Seguindo Caminhos
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Acordo sobressaltada com o alarme do despertador do celular e logo o desligo, para não atrapalhar o sono da minha colega de quarto-sala. Essa noite tive breves sonhos e um deles foi com meus queridos pais, de quem já sinto falta, apesar de estar aqui há poucos dias somente. Deveria tentar ligar pra eles para saber como estão, o que andam fazendo e se as coisas continuam do mesmo jeito; mas é obvio que tudo continua igual, a única coisa que mudou foi a distância entre nós. Mesmo assim, a ideia de falar com eles e ouvir as novidades me parece tentador demais para deixar a chance escapar. Portanto, adiciono no celular esse lembrete: ligar quando retornar da aula.
Levanto da cama, dobro meus lençóis e saio silenciosamente da sala, onde Amanda dorme seu sono tranquilo. Faço pouquíssimo barulho para caminhar até o banheiro e tomar meu banho. Não consigo raciocinar se não tomar uma ducha logo cedo, ainda mais com o frio que faz lá fora. Se não fizer isso, com certeza ficarei com preguiça de enfrentar a neve.
Como terei aula daqui a uma hora, não me demoro no banheiro. Após o banho, passo uma maquiagem de leve no rosto, enrolo a toalha no meu corpo e, antes de fechá-la totalmente, observo no espelho que fica acima da pia meus pneuzinhos. Ainda bem que não sou magra que nem as meninas de capas de revistas, gosto do meu corpo assim e sou feliz dessa forma. Odeio a ditadura da magreza!
Aproveito o sono pesado da minha colega para trocar de roupa ali perto, sempre observando para ver se ela não vai abrir os olhos e me pegar numa situação constrangedora. Se bem que, isso que estou fazendo já é embaraçoso por si só. Ao prometer que não demoraria no banheiro, acabei por não trocar de roupa lá e me arrependo de não tê-lo feito, pois dava tempo de sobra. Visto uma calça azul jeans, uma blusa rosa de manga cumprida e sento na beirada da minha cama para calçar os tênis. Volto até o banheiro e já deixo esticada a minha toalha no suporte de parede, em cima do aquecedor. Ao retornar para a sala, Amanda já acordou e espreguiça-se em seu sofá. Espero não tê-la acordado.
– Bom dia! – diz, enquanto boceja.
– Bom dia! – sorrio para ela.
– Há quanto tempo você acordou? Não é um pouco cedo demais? – ela corre seus olhos pela sala, à procura de um relógio.
Ao perceber que não encontrou nenhum, ela bufa e faz biquinho.
– Espere um pouco – ando até a mesinha onde deixei meu celular e mexo no visor. – São sete e meia – sento na cama.
Ela me encara espantada com seus arregalados olhos verdes – Mas já?
– Uhum.
– Ah não. Queria dormir mais! – se joga de volta no sofá e eu rio da sua preguiça. Poucos minutos depois, ela parece mudar de ideia e levanta preguiçosamente, quase arrastando consigo o lençol no qual se enrolara minutos antes.
– Já volto – ela boceja de novo, se livra do lençol e passa por sua mala em busca da nécessaire. – Pronto! – diz com a voz carregada de sono, enquanto levanta e caminha em direção ao banheiro, fechando a porta atrás de si.
Aproveito a ausência de Amanda para buscar algumas músicas da banda de ontem e encontro diversas informações sobre eles: biografia, como começou e fotos. Existem várias delas, comparando o início de tudo até agora. Não noto muita diferença, mas ao verificar bem cada imagem, os braços de um deles vai ganhando mais tatuagens ao longo dos anos. Escolho o primeiro site, por estar no topo da lista de busca. Ele demora um pouco para abrir, o que me deixa ansiosa, porém segundos depois, as informações vão surgindo e, de cara tem a explicação do porquê do nome da banda; algo que vinha me incomodando. Cada uma delas sempre tem um significado por trás e, quando descubro o dessa, me sinto idiota por não ter pensado nisso antes. A explicação é lógica demais e não me dei conta de que David, Alan, Trenton e Elliot formavam o nome da banda. São as iniciais de cada um deles!
Passo o dedo pela tela, tocando rápido demais, encontrando no final da página as músicas mais tocadas e por isso deixo passar toda a informação acima. Como já estou no fim, aperto o play e me deixo levar pela melodia suave, enquanto leio as informações de como tudo começou, há quanto tempo se conhecem, as músicas mais conhecidas e a ficha técnica de cada um deles. Com um violão dedilhado delicadamente, reconheço imediatamente a música que preenche meus ouvidos e reverbera pelas paredes brancas da sala, trazendo rapidamente à memória da noite anterior, onde Elliot se ajoelhou diante de suas fãs, no momento em que cantava tão apaixonadamente essa mesma música. Que atitude fofa!
Sem demora, volto para as fichas de cada um deles, procurando exatamente a de um dos integrantes mais amáveis da banda.
Nome completo: Elliot Johnson Smith Sousa
Idade: 21 anos
Cidade Natal: Portland
Status de relacionamento: namorando
Comida favorita: feijoada
Cor favorita: azul
Animais de estimação: um labrador amarelo chamado Fox
O que gosta de fazer: tocar violão e cantar
Hábitos: dormir de pijama, mas sem a parte de cima
Manias: roer unhas quanto está nervoso e comer chocolate
Música favorita: Breakfast, dos Papers
Idiomas que fala: português (básico)
Sabia que aquele fofo não poderia estar sozinho, sortuda é pessoa que está com ele. A curiosidade bate e eu não consigo segurar, por isso continuo a fuçar na internet quem é a pessoa com quem ele está e encontro várias fotos dos dois juntos, abraçados nas ruas e em diversas outras situações como restaurantes, praias e saindo de hotéis. Debaixo das imagens, descubro seu nome: Debby. Ela é linda, com seus cabelos pretos e olhos azuis, assim como os dele. Porém, os dela parecem contrastar bem mais, devido à sua pele morena e seu sorriso sempre evidente nas fotos, enquanto segura as mãos dele e caminham distraidamente pelas ruas. Então, a compreensão de repente me atinge em cheio. Comparo mentalmente a cena dos dois juntos e a de ontem: essa música deve ter sido feita pra ela, só pode e uma ponta de ciúme surge nas beiradas da minha consciência. Mas, não posso ser idiota a tal ponto de ter ciúme de alguém que mal conheço e já tem toda uma vida antes de mim. Não existe e nem vai existir "ele e eu", portanto espanto esse pensamento absurdo da minha mente.
Bem na hora em que pauso a música e me recomponho do meu devaneio fantasioso, Amanda retorna totalmente pronta para sairmos, vestindo um casaco azul de veludo, calça cáqui e sapatos de salto alto.
– Como estou? – ela dá uma voltinha, com as mãos enfiadas nos bolsos no casaco.
– Está ótima! – elogio-a e sorrio.
– Perfeito. E você? Deixe-me ver como você está! – ela diz, com a voz estridente.
– Não tem nada demais na minha roupa – digo desinteressada, cruzando os braços de forma emburrada, ainda sentada na cama.
– Deixa de ser boba! – caminha na minha direção e me segura pelos braços, forçando-me a levantar. – Quero ver! – ela implora.
– Tá bom! – bufo. Dou uma volta meio sem jeito e ela bate palmas para o que vê.
– Finalmente, você está bem vestida. Fico orgulhosa de você, minha amiga! – me abraça forte.
– Bem, agora que você já terminou, podemos ir? – digo emburrada.
– Eita...acordou com o pé direito hoje, foi? – revira os olhos.
Tentando espantar meu mal humor por conta do que acabei de ver, abro um sorriso forçado. – Não, está tudo bem! Vamos agora? – falo de maneira mais animada do que antes.
– Ah, agora sim! Essa é a Lícia que eu gosto. Já pegou tudo o que tinha para pegar?
– Sim! – mostro minha bolsa pra ela, balançando-a no ar.
Amanda abre um sorriso radiante e caminha na frente, enquanto reviro os olhos para suas costas.
Foi um pouco difícil encontrar o prédio que precisávamos achar. Depois de rodarmos por muitos minutos dentro do táxi e o taxista começar a ficar impaciente conosco por darmos informações que nunca davam em nada, finalmente avistamos ao longe o prédio espelhado de dois andares onde faremos nosso intercâmbio, pelos próximos seis meses. Descemos em frente ao pequeno, mas bem simpático apartamento e agradecemos ao não tão simpático motorista, enquanto Amanda paga pela viagem, oferecendo-lhe seu sorriso mais educado e acrescentando um pedido de desculpas. Ele aceita as notas e arregala os olhos, mas sem pestanejar logo dá a partida para longe de nós, antes que mudemos de ideia e decidamos fazê-lo perder mais tempo.
– O que você fez? – pergunto-lhe assim que ele se afasta de nós.
– Nada demais! – sorri. – Só dei umas notinhas a mais, como um pedido de desculpas – ela acrescenta.
– Ah – digo ao caminhar e abrir a porta dupla de vidro do prédio à nossa frente. Eu a seguro e Amanda passa, encontrando uma senhora loira, dos olhos verdes, vestindo um tubinho verde e casaco combinando.
– Good morning! – ela nos recepciona, com um sorriso educado.
– Good morning! – digo.
Amanda logo vai até ela e já não entendo mais nada do que diz, então ela se vira pra mim e aponta para a senhora à nossa frente. – Ela fala português, Lícia!
– Ah, menos mal – respiro fundo e o alívio é evidente em minha voz. Aproximo-me das duas e converso rapidamente com a senhora, que graças ao seu crachá reluzente, descubro seu nome: Barbara.
Após ter as informações reunidas, Amanda e eu subimos as escadas rapidamente e nos despedimos. Ela segue pelo corredor à direita e eu vou para a esquerda, em direção às aulas básicas de inglês. Segurando meus papéis em mãos, passo por cada porta até encontrar a da minha sala: a 1B. Por sorte, não preciso andar muito pelos corredores vazios, porque ela é a próxima. Entro na sala e guardo os papéis na bolsa, enquanto caminho pelas carteiras vazias, sentando na primeira fileira. Acomodo meus pertences na cadeira ao lado e tiro da pasta que recebi um livro com uma águia na capa e começo a folheá-lo, observando as figuras e as palavras novas que aprenderei ao longo dos meses. A sala começa a encher e ouço burburinhos ao longe, mas continuo a prestar atenção nos papéis em minhas mãos.
– Com licença. Posso sentar aqui? – diz uma voz.
– Claro, desculpa. – Retiro, sem demora, a bolsa que antes ocupava a cadeira ao meu lado.
– Tudo bem. É que todas as outras cadeiras já estão ocupadas e achei que não se incomodaria.
– É seu direito, né? – sorrio. Percebendo como fui grossa, paro o que estava fazendo e olho para o homem que acaba de sentar ao meu lado. – Me desculpe, não foi minha intenção.
– Vamos esquecer isso, tudo bem? – ele sorri. – A propósito, não me apresentei. Me chamo Bruno – estica a mão entre nós, que logo seguro para cumprimenta-lo.
– E o meu é Felícia! – sorrio sem jeito.
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