Notas iniciais
Espero que gostem!

Até que enfim, hoje é meu dia de folga e posso acordar mais tarde do que no restante da semana. Foi uma das mais puxadas dos últimos meses e me sinto bem com isso. Adoro o que faço, porém sou filho de Deus e preciso também de uns dias como esse. Com esse benefício, não fiz nem questão de colocar o celular para despertar porque queria acordar o mais tarde que conseguisse, sem ter a preocupação de correr contra o tempo para não chegar atrasado. Espreguiço-me em minha cama de casal, sentindo cada músculo retesar por baixo da minha pele, empurrando sem querer os lençóis que há pouco cobriam meu corpo. Por pouco, eles quase caem no chão, mas sou mais rápido e impeço que eles toquem o carpete marrom do meu quarto e enrolo-os embaixo de mim. Viro-me indolentemente na cama, ficando de costas para a parede e dando de cara com o relógio no criado mudo, que informa a hora: 11:45h.

Relutantemente, levanto-me da cama livrando-me dos lençóis brancos e inicio uma caminhada lenta em direção à porta à minha frente, onde fica meu banheiro. Ao abrir a porta, ela range um pouco e dou alguns passos para dentro do cômodo escuro, por isso tateio a parede à procura do interruptor. A luz ilumina o ambiente aos poucos, fazendo um chiado conforme vai clareando os azulejos azuis e esfrego meus olhos para me adaptar à claridade ao meu redor. Infelizmente, essa é a parte mais escura da casa e não tem nenhuma clarabóia.

Arrasto meus pés no piso frio de mármore negra até alcançar a banheira à minha esquerda. Abro as duas torneiras para enchê-la mais rápido e olho para o suporte de sabão líquido. Pego o primeiro que meus olhos enxergam e jogo o líquido dentro na tina de qualquer maneira, sem medir a quantidade para meu banho. Durante o tempo em que espero a água atingir o topo, sento-me na borda da banheira e esfrego meus olhos, enquanto observo meu reflexo no espelho. Meu rosto está um caos: rosto amassado, olheiras profundas e cabelos despenteados, mas pelo menos posso dar um jeito no cabelo. Bocejo um pouco e viro-mo para a banheira, a fim de verificar se a água já chegou onde deveria.

Desligo ambas as torneiras, retiro atrapalhadamente minha cueca, seguro no suporte de toalhas e equilibro meu peso nela para enfim entrar na banheira. Deslizo para dentro da tina, encontrando a água morna do jeito que gosto. Portanto me deixo relaxar soltando meu apoio, dou um suspiro e entro com tudo, espalhando água para todos os lados do banheiro.

Um banho relaxante era tudo o que precisava para me fazer acordar. Penteio meu cabelo para o lado e deixo o banheiro com uma toalha enrolada na cintura, andando com mais entusiamo do que há trinta minutos. Vou até a cômoda à minha esquerda e procuro algo confortável para essa tarde, antes de sair para fazer compras. É um hábito meu que gosto de preservar, por isso não me incomodo em sair nos meus dias de folga e ir ao mercado local. Opto por uma bermuda azul e uma blusa branca de mangas cumpridas e visto-as. Retiro do pendurador de roupas um casaco de moletom preto, saio do quarto e percorro o cumprido corredor, amarrando o agasalho em minha cintura enquanto observo as janelas fechadas. Do lado de fora, é possível notar a presença de neve nas beiradas das calçadas, amontoando-se de maneira gradual.

Alcanço o final do corredor, desço as escadas brevemente e chego na cozinha, onde encontro minha mãe sentada em frente à bancada de madeira. Ela lê uma revista de jardinagem e logo me lembro da sua pouca habilidade com as plantas. Coitada, sempre quis manter algumas delas vivas, porém morriam nos primeiros dias graças aos seus "cuidados": ora era por deixá-las o dia inteiro no sol, ora por colocar muita água. Essa ideia me faz rir, enquanto a observo e ela franze o cenho, fechando a revista de maneira abrupta.

– Que foi? — ela diz, irritada.

– Nada não — sorrio. — Bom dia! — digo ao dar um beijo no alto de sua cabeça.

– Bom dia! — me abraça de leve. — Sei muito bem o que você estava pensando. Eu quero muito encher a casa de plantas, Elliot. Um ambiente verde é mais saudável e ajuda a manter o clima mais ameno — diz com aquele mesmo tom de professora de biologia.

– Eu sei, mãe. Não se preocupe — sorrio e me livro de seu abraço, andando em direção aos armários pendurados em cima do fogão e da bancada com a cafeteira. Abro a porta e pego uma caneca, enchendo-a com o líquido preto.

– O que você vai fazer hoje, querido? — ela questiona, enquanto mexe na ponta dos seus cabelos castanhos curtos.

– Vou passar no mercado Strik. Quer que lhe traga alguma coisa em especial?

– Sim, por favor. Preciso de mais plantas — sorri, sem jeito.

– Você tem certeza disso? — levanto uma das sobrancelhas e encosto na bancada atrás de mim

– Claro! De quê outra forma vou aprender a cuidar de plantas, se não tiver nenhuma? — pisca.

– Certo, certo. Alguma em especial? — beberico meu café sem açúcar.

– Sim. Quero que dessa vez você me traga uma suculenta. Eu andei lendo nessa revista que ela é fácil de cuidar e não precisa de muita água também. Por isso, quero arriscar essa.

– Ok, vou ver se encontro — dou uma última golada na minha bebida e lavo a caneca na pequena ilha no centro da cozinha. — Só isso? — olho para minha mãe, que voltou a olhar para a revista e falo um pouco mais alto, por causa do barulho da água.

Ela ergue a cabeça e assente positivamente, porém volta a prestar atenção nos papéis em suas mãos.

Com isso, saio da cozinha e ando na direção das escadas, escalando os degraus de dois em dois.

– Obrigada, querido! — ela diz, quando alcanço o patamar.

Entro em meu quarto para trocar de roupa e encontro meu celular caído no chão, com o visor virado para o carpete marrom. Em três passadas de perna, vou até onde se encontra e ele se acende, revelando que há três mensagens e uma ligação perdida.

Andrea — Elliot, essa semana teremos gravação de clipe. Daqui a dois dias, vamos viajar.

David — Andrea te avisou sobre essa semana? Não vai esquecer, falcão!

Ganhei esse apelido por conta da tatuagem em minhas costas. Na verdade, o que tenho tatuado é uma águia, não um falcão.

Myke — Levarei minha filha quando vocês terminarem a gravação do clipe. Mais uma vez, muito obrigado por esse gesto.

A ligação era da minha ex. O que ela ainda tem pra me dizer? Será que quando ela disse que havia me traído com seu melhor amigo não foi o suficiente? Não vou retornar, não depois do que ela aprontou comigo. Se não tivesse feito essa burrada, até daria para manter a amizade tranquilamente, porém ela ferrou com tudo quando abriu a boca, na maior cara de pau e ainda jogou a culpa pra cima de mim. Disse que eu não tinha tempo pra ela e se sentia sozinha e carente, portanto acabou cedendo às investidas dele. Tive outras namoradas e mantenho contato com elas até hoje, mas com a Deborah não tem jeito. Eu estava realmente apaixonado por ela, quando compus "Forgive me". Havia feito uma besteira na época em que namorávamos e essa foi uma forma de pedir perdão e mostrar que estava arrependido, mas nada se compara a uma traição; isso é imperdoável.

Após essa irritante ligação que me trouxe lembranças desagradáveis, resolvo sair o mais rápido possível daqui e distrair minha mente perturbada. Abro o armário e retiro do cabide uma calça jeans grossa e visto-a rapidamente, junto com o casaco que antes estava amarrado em minha cintura. Puxo o capuz sobre minha cabeça e coloco um óculos escuros ao caminhar pelo corredor em passadas largas e duras. Que bom que ao descer as escadas, não encontro mais minha mãe sentada no mesmo lugar de antes. Portanto, abro a porta e bato-a atrás de mim, dando de encontro com o ar gelado do lado de fora. Ando com certa pressa até meu jeep amarelo, destravo as portas do carro e entro. Jogo minha cabeça pra trás e respiro fundo algumas vezes para acalmar meus nervos. Não sei como, nem porque, mas Deborah ainda me deixa nervoso e isso eu não posso deixar que dure por muito tempo. Preciso esfriar minha cabeça e permitir que coisas boas preencham meus pensamentos e levem embora qualquer resquício dela. Aperto o botão para abrir o porta luvas do carro e busco minha carteira entre os diversos papéis que ali se encontram. Quando enfim encontro minha carteira marrom, retiro-a de lá e verifico quanto de dinheiro possuo e se os cartões estão presentes.

– Acho que tenho o suficiente — falo ao soltar o ar preso em meus pulmões.

Puxo o cinto de segurança e jogo no banco do passageiro minha carteira aberta, espalhando na superfície do assento seu conteúdo.

– Droga! — digo ao soltar o cinto e recolher os papéis e as notas, empurrando-as para dentro da carteira novamente.

Puxo o cinto de novo e prendo-o finalmente. Enfio a chave na ignição, passo a marcha e saio da garagem rapidamente, ajustando o aquecedor do carro.

Não demoro muito e chego ao mercado Strik. Meu humor ainda não está dos melhores, mas tenho certeza que isso logo vai melhorando quando tiver caminhando pelos corredores da loja. Saio do corro, travo as portas e dirijo-me à entrada no estabelecimento. Passo pelas portas automáticas e graças à familiaridade com que conheço esse lugar, logo encontro os carrinhos dispostos em fileiras. Apanho o último, deslocando-me entre as seções do comércio vazio, deixando para trás a raiva que senti há poucos minutos, enquanto verifico os preços dos produtos e distraindo-me ao ver rostos conhecidos.

Em pouco tempo, já tenho quase tudo que precisava: frutas, verduras e legumes. Os últimos dois itens da lista ainda não adicionei ao carrinho, ou seja, a suculenta da minha mãe e meu galão de leite. Passeio pelo mercado a fim de deixar somente a planta pra depois, por não querer que ela seja amassada com o peso do leite. Ao chegar no corredor dos líquidos, encontro uma jovem em pé bem na frente do que preciso pegar e espero, há poucos metros de distância que ela se decida e enfim possa colocar o que quer que seja dentro cesto que segura em seu braço. Encosto-me em meu carrinho, observando-a enquanto isso: ela veste um casaco grosso marrom e uma calça jeans. Ao mesmo tempo em que ela reflete sobre os itens dispostos na prateleira, enrola seu cabelo castanho entre os dedos e parece viajar lendo os rótulos de cada produto. Pelo amor, são só bebidas! O que mais ela quer encontrar em meio às embalagens? Respiro fundo e decido me aproximar para ajudar a pessoa mais indecisa que já vi na vida. Dou alguns passos em sua direção e ela parece perceber minha aproximação, porque no mesmo instante ela olha na minha direção, franze o cenho e diz:

– É você? — diz ao falar em português apontando na minha direção, com ar acusatório.

Olho para os lados e para trás, procurando a pessoa no qual ela se refere.

– Não se faça de bobo. Eu sei que é você! — ela se aproxima e, sem que eu espere retira o óculos do meu rosto. — Eu sabia que não estava errada. A propósito, óculos bonito o seu, hein — diz ao avaliar cautelosamente o objeto em suas mãos. — E caro — acrescenta.

– Oi! — digo sem jeito, porque não lembro dela. Mas, seu rosto me é familiar.

– Toma — ela devolve meu óculos, que torno a colocar em meu rosto. — Não lembra de mim? — apontando pra si.

– Não, me desculpe. — Nessas horas que queria saber falar melhor em português, porque mal consigo me explicar.

– Sou eu, a Lícia! — fala animadamente. — Espere um momentinho só — enquanto ela se vira e busca algo em sua grande bolsa, noto como seu cabelo forma uma cortina negra em seu lindo rosto. — Aqui... olha! — diz ao puxar minha mão para colocar seu celular. É nesse momento que algo dentro de mim parece fazer um ruído metálico, quase como uma ficha caindo quando junto os fatos à foto que está no visor do seu aparelho. Nele, eu vejo uma foto com três pessoas sorrindo alegremente e, uma delas é a menina que está à minha frente, sorrindo orgulhosa para mim.

– Oh, eu lembrar agora! — sorrio timidamente. — Me desculpe! — digo ao devolver-lhe o celular.

– Poxa! — exclama. — Já estava quase dando um tapa na sua cabeça para ver se lembrava de mim — sorri abertamente. — Agora, chega de se desculpar em cada frase. Enfim, foi bom ver você, Elliot! — se aproxima e me dá um beijo no rosto, pegando-me de surpresa e isso acaba transparecendo.

– Ihhh...é a minha vez de pedir desculpas — faz uma careta. — Ainda não me acostumei ao jeito de vocês — diz ao se retrair, apontando pra mim.

– Não ter problema.

– Mas, mesmo assim preciso ir. A gente se esbarra por essas bandas! — ela dá as costas pra mim e volta às prateleiras, decidindo rapidamente pelo que levar, joga-o dentro da cesta e move-se pelos corredores vazios.

Olho para seus cabelos que balançam conforme ela caminha, até que sua silhueta desaparece por entre os demais clientes do mercado, deixando-me com a certeza de que essa não será a última vez que nos veremos.

Notas finais
Obrigada por lerem! ^^