Segunda-Feira
16 Pesadelo
Notas iniciais
Aquela segunda-feira amanheceu diferente. Cinzenta, opaca, sem vida. Pela primeira vez em muito tempo, não animei diante aos recomeços que aquele dia trazia, nem consegui ver o brilho das outras pessoas, quando o céu estava tão sem graça.
Aquela segunda-feira só era um pós pesadelo ou uma realidade ainda mais assustadora.
Dizer que acordei cedo seria bem justo se eu realmente tivesse dormido. Mas, durante toda a madrugada, eu permaneci ali: Deitada na cama, fitando o relógio digital, encarando aqueles números brilhosos como se eles fossem a minha salvação.
Alice permaneceu ao meu lado, firme e forte, com as melhores palavras que poderiam ser ditas. Acho que foi a presença dela que não me deixou desmoronar e ceder novamente ao choro ou a crise de pânico.
Mas no fundo, a única coisa que eu queria, era sumir.
—Vou falar para a Heidi que pegou uma virose. – Alice murmurou quando prendeu o cinto de segurança.
Apenas concordei com a cabeça, encarando um ponto fixo do chão de cimento queimado da rua.
—E Renée já está em casa, prontinha para cuidar de você. – continuou dando a partida em seu carro.
Um calafrio ruim passou por todo o meu corpo. Renée ia me encher de perguntas, ia me por contra a parede e me fazer contar tudo o que havia acontecido.
Eu não queria falar. Dizer tudo o que Jacob fizera, era como reviver cada detalhe e não suportava nem pensar aquilo.
—O que você disse para a minha mãe?
—Que você dormiu na minha casa, passou a noite em claro e não está bem. – sua resposta me fez bufar.
Abaixei a cabeça cobrindo o rosto com as mãos. Estava cansada, esgotada, pressionada, humilhada....
—Ela vai me encher de perguntas, Alice...
—E você vai responde-las. – ela foi firme. —Bella, ela é sua mãe, tem o direito de saber.
Rolei os olhos recostando a cabeça no banco, pelo para-brisas, vi o céu se cortar em um clarão. O cheio de chuva adentrou pelas frestas abertas das janelas com a brisa fresca.
—O problema é que minha mãe não controla a língua. – foi a vez de Alice bufar.
—Acha mesmo que ela vai sair espalhando isso para todo mundo? – seus olhos azulados se voltaram para mim, por um instante. —Bella, ela é sua mãe! Jamais faria isso.
Soltei o ar pela boca murchando no banco. Eu sabia que não faria, minha mãe era a pessoa que eu mais confiava no mundo, mas dizer aquilo a ela... Sabia que o que havia acontecido, a machucaria demais.
Renée dera o sangue para me criar, fez os maiores sacrifícios para me dar uma boa educação, formação, sempre me passara os melhores conselhos, me induzindo a ser uma mulher forte e autossuficiente... E agora, eu me encontrava nessa situação. Violentada pelo próprio noivo.
—Ela vai ficar tão decepcionada comigo. – sussurrei fazendo uma força absurda para não chorar.
Alice freou o carro em frente ao semáforo que indicava o sinal o vermelho. Encarava o carro à nossa frente, mas mesmo assim, pude sentir a perplexidade que seu olhar transmitia.
—Decepcionada com você? Porque?
—Porque eu deixei que as coisas chegassem até.... – parei diante os fatos. —Você sabe. – minha voz estava falha, o ar já se recusava a ficar dentro dos meus pulmões.
Apoiei as mãos nos bancos do carro, arrumei a postura e abaixei ainda mais os vidros.
Respira. Respira fundo.
Proferi mentalmente, a mim mesma.
—Pelo amor de Deus, nunca mais repita isso. – pediu voltando a andar com o carro. —Você não deixou nada. Entenda, a culpa não é sua. – Alice repetiu aquelas ultimas cinco palavras pela milionésima vez. —Não faça isso com você, por favor. – sua respiração saiu profunda e pesada. —Não tire o peso dos ombros daquele cretino.
Um gosto amargo preencheu minha boca. Acreditava no que Alice tinha dito, mas porque eu sempre teimava em me pôr como a culpada? Talvez Jacob tivesse razão em me chamar de louca, porque era assim que eu me estava me sentindo.
Quando Alice parou em frente ao meu prédio uma onda de calafrios correu por meu corpo. As lembranças da noite anterior correram diante os meus olhos.
One Madison sempre fora o meu lar, mas naquele momento, ele só me lembrava uma coisa: o cenário do mais horripilante filme de terror.
—Sobe comigo? – pedi me virando para encará-la. Algo no semblante de Alice me deixou ciente de que ela havia percebido meu receio. Com um aceno de cabeça, ela saiu do carro e teve de me ajudar a descer também.
Meu corpo se recusava a entrar lá, como se fossemos cargas iguais.
—Está tudo bem, estou aqui com você. – Alice proferiu afagando minhas costas com a palma da mão. Engoli a saliva como se fosse lâminas afiadíssimas, a olhei de soslaio e encontrei o olhar mais doce do mundo.
Por um milésimo de segundos, seus olhos azulados, me pareceram tão mágicos, quanto os de Edward.
Ela caminhou comigo para dentro do prédio, sua mão segurava a minha com firmeza, ignorando o suor gelado de cobria minhas palmas.
Nós entramos no elevador com mais seis pessoas, as portas se fecharam e foi como se não existisse ar ali dentro. Esfreguei a mão no peito, pedindo mentalmente que meus pulmões colaborassem comigo. Abri a boca sugando o ar, tão desesperada como um recém-nascido sugando o leite pela primeira vez.
—Está tudo bem. – ela voltou a murmurar, dessa vez mais baixo. —Não precisa ter medo.
Medo.
Aquela palavra repercutiu em minha mente.
É, eu estava com medo. Com medo de encontrar as provas do crime em meu apartamento, de que minha mãe já tivesse somado os pontos, de que Jacob estivesse ali novamente.
Quando as portas se abriram no meu andar, minhas pernas travaram. As duas pessoas restantes a nossa frente, se afastaram liberando a passagem. Engoli seco encarando a parte do corredor que a posição me permitia enxergar. Meu coração batia rápido e com força, um zunido chato preenchia totalmente meus ouvidos.
—Bella, vamos. – Alice chamou carinhosamente. —Ela não está se sentindo muito bem. – a ouvi explicar. —Vem, está tudo bem, pode confiar em mim. – se postando a minha frente, ela me encarou. Suas imensidões azuladas preencheram meu campo de visão e me senti um pouco melhor.
Novamente, os olhos de Alice me lembraram os de Edward.
Maneei a cabeça dando passos lentos e cautelosos para fora do elevador. Prendi a respiração encarando o corredor que fora se abrindo aos poucos para mim.
Vazio.
Assim que constarei, pude respirar com mais facilidade.
—Viu? Está tudo bem. – me garantiu com um sorriso meigo. Mas ainda não me senti à vontade. Jacob poderia não estar fisicamente ali, mas a sua presença estava impregnada por toda a parte. Em mim, talvez.
Alice apoiou a mão na maçaneta da minha porta e fechei os olhos, respirando fundo e tentando me acalmar.
Está tudo bem, o pesadelo acabou, ele não vai mais te machucar.
Repassei aquelas palavras milhões de vezes tentando crer fielmente no significado que elas tinham.
—Ah, elas chegaram. – a voz de Renée soou tão preocupada quanto aliviada. Abri os olhos com cautela, as luzes acesas me obrigaram a piscar demoradamente, mas logo, pude enxergar a figura da minha mãe.
Seus olhos carinhosos se encontraram com os meus e ali, parada em frente à porta de entrada, relembrei de cada momento que passamos juntas. Toda noite mal dormida que ela tivera quando eu fiquei doente, todos seus esforços para manter nossa casa, toda a força que ela sempre me passara.
Renée era forte, sua postura me orgulhava, eu me sentia privilegiada por ser filha dela. Mas sentia que ela não merecia ter uma filha tão fraca e omissa quanto eu era.
O choro rompeu todos os muros e barreiras que construí durante aquela madrugada longa, explodiu por minha garganta em soluços dolorosos e lagrimas pesadas que rolaram feito pedras por meus olhos.
Ela me abraçou e me amparou ali, em seus braços. Mais uma vez, Renée fora tudo o que eu precisava, fora o meu mundo. Sua grandeza fez com que eu me sentisse ainda mais pequena.
—O que aconteceu? – sua voz saiu longínqua e abafada. —Alice, o que ela tem?
Renée me puxou até o sofá, podia sentir sua preocupação, sua tensão. Fechei os olhos apertando-os com força, queria parar de chorar, queria parar de preocupa-la, mas já não aguentava mais reprimir tudo aquilo.
Doía demais.
—Não cabe a mim dizer, Renée. – Alice proferiu após um longo momento de silêncio. —Ela vai te contar.
—Ok. – mamãe concordou afagando meu cabelo. —Tia, busque um copo de água. – ela pediu e o nome clamado, me fez erguer a cabeça.
Tia estava ali, e estava presenciando tudo.
Como eu odiava aquilo. Odiava estar passando por aquilo, estar vivendo aquilo.
Ergui as mãos e limpei meu rosto com força. Renée continuou ao meu lado, segurando minha mão e me apoiando em silêncio.
Tia voltou para a sala um instante depois, me entregou o copo. A água estava doce demais, sabia que ela havia colocado açúcar. Contudo, não reclamei, apenas tomei alguns goles. Queria me acalmar.
—Bella. – Alice sentou ao meu lado. Erguendo a cabeça eu a olhei. —Vou indo para a Valanstain, se precisar de alguma coisa é só me ligar, ok?
Em silêncio apenas concordei com a cabeça. Ela se abaixou e beijou minha cabeça. Quis agradece-la por tudo o que ela fez, quis me desculpar por ter tomado o seu tempo, por não ter deixado que ela dormisse direito, mas não consegui. Só deixei que ela saísse.
—Tia, você nos dá uma licencinha? – Renée pediu educadamente.
De olhos baixos, fitei a água dentro do copo cristalino. Ondinhas se formavam em círculo, corriam para o centro do copo e voltavam para as parede de vidro.
—O que aconteceu, Bella? – Renée perguntou direta.
Esfreguei a mão no rosto novamente, limpando-o sem nenhum cuidado. Respirei fundo, o ar entrou por meus pulmões e ali permaneceu por um bom tempo.
—Eu... Eu passei todo o fim de semana com Edward, como eu bem havia planejado. – minha voz saiu baixa. —Ontem, ele me deixou lá em baixo, não quis que ele subisse... Esse foi o meu primeiro erro. – fechei os olhos engolindo o soluço. —Quando cheguei até o nosso andar, Jacob estava me esperando. Nós entramos e ele começou a me acusar. – respirei fundo duas vezes, como aquilo podia doer tanto?
Parecia que lâminas quentes e afiadas estavam sendo enfiadas no meu peito. Era uma dor sufocante, tinha vontade de gritar, de bater em alguma coisa, que chorar até perder as forças, tudo para tentar extravasar aquilo.
—Eu nem posso culpá-lo por isso. Eu o traí, sumi por todo o fim de semana... Eu errei. – parei por um momento, ergui uma das mãos e com as pontas dos dedos limpei os traços húmidos que desceram por meu rosto. —Eu nunca o vi daquele jeito. Deveria ter saído antes de tudo acontecer, esse foi o meu segundo erro.
—Antes de tudo acontecer? – Renée perguntou baixinho, algo em sua voz deixava claro que ela tinha medo da resposta. —Tudo o que, Bella?
Cobri o rosto com a mão quando as cenas voltaram a correr por minha cabeça.
—Eu não quero lembrar. Não quero lembrar do que ele fez. – soltei com a voz falha por conta do choro que apertava minha garganta. —Mas toda vez que eu fecho os olhos eu vejo ele vindo para cima de mim, me pegando a força, me jogando na cama e.... – solucei alto, interrompendo minhas palavras. —Ainda sinto o toque nojento dele na minha pele... O cheiro de sangue me persegue....
—Bella. – minha mãe chamou com o timbre trêmulo. —Ele... Ele violentou você?
Não tive voz para responder, apenas maneei a cabeça em concordância. Eu quis olhar em seus olhos e me desculpar por tudo aquilo, pedir perdão por ter deixado as coisas chegarem no patamar onde estavam, queria dizer a ela o quanto eu sentia por não ter sido forte o suficiente... Mas a coragem não veio.
O silencio reinou na sala por um longo momento. Um momento constrangedor e desesperador.
—Nós vamos para a delegacia agora! – sua mão tomou a minha, Renée se levantou, quando a olhei, notei como ela disposta a fazer aquilo.
A aflição cresceu dentro de mim. Delegacia. Eu não queria ir até a delegacia. Ninguém iria me dar razão, afinal, eu havia o traído. Aquilo só me deixaria ainda mais humilhada.
—Mãe, não.
—Não? – seus olhos castanhos vieram até os meus. —Como não, Bella? – a perplexidade que ela transmitia era quase palpável. —Aquele desgraçado violentou você, ele tem que pagar pelo o que fez!
—Mãe, ninguém vai me entender. Será que você não percebe? – deixei o copo de água sobre a mesa de centro quando me levantei. —Eu o traí, me envolvi com outro homem... Todos vão me julgar, vão ficar contra mim, dizer que eu sou a culpada, que procurei por isso...
Renée cobriu a testa com a mão, começou a andar de um lado para o outro, seus passos estavam tão nervosos quanto sua postura.
—Não quero passar por mais humilhações, mãe. – mordi meu lábio com força, esperava que ela compreendesse meu lado. —Por favor... Só quero acabar com isso... Quero que esse pesadelo acabe.
Renée soltou o ar pela boca, apoiou as mãos na cintura e abaixou a cabeça.
—Eu te avisei, Bella. Quantas vezes eu te disse que Jacob não era confiável? – quando seus olhos vieram para os meus, pude ver a tristeza reluzida deles.
Aquilo me destruiu ainda mais. Engoli o nó que se formou em minha garganta, sentei novamente no sofá e mais uma vez, ignorei a dor que se apossou em minha vagina.
—Isso demorou para acontecer... Aquele cretino, meu Deus! Como eu odeio aquele homem! – esbravejou voltando a andar pela sala. —Droga filha, olha o que ele fez com você. – cabisbaixa, a vi se aproximar.
Mais lágrimas embaçaram meus olhos.
—Ele roubou seus sorrisos, sua luz... Roubou sua felicidade e como se não bastasse, ainda fez essa monstruosidade. – Renée ajoelhou a minha frente, suas mãos pegaram as minhas. —Você não tem noção de como me dói, ver você assim....
Achei que não pudesse me sentir ainda pior, mas quando voltei a olhá-la e vi seus olhos vermelhos, me senti o pior ser humano do mundo.
Renée era maluquinha, doida e as vezes, sem juízo algum, mas eu a admirava demais, me espelhava nela. Eu queria ser tão forte quanto ela, queria que ela se orgulhasse de mim e ver daquele jeito era realmente perturbador.
—Me perdoa mãe. – pedi agarrando suas mãos com força. —Por favor, me desculpa. – minha voz falhava por conta dos soluços. —Eu não queria que as coisas chegassem até aqui, eu juro... Não queria fazer você sofrer.
Ela me fitou fixamente por um longo momento, não consegui ler sua expressão, acho que eu estava nervosa demais para isso.
—Não diga esses absurdos. – pediu após manear a cabeça. —Eu não tenho o que te perdoar. – suas mãos tocaram meu rosto e com carinho, ela enxugou cada um dos traços húmidos que as lágrimas deixaram por minha bochecha. —Entenda Bella, você não teve culpa de nada... Ouviu? – erguendo meu queixo, Renée buscou meus olhos com os seus. —Você não tem culpa alguma filha.
A culpa não era minha. Então porque eu sentia que o mundo todo estava apoiado em minhas costas? A culpa não era minha. E porque eu sentia vergonha de me olhar no espelho? A culpa não era minha. Mas porque eu sentia nojo, repulsa e raiva de mim mesmo?
Me recusei a entrar naquele quarto, me recusei a chama-lo de “meu” novamente. Renée me levou para o seu quarto, tomei banho no seu banheiro e quando ela se afastou por um tempo para ir buscar algumas peças de roupa para eu vestir, senti o medo crescer dentro de mim novamente.
Não queria ficar sozinha, tinha a terrível sensação de que ele fosse aparecer a qualquer momento.
Apesar do incômodo que ainda residia em minha vagina, os machucados físicos não eram nada, perto dos psicológicos. Afinal, eu sabia que aquela dor ia passar, mas e quanto ao nojo que eu sentia de mim mesma? E quanto ao medo que não passava?
Será que um dia aquele pesadelo ia passar?
Renée cuidou de mim como se eu fosse uma criança, me supervisou no banho e depois, ajudou que eu me trocasse. Ela procurou evitar encarar as manchar rochas que estava espalhadas por meu ombro e pescoço, e eu agradeci mentalmente. Não precisava de mais um mal estar como aquele.
—Pode até estar maior que eu. – Renée proferiu enquanto arrumava o edredom sobre mim. —Mas vai ser para sempre o meu bebê. – sorri amena, recebendo um beijo na testa.
Com um suspiro me acomodei na cama, não queria deitar, mas ela insistira tanto que não recusei.
Ela fechou as persianas, ligou a televisão e logo colocou algo para rodar no blue ray. A nostalgia me embalou por completa quando a abertura de Full House começou a tocar.
—Não acredito! – apoiei os braços no colchão para poder me sentar. —Ainda tem isso?
Renée se virou com um sorriso enorme no rosto. Pelo visto aquela série, não trazia lembranças só a mim.
—Claro que tenho. – concordou colocando o primeiro episódio para rodar. —Acha que eu não me lembro do quanto você amava assistir isso?
E eu amava mesmo, deveria ter uns cinco anos na época. Ainda me lembrava perfeitamente de como eu passava todas as minhas manhãs assistindo aos episódios pela ABC, antes de ir para a escola.
—Fique aí deitada que eu vou buscar um lanche para você e...
—Mãe, não. – pedi aumentando a voz, no minuto em que ela ameaçou sair do quarto. —Não me deixe sozinha.
Renée respirou fundo, mordeu o canto dos lábios e então assentiu com a cabeça.
—Tudo bem, não vou te deixar sozinha. – ouvir aquilo me deixou mais aliviada. Voltei a deitar na cama, a desconfiança permaneceu dentro de mim quando ela abriu a porta, estava pronta para pedir que ela ficasse, quando ela chamou por Tia. —Traz uma tigela de cereal para a Bella, fazendo o favor?
Tia trabalhava em nossa casa toda segunda-feira e tanto eu quanto minha mãe a adorávamos. Ela não demorou aparecer com a tigela de cereal e um copo com suco de laranja. Não queria comer, estava totalmente sem fome, mas novamente, cedi aos pedidos de Renée.
Me sentia cansada demais para discutir.
Mamãe sentou na cama ao meu lado e passou a acariciar meu cabelo no momento em que deitei a cabeça em seu colo.
Foquei os olhos na TV plana a minha frente, mas o quarto escuro, os carinhos de Renée e toda a noite mal dormida, começaram a pesar sobre mim. Meus olhos começaram a protestar, não queriam ficar abertos e em algum momento daquela manhã chuvosa, acabei cedendo e perdendo a batalha.
A escuridão se abriu diante meus olhos.
Não sabia reconhecer onde eu estava. Se era um cômodo, um lugar.... O cheiro de sangue era tão forte quanto o frio que fazia ali.
Uma brisa gélida chacoalhou meu cabelo, estremeci encolhendo o corpo na vaga tentativa de me aquecer. Sentia cada um dos meus pelos eriçados. Abaixei os olhos entendendo o porquê sentia tanto frio. A única coisa que cobria o meu corpo era uma camiseta fina, branca e toda manchada.
Engoli com dificuldade, vendo a poça avermelhada aos meus pés. Dei um passo para trás, assustada, com o coração batendo ainda mais forte. O sangue estava saindo de mim, do meu corpo.
Aquilo era muito estranho. Estava a maior penumbra, não via nada ao meu redor, mas conseguia me enxergar, como se minha pele estivesse iluminada.
—Somos só nós dois de novo. – a voz conhecida me assombrou. Prendi a respiração, ouvindo os passos se aproximarem as minhas costas. —Achou que ia se livrar de mim?
Fechei os olhos, meu coração bateu ainda mais forte em meu peito e o ar ficou escasso. Tentei mover as pernas, os braços, gritar ou se quer, abrir os olhos. Nada.
Meu corpo já não me obedecia mais.
—Você é suja. – a voz de Jacob soou a minha nuca, no pé do meu ouvido. —Ninguém mais vai te querer. – forcei o corpo, sentindo o desespero crescer em mim. —Só te dei o que merecia... Você sabe disso...
Não conseguia me mexer, sentia todo meu corpo formigar. Queria gritar, mas não tinha voz.
Só podia ser um pesadelo, tinha que ser mais um pesadelo....
Apertei os olhos, me contorcendo e fazendo toda a força que conseguia para romper aquela paralisia que havia me dominado. Então foi como um estalo, meus olhos se abriram e meu corpo foi lançado para frente.
Ofegante encarei todos os cantos possíveis do quarto escuro. Aos poucos fui me realocando, entendendo que sim, aquilo havia sido somente um pesadelo. A TV ligada exibia o seriado, nem soube reconhecer qual era o episódio ou a temporada.
A única coisa que dominava minha mente, além do pesadelo que embalara meu sono, era o fato de que eu estava sozinha. Me levantei da cama apressada, o sentimento de que alguém me observava me fez sair do quarto descalça. Praticamente corri pelos corredores, desci a escada até o primeiro piso pulando os degraus de dois em dois e só respirei aliviada, quando encontrei Renée no primeiro andar.
—Mãe... – minha voz saiu baixa e falha. Ainda estava ofegante e assustada. Renée vinha da cozinha, quando me encarou pareceu meio desconfortável.
—Acordou, a Bella Adormecida! – sorriu após olhar algo por cima do seu ombro.
Cerrei os olhos erguendo as mãos e prendendo meu cabelo em um coque frouxo.
—Você me deixou sozinha. – aleguei dando alguns passos em sua direção.
—Desculpe. – pediu com um sorriso amarelo. —É que nós temos visita, ou melhor você tem.
Não precisei perguntar quem era, pois no segundo seguinte, a figura alta e forte de Edward apareceu.
Engoli a seco, observando seus lindos olhos azuis reluzirem. Ele estava lindo, como sempre, sorria com todo o charme e beleza que Deus havia lhe dado.
Meu coração saltou em meu peito, contente e feliz, como não fazia há boas horas. Contudo, minha cabeça, séria e centrada, me fez perceber que a nossa realidade estava ainda mais complicada.
Fiz uma careta percebendo que aquele pesadelo, não ia existir apenas em meus sonhos.
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