Segundas Chances
16 Limites
Notas iniciais
Bella
A minha felicidade estava em jogo.
Desta vez, não se tratava de mim ou Edward, mas sim de Reneé. A mulher que não só aguentou uma vida miserável, como fez escolhas para se tornar livre.
Por anos, julguei minha mãe por sua postura, o que eu via como fraqueza, não passava de força. Ela teve esperança no homem que Charlie um dia foi. Teve esperança que seu amor por ele completaria o vazio que meu irmão, Alec, deixara em cada um de nós.
Passara a admirá-la por tal persistência e também pela desistência.
Tolos são aqueles que só veem coragem em quem resiste. Temos que conhecer nossos próprios limites, o que nos destrói e o que nos faz crescer. Reneé resistiu até o último minuto e viu que era a hora de se reinventar.
Noivou, viajou, permitiu-se gostar de outro alguém. Permitiu-se ter mais esperança na vida.
E agora estava presa. Presa com aquele que a levara ao limite. Aquele Charlie que já não conhecia.
Que tipo de pessoa eu seria se virasse as costas para ela?
Eu não podia. E Não iria.
Reneé não passaria por isso sozinha e Edward via a decisão em meus olhos.
— Bella, a polícia está na cola deles. Ela será achada. — disse com o rosto inexpressivo.
Ele sabia a verdade tanto quanto eu.
— Quando a polícia foi capaz de nos ajudar, Edward? — falei com ironia.
Seu rosto se retorceu em uma expressão de agonia e o silêncio pairou no quarto. Qualquer palavra a ser dita, perdeu-se quando meu telefone tocou.
Número desconhecido.
Com o rosto tenso e as mãos apertadas, deslizei meu dedo pela tela, botando no viva voz.
— Alô?
— Já faz algum tempo que não escuta sua voz, Isabella. Mas, posso dizer que está igual.
Sim, eu conhecia muito bem o dono daquela voz, bem demais.
— Onde ela está, Charlie?— disse em tom calmo, enquanto sentia meu corpo tremer.
— Está quietinha aqui. Devo dizer Isabella, sua mãe está ainda mais bonita do que eu me lembrava.
— Não encoste nela! — gritei. — Não se atreva!
Mal acabara de gritar e a risada de Charlie soou pelo aparelho em minhas mãos.
— Ops...Tarde demais.
Eu não entendia como uma pessoa poderia ser tão asquerosa e ainda brincar com isso. Charlie era famoso por dizer coisas sem sentido e eu não sabia se poderia mesmo acreditar em suas palavras.
— O que você quer?
— Você, garotinha. Nós temos uns assuntos familiares pra resolver, não acha?
Charlie não falava desta forma há muito tempo, com tal clareza e estabilidade. Todas as lembranças que tinha dele, vinham acompanhados de cheiro de bebida barata e palavras arrastadas. O que significava, que agora ele estava sóbrio e perfeitamente ciente do que falava.
— Por que eu iria até você?— indaguei.
Edward que até então estava quieto apenas escutando, andou até mim e de maneira bruta, arrancou o telefone de minhas mãos.
— Fique longe dela, está entendendo? Você não vai encostar um dedo na Bella! — gritou e encerrou a ligação, jogando o aparelho em cima da cama.
Eu não estava acreditando! Não estava mesmo!
Edward simplesmente havia desligado o telefone sem se importar com o que Charlie tinha a dizer! Reneé claramente estava em suas mãos, o que mais podíamos fazer além de escutar?
— Por que, você fez isso? — gritei, olhando-o de forma firme.
— Como ele conseguiu seu número, Bella? Como ele pegou a sua mãe? Como ele pode estar tão perto?! — grunhiu. — Eu vou ligar pra polícia, nós não podemos correr mais riscos.
Andei até a cama, pegando o aparelho celular.
— Mais riscos do que minha mãe está correndo? Você está maluco se acha que vou ficar sentada esperando que alguém a salve! Nós precisamos saber o que ele quer!
Edward passou as mãos pelo cabelo nervosamente e andou freneticamente pelo quarto, parando para me olhar, minutos depois.
— Tudo bem, nós vamos saber o que ele quer, mas eu vou cuidar disso. Eu! Você ficará longe, entendido?
Porra sim, eu entendia seus motivos para tentar me afastar de toda a confusão, entendia sua irritação e seu descontrole, mas isso não resolvia nada. Nós precisávamos de informações e não fazia sentido algum eu ficar sentada enquanto esperava alguém ir atrás de Reneé. Principalmente se tratando de Charlie, que ninguém conhecia melhor do que eu.
Sem responder, me sentei na cama, apoiando minhas costas na cabeceira. Eu não discutiria com Edward, simplesmente não valia a pena rebater algo que para mim já estava decido.
— Nós precisamos ajudá-la. Precisamos. — disse a ele que se aproximou e sentou–se ao meu lado, segurando minhas mãos trêmulas.
— Nós vamos. Mas, não adiantará nada se não formos espertos.
Desviei meu olhar do seu e olhei para o celular.
Charlie tinha que ligar outra vez ou poderia ser tarde demais para Reneé.
Três horas depois.
Charlie não ligara novamente e eu estava mais que apavorada. Como poderia pensar em ajudar minha mãe se não sabia onde ela estava e o que queriam?
James, na certa, também estava envolvido e eu esperava que Reneé não estivesse passando pelo que eu passei.
Uma dor de cabeça insuportável me acompanhara nas longas três horas de espera. Eu não podia desgrudar do telefone até ter alguma pista e não iria. Charlie não era idiota o suficiente para desistir de tudo por uma ligação interrompida, tinha certeza que era só uma questão de tempo.
Edward estava na parte de baixo da casa, conversando com os policiais envolvidos na denúncia sobre o sumiço de Reneé. Ele se recusava a sair de casa e me deixar sozinha e eu o entendia.
Cansada de ficar sentada e sentindo o que seria o começo de uma bela dor nas costas, tentei me acalmar. Sim, eu sabia que seria em vão, mas deveria tentar pelo bebê agitado em meu ventre. Afinal, ele sentia o que eu estava sentindo.
Cantarolei músicas infantis durante minutos e deixei meu corpo relaxar, afastando meus pensamentos de qualquer estresse.
Teria funcionado, se meu telefone não vibrasse no exato segundo do término de uma das canções.
Havia recebido uma mensagem de texto.
Espero que seja esperta, Isabella. Sua mãe não foi.
Quase em seguida, outra chegou.
Meu problema não é com ela. Eu a soltarei se você vier. Sem o Edward, sem a polícia. Só eu você e a Reneé. Você entra no carro e ela saí.
Respirei fundo e esperei.
Uma bela reunião de família, não acha? Encontre-me na antiga lanchonete onde você trabalhava, em duas horas. Um carro irá buscá-la.
Me surpreendia que Charlie sequer lembrasse onde já trabalhei.
Venha sozinha, garotinha. Ou o que é entre eu e você, virará problema de Reneé também.
E com isso eu soube que as mensagens haviam acabado. Eu tinha tudo que precisava para tentar salvar Reneé, só precisava de um plano e uma forma de sair sem Edward perceber.
***
Eu não era idiota, e assistira filmes demais para protagonizar uma daquelas garotas tontas que corriam para a morte sem pensar.
Sim, eu tentaria salvar Reneé a todo custo, mas tinha a vantagem de poder me preparar.
A partir das mensagens, concentrei-me em montar um plano. Eu precisava sair de casa sem Edward perceber e também arrumar uma forma de não ir inofensiva para o tal ponto de encontro.
Edward falava alto com os policias na parte de baixo da casa e isso era bom, pois ele não atrapalharia o que eu precisava fazer.
De maneira calma, tentei ser racional sobre a melhor opção e uma vez decidida, comecei a preparar tudo; Troquei de roupa, escrevi uma carta, peguei meu canivete e uma embalagem fechada que mantinha dentro do closet para casos de emergência.
Com pesar, deixei minha arma para trás, na certa me revistariam e não seria esperto mostrar que eu havia adquirido habilidades marciais e com armas, logo de cara.
Com tudo pronto, preparei-me para parte mais difícil. Eu não me referia a sair da casa sem ser vista. Esta era a parte fácil. Eu me preparava para largar Edward. Preparava-me para lidar com o que faria a seguir e o quanto aquilo o deixaria louco de preocupação.
A única coisa que me acalentava era que eu sabia que essa era a melhor escolha. Charlie só deixaria Reneé ir, se eu fosse. Era simples assim. E mais simples ainda, era saber que a probabilidade de nós duas ficarmos presas era alta. Eu estava preparada para isso e sabia que essa era a melhor chance que eu e minha mãe podíamos ter, ficar juntas para fugir.
Eu entendia os riscos e montara o melhor plano que pudera pensar para eles. Se seriam suficientes, era o que descobriria.
Com um último suspiro, deixei uma bolsa com alguns objetos em cima da cama, acompanhado de uma carta curta.
Abri a porta da varanda da nossa casa e andei por toda a área externa, contornando a casa. Sabendo que Edward e os policiais estavam na sala de estar, não era difícil pegar a saída contrária. Entrei em um dos quartos de visita que tínhamos e desci as escadas, olhando de longe para a porta da sala de estar. Tentando fazer o mínimo de barulho possível, saí pela porta da cozinha e andei todo o jardim até o portão de trás, onde geralmente saíamos com os carros. Com uma última olhada, fechei o portão atrás de mim de forma silenciosa, andando até o ponto de táxi que havia na esquina.
Esperava que Edward entendesse.
Esperava que ele fizesse o que estava na carta.
E mais ainda, esperava que ele entendesse que estava fazendo aquilo não só por Reneé, mas por ele, por mim e por meu filho.
A partir daquele momento, eu tinha uma hora para voltar ao meu antigo bairro e reencontrar Charlie.
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