Segunda-Feira
21 Não me acorde desse sonho
Notas iniciais
É certo dizer que a vida segue alguns caminhos cômicos e meio surpreendentes.
Talvez, algum desses caminhos, te faça questionar tudo, rever seus conceitos, e perceber como nada fazia sentido. Mas isso não quer dizer que esse caminho seja ruim ou menos certo que os outros.
Isso quer dizer que, esse caminho, cheio de pedras, espinhos e barreiras, é o seu caminho. Aquele que foi desenhado especialmente para você e que, em algum momento, vai te levar até o paraíso mais bonito.
Depois de uma certa experiência adquirida, podia afirmar que a vida e seus acontecimentos inusitados, não iriam mais me chocar. Mas é exatamente aí, que está o erro. O destino, o acaso ou que quer que seja, não permite “senhores formados”, porque não importa o que tenhamos enfrentado ou passado, seremos sempre “jovens iniciantes”.
Se algum estranho tivesse me parado na rua —há pouco mais de dois meses—, e me dito que tudo o que eu estava para acontecer na minha vida depois daquele encontro com Edward, provavelmente eu teria rido de sua cara.
Mas agora, sentada no sofá confortável da casa dos meus sogros, eu me encontrava sem palavras.
Edward era filho de Mary. Irmão de Alice. Meu namorado e meu cunhado.... As “coincidências” giravam freneticamente em minha cabeça.
Ambos eram publicitários. Edward recebera uma proposta de emprego justamente da empresa em que Alice trabalhava, e, em mais de cinquenta equipes, ele caíra justo na nossa. Ou melhor na dela.
Isso sem contar aquele encontro que tivemos na primeira avenida. Eu, a melhor amiga dela....
Cobri o rosto com as mãos, prendendo o ar na garganta por um momento.
Todos aqueles fatos eram só coincidência? Era só o destino agindo por si só? Ou tudo isso fora feito de caso pensado?
—Eu não estou entendo mais nada. – assumi com a voz baixa. —Como você pode ser irmão da Alice?
A resposta era muito óbvia, mas eu queria palavras mais concretas, uma explicação, para ser mais exata.
Edward respirou fundo e infiltrou a mão por seu cabelo. Dava para ver que aquele assunto o atormentava.
—Eu vou te explicar. – seus olhos vieram para os meus e pude notar um certo temor de sua parte. —Desde o começo.
—Estou ouvindo.
—Eu morei no orfanato, até os sete anos, foi quando meus pais me adotaram. – contou um pouco mais calmo. —Desde sempre, eles me trataram como um filho e caramba... – soltou o ar pela boca. —Eu olho para eles e vejo as duas pessoas que me deram uma vida. Por que é isso que eles fizeram e fazem até hoje por mim. – suas palavras saíram banhadas de amor. —Eles me deram amor, carinho, atenção, um lar.... E eu sei que muitos dos outros garotos que viveram comigo no orfanato não tiveram a mesma sorte. – tomando ar pela boca, ele fez uma pausa. —Eu sempre soube que eles eram os meus pais, e não era um simples exame de sangue que ia desmentir aquilo, mas.... Eu sempre tive curiosidade em saber quem foram as pessoas que me colocaram no mundo. Dá para entender?
Mordiscando meu lábio inferior, assenti com a cabeça. Era impossível não ser tocada com todo aquele amor que ele demonstrava sentir pelos pais. Era uma coisa muito linda.
—Bom, eu cresci com essa curiosidade, nunca perguntei nada para nenhum dos dois, por medo de chateá-los. Eu tinha medo que eles pensassem que eu estava insatisfeito, que eu não os amava o suficiente... – engolindo a seco, Edward fitou o chão por um momento. —Até que, quando completei dezoito anos, eu disse a eles que queria saber do meu passado, eu precisava saber de onde eu era... Saber as minhas origens mesmo. – soltou o ar pela boca e voltou seus olhos a mim. —Maravilhosos como sempre, os dois me apoiaram naquela decisão e me levaram até um detetive particular. – um sorriso nasceu no canto de seus lábios, contudo, não durou muito. —Foram anos e anos de procura... E só no ano passado que eu descobri sobre a Mary. – ele voltou a ficar em silencio e mais uma vez percebi como aquilo o incomodava. —Ela foi prostituta, engravidou de mim aos vinte e poucos anos e tentou abortar várias vezes. Como nenhum aborto foi bem sucedido, ela me deixou na maternidade pública um dia após dar à luz. – aquela informação saiu fria e me deixou completamente chocada.
Eu sabia que Mary não era a melhor pessoa do mundo, mas tentar abortar várias vezes?
—Eu fiquei muito chateado, não vou mentir.... Mas o que me deixou ainda pior, foi descobrir que ela tinha uma filha, um ano e meio mais velha que eu, da qual ela cuidou, educou e amou. – o ressentimento em seu tom era claro. —Sabe Bella, tentar entender o porquê a minha própria “mãe” não me quis na vida dela, o porquê ela tentou abortar várias vezes e depois me deixou lá, abandonado em um hospital sem nem ao menos se importar se eu iria ou não ficar bem, me custou várias noites de sono. – confessou com os olhos nos meus. —Eu ficava me perguntando... O que aquela menina tinha, que eu não tinha? Porque eu? Ou melhor, porque só eu?
Contive a vontade de abraça-lo e reconforta-lo. Aquelas duvidas certamente eram terríveis.
—Essas perguntas me assombraram por muito tempo, até o dia em que descobri que a minha mãe, minha mãe de verdade, estava doente. – ele fez questão de frisar a palavra mãe. —E o medo que eu senti de perder ela, foi inexplicável. De repente, nada mais tinha importância. Mary, meu passado.... Nada. – abaixou a cabeça parecendo pensar. —Fui percebendo, que eu estava dando muita ênfase para uma pessoa, que nunca ligou para mim, e deixando de lado a mulher mais importante da minha vida. – inalou com força antes de soltar o ar pela boca. —A doença de Esme, serviu para nos unir ainda mais e fez a minha fixa cair, afinal, eu só tenho essa família maravilhosa, porque Mary me abandonou.
Recostei o corpo no sofá, fitando-o atentamente.
—Fui levando a vida, aproveitando cada segundo ao lado dos meus pais e da minha irmã, até que me informaram sobre a morte da Mary e então, me coloquei no lugar de Alice. – mordeu seu lábio inferior pausando por um segundo. —Ela não tinha mais ninguém, estava completamente sozinha.... Eu me imaginei no lugar dela, e foi horrível, mas quando imaginei a Rose passando pela mesma coisa, senti que deveria agir. – seus olhos finalmente voltaram para os meus e os mesmo estavam carregados pela sinceridade. —Foi então que decidi me aproximar dela, o detetive me informou que ela trabalhava na Valanstain e o comercial que fiz para a Gillette me deu a chance de entrar lá.
—Então você se aproximou de mim só por causa da Alice? – no fundo eu tinha medo de sua resposta, porque ela ia mudar muita coisa.
—Claro que não! – exclamou com toda certeza. —Bella, eu sabia que Alice tinha uma amiga, mas acabava aí.... Te encontrei por acaso aquele dia e desde o primeiro momento, fiquei encantado por você. – soltei o ar mais aliviada. —Depois quando nos reencontramos na empresa, me vi ainda mais enfeitiçado.... E só fui descobrir que você era amiga da minha irmã, quando ela retornou para a Valanstain.
Corri a mão pelo cabelo, o ar escapou por meus lábios e o silencio perdurou na sala. Eram tantas informações, que eu mal conseguia processá-las.
Alguns pontos até começaram a fazer sentido, como as “possibilidades” que Edward tanto citara e o motivo de ele ter escolhido a Valanstain no meio de mil empresas.
No entanto, algumas coisas ainda me deixavam confusa, assumo, e no fundo, muito feliz. Feliz de verdade pela a minha amiga, que agora, tinha uma pessoa maravilhosa em sua vida.
—Seus pais sabem da Alice?
—Sabem. – concordou de imediato. —Querem muito conhece-la. Querem que ela faça parte da nossa família. – sorri com suas palavras.
—E a Alice.... Ela sabe que vocês são irmãos? – questionei novamente.
—Não. – soltou com o ar que estava em seus pulmões. —Quero muito contar para ela, mas tenho medo de ela não reagir bem e se afastar de mim.
Soltei um riso baixo, maneando a cabeça em negativa.
—Alice jamais faria isso... Ela vai é amar saber que tem um irmão. – um mero sorriso apareceu em sua boca. —Mas meu Deus... Como não percebi antes? – cerrei os olhos ao encará-lo.
Eu era realmente muito dispersa. Não era uma semelhança absurda, eram detalhes que os formavam e os tornavam parecidos.
Os olhos azulados eram praticamente idênticos, os tons dos cabelos eram muito parecidos. Edward tinha algumas sardinhas ao redor de seu nariz, iguais às que Alice tinha no seu. As bocas tinham quase o mesmo desenho....
Sorri soltando um suspiro profundo.
Alice e Edward. Irmãos.
Minha melhor amiga era minha cunhada e meu namorado, irmão da minha melhor amiga.
Eu realmente tinha que bater palmas para o destino.
—Você não vai falar nada? – temeroso, Edward indagou. —Não está chateada comigo, está?
—Claro que não. – neguei prontamente. —Só estou surpresa.... Isso parece história de cinema. – minha risada saiu baixa. —Mas estou muito, muito feliz pela Alice. – assumi com os olhos nos seus. —E por você também, claro. – toquei seu rosto com a mão. —Vocês dois são maravilhosos e merecem estar na vida do outro. – o sorriso que apareceu em sua boca não transmitiu outra coisa a não ser alívio. —Porque não me contou antes?
—Eu tinha medo que você pensasse que me aproximei de você só por causa da Alice... E bom, isso é um assunto muito delicado, do qual eu não gosto muito de falar.
Aceitei sua resposta com um aceno de cabeça. Dava para ver o quanto aquilo o perturbava.
—Eu imagino o quanto isso deve ser difícil para você. – com um impulso para o lado, me aproximei dele no sofá. —Eu conheci a Mary e.... Você não perdeu muita coisa. Ela tinha problemas com álcool e droga, em certos momentos era agressiva.... – fiz uma breve pausa para respirar fundo. —Alice precisou começar a trabalhar muito cedo, porque Mary nem comida na mesa estava pondo mais. – minha mão pousou em suas costas largas e então, subi e desci meus dedos por toda a extensão musculosa. —E olhando para vocês dois, para a vida que cada um teve.... Consigo perceber que foi você quem teve sorte.
Edward me olhou por cima do ombro por alguns instantes, os olhos azuis refletiam uma dura e longa batalha interna.
—Sim. – concordou por fim. —Você tem razão. – suspirou arrumando a postura, para então, se recostar no sofá. —É por isso que eu quero que Alice faça parte da minha família. Sabe, eu já gosto muito dela.
—Tenho certeza que ela também gosta muito de você.
Sorrindo, ele afagou meu rosto antes de me beijar com carinho. Seus lábios tocando os meus com suavidade, as língua percorrendo a minha com todo o conhecimento. Suspirei correndo a mão por seu cabelo. Eu amava seu beijo.
Nós ainda tínhamos muita coisa para falar sobre aquilo, mas por hora, deixamos de lado. Edward deitou no sofá e me puxou para cima de seu peito. A TV ligada exibia clipes das mais variadas músicas, as quais eu não fazia o menos esforço para reconhecer. Tudo o que importava naquele momento era beijá-lo e tentar demonstrar ao menos uma dose do amor que eu sentia por ele.
Tudo aquilo parecia um sonho, do qual eu não queria acordar.
Sábado amanheceu ensolarado e quando despertei no antigo quarto de Rosalie, me dei conta de que já não era tão cedo. Com certa letargia e preguiça, me encaminhei para o banheiro, onde tomei um rápido banho e me arrumei.
O clima ajudou bastante na escolha do vestido que decidi por. Ele era branco, todo de renda, o decote na frente era leve, tudo por conta das costas, que estava toda de fora. Deixei o cabelo solto, que se fez totalmente liso, após eu secá-lo com o secador. A maquiagem leve e clean, tudo básico.
—Bom dia. – desejei com certa timidez, enquanto entrava na cozinha. Esme estava sentada em frente à mesa e desviou a atenção dos brownies apetitosos para me olhar e sorrir.
—Bom dia, linda. – seu tom doce me deixou mais à vontade. —Sente-se, precisa comer um pouco.
Com cuidado, puxei uma das cadeiras e me sentei de frente para ela. O belo jogo de porcelana me encantou. Eram peças tão delicadas e lindas...
—Gostou? – indagou indicando com o olhar, para a louça a minha frente.
—Amei... São lindos!
—Obrigada. – agradeceu educadamente. —Herança de família, vovó deixou para a mamãe, mamãe deixou para mim... – contou brevemente. —Café?
—Sim, por favor. – quieta a observei derramar o liquido quente na xícara.
—Edward foi ao mercado com Carlisle e Emmet, pediu para eu te avisar que ele não demora. – informou se arrumando na cadeira.
Acenei com a cabeça bebericando o café forte. Eu sabia que era falta de educação, mas deixar de encarar toda a beleza de Esme era quase impossível.
Ela era muito linda e muito jovem. Se eu a visse na rua com Rosalie, ia achar que elas eram no máximo, irmãs.
—Edward me disse que te contou sobre Alice. – começou com certo receio. —Uma grande coincidência o que aconteceu, não é? – perguntou exibindo um sorriso satisfeito.
—Demais. – soltei o ar pela boca. —Como eu disse ao Edward, isso parece história de cinema.
—Sim... – rindo, concordou com a cabeça. Erguendo a mão, Esme empurrou o cabelo ruivo para o lado. —Bella, eu posso te fazer uma pergunta?
Aquilo me surpreendeu bastante e a curiosidade já ecoou dentro de mim.
—Claro que pode. – concordei de imediato.
Ela se remexeu na cadeira, parecendo meio desconfortável. Puxei a panqueca que estava sobre a pilha média e a cobri de cobertura de chocolate enquanto aguardava com ansiedade, sua questão.
—A Mary... Como ela era? Era uma boa pessoa? Era uma boa mãe para Alice?
—Assim... – soltei pensando no que falar. —Ela não era uma má pessoa, não comigo, pelo menos. – mordisquei meu lábio inferior. —Mas Mary bebia muito e mexia com drogas muito pesadas, isso a deixava muito agressiva... Foi o que eu disse a Edward, Alice teve de começar a trabalhar muito cedo, quase abriu mão dos estudos... Ela não teve uma vida boa, ou uma família, sabe? – quieta, Esme apenas concordou com a cabeça. —Não teve os melhores exemplos também. – respirei fundo sem deixar de sentir por minha amiga. —Eu até gostava da Mary, contudo, depois de saber o que ela fez com o Edward, passei a vê-la com outros olhos. E tenho certeza que Alice vai ficar muito decepcionada quando souber também.
—Mais uma decepção, pobrezinha. – seu tom demonstrou um grande pesar. —Carlisle e eu morremos de medo quando Edward nos disse que queria conhecer sua família biológica. – assumiu abaixando os olhos. —Claro que nós lhe demos todo o apoio, mas ficamos com medo de perder ele... Coisas de pai e mãe. – sorriu diante o fato. —E vou te contar, quando o Chris, o detetive que contratamos, disse a ele tudo o que aconteceu, tudo o que Mary fez, Edward ficou muito desapontado. Eu preferia mil vezes conviver com a presença de outra “mãe”. – seus dedos fizeram aspas no ar. —Do que ver meu filho tão triste, como ele ficou. – aquilo me causou um leve incomodo. —Agora eu vejo que deixa-lo na maternidade foi a melhor coisa que Mary fez por Edward e tenho pena de Alice. Ninguém merece passar por tudo o que ela certamente passou.
—Verdade. – concordei antes de limpar a boca com o guardanapo. —Edward teve muita sorte de ter sido adotado por vocês. E ele reconhece isso, tem muito orgulho de vocês.
O sorriso que surgiu no rosto de Esme só refletiu felicidade.
—Adotar meus meninos foi a melhor coisa que eu fiz. – suspirou ainda sorrindo bobamente. —Deus não permitiu que eu gerasse, mas permitiu que eu acolhesse, e sou muito grata por isso. – suas palavras me tocaram profundamente.
—Isso é muito lindo. – soltei encantada. —Desculpe perguntar, mas.... Vocês adotaram bem jovens, não é?
A risada de Esme era gostosa de ouvir. Ela maneou a cabeça em concordância, apoiou os braços na mesa e passou a mexer na aliança, o semblante no rosto se delineou pela nostalgia.
—Carlisle tinha vinte e cinco e eu vinte e três, quando adotamos Rosalie. – contou. —Ela tinha nove anos, era uma bonequinha. Cabelos longos que mais pareciam fios de ouro, olhos enormes e carentes... Era linda, sempre foi. – sorriu diante a lembrança. —Dois meses depois, foi Edward quem nos deixou completamente apaixonados. – suspirou longamente. —Me tornei mãe no momento em que eu os olhei, sabe... Foi um amor tão grande, tão real... Amor à primeira vista, como se eu os tivesse gerado.
O tom de amor que ela emitia era tão puro e intenso, que me deixou emocionada.
—Esme, gerar um filho não torna a mulher mãe. Ser mãe é mais que isso. Ser mãe é amar, cuidar, proteger.... Muitas mulheres podem gerar uma criança, mas poucas podem ser mães de verdade.
—Awn, que linda! – estendo a mão, Esme segurou meus dedos. —Você é uma mulher muito especial, Bella. – disse com extrema sinceridade. —Fico feliz que meu filho tenha encontrado você.
Tomei ar pela boca e tudo o que consegui fazer foi sorrir. Estava absolutamente sem palavras. E quando abri meus lábios para poder responde-la, vozes altas me impediram de fazê-lo.
Eles haviam chegado. Carlisle, Edward, Emmet e Rosalie, que os encontrou na porta, como contara. Todos carregando sacolas de papel, menos Rose, que havia acabado de chegar de um plantão.
Era estranho, mas mesmo com toda aquela pinta de modelo angelical, Rosalie tinha jeito de médica e ainda vestida com o jaleco branco, não conseguia imaginar uma profissão mais adequada para ela.
—Bom dia, princesa. – Edward desejou se abaixando para beijar meu pescoço.
Um arrepio gostoso subiu por minha coluna, lhe emiti um rápido sorriso antes de beijar seu queixo e afagar seu rosto.
—Bom dia amor. – minha voz saiu baixa, mas alta o bastante para que apenas Edward ouvisse. Sorrindo, ele se sentou ao meu lado, os dedos se entrelaçaram aos meus.
—Dormiu bem? – puxando uma das várias cerejas que estavam dentro de uma tigela de porcelana, ele perguntou.
—Muito bem e você?
—Teria dormido melhor se você estivesse comigo, mas... – jogou charme com uma piscadela.
Rindo, deixei um leve tapinha em seu ombro. Eu sabia que as famílias sulistas seguiam certos “costumes” e um deles, era fazer com que os namorados e seus filhos, dormissem em quartos separados. Mesmo não gostando muito da ideia de ficar longe de Edward, aceitei com um grande sorriso ficar no antigo quarto de Rosalie.
—E então, abriu muitos corpos hoje? – Emmet perguntou a esposa, com certa diversão na voz.
—Apenas dois. – ela respondeu dando de ombros. —Um homem que supostamente se jogou do sexto andar e uma senhora que foi encontrada morta no subúrbio de Memphis.
—Supostamente? – Carlisle indagou encarando a filha com curiosidade. —Porque supostamente?
Rosalie arqueou as sobrancelhas enquanto tirava o jaleco comprido.
—Pelo o que eu pude ver, me parece que ele foi empurrado... Enfim, Kimberly vai cuidar disso para mim. – soltando o ar pela boca, ela se sentou à minha frente e me exibiu um grande sorriso.
—Rose, Bella me perguntou se você era modelo. – Edward contou para meu total embaraço. —E ficou muito surpresa quando eu disse que você é legista.
—Sério? – me fitando, ela deu uma grande mordida na maça vermelha. —Bom, eu nasci para ser legista. – contou soltando uma risadinha.
—É verdade, quando ela era pequena, vivia correndo atrás de sapos e lagartixa com uma faca na mão. – Carlisle proferiu antes de rir com gosto.
—Ela assassinou vários bichinhos inocentes. – Emmet estreitou os olhos. —Que feio, amor. – apoiando as mãos nos ombros da mulher, ele abaixou a cabeça para encará-la. —Você vai para o inferno.
—Claro que não! – exclamou. —Eu dei um enterro digno para todos eles! Edward está de prova... – apontando para o irmão, ela contrapôs. —Não é verdade que nós rezávamos pelas almas de cada um?
—Nós? – Edward pareceu inconformado. —Você quer dizer eu, não é? Porque a única pessoa que rezava era eu, você só tinha o trabalho de fincar a cruzinha de graveto no chão. – acusou olhando para Rosalie.
Não consegui conter o riso. Eles eram engraçados.
—Mentira, eu tinha o trabalho de captura-los, abri-los, estuda-los, costurá-los e achar um lugar escondido para você enterrá-los. – disse arqueando o queixo antes de morder mais uma vez a maçã.
—Escondido para eu não encontrar. – Esme murmurou enquanto guardava as comprar nos armários.
—E ela fazia um bom trabalho, porque você só foi descobrir quando metade de suas flores tinham desaparecido. – Carlisle contou abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de água gelada.
—Ah, eu me lembro desse dia... – Rosalie soou animada e nostálgica. —Tinha chovido por dias e quando a chuva finalmente cessou, nosso jardim estava infestado de rãs. – puxando o cabelo para o alto, ela o prendeu em um coque frouxo. —Acho que capturei umas dez, não foi Ed?
—Foram treze. – Edward proferiu com certeza. —Contei cada uma delas.
—Então, depois de abrir cada uma, costurar e tudo mais, tive de achar um lugar para enterrá-las, mas eram tantas... – pausou a história para poder rir. —Ai, ai... Eu era terrível.
—Você é terrível, baby. – Emmet disse beijando carinhosamente o cabelo de Rose.
Soltei um suspiro gostoso, acomodando a cabeça no ombro de Edward. Era tão bom estar com eles, conversar, rir... Já tinha dias que não me sentia tão bem, tão em paz... Era como se eu estivesse sonhando e tudo o que eu não queria, era acordar.
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