Segunda-Feira
27 Réu Confesso
Notas iniciais
O café que tirava meu sono talvez tivesse aquela última gota de amor sobrevivente, umas colheres de vontade e o açúcar da confiança, que me obrigava a misturar tudo e transformar em doce até mesmo as lembranças mais amargas, me fazendo pensar que poderia ser diferente. Tudo poderia ser diferente se algumas coisas mudassem, mas tantas coisas precisariam mudar que chegava a ser tolice continuar pensando assim.
—Senhora? — com um suspiro cansado, ergui a cabeça para fitar o garçom se aproximou. —Seu taxi chegou. – informou educadamente.
—Ah, obrigada. – agradeci ao favor, antes de retirar o cartão da bolsa e pagar a conta. Ele me ofereceu um sorriso simpático quando a operação foi aceita e se retirou após pedir licença.
Eu costumava pensar que de tanto abaixar a cabeça a gente acaba tropeçando e desistindo de olhar pra frente, para um caminho melhor e mais bonito; achava também que de tanto trancar as coisas no armário, um dia a porta vinha abaixo, como nos desenhos animados, quando escondem a bagunça lá dentro e a porta arromba, causando uma bagunça ainda maior.
E mesmo assim, mesmo com todas as minhas convicções, com a minha personalidade, meus sonhos, meus princípios, meus gostos, acabei dando um esbarrão violento com tudo aquilo que eu mais detestava e o estrago estava sendo ainda pior.
Não conseguia reconhecer aquela Isabella de antes. Aquela mulher forte, decidida... Feliz. Era um estado atípico que alterava até a forma como eu me relacionava comigo mesma, com os outros e com o mundo. Era como se toda a minha visão estivesse afetada negativamente. Para todo o lugar que eu olhava, só conseguia enxergar escuridão.
Seria muito fácil colocar a culpa toda em Jacob e então odiá-lo com todas as minhas forças, mas para ser sincera, eu conseguia me odiar muito mais, porque se as coisas tinham chegado até esse ponto, era porque eu havia permitido. Réu confesso.
Quem cala consente. Aquilo era a mais pura realidade e eu havia consentido que toda aquela areia pesada caísse sobre a minha vida.
E agora, já era um pouco tarde para tentar me proteger, já estava soterrada até a cabeça.
O dia começava a se despedir quando saí da pequena lanchonete. Cafe Sabarsky. Um sorriso nostálgico ameaçou surgir em meus lábios. Aquela lanchonete me trazia boas lembranças, que claro, eram todas ligadas a Edward.
O sorriso espontâneo e feliz que queria aparecer, sumiu, dando espaço para um riso cítrico. Era incrível como pensar em alguém me fazia sentir tanta coisa diferente.
—Boa tarde. – o senhor de cavanhaque grisalho fez questão de cumprimentar.
—Boa tarde. – respondi antes de fechar a porta com uma batida leve.
—Para onde vamos? – seus olhos escuros me fitava através do retrovisor e demonstraram compreensão quando lhe passei o endereço.
Cansada, soltei o ar pela boca e recostei minha cabeça na janela.
—Vou te dar um tempo para resolver tudo isso. Só para você ver que eu não sou tão ruim assim.
A voz de Jacob ainda estava viva dentro da minha cabeça, assim como aquele seu riso escárnio que o acompanhou durante todo o tempo que estivemos juntos.
—Mas não ache que vai me enrolar, porque se eu notar isso, não pensarei duas vezes antes de agir.
Seu divertimento ficou bem claro e aquilo já nem me surpreendia mais.
Ele estava disposto a tudo, já não havia mais razão em suas palavras e ações. Era exatamente aquilo que me assustava. Era o medo de que ele fizesse algo contra as pessoas que eu amava, que me fazia recuar e aceitar suas condições.
Não podia permitir aquilo, jamais ia se quer considerar a opção de deixar que Edward, Renée ou algum dos meus amigos corresse perigo. Se alguém tivesse que se sacrificar, esse alguém seria eu.
O turbilhão de sentimentos que residia dentro de mim, me sufocava. Queria gritar, chorar, esmurrar alguém até perder todas as minhas forças. Era isso que o desespero, a tristeza, a raiva, a angustia, me fazia desejar. Mas, contrariando todos os meus instintos, apenas suspirei profundamente. O ar da rua movimentada entrou por meu nariz, percorreu minhas veias pulmonares e então, escapou por meus lábios aquecendo a frente do meu rosto.
Sentia um cansaço tão grande, era como se cada um dos meus músculos estivessem esgotados e só pedissem por um descanso. Um descanso de todos aqueles problemas.
O iPhone começou a vibrar na minha mão assim que entrei no elevador. Agora era Alice, mas já havia recebido inúmeras ligações de Edward, Renée e até de Vladmir. Eles estavam preocupados, sabia que estavam e também sabia que ia ter que dar boas desculpas por ter praticamente sumido o dia todo.
Recostei a cabeça na parede fria do elevador. Às vezes, tudo o que eu queria, era desaparecer.
Quando o elevador parou no meu andar, precisei respirar fundo várias vezes. O medo de que eles descobrissem ou simplesmente desconfiassem de mim, me corroía por dentro.
Com passos trêmulos e hesitantes, caminhei até a porta do meu apartamento. Abrindo a boca, tomei um grande gole de fôlego, como se fosse coragem ao invés de ar.
Assim que abri a porta e entrei em meu apartamento, as conversas cessaram. Cerrando os olhos procurei a direção de onde elas estavam vindo. Até vê-los reunidos.|
Edward, Embry, Renée, Phil e Vladmir. Todos reunidos na minha sala de estar, que agora parecia um pouco mais séria do que de costume.
Engoli a seco, e enquanto meus olhos varriam os semblantes neutros, me aproximava com passos temerosos.
—Aconteceu alguma coisa? – minha voz demorou um pouco para sair, precisei pigarrear e mesmo assim, meu timbre ainda falho entre as sílabas.
Eles se entreolharam aumentando ainda mais o suspense. Meu coração batia desesperado dentro de mim.
—Ótima pergunta. – Renée quebrou aquele silêncio incomodo. —Aconteceu alguma coisa? – as sobrancelhas arqueadas e a postura firme me indicaram que havia uma coisa errada. Renée raramente ficava séria assim.
—Como assim? – mordisquei meu lábio inferior, minhas pernas tremiam ameaçando perder o equilíbrio a qualquer momento. Com medo, desviei o olhar de Renée e passei por cada um dos presentes ali na sala. Sentado em um dos sofás Phil mantinha os lábios contraídos e me observava por baixo dos cílios, Embry de braços cruzados exibia uma postura séria e um tanto quanto preocupada, ao seu lado, Vladmir me encarava fixamente, os olhos neutros não me deram pista alguma do que estava acontecendo.
Respirei fundo e precisei engolir a seco, antes de olhar para a última pessoa presente na sala. Era ele, Edward. Estava de pé, mais afastado dos outros. As mãos nos bolsos do jeans escuro não refletiam a mesma leveza de sempre. Ele estava sério. Mais do que isso. Edward estava incomodado, preocupado, tenso.
—Nós sabemos que foi se encontrar com Jacob hoje, Bella. – a voz de Renée rompeu o silencio imaculado da sala, mas não aliviou em nem um pouco a situação.
Senti o mundo parar a baixo dos meus pés, com a mesma brutalidade que um carro em alta velocidade freava em uma estrada. Precisei me apoiar no aparador de vidro, que diante o bruto contato quase cedeu ao meu peso.
Nós sabemos que foi se encontrar com Jacob hoje, Bella.
Repassei cada uma das suas palavras, buscando um erro na frase ou qualquer coisa que me mostrasse que eu havia entendido errado.
Nós sabemos que foi se encontrar com Jacob hoje, Bella.
Não. Não havia erro. Era aquilo mesmo. Eles sabiam.
Um misto de sentimentos estranhos me deixou alheia a tudo ao meu redor. Por um lado eu queria chorar de desespero, mas por outro, só queria respirar aliviada.
—Me desculpe, baby. – o timbre de Embry ecoou para dentro dos meus ouvidos. —Fiquei realmente preocupado com você mais cedo e depois que recebeu aquele telefonema... – ergui os olhos até os seus, esses que se mantiveram firmes, me mostrando o quanto ele estava sendo sincero. —Você sabe o quanto eu me importo com seu bem estar e o quanto eu amo você. – dando um passo em minha direção, ele fez um breve pausa. —É por isso que eu não podia deixar você sair daquele jeito, sozinha e desamparada... Não é isso que um amigo deve fazer.
Suas palavras pareciam ondas bravas que vinham em minha direção e se chocavam contra o meu corpo em plena fúria.
—Você... Me seguiu? – minha voz saiu tão baixa, que por um tempo, duvidei que ele tivesse escutado.
—Segui. – assumiu meio envergonhado, porém não demonstrava um pingo de arrependimento. —Você já estava mal antes de receber aquele telefonema, mas depois que atendeu ao celular você saiu de si. – falou antes de respirar fundo. —Bella, eu fiquei ainda mais preocupado e quando vi você tomando um taxi... Soube que havia algo errado. – Embry soltou o ar pela boca e então olhou para o lado, meus olhos seguiram a mesma direção que a sua até parar em Vladmir. —Vlad e eu fomos atrás de você. – seus olhos voltaram para mim. —Acho que estava tão perturbada que nem notou que nós estávamos te seguindo e por sorte, Luke, o maitre do bistrô onde você foi, é um velho conhecido meu e permitiu que nós dois entrássemos para ver o que que estava acontecendo.
Num estado letárgico e perdido me sentia como se tivesse sendo levada pela corrente forte de um rio e não existisse nada onde fosse capaz de me agarrar. Eram muitas informações, muitos fatos e o pior de tudo, eu não tinha o menor direito de brigar com eles ou se quer de achar ruim.
—Nós precisamos fazer isso, Petit. – Vlad murmurou baixo. —Não vamos deixar você passar por isso sozinha.
—Bella, o que está acontecendo? – parecendo um pouco mais calma, Renée me perguntou. —Porque foi se encontrar com Jacob?
Boquiaberta, encarei minha mãe. Eu queria fazer tanta coisa. Andar até ela, me refugiar no seu abraço e esquecer de tudo o que estava acontecendo. Mas não conseguia sair do lugar, não conseguia, se quer, dizer alguma coisa.
—Ele está ameaçando você, não está?
As coisas estavam ruins, eu sabia que estavam, mas só reparei que estava a um passo do precipício quando Edward se pronunciou pela primeira vez. Eu o olhei e senti como se todo o peso do universo estivesse contra os meus ombros.
O medo me deixou sem ar, toda comprimida por dentro.
Ter noção de que Edward estava sabendo sobre Jacob, era o pior fato apresentado ali. Porque eu sabia que aquilo tinha um peso maior para ele do que para os outros.
—Está. – confirmei, retomando aos poucos o controle do meu corpo. O desespero me deixou com a garganta seca. Edward apertou os olhos e a boca, abaixou a cabeça e pareceu respirar fundo várias vezes.
Me aproximei alguns passos dele, naquele instante, tudo o que eu queria era esclarecer as coisas com Edward.
—Eu juro que eu não queria que as coisas estivessem assim. – minha voz tremulou entre as palavras. —Mas Edward, acredite em mim, eu não tive escolha. – aquilo foi praticamente uma súplica.
Ele me encarava quieto, mal piscava. Era difícil saber o que ele estava pensando, até seus olhos estavam neutros naquele momento.
Caminhando por minha sala, passei por todos os outros, indo direto até ele. Eu precisava explicar para Edward o que tinha acontecido.
—Jacob me ligou ontem, disse que se eu não me encontrasse com ele, Heidi ia ficar sabendo sobre nós dois. – entreabri os lábios para tomar fôlego e pode continuar. —Fiquei com medo de que por minha causa, você não pudesse mais ajudar seus pais e tivesse que se afastar de A... – o nome morreu na minha boca antes de ser pronunciado.
Por um segundo... Até menos, um milésimo de segundo, eu quase falei demais, e tudo o que eu menos queria e precisava, era revelar um segredo que não era meu.
—Acredite em mim, eu não queria me encontrar com ele. – meus dedos subiram até sua blusa fina, se embrenharam no tecido e o puxaram com certa aflição.
—E porque você não nos contou nada? – Renée perguntou confusa, perplexa, incompreendida. E eu a entendia perfeitamente. —Bella, esse cara é perigoso, você não pode enfrenta-lo sozinha...
—Eu sei que não. – me virei para poder olhá-la, contudo, minhas mãos permaneceram em Edward. —Agora eu sei que foi tolice da minha parte achar que podia lidar com Jacob sozinha, mas...
—Mas? – Vladmir perguntou quando deixei minha frase morrer ali.
—Mas agora, as coisas estão ainda mais fora de controle. – apertei os lábios e fechei os olhos por um momento, buscando até as últimas gostas da minha força para tentar consertar aquilo. —Jacob tirou licença para portar armas de fogo, ele mesmo me mostrou a carteirinha e...
Parei de falar quando Edward se afastou de mim abruptamente. Me virei a tempo de vê-lo dar a volta nos sofás, e ir em direção a porta. Sua postura dura e decidida, me deixou com a espinha gelada.
—Edward? – chamei, dando alguns passos em sua direção. —Edward, onde você vai? – ele não respondeu a minha pergunta, simplesmente continuou seu trajeto até a porta de entrada e saiu do meu apartamento.
Meu coração pulou uma batida assim que sua figura alta desapareceu do meu campo de visão. Onde ele estava indo? O que ele ia fazer?
Estava gélida, trêmula e tonta, mas não ia ficar ali parada, aceitando aquela sensação de estar presa em um sonho ruim. Eu precisava ir atrás dele.
—Edward. – chamei alto, correndo em direção a porta e logo saindo para o corredor. O alívio correu por mim quando o vi parado em frente ao elevador, andando de um lado para o outro, a cabeça baixa, a mão no cabelo... Era difícil dizer como ele parecia estar. Mas uma coisa eu sabia, Edward não estava bem. —Edward...
—Eu vou acabar com aquele desgraçado. – sua voz saiu crispada e fria, o que fez com que meus passos cessassem. —Eu vou fazer ele pagar por isso... Vou ensiná-lo a ser covarde... – continuou com raiva.
—O que está falando?
—Já cansei disso, Bella. – erguendo a cabeça, ele olhou nos meus olhos.
Nunca tinha visto aqueles lindos olhos azuis reluzirem tanta raiva, tanto ódio e ao mesmo tempo, tanta aflição e preocupação. Aquilo feriu, feito uma lâmina bem afiada que adentra na pele rasgando tudo.
—Já está na hora desse cara ter o que merece. – completou com o maxilar cerrado. —Ele é completamente doente e o pior de tudo, você dá cordas para toda essa loucura dele.
—O que? – perguntei sem entender. —Eu dou cordas? Do que está falando?
Edward bufou alto, pressionou o dedo sobre o botão chamando novamente pelo elevador.
—Dá, você dá corda, Bella. – respondeu duro. —Devia deixado ele contar tudo para Heidi. Eu não me importo de perder o emprego... Tudo o que eu quero, é que você se livre desse tormento. – a campainha do elevador soou alto e um segundo depois as portas se abriram. —Mas isso vai acabar hoje...
—Edward. – segurei em seu braço, assim que ele ameaçou entrar no elevador. —Por favor, não faz isso, Jacob é perigoso.
—Eu também sou, Bella. – ele estava decidido.
—Onde você vai? – sem me responder, Edward entrou no elevador. —Edward... – não tive tempo de impedir que as portas se fechassem e que ele não saísse daquele jeito.
Eu sabia que Edward iria atrás de Jacob e tinha medo só de pensar no que ia acontecer. Jacob era doente, Edward tinha razão e ainda mais armado...
Minhas pernas trêmulas vacilaram um pouco, mas conseguiram me levar para dentro do meu apartamento de novo.
—O que aconteceu? – Renée questionou assim que me viu. —Onde está o Edward?
—Ele foi atrás de Jacob. – o desespero me deixava tonta. —Mãe, nós precisamos detê-lo... Jacob vai machuca-lo. – minha voz tremulou. Pelo canto dos olhos, vi Embry, Phil e Vladmir se aproximarem. —Mãe, por favor...
—Vou atrás dele, posso alcançá-lo antes que ele saia do prédio. – Phil avisou e eu mal tive tempo de olhá-lo, ou consentir, pois no instante seguinte, ele saiu pela porta atrás de Edward.
Me afastei de Renée, ignorando as perguntas e os chamados que eles faziam e me coloquei atrás de Phil, querendo alcançar Edward também. Mas ele já não estava mais no corredor quando saí pela porta.
Pressionei o dedo contra o botão de inox, sentindo o aperto em meu peito ficar ainda mais intenso. Se Edward encontrasse Jacob, as coisas não iam acabar bem e eu jamais ia me perdoar se Jacob o machucasse.
—Bella, fique calma, Phil vai barrar Edward. – Vladmir passou o braço por meus ombros e tentou me confortar.
Engoli a seco correndo a mão pelo cabelo, meus olhos subiram até seu rosto e tentei confiar em suas palavras. No entanto, não conseguia.
—Vladmir, você não entende. – minha voz falhou. —Jacob pode machucar o Edward... Ele, meu Deus... – parei esfregando a mão no rosto. —Ele está disposto a tudo, deixou bem claro que vai fazer de tudo.
—Bella, pense... Nós moramos em Nova York, dificilmente Edward encontrará Jacob. – Embry alisou minha face com carinho, atraindo a atenção dos meus olhos.
Mordendo meu lábio inferior com força, repassei suas palavras. Embry tinha uma certa razão, mas mesmo assim, ainda me sentia apavorada.
—Estou ligando para Alice. – Renée informou se aproximando. —Ela saiu a sua procura com Rosalie. – arrumando a bolsa no ombro com uma mão, ela sustentava o celular sobre o ouvido com a outra. —Ela pode ser útil.
—Quem? – indaguei meio perdida.
—Rosalie, não é, Bella? – Renée rolou os olhos. —Talvez se ela ligar para o Edward, consiga acalmá-lo um pouco. – completou um segundo antes do elevador se abrir a nossa frente.
Apressada, praticamente me coloquei entre o casal de idosos que estavam lá dentro. Ambos me encararam com a face fechada, o nariz de pé e os lábios contraídos. Não liguei, apenas foquei minha atenção nos números do painel que decresciam lentamente.
—Calma, baby, tudo vai acabar bem. – Embry sussurrou ao pé do meu ouvido antes de beijar minha têmpora.
A aflição me corroía por dentro feito ácido. Não conseguia acreditar que nunca havia reparado em como aquele elevador era lento.
Temerosa, contorcia meus dedos, vendo o sangue fugir dos nós formados deixando-os esbranquiçados.
—Phil, tomara que você tenha alcançado ele. – sussurrei baixinho, torcendo para que meu desejo se realizasse. —Alice atendeu? – virei o rosto em direção a minha mãe, que frustrada apenas negou com a cabeça. —Droga!
—Bella, calma. – Vladmir pediu, esfregando a mão em meu braço. —Tenho certeza que Phil está com Edward.
—Vlad tem razão, filha. Vai ficar tudo bem... – as palavras de Renée foram cortadas pela campainha do elevador, que se abriu a nossa frente.
Novamente, não esperei que o casal liberasse minha passagem, simplesmente passei por eles, tentando andar o mais rápido possível até as portas de saída do meu prédio. A noite estava meio fria, o que era algo atípico para aquela época do ano, por outro lado, a rua contemplava o mesmo transito de sempre, intenso e barulhento.
—Onde eles estão? – me perguntei, parada no passeio olhando para todas as direções possíveis. Algumas pessoas passavam por mim, dificultando minha visão e aquilo me deixava ainda mais incomoda. É claro que elas não tinham a menor noção do que estava acontecendo, mas tudo o que eu queria é que todas elas sumissem dali.
—Bella! – a voz de Phil soou meio distante. Girando o corpo, foquei meus olhos no horizonte, até vê-lo correndo em minha direção. —Não consegui... – disse ofegante, assim que parou a minha frente. —Não consegui pará-lo. – apoiou as mãos nos joelhos tentando recuperar um pouco do fôlego perdido. —Ele tomou um taxi e eu até tentei correr atrás do carro, mas... – tomou uma lufada de ar pela boca. —É um carro! – explicou obviamente.
—Meu Deus. – minha voz quase não saiu, o som se perdeu dentro de mim, mas o que eu queria? Que meu corpo funcionasse com perfeição enquanto eu estava totalmente perdida?
—Phil, para onde ele foi? – minha mãe perguntou, parada ao meu lado.
—Ele não me disse, Renée. – Phil retirou o boné da cabeça e coçou a pele raspada. —Só disse que ia encontrar Jacob e fazê-lo pagar.
Rolei os olhos, infiltrando a mão em meu cabelo. O que eu ia fazer? Como eu ia encontrar Edward?
—Sabe, acho que ele tem razão, está na hora desse covarde ter o que merece...
—Pelo amor de Deus! – exclamei interrompendo Phil. —Jacob está armado, ele é louco... Não vai pensar duas vezes para... Para... – não consegui completar a frase. Doía demais. Somente a hipótese já me dilacerava por dentro. —Mãe... – deixando as lágrimas caírem pelo meu rosto, me virei para ela. —Mãe, nós precisamos ir atrás dele...
—Nós vamos. – ela segurou meu rosto com as mãos, exibindo certa dificuldade por estar segurando o celular. —Mas você tem que ficar calma e... – o toque de seu celular a interrompeu. —É a Alice. – informou ao afastar as mãos de mim e encarar a tela do aparelho.
—Deixa eu falar com ela...
—Não, você está muito nervosa, deixa que eu falo. – apoiando a mão na testa, Renée aceitou a ligação.
—Bella, não tem nenhum lugar que ele possa ter ido? – Embry questionou, estava claro em seu semblante que ele também estava preocupado.
—Não sei. – assumi limpando o rosto com as pontas dos dedos. —Não faço ideia de onde ele possa ter ido...
Mordendo a ponta do meu dedo, fitei os carros a minha frente, que andavam em velocidade alta devido ao sinal aberto. Meu coração batia rápido dentro de mim, era uma mescla de adrenalina, com medo e preocupação.
—Bella, Alice está perguntando se Edward sabe onde Jacob mora. – desviando os olhos para Renée, me refiz aquela pergunta.
Edward sabe onde Jacob mora?
Eu realmente não fazia ideia. Nunca havíamos falado sobre o endereço de Jacob, mas é claro que isso não era algo absurdamente difícil de ser descoberto.
—Não sei, mas acho que podemos ir até lá, as vezes...
—Certo. – respondeu maneando a cabeça e voltando a falar no telefone.
—Vou tirar o carro, Petit. – Vladmir informou antes de beijar o alto da minha cabeça e correr de volta para dentro do prédio.
Esfreguei a mão por meu rosto, engolindo seco e implorando para que todo o transito de Nova York estivesse centrado no caminho de Edward.
—Jacob não é idiota de tentar machucar Edward em público. – Embry proferiu passando os braços por mim. —Isso dá cadeia e eu tenho certeza que isso é a última coisa que aquele imbecil quer.
—Espero. – murmurei recostando a cabeça contra seu peito. —Espero mesmo.
—Alice e Rosalie também estão indo para lá. – Renée avisou colocando o celular dentro da bolsa. —Toda ajuda é bem-vinda. – assenti com a cabeça, sem deixar de me sentir envergonhada com o que estava acontecendo.
O que Rosalie ia pensar de mim agora? Que tipo de mulher ela ia achar que eu sou, colocando seu irmão em uma situação daquelas?
Vladmir não demorou a voltar, encostando o carro rapidamente para que pudéssemos entrar. No banco da frente, ao seu lado, ouvia as palavras de conforto de Embry, Renée e Phil, mas a verdade é que eu não prestava atenção em nenhuma delas. Toda a minha concentração estava voltada em Edward e a sua segurança.
—Bosta de trânsito. – xinguei espalmando minha mão no painel de couro.
—Já estamos chegando. – Vladmir respondeu, dobrando a esquerda e entrando finalmente na avenida onde Jacob morava.
Nós nos aproximamos do prédio imponente, grande e espelhado, residido na esquina, e Vladmir não precisou parar o carro entre os tantos veículos luxuosos para eu ver o que estava acontecendo.
Edward e Jacob estavam parados em frente a construção majestosa, ambos muito próximos, se encarando mortalmente. Dava para ver que estavam falando um com o outro e mesmo sem escutar o que, sabia que não eram palavras gentis.
—É Edward ali na frente? – Renée perguntou, apoiando os braços nos bancos e se debruçando entre Vladmir e eu.
—Sim, é. – confirmei soltando o cinto de segurança.
Então, a sensação de estar vivendo em câmera lenta caiu novamente sobre meus ombros. Era como se eu estivesse presa dentro de um sonho ruim, onde eu não tinha voz, nem ação... tudo o que eu podia era ver o desastre acontecer.
Ali, ainda presa dentro daquele carro que mais parecia uma lata lacrada a vácuo, vi Edward erguer as mãos, espalmá-las no peito de Jacob e o empurrá-lo para frente. Jacob cambaleou, sem equilíbrio deu alguns passos para trás e até pareceu meio surpreso com o acontecido, porém eu aposto, que o soco que veio a seguir, o pegou ainda mais despreparado.
Jacob caiu no chão, os olhos arregalados fitaram Edward com um ódio mortal, que me deixou com o estomago gelado. Ele se levantou rápido, e se não fosse pelo cordão de sangue que escorria do seu nariz, eu juraria que ele estava recuperado do soco.
—Vamos, vamos lá... – Phil proferiu alto atrás de mim e aquilo foi exatamente o que eu precisava para sair daquela bolha sufocante.
Maneei a cabeça destravando a porta do carro e saindo do veículo rapidamente, as pessoas já se uniam ao redor dos dois, o que me impedia de ver o que estava acontecendo.
Phil abriu os braços e empurrou algumas pessoas para longe, quebrando aquela “parede” humana que havia se formado e então, pude ver Edward segurando Jacob pelo colarinho da camisa e pressioná-lo contra o muro de pedras escuras.
—Você não passa de um bosta. – Edward disse alto e raivoso. —Se você se aproximar dela de novo, eu juro que te mato, juro mesmo....
—Edward, solte ele. – Phil o puxou pelos ombros, aliviando a pressão que as mãos causavam contra o pescoço de Jacob, que caiu mole e meio pálido no chão.
—Me deixa, Phil...
—Eu sei que você está com raiva e tem toda razão, mas aqui não é melhor lugar para resolver isso. – Edward pareceu ouvir as palavras de Phil e se soltando dele, esfregou a mão no rosto, visivelmente mais calmo.
—Isso não vai ficar assim. – Jacob falou ao se pôr de pé, a mão tentando conter, sem sucesso, o sangramento do nariz. —Não vai ficar assim.
—Não mesmo, pode esperar que o que é seu, está bem guardado.
Os seguranças do prédio se aproximaram, tentaram ajudar Jacob, mas ele os afastou brutamente e fez questão de caminhar sozinho.
Ainda parada entre os curiosos, observei Edward. Nenhum roxo. Nenhuma escoriação. Soltei um suspiro aliviado. Sim, ele estava bem.
Maneando a cabeça, corri em sua direção e não esperei que ele notasse minha presença para abraça-lo com força. Meus braços apertavam seu pescoço enquanto minha boca corria toda sua pele com beijinhos rápidos e fortes.
—Ele não machucou você, machucou? – segurei seu rosto entre as minhas mãos e olhei em seus olhos, que estavam visivelmente mais aliviados.
—Não, eu estou bem. – garantiu calmo, antes de beijar minha testa. Soltei o ar pela boca, beijando seu queixo e voltando a abraça-lo com força.
—Você perdeu o juízo? E se ele atirasse em você? – Embry proferiu visivelmente contrariado.
—Jacob é um covarde, é o tipo de homem que só faz essas coisas sujas as escondidas. – fechei os olhos sentindo seu peito vibrar sob meu rosto.
—Você acabou com o cara... – Phil comentou soltando um riso divertido.
—Não vou negar que eu amei ver aqueles socos. – Renée continuou me fazendo bufar. Erguendo a cabeça, eu os encarei com o semblante fechado.
—Não tem a menor graça. E se Jacob atirasse em Edward? – perguntei sentindo um calafrio correr por minha coluna. —Você se arriscou muito, Edward...
—Isso não teria acontecido se você tivesse me contado desde o início que esse covarde estava te ameaçando. – acusou e eu pude sentir o ressentimento em sua voz.
—Edward, ele ia te fazer perder o emprego...
—Não ligo, Bella. – afirmou sério. —Amanhã nós dois vamos procurar Heidi e contar a ela que estamos juntos.
—Está doido? – indaguei me afastando um passo. —Ela vai nos demitir, você não vai ter como ajudar seus pais...
—Eu arrumo outro emprego num estalo de dedo, Bella. – ele rolou os olhos e eu o segui.
—Mas e a Alice? – questionei apoiando as mãos na cintura. —Você não aceitou esse emprego para ficar perto da sua irmã? Não é justo que você se afaste dela....
—Como é? – a voz doce e delicada, soou próxima de nós dois. Senti meu corpo tremer e meu estomago gelar. —O que você disse, Bella?
Virando a cabeça, vi uma Alice confusa ao meu lado e um pouco atrás, Rosalie com a expressão ilegível.
Ah, droga!
Praguejei mentalmente, sem deixar de me perguntar quando aquela dia ia começar a melhorar.
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