que não há uma salvação, não importa o quanto ruim esteja" Mas quando eles se foram não havia ninguém para me "salvar", uma mão estendida ou uma palavra de apoio, eu não tinha nada. Não havia uma segunda chance pra mim.
E agora aos vinte e dois anos eu conheço essa garota e ela me oferece ajuda? Isabella estava se mostrando uma pessoa diferente e totalmente inesperada.
Não tive ajuda ou propensão há algum futuro decente. Não sabia o motivo, mas queria contar com ela.
Fosse lá o que Isabella estivesse aprontando, eu estava disposto a aceitar. Até porque, não tinha para onde ir e também não sabia o que fazer agora. Não tinha exatamente um motivo para viver, apenas ficar vivo. Mas antes de aceitar qualquer que fosse a sua oferta, teria que me certificar de que não a atrapalharia. Eu conhecia Charlie e depois de ver o que ele fazia a ela, não queria ser mais um problema.
Algo me atraía nela, algo não. Ela toda! Ou talvez fosse apenas a falta de alguma pessoa que pudesse contar ou simplesmente ter a companhia. Porém, algo me dizia que havia mais do que uma simples necessidade de companhia. Era incrível como de meses em meses nos encontrávamos. Chegava a ser estranho.
Desde que meus tios morreram, só tive um amigo confiável e o fim dele não foi dos melhores. Ele era como Isabella, tentava me ajudar e eu me negava, até que, por estar no momento errado, no local errado, foi morto.
Isabella
Não sei de onde saiu tal loucura. Eu queria mesmo ajudar esse cara. Não que eu estivesse em uma posição muito boa, mas pelo menos não estava assaltando ninguém. Ele não podia voltar a fazer isso.
— Edward me responde uma coisa... Você gosta dessa vida?
Ele virou o rosto até encontrar meu olhar, me encarou sério e parecia estar em uma batalha interna. Suas mãos estavam fechadas em punhos sobre a mesa.
Eu suspirei e peguei a xícara de café a minha frente. Ele não ia me responder.
— Não. — Ele disse em sussurro.
Larguei a xícara no mesmo segundo.
— Então deixa eu te ajudar? Mostrar que existe outro jeito?
— Não é tão simples. — respondeu olhando-me e comendo em seguida. —Você sabe disso!
— Não é tão difícil também, Edward.
— Por que você se importa? — perguntou novamente.
— Porque não consigo ver você jogando sua vida no lixo! Vai acabar morto por um tira ou por um bandido. — respondi como se não fosse óbvio. A ideia de Edward morto me incomodava. E ao imaginá-lo morto, eu lembrava de meu irmão. Não queria que Edward tivesse o mesmo destino.
— E daí? Não tenho nada a perder. — disse dando de ombros.
— Sua vida não conta? — perguntei.
— Minha vida de merda? — deu de ombros novamente.
— Você finge que não se importa.
— Eu não me importo. — disse firme.
Bufei e peguei a xícara novamente.
Anda Bella...Pense, pense. O que fazer com esse homem? Sim, eu me importo, o cara está totalmente perdido, sem rumo, sem um porquê na vida.
Suas atitudes de indiferença não me afastavam, era tudo uma máscara. Eu já havia sofrido mais do que gostaria e via o sofrimento nos olhos de minha mãe toda noite. Sabia reconhecer muito bem quando a dor estava presente em uma pessoa.
Eu queria poder ajudar minha mãe, mesmo ela nunca me querendo inteiramente, nenhum ser humano merecia ser tratado assim. Passar por isso… Meu pai não dá descanso uma só noite. Charlie está sempre bêbado e o bom é que não fica agressivo nem nada. Parece um bebê, chora por tudo e não para em pé. A parte agressiva, ficava mais pro lado verbal. Se é que isso poderia ser considerado bom. Renée sempre esperava por ele na varanda, chorando, olhando para o nada. Toda bendita noite! E ele nunca voltava. Ela ia buscá-lo e com toda a paciência, cuidava dele. Era um ciclo fodidamente vicioso.
Percebi que estava parada, olhando para a xícara em minhas mãos. Levantei o rosto e Edward estava observando cada movimento meu.
— O que foi? — Perguntei incomodada. Ele não disse nada, apenas continuou olhando. — Para onde você vai?
— Eu não sei Isabella — sua voz com um tom mais rouco disse.
— Pois precisa saber! — respondi já incomodada de como "Isabella" soava sexy saindo de seus lábios. Esse homem me desconcentrava.
— Isabella...Meu destino é um mistério, não tenho para onde ir. — respondeu como quem não liga, terminando de comer.
Pense Bella, pense. Para onde mandar esse homem?
Quem seria tão louco quanto eu de acomodar um estranho em sua casa? E ainda com a minha família problemática? Não daria certo Edward lá em casa...
Sorri um pouco, finalmente com uma ideia.
— Quer ter para onde? -perguntei olhando em seus olhos extremamente verdes.
Então me abaixei e comecei a remexer em minha bolsa. Catei o celular velho e me levantei já falando ao telefone.
— Bella, pergunta se ele tem ficha na polícia, Não estou afim de esconder ninguém, ele é um gato não é? Porque só pode ser! — Eu rolei os olhos. Alice sempre Alice.
— Para de falar besteira Alice, ele não é perigoso, acha que eu a botaria em risco? E sim ele é gato. — Só aí me dei conta do que havia falado. Olhei para Edward rapidamente e ele não me olhava. Se escutou, não se manifestou.
—Tem certeza? Sendo assim, pode trazê-lo, aproveita e dorme aqui, hoje é sexta e as coisas não estarão bonitas na sua casa.
— E quando elas estão Alice? — Suspirei.
Alice bem sabia como meu pai era, não dava para esconder que minha família era problemática. Tinha uma grande sorte por ter encontrado Alice e Jasper, meus únicos amigos.
— Obrigada, muito obrigada, Alice, eu prometo te explicar tudo.
— Tá, aviso logo, se você não chegar em uma hora eu ligo pra polícia. -rolei os olhos e desliguei.
— Então quer dizer que sou "gato"? — Edward perguntou ainda sem olhar para mim. Um sorriso torto e zombeteiro surgindo em seus lábios.
É, ele havia escutado.
Definitivamente não sabia onde enfiar a cara, senti minhas bochechas esquentarem e desviei o olhar.
Edward pagou a conta e saímos da cafeteria, passando pelo parque, onde nos vimos na última vez.
— Então, vamos? — perguntei ainda corada.
Seus olhos me avaliaram por longos minutos.
— Aonde você pensa que eu vou?
— Vai comigo. — Empinei a cabeça. — E vai deixar de ser orgulhoso, terá onde dormir por uma noite ou até mais. Mas é claro, se você preferir pode ficar aí, os bancos do parque já devem ter se apegado a você. — Cruzei os braços e ergui as sobrancelhas em desafio.
— Não gosto de ser um peso para ninguém, ainda mais para você, que é tão nova e já passa por tanta merda na vida.
— Escute, se você acha que sou uma dessas adolescentes que sonha com riqueza e luxo, fique sabendo que está enganado. Não sou "mimadinha" e nem sonhadora, sei da minha realidade e se estou lhe oferecendo ajuda sugiro que aceite, já que você está mais na merda do que eu. Sobre a minha vida, isso cabe a mim decidir o que fazer com ela. Vamos ou não vamos? — Perguntei já impaciente. Que homem teimoso!
Edward me fitou intensamente por alguns minutos e com um suspiro veio andando até onde eu estava, sorrindo de canto e dando de ombros.
— Você é bem mandona Isabella — sussurrou meu nome e eu estremeci.
Pelo que havia entendido, aquilo significava que ele viria comigo.
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