Seguindo em Frente

23 A Cirurgia II – Lucia Torres


Essa manhã as coisa foram estranhas eu e meu marido chegamos ao hospital onde nossa filha mais velha vai se submeter a uma cirurgia cerebral para retirada de um tumor, eu mal pude acreditar quando um mês atrás ela entrou em meu escritório onde eu e seu pai estávamos e jogou a bomba em nossas cabeças, Carlos queria imediatamente ligar para Calliope e pedir uma segunda opinião mas protestei dizendo que ela era apenas uma cirurgião ortopédico não teria uma opinião sobre isso, visitamos mais dois médico e ambos se recusou a tirar o tumor mas o terceiro nos ofereceu um tratamento alternativo de quimioterapia que foi prontamente recusado por minha filha.

– Mama eu vou para Seatlle procurar Callie, ela é minha irmã e não vou morrer sem antes implorar seu perdão.

– Não foi você que errou Ária foi Calliope, ela que se deixou levar pelo pecado e se envolveu com aquela mulher que lhe virou a cabeça e a afastou de Deus.

– Já faz cinco anos mama, não tem vontade de saber como é a vida dela?

– Eu sei como é a vida dela, um desastre como tudo que ela faz, diferente de você Ária eu converso com meu marido sobre tudo inclusive sua irmã, se ela tivesse se casado com um homem honrado e católico ela estaria hoje aqui perto de nós ela escolheu quebrar as regras e vive atormentada.

– Você nunca deu muito crédito a ela não é?

– A vida toda de Calliope foi uma bagunça, explosões de laboratório, a rebeldia em escolher aulas de carpintaria as de economia doméstica, corpo da paz, escola de medicina viver a cinco mil quilômetros de distância de sua família e seu pai sempre a protegendo a mimou tanto que deu nisso. Ela devia estar aqui conosco aplicando os anos de ensinamento em uma boa escola católica que nos custou uma fortuna.

– Eu vou pra Seatlle, você vem comigo?

– Você é uma mulher adulta Ária, não posso impedí-la, mas não vou atrás de sua irmã a menos que ela deixe aquela mulher e mude sua vida.

– Sabe de uma coisa mama chega, você precisa parar, olhe pra mim eu fiz tudo dentro do que você sempre disse ser o certo o que Deus espera de um bom cristão e olhe pra mim casei com o homem católico que você escolheu e não sou feliz, Phil é uma cara ótimo mas não está dando certo, tenho dois filhos lindos que vão crescer sem a mãe deles, assumi o cargo na empresa da família quando na verdade queria ser advogada criminal, estou morrendo mama infeliz porque não segui meus sonhos e sim os seus.

– Ária!

– Sabe de uma coisa Callie passou o inferno, mas ela lutou por seus sonhos ela vive do jeito que ela escolheu e não como você sonhou, você nem sabe como ela vive apenas a cortou se sua vida e veja que ironia você tinha duas filhas e vai ficar sem nenhuma.

Bem estávamos ali agora dentro daquele carro em silêncio parecíamos bois indo para o matadouro, quando chegamos ao hospital Ária ainda estava no quarto subimos, ela havia passado a noite ali, Phil a acompanhava, ficamos algum tempo com minha filha antes da cirurgia quando ouvi o celular de meu marido tocar ela atendeu e sabia quem era.

– Calliope está chegando vou esperá-las no saguão quero ver meus netos antes de irem para creche. E saiu.

Um médico jovem e um enfermeiro veio buscar Ária para prepará-la, a cirurgia estava marcada para ter início às nove horas, Phil a acompanhou durante todo o procedimento eu foi convidada e ir para uma sala de espera com o restante dos parentes que aguardavam seus entes queridos. Chamei o elevador e quando esse se abriu ninguém além de minha filha caçula e sua família moderna estavam abordo meu coração parecia que parou de bater por alguns segundos quando coloquei meus olhos em Sofia, ela era a cópia perfeita de Calliope o mesmo cabelo e sorriso maroto. Minha filha carregava o bebê loiro no colo que brincava com seu cabelo e colar e babava em sua roupa e fazia barulhos com a boca, por um momento eu tive ânsia de sair correndo ou não entrar naquele elevador, mas uma voz quebrou meu estopor meu nome sendo pronunciado pela loira e um bom dia, elas não fizeram alarde tinha outros pessoas no elevador, respondi um tímido bom dia e virei-me de costas para elas e para meu desconforto o elevador continuou a subir e não descer como queria então pude ouvir a vos de minha neta pela primeira vez.

Era uma voz linda eu gelei quando chamou outra pessoa de vovó e por um momento eu me excomunguei por esse sentimento, em outro andar pessoas desceram e outras subiram inclusive um jovem médico que não poupava elogios para minha filha, ele foi repreendido por sua esposa, esposa onde eu estava com a cabeça não existia casamento ali só uma brincadeira de casinha de duas meninas. Elas desceram no sétimo andar deveria ser ali a creche, seguida pelo o jovem médico que agora as ajudava a carregar toda a bagagem das crianças.

Quando o elevador chegou ao térreo meu estomago revirava, um ânsia de vomito me inundou e não aguentei usei a lixeira mais perto, um senhor que estava chegando se aproximou e perguntou.

– Sra. você está bem, posso ajudar.

– Estou bem obrigada foi só um mal estar onde fica o toilet.

– No fim do corredor à direita.

– Obrigado.

Mais tarde vim saber que esse Senhor na verdade era o Dr. Richard Webber, a quem todos no hospital o tinham como um mentor e pai.

Me recompus e fui ao encontro de Carlos e Phil, não foi surpresa que algum tempo mais tarde Calliope adentrou a sala de espera com notícias que não faziam sentido para nós e que para ela e para os outros médicos que vieram nos ver parecia serem ótimas.

Durante todo manhã alguns médicos e enfermeiros amigos de minha filha vieram ficar um pouco conosco Carlos já tinha intimidade com alguns deles a ponto de chamar pelo primeiro nome ele apresentou a mim e Phil a todos que foram muito amáveis com minha família foi ai que parei para pensar o que minha filha Calliope tinha feito com sua vida. Arizona entrou a sala de espera pela primeira vez no final da manhã ela vinha juntamente com outra médica e foram em direção a um casal que se encontrava em outro sofá mais afastado de nós, vi ela dizer alguma coisa a uma mulher pular em seu pescoço em lágrimas, ouvi Phil e Callie conversarem sobre o transplante e me deu um aperto no coração minha filha estava lá dentro e poderia morrer a qualquer momento, minha outra filha estava ali do meu lado e não tinha coragem de olhar em meus olhos.

Arizona se aproximou de nós e mais uma vez nos cumprimentou perguntou se tínhamos novas notícias, a resposta foi a mesma, enquanto a outra médica falava com Calliope e Carlos, Arizona falava alguma coisa com Phil. Depois Arizona sentou-se ao lado de Calliope e pegou em sua mão instantaneamente Calliope a levou a boca em um beijo, durante o pouco tempo que as duas estavam ali juntas pude perceber algo novo pra mim, elas se entendiam pelo olhar, ouvi Calliope dizer a Loira que era hora de Tim mamar seus peitos estavam ficando cheios ela sabia só de olhar para a outra mulher então elas e Carlos se dirigiram a creche enquanto eu e Phil para uma lanchonete a frente do Hospital.

Quando cheguei a portaria do hospital disse a Phil que precisa de ar e ia dar uma volta, peguei o elevador e subi até o sétimo andar, elas tinham descido ali mais cedo então provavelmente ali era a creche, desci do elevador e segui por um corredor diferente de todo o resto do hospital ali as paredes eram decoradas com cores vivas e alegre, tinha um pequena mesa com vários monitores de computador e uma porta de vidro que separava um pequeno salão parei diante daquela porta e vi Carlos brincando com Sofia no chão ele falava algo no seu ouvido que a fazia rir um sorriso branco perfeito e inocente, Arizona dava de mama ao garoto loiro com Calliope sentada ao seu lado enquanto o garoto mamava e segurava os dedos de minha filha e parava para olhar minha filha brincar com ele. Era uma cena bonita de se ver.

Por um momento lembrei de Calliope quando estava naquela idade ela gostava de mamar segurando os dedos do pai, meus pensamento foram interrompidos por uma moça em uniforme de segurança.

– Sra. Não pode ficar aqui, está área é restrita somente aos pais das crianças.

– Perdão eu sou mãe da Dra. Torres.

– Então vou pedir autorização para ela para que possa ficar aqui.

– Não é preciso, já estou de saída.

Não queria que Calliope me visse bisbilhotando sua vida.

Saí daquele andar e fui caminhar um pouco pelos arredores do hospital, sentei-me em um banco que ficava no pátio do hospital e fiquei ali observando pessoas saindo e entrando, funcionários, pacientes tendo suas altas, pessoas felizes e outras tristes, vi uma mulher chorando sozinha em um banco, perguntei a um funcionário que estava perto ele me disse que ela acabara de perder o filho em um acidente.

– A Sra. é a mãe da Dra. Torres, não é?

Ele sentou ao meu lado.

– Sim e você?

– Sou Mike o enfermeiro muito prazer e estendeu sua mão que apertei e continuou a dizer.

– Eu cuido das entradas do PS, trabalho muito com a Dra. Torres, ela é muito respeitada por nós aqui no hospital além de ser uma excelente médica é umas das pessoas mais boa e gentil que conhecemos, e olha que aqui tem muitos egos inflados em jogo.

– O que são egos inflados em jogo?

– A Sra. sabe cirurgiões eles são tratados como semi-deuses de egos inflados.

– Semi-deuses?

– Sim alguns tem os egos tão inflados que nunca fala conosco Dra. Torres é diferente ela sabe o primeiro nome de todos que trabalham com ela, se temos filhos, se somos casados todos aqui sabe que foi idéia dela comprar o hospital e salvar os empregos então ela é sim uma semi-deusa para mim.

– Você não liga por ela ser gay?

– Tá brincando né, metade desse hospital é gay e a outra metade gostaria de ser. Quando ela sofreu o acidente as enfermeiras fizeram corrente de oração pela vida dela e da pequena Sofia, os médicos cirurgiões não foram pra casa naquele dia ficaram todos de plantão para socorrê-la Dr. Sloan e Dra. Robbins estavam inconsoláveis eles formavam um bom trio todos os chamavam de o três mosqueteiros. Então ela e Sofia sobreviveram. Mas agora é só ela e Dra. Robbins, Dr. Sloan se foi.

– Obrigado Mike foi bom te conhecer preciso voltar lá para dentro.

Voltamos todos a sala de espera e foram muitas horas de espera que foram interrompidas por dois outros médico e pela primeira vez vi minha filha trabalhar, vi ela dizer que vai consertar o pé de um bebê e babar em cima de um tumor, realmente cirurgiões eram loucos e minha filha é um deles pelo jeito é ótima no que faz, eu passei o dia todo ouvindo histórias sobre sua competência e vendo ela se relacionar com outras pessoas de forma madura, segura, inteligente eu realmente não conhecia mais aquela pessoa na minha frente. A cirurgia de Ária terminou e teríamos que esperar ela acordar mais esperas, Phil passaria a noite com ela, Carlos e eu fomos para o hotel.

Carlos estava ali deitado lendo um livro de negócios quando me sentei ao seu lado na cama.

– Como está se sentindo?

– Confiante.

– Carlos?

– O quê?

– Como pode uma pessoas crescer dentro da sua barriga por nove meses e você a criar com todo amor e um dia você olhar para ela e não a conhecer mais.

– Os filhos são como as borboletas Lucia, eles nascem largatos entram em seus próprios casulos e se transformam em borboletas, se não acompanharmos esse processo e não estivermos lá quando eles saírem dos seus casulos não saberemos mais quem são.

– Não reconheço nossa filha Carlos, ela se tornou outra pessoa, não aprendeu nada do que lhe ensinamos.

– Calliope se tornou uma bela borboleta Lucia e você não deu a ela a chance de mostrar o quanto ela é boa, pelo contrário ela se tornou aquilo que a ensinamos ser.

– Ela escolheu um caminho pecaminoso Carlos e não a ensinamos isso.

– Você acha mesmo? Ela ama a família linda que construiu e luta por ela, é honrada, honesta, pensa no próximo é amada e respeitada pela sua família e amigos e pelos colegas de trabalho, ela salva vidas de pessoas, você acha que ela não aprendeu nada de que lhe ensinamos? Não acredito que Deus vai condená-la ao inferno por amar uma mulher?

– Eu não sei Carlos esse dia me deixou muito confusa. Antes se me perguntasse o porquê de todas as coisas que Calliope teve que passar eu diria que foi castigo por desafiar a Deus, mas hoje eu não sei. Eu vi Sofia hoje ela é linda é a cópia de nossa filha, me lembrou Calliope quando criança só que mais delicada e falante.

– O que sentiu?

– Me sinto perdida e confusa, me doeu ao ouvi-la chamar outra pessoa de avó e não eu, ela nem sabe quem sou, tá eu sei que tenho minha parcela de culpa, será que Calliope já falou de mim pra ela ou ela acha que sou um monstro, tive vontade de abraça-la e muito medo de ser rejeitada e ao mesmo um enorme desejo de sair correndo e nunca mais colocar os olhos sobre ela e o bebê loiro que eu não sei se posso amá-lo. Vou tentar dormir um pouco. Boa noite.

– Calliope só está praticando outro ensinamento que lhes demos proteger sua família, a última vez que esteve com Sofia você a rejeitou, na ocasião era apenas um bebezinho que não sabia nem porque estava aqui, Sofia cresceu ela sabe que você existe só não entende porque a outra avó nunca veio visitá-la.

Dei um beijo nos lábios do meu marido.

– Boa noite querido.

A cirurgia foi um sucesso e sem sequelas quase pude acreditar nas palavras do Mike que ali se encontravam semi-deuses, Ária teria que ficar alguns dias internada para sua recuperação antes de voltarmos para Miami, Phil e Carlos retornaram para seus afazeres e eu fiquei de companhia, Calliope passava pelo quarto pelo menos duas vezes ao dia, e as únicas palavras que trocávamos eram bom dia e boa tarde, apenas observava de longe a interação das duas não tinha visto mais Arizona e as crianças na verdade estava evitando, Ária pediu para ver os sobrinhos e Calliope relutou um pouco mas prometeu leva-los na manhã seguinte antes da creche .

Na manhã seguinte antes de Calliope aparecer no quarto com seus filhos resolvi descer para evitar constrangimentos eu sabia que ela estava evitando levar os filhos para não ter que apresenta-los a mim ela os estava protegendo Carlos havia me dito isso então desci para o pátio do hospital comprei um café com creme e sentei-me no mesmo banco de antes que dava de frente para o estacionamento, vi quando um Land Rover preto estacionou em uma vaga próxima a entrada, de onde estava pude ler Dra. Robbins na placa de reserva, vi minha filha saindo do carro ela sorria de algo, abrir a porta de trás e pegar minha neta sonolenta no colo, do outro lada vi sua acompanhante loira fazer o mesmo gesto e tirar o bebê em sua cadeirinha elas riam de algo que a loira falava, vi também elas trocarem beijos no estacionamento na frente de todos e das crianças, parecia tão normal para elas e para as pessoas que passavam, meus pensamentos foram interrompidos por um carro desgovernado que vinha em direção a elas, eu gritei mas elas não ouviram e Graças a Deus o carro bateu no carro estacionado atrás delas.

Vi minha filha imediatamente colocar minha neta no chão e correr em direção ao carro batido disse algo que não ouvi porque estava longe e logo duas outras pessoas correram para ajudá-la eles tiraram o motorista do carro parecia sem vida e o deitaram no chão, ela ajoelhou-se ao seu lado e começou a fazer massagem cardíaca, nesse momento eu me aproximei e me coloquei ao lado de Sofia e segurei sua mão e só então pude ouvir o que se passava.

– Tragam uma maca rápido e chamem a cardiologia.

E continuou a massagem, puxou o estetoscópio do pescoço de uma jovem e colocou no peito do homem.

– Não vai dar tempo vou ter que abrir, alguém pegue a maleta de sutura atrás no meu carro.

A mesma jovem pegou uma maleta preta e vermelha e levou até ela que pegou uma tesoura abriu a camisa do homem, colocou luvas passou e a mão no peito dele como se estivesse contando algo e abriu um corte com o bisturi logo uma considerável quantidade de sangue jorrou pelo corte ela enfiou a mão no buraco em segundos o homem voltou a respirar.

Chegaram mais médicos e enfermeiros com uma maca, eles perguntaram o que houve ela os explicou, eu não entendia uma palavra, ouvi a voz da Dra. Yang dizendo você vai ter que ir junto o colocaram na maca e ela subiu em suas pernas nesse momento nossos olhos se cruzaram pela primeira vez desde que cheguei a Seatlle, vi seu olhar interrogativo quando notou que eu estava de mãos dadas com Sofia, eles sumiram pela porta do hospital.

Perguntei assustada

– O que ela fez?

– Salvou a vida daquele homem.

– Ela tá com mão dentro do peito dele.

– Sim segurando o seu coração.

Sofia que assistia a tudo com um olhar de admirada e ao mesmo tempo assustada, perguntou.

– Mamãe posso ir com Cristina ver mama segurar o coração daquele homem?

– Não Sof. você é muito jovem para entrar em uma OS terá muitas chances quando crescer de ver muitos corações.

– Quando crescer vou ser igual a mama vou cortar pessoas e segurar seus corações.

– Tenho certeza que mama prefere os ossos querida, vamos temos que ir pra creche.

– Você precisa de ajuda?

– Sim eu preciso, obrigada.

Peguei as bolsas que se encontravam no chão ao lado de Arizona e a acompanhei até a creche segurando a mão de Sofia era uma mãozinha deliciosa o jovem Tim dormia profundamente em sua cadeirinha que era carregado por sua mãe ele fazia barulho enquanto dormia e sorria.

– Ele dorme igual Calliope se mexendo e falando no meio dos sonhos.

– É eles são parecidos ele também prefere dormir a comer quando está cansado.

– Calliope sempre foi assim desde pequena passava o dia inteiro brincando e dormia sem comer por estar muito cansada.

– Ela sente sua falta.

– Também sinto a dela.

– Você é bem vinda Lúcia, basta querer.

O restante do dia ouvi muitos comentários sobre o ocorrido, em todos os lugares do hospital, naquele lugar todos pareciam saber da vida de todos, muito diferente da nossa empresa, também não é por menos aquelas pessoas viviam, comiam e dormiam ali, eles possuíam uma paixão por tudo aquilo que para quem não pertence a tudo aquilo é impossível entender.

Mas naquele dia eu tomei uma decisão e só cabia a mim resolver aquela situação.