Segundas Chances
17 Culpa
Notas iniciais
Segundas Chances — Capítulo 17 – Culpa.
Bella
Era estranho como a mente divagava por assuntos aleatórios quando estávamos prestes a ir de encontro a uma situação enervante ou de extrema importância.
Estava vivendo um conflito, entre pôr a mim e meu filho em perigo e salvar a minha mãe. Sim, eu tenho bastante amor próprio, porém se tratando do bebê dentro de mim e de Renée, logo chegava a conclusão que era a menos importante. Não se tratava de exageros e sim de prioridades.
Não achava justificativa suficiente para os riscos que estava prestes a correr. Mas, achava sentido, razão e dever. Eu protegeria os dois e pedia um pouco da compaixão de Deus para isso.
Não tinha o costume de ir a missas ou fazer as tradicionais rezas. Eu apenas conversava com o que achava ser uma força maior que eu. Sempre achei de um profundo egoísmo aqueles que se achavam os mais superiores e corretos.
Eu não era superior a ninguém e clamava não só a mim mesma, mas a essa força poderosa que sabia e sentia, existir, que me ajudasse.
Eu queria minha mãe em segurança e também ao meu filho. Esperava que Edward fizesse o que pedi na carta e não por capricho, mas sim por necessidade.
Ele me entenderia, ou ao menos, tentaria. Isso eu sabia.
Edward
Eu me perguntava como as coisas podiam se complicar tanto de uma hora para outra. Mas, a verdade é que não importava. Tentar achar justificativas para problemas era tão inútil quanto tapar o sol com uma peneira. Era preciso resolver. E Bella não havia perdido tempo.
Deveria confessar minha admiração por ela, a vida toda fora testada e subjugada pela vida e mesmo assim seguira em frente e com uma força extrema. A questão é que ela me deixava louco quando fazia isso. Era preciso ser racional em questões delicadas e apesar de impulsiva, ela usou a racionalidade.
O quarto estava vazio, poucas coisas foram deixadas na cama. E uma delas, era uma carta, um simples pedaço de papel dobrado ao meio. Eu gostaria de negar o que estava acontecendo, mas a verdade, é que o ambiente vazio, já dizia por si só.
Desdobrei o papel e ali estava a letra dela.
“Primeiramente, eu sinto muito. Gostaria que houvessem outras opções, mas nós dois sabemos que era tudo ou nada e eu simplesmente não poderia conviver comigo mesmo, se deixasse Renée com Charlie.
Você queria resolver isso sozinho. E eu tenho uma ideia melhor, vamos resolver isso juntos. Como sempre deve ser.
Estou indo ao encontro de Charlie, ele marcou comigo na antiga lanchonete onde trabalhei. Provavelmente não será gentil, irá se livrar do meu celular e me amarrar durante todo o caminho. Não tenho a ilusão de que ele soltará Renée, como me prometeu.
Estou levando meu celular escondido em meus tênis, enquanto deixarei um reserva para ser descartado por Charlie. Rastreie. Precisaremos de ajuda, mas ao menos terei dado uma chance a Renée de ser protegida.
Entenderei se jamais me perdoar, mas devo ser sincera ao dizer que não faria nada diferente. Todos merecem segundas chances e estou dando a minha mãe o mesmo que ela me deu quando se afastou.
Chance de se renovar, libertar e crescer.
Com amor,
Bella.”
Eu estava furioso, completamente incrédulo com o que acabara de ler. Porém tinha pouco tempo e rapidamente fiz a única escolha que poderia fazer, seguir o plano de Bella.
Eu não sabia quantas pessoas poderiam estar no local onde Renée estava sendo mantida, então Bella tinha razão em não me levar junto, eu precisaria de reforços e mais experiência do que tinha.
Peguei meu celular e disquei o número já conhecido.
— Roger? Preciso de Will, rápido!
Renée
Meus olhos vendados eram a única coisa pela qual agradecia, era reconfortante não ver o local que por horas, meus gritos ecoaram.
Sim, eu já fora vítima de abuso sexual antes, Charlie havia feito questão de repetir o quanto sentia saudade de meus gritos e arranhões. Ele não fugia das minhas unhas longas, de meu choro copioso e os gritos que eventualmente soltava. Ele apreciava, gemia e ria, como se aquela pudesse ser a melhor sensação do mundo.
Cada estupro era diferente, as sensações nunca se fixavam. Sentia-me suja, injustiçada, ameaçada, amargurada e vingativa.
E às vezes, não sentia nada.
Não havia choro. Gritos ou revolta.
Apenas o nada.
Uma vez, um psicólogo havia me dito que isso era chamado de choque. Mas eu não me sentia em choque.
Eu não sentia nada.
Como pudera ousar pensar que não passaria por isso de novo? Como ousava pensar que a culpa era por algo que havia feito ou dito? Ou por uma roupa?
A ignorância por muito tempo, foi o caminho mais fácil, o preconceito em cima de mulheres que convivia.
Mas agora eu não era a mesma mulher que viveu em um relacionamento fracassado e abusivo no sentido psicológico e físico, não. Eu havia me reerguido, me permito ter esperanças e ter um pouco de felicidade. Eu havia conhecido a sensação de se libertar da dor e sabia o que era um estuprador.
A culpa jamais poderia ser minha em ser uma vítima. A culpa jamais seria minha e era importantes manter em minha própria mente quem eu era. Quais eram os meus erros e acertos.
Sendo assim, havia assumido a postura de que não seria como a última vez. Eu não teria nojo de mim mesma e sim orgulho, de ser uma lutadora contra os monstros da minha vida. Fossem eles físicos ou mentais.
Meus pensamentos foram interrompidos quando minha audição aguçada, por conta dos olhos vendados, logo captaram a voz de Charlie.
— Você é mesmo burra se achou que eu deixaria Renée partir. Vocês duas são minhas e um verdadeiro homem, educa e pune sua própria família quando necessário.
Eu gostaria de achar que Charlie era louco, ou algo do tipo. Mas, ele não estava doente. Estava sendo ele mesmo, uma consequência de uma sociedade machista e retrógrada. E isso para mim, nunca seria correto ou aceito.
— Aproveite sua estadia, Isabella, ela será bem curta. — ele disse em tom raivoso.
— Com certeza, será. — ouvi a resposta de Bella e passos se afastando.
— Mãe? — sua voz trêmula soou pelo galpão.
— Bella?
— Sou eu. — Sua voz se aproximou.
Tirei o pedaço de pano sujo que cobria os meus olhos e lá estava, minha filha com um olhar apavorado para minhas roupas rasgadas.
Olhando-a, finalmente entendi o que ela havia feito e fitando sua barriga proeminente, sucumbi a tristeza. Eu poderia lidar com aquilo sozinha, mas não era capaz de lidar que agora minha filha e meu neto também estavam em perigo.
Edward
Will não havia demorado em sua tarefa de rastrear o celular de Bella. Minha vontade era correr para o tal lugar, porém precisei me manter firme na decisão de oferecer o máximo de suporte para o resgate de Renée e Bella.
Precisei ter paciência com a polícia, que não queria me seguir para o endereço encontrado e sim fazer uma operação “sem civis ou seguranças privados” felizmente o policial Carter que acompanhava o caso de Bella há tempos, resolveu.
Cada minuto que perdíamos, poderia ser um risco para elas. Mas precisei segurar o nervosismo e a fúria para o bem de todos. Estávamos agora, seguindo para o endereço que de acordo com Roger, era um antigo galpão abandonado.
Eu gostaria que pudéssemos ir mais rápido, porém já estávamos ganhando passagem limpa, por conta da polícia.
Não era como nos filmes, onde tudo acontecia em um piscas de olhos. A vida real era assustadora e feita de escolhas.
Eu escolhera sobrepujar meus instintos protetores e fazer exatamente o que Bella pedira, só esperava que esta escolha não se tornasse também, o meu maior erro.
***
Os carros estacionaram sem ordem alguma, eram duas viaturas, cada uma com quatro policiais. Meus seguranças viam em um carro, atrás do meu.
Peguei minha arma no porta-luvas e a segurei firme. Esperava não precisar usá-la, mas também não pensaria duas vezes se precisasse defender alguém.
Saí apressado, batendo a porta com demasiada força, ouvindo gritos e alguns tiros do lado de dentro. A polícia havia cercado todas as possíveis saídas e pelo visto, eu estava certo ao pensar que Charlie e James não estavam sozinhos.
Após uma sequência de tiros, o policial Carter entrou. Ignorei a ordem de aguardar do lado de fora e corri até a entrada, não ouvindo mais barulhos algum. Ao entrar, dei de cara com uma das cenas mais chocantes da minha vida.
Charlie estava deitado de bruços, com uma ferida exposta e sangrenta na parte de trás da cabeça.
Renée estava desmaiada, próximo ao corpo de Charlie, assim como Bella.
Bella não moveu um só músculo quando me aproximei correndo. Em desespero, levantei seu rosto até ficar deitado em minhas pernas e assim que Carter ascendeu as luzes do galpão, eu vi cerca de três corpos. Um deles era James e havia sido morto por um dos policiais.
Ignorei o corpo do meu ex- parceiro de crime que havia causado tanto sofrimento em minha mulher e me foquei no que realmente importava.
Virei o rosto de Bella em minha direção e não pude acreditar. A pele antes perfeita, agora estava lotada de queimaduras assustadoras.
Todo o cenário parecia uma maldita cena de filme de horror. E eu só conseguia me perguntar, o que diabos havia acontecido ali.
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