Notas iniciais
Espero que gostem e se divirtam como eu!

– Cara, hoje foi intenso! — falo animado para Alan, que está ao meu lado comendo um pretzel.

– Com certeza — ele responde, em meio às mordiscadas.

Estamos em nosso camarim e exaustos. Há pouco mais de cinco minutos, a última fã acabou de sair. Ela é uma das mais especiais que temos, fundadora do primeiro fã-clube "Date 4 Ever" e como sempre, merece mais atenção e é exatamente isso o que fazemos, mesmo estando cansados, suados e doidos para irmos embora, não há como não retribuir seu carinho e amor. Todas as vezes que vem, traz consigo alguma lembrança para cada um de nos e eu adoro isso. Hoje ela trouxe uma carta gigantesca escrita à mão e algumas das nossas comidas favoritas, como o pretzel que Alan está comendo no momento. Eu gosto de chocolate, mas deixarei para comer mais tarde, porque agora não consigo colocar nenhum tipo de doce no estomago. É claro que as outras também merecem a nossa total atenção, mas Clarissa está sempre presente nos nossos shows, apesar de morar longe.

Nossos funcionários, melhor dizendo, nossa família numero dois dá duro para que tudo isso aconteça. Transformaram esse camarim, que antes era um lugar com cadeiras jogadas nos cantos, em um local onde pudéssemos receber nossas fãs e depois que a mágica acaba, podermos descansar e nos servir com a farta comida que está do outro lado da sala. Com certeza, o dia foi mais puxado para eles do que pra nós, porque enquanto estamos descansando e comendo, o trabalho deles continua à toda. Se não estivesse tão cansado, os ajudaria sem nem pensar duas vezes.

Jogo-me sem jeito na cadeira acolchoada, recostando-me nela enquanto cruzo os braços, deixando-me usufruir do relaxamento que ela traz para meus músculos cansados. Fecho meus olhos e empurro minha cabeça para trás, ignorando o ruído do meu estomago que ronca sem parar, implorando para que deixe minha preguiça de lado e atravesse o cômodo para comer alguma fruta. Sua "canção" é interrompida, quando ouço Andrea caminhar entre nós, por isso abro meus olhos e esfrego-os um pouco para desembaçar minha vista cansada.

– Quando faremos a próxima apresentação? — pergunto para Andrea, que se aproxima rebolando um pouco, com uma pasta debaixo do braço. Ela abre o objeto retangular preto e seus olhos passeiam pelas informações ali escritas.

– Daqui a dois dias, garotão – ela sorri e volta para a mesa onde os meus amigos estão reunidos.

– Certo, obrigado! — dou-lhe um sorriso educado. Permito finalmente que a fome me vença e dou impulso com os pés no chão, para chegar ao outro lado do camarim. A cadeira giratória desliza facilmente pelo piso quadriculado, emperrando algumas vezes no meu percurso até a mesa, mas não desisto e continuo a lutar contra a sua teimosia em impedir que aplaque minha fome. A mesa com frutas diversas parece evocar meu nome e chamar minha atenção conforme meus olhos passam pela superfície plana, fazendo com que se tornem mais chamativas a cada centímetro percorrido. Meu estomago parece concordar com o que meus olhos vêem, pois conforme me aproximo da mesa, mais alto ele ronca.

– Que fome! — exclamo baixo, enquanto decido por qual alimento escolher, permitindo que meus olhos passeiem pela mesa farta.

– É, deu pra perceber! — David brinca e todos riem.

Sorrio junto com eles e pego a fruta que me chama mais atenção no momento: uma maçã verde. Fico encarando-a por alguns segundos e minha boca enche d'água só de pensar em dar fim à fome, portanto a mordo avidamente e aprecio seu sabor azedo em minha língua.

Ouço atrás de mim o mesmo arrastar de cadeiras e alguns xingamentos sussurrados, enquanto ele parece empacar no mesmo ponto onde antes eu estava. Os braços tatuados com dragões cuspindo fogo e uns corações surgem por trás de mim, agarrando uma fatia de abacaxi.

– Você nunca cansa de comer, cara? Mais parece uma draga! Como cabe tanta comida aí dentro? – gargalho um pouco alto ao apontar para sua barriga, quando ele coloca toda a fatia em sua boca.

Ignorando minha provocação, ele mastiga um pouco mais rápido para mudar de assunto — E então, Elliot. — resmunga — Já está pronto para cairmos na estrada ou você ainda precisa fazer aqueles seus rituais malucos? — Alan importuna-me, dando um tapa leve em meu braço, quase fazendo cair o que ainda resta da maçã.

– Ou, minha comida, Al — repreendo-o de boca cheia, mastigo mais um pouco para continuar e engulo. — Já disse que não gosto que brinquem com ela – franzo o cenho, mas logo sorrio. É praticamente impossível ficar zangado com ele, que é o mais palhaço de nós, pois suas brincadeiras não me importunam mais como antes.

– Tá bom, desculpa — se levanta e sorri, abandonando sua cadeira ao meu lado.

Ao terminar de comer o restante da fruta, jogo-a fora na lixeira ali perto e escolho um cacho de uvas. Meu estômago já não ronca mais tão alto quanto antes, mas ainda assim sinto fome; as frutas nunca conseguem saciá-la totalmente. Por estar tão absorto em satisfazê-la, acabei não percebendo que Alan, David e Trenton estão quietos demais e ninguém mais veio até mim. Fico curioso por algum tempo e giro a cadeira onde estou sentado para olhar na direção deles, que falam alto. Olho para eles, que estão sentados a uma mesa de jantar grande, reunidos quase encostando cabeça com cabeça e observam animados um grande papel esticado sobre a superfície plana de madeira. Decido levantar da cadeira e caminhar até la, mas quando faço isso o cansaço que havia esquecido dá as caras e minhas pernas ficam pesadas no instante em que fico em pé. Apesar de minhas pernas não cooperarem com o que quero fazer, espanto a sensação incômoda da dor e do cansaço iminente, atravesso o espaço mancando um pouco e me aproximo deles. Conforme vou chegando mais perto, as vozes tornam-se mais claras e consigo ouvir um pouco do que eles conversam animados.

– Só precisamos atravessar todo o litoral e... – ouço David falar, apontando para o papel esticado.

– Sobre o que estão falando? – interrompo-o ao perguntar, aproximando-me da mesa e vejo um grande mapa dos EUA esticado sobre ela. Nele, existem diversos pinos coloridos, traçando caminhos tortuosos pela grande extensão do gráfico ali exposto.

David pára de gesticular e olha para minha cara franzida — Tá vendo os lugares marcados em azul? — balanço a cabeça afirmando, então ele prossegue apontando para os pinos que cruzam boa parte do papel, formando um trajeto curvo para à direita. — Esses são os lugares por onde já passamos e os vermelhos — indica os restantes, que fazem uma trilha extensa, mas menor do que a anterior — São os que ainda não nos apresentamos, mas iremos passar nas próximas semanas.

– Certo — mudo de assunto. — Vocês ainda vão precisar de mim? Estou quebrado e doido pra cair na cama — aponto para a porta atras de mim. — Se não se importarem e não tivermos mais nada pra discutir, acho que vou embora. Minhas pernas estão me matando, pessoal — solto um ar cansado.

– Não, cara...vai lá. — Alan e os outros dizem, quase em uníssono. — Ainda bem que já deixamos as partes mais importantes para antes do show mesmo e qualquer coisa lhe informo sobre os detalhes ou alguma mudança de planos — Trenton intervém.

– Valeu, Trent — dou um tapa de leve no ombro de cada um deles, busco meu casaco e passo pelas portas duplas, deixando-os concentrados em observar o mapa e discutir sobre suas expectativas em relação aos próximos meses.

Caminho lentamente pelos corredores da casa de show, ainda sentindo uma leve pontada de dor nas pernas. Vejo portas abertas e ouço vozes abafadas que reconheço imediatamente e dou uma breve passada por ali para me despedir dos meus colegas de trabalho, enquanto sigo meu caminho em direção ao estacionamento, onde meu carro se encontra. Antes de sair pelas portas dos fundos, encontro um dos seguranças que conheço desde o início dessa loucura, que nossas vidas se tornaram.

– Boa noite, Mike!

– Boa noite, Eliiot! — diz com um aceno de cabeça. — Já olhei tudo lá fora e está limpo — informa.

– Valeu por isso — dou dois passos para sair do estabelecimento e retorno. — Esqueci do presente que comprei pra sua filha de aniversário. – visto o casaco. — A propósito, ela está bem? — digo ao olhar para seu rosto cansado.

– Sim, ela está muito bem, obrigado por perguntar.

– Certo. Se puder trazê-la da próxima vez que vier, gostaria de entregá-lo pessoalmente.

– Sem dúvida trarei. E, mais uma vez, obrigado por esse gesto!

– Não precisa se incomodar, porque faço isso com muito gosto — sorrio e aceno.

Ao cruzar as portas do estabelecimento, noto que a luz da lua brilha intensamente no capô do carro ao lado do meu. Não é difícil encontrá-lo no estacionamento, pois o deixei estacionado logo perto da saída e a cor dele é de fácil identificação, por se destacar dos demais. Ele é um jeep amarelo, quase cor de ovo. Quando entrei na concessionária e o vi, logo me chamou a atenção e não resisti; precisava daquele carro e assim o fiz. Depois vieram outros; é claro, mas esse é o meu preferido de todos eles.

Abro a porta e sento no banco de couro gelado do carro. Não demoro muito em ligar o aquecedor, para que antes de deixar o estacionamento aqui dentro já esteja num clima agradável, antes de dar a partida e ganhar as ruas. Enquanto isso, esvazio os bolsos do casaco, retirando dele os chocolates que ganhei de Clarissa. Não demora muito e já consigo sentir os efeitos do vapor que sai do painel, espalhando velozmente o ar quente, portanto ligo o carro e dirijo cautelosamente até minha casa, evitando ultrapassar a velocidade mínima segura para quando está nevando.

Seguro o volante e acendo a luz interna do carro, enquanto ajeito meu cabelo no reflexo do espelho retrovisor, prestando atenção nos carros que vêm na minha direção com faróis altos. Forço a olhar para baixo e xingo mentalmente cada um deles por serem tão idiotas e não respeitarem o motorista que dirige na direção contrária a deles. Quase fico cego com o último que joga a luz do farol bem nos meus olhos e os fecho momentaneamente para conseguir voltar a enxergar, reduzindo a velocidade em contrapartida. Quando volto a abri-los, estou olhando justamente para meu reflexo no espelho retrovisor. Meu rosto está com sinais de cansaço aparente; também pudera, o dia foi puxado à beça! Acordei bem cedo para ver as instalações com o restante do grupo, passamos o som e ensaiamos mais uma vez, para que tudo estivesse perfeitamente pronto na hora do nosso show. Particularmente, já estou acostumado à rotina dos dias das apresentações, porque nunca muda. É uma rotina gostosa, mas cansativa. Hoje foi um pouco diferente dos outros dias, por estarmos perto de casa e existir a possibilidade de acordar um pouco mais tarde e retornar para nossos lares no final do dia. Porém, quando estamos na estrada, dormimos em ônibus com nossas equipes e ficamos juntos vinte e quatro horas por dia, criando entre nós um relacionamento amistoso e os laços acabam se estreitando. Vez ou outra, Alan prega peças em nós durante as nossas merecidas horas de sono ou então mexe com nossas refeições. Essa última parte me incomoda, mas nada que vá me deixar muito preocupado a ponto de criar uma briga, causando um desconforto entre nós. Já são dois anos e meio fazendo a mesma coisa e antes já convivíamos por sermos tão próximos, apesar de estarmos em salas separadas na escola, portanto acabei me acostumando a seu jeito engraçado e brincalhão, tanto que sempre que nos separamos nos nossos dias de folga sinto falta deles. Nós somos uma família, afinal de contas.

Os caras e eu éramos uma banda de garagem e nos reuníamos na cada de Trent, depois das aulas. O vocalista era o David, nós apenas tocávamos nossos instrumentos e arranhávamos no vocal. Um dia como qualquer outro, estávamos nos apresentando na festa de formatura de uma escola, mas não era qualquer uma, porque era exatamente nessa onde estudávamos no ensino médio. Um olheiro passou por lá — por sorte nossa, é claro -, e nos viu, apresentou a oportunidade que tanto almejávamos e não negamos. Seríamos burros se recusássemos, pois era a chance de deixarmos o anonimato e virarmos o que somos hoje. Nossos mundos viraram de ponta cabeça, porque num dia éramos quatro adolescentes em uma banda pequena e, na semana seguinte viramos uma boyband. Num dia, estávamos andando pelas ruas como completos estranhos e, na semana seguinte, nos tornamos os "Date". Com a fama — palavra que não gosto muito -, vieram coisas ruins também, porque seguranças começaram a surgir e impedir que as pessoas, as fãs, se aproximassem de nós, como medida protetiva. Pouco tempo depois, passei a aprender como lidar, entender e apreciar o carinho e o amor que elas nos davam, por isso logo trarei de encontrar uma maneira de retribuir. Foi pouco depois que nossas músicas começaram a tocar nas rádios locais, que surgiu o fã-clube da Clarissa. No início, era ela e mais algumas colegas da sua sala de aula, como dissera numa carta que ainda tenho guardada comigo. Hoje em dia, já conta com mais de trezentos integrantes que se dedicam aos detalhes mais ordinários de nossas vidas. É fascinante saber que as pessoas se dedicam a isso, o que me deixa feliz e serve de incentivo para continuar; faço por mim e por todos eles. Portanto, ela não é uma pessoa qualquer que chegou e simplesmente fundou algo, Clarissa foi a primeira fã e nos deu combustível para que continuássemos nosso trabalho, ao fazer a divulgação boca a boca. Apesar da distância, sempre arrumamos uma forma de mantê-las por perto e a melhor maneira que encontramos foi através das redes sociais; o que facilita bastante e nos aproxima de todos. Os seguranças interferem um pouco, mas eu compreendo o lado deles por estarem fazendo seu trabalho e não reclamo.

Como um simples ato pode transformar toda uma vida, porém temos os pés no chão desde o começo e sabemos que isso pode não durar pra sempre. O sucesso não me transformará em alguém arrogante, cuja base é simples e jamais permitirei que seja alterada.

Dirijo pelo caminho que atravessa o quintal amplo da minha casa. Ela é completamente cercada por um gramado e, no centro de todo o mundo verde existe uma fonte de pedras grossas e largas, espirrando água das bocas dos quatro anjos ali dispostos. Esse último item foi escolhido a dedo pela minha mãe, ao nos mudarmos pra cá. Ela sempre achou lindo isso nas casas, quando folheava as revistas de residências chiques do país e sonhava com um lugar onde poderia ter uma dessas em sua casa. Logo assim que tive a oportunidade de comprar um lugar para mim, trouxe-os comigo, porque não haveria chance de viver longe deles e eu não saberia como isso seria possível. Quero tê-los sempre por perto, mesmo quando a distância estiver nos separando.

Minha vaga é bem perto do nosso lar, portanto não me demoro muito em manobrar e estacionar na garagem coberta. Desligo o carro e me livro do cinto de segurança, em seguida. Ao olhar através do vidro dianteiro, vejo meu companheiro de muitos anos vindo em minha direção. Abro rapidamente a porta do meu carro e, apesar de estar cansado não meço esforços para corresponder ao afeto e a amizade sincera do meu cachorro. Fox, meu labrador amarelo de cinco anos me recepciona, com seu rabo que nunca pára de balançar como se ali existisse uma hélice de um helicóptero e me dá uma lambida no rosto.

– Ei, amigão — sorrio para ele. — Também estava com saudade – digo ao limpar a sua baba da minha bochecha.

Fox deita-se no chão, abre suas pernas e exibe sua barriga peluda, deleitando-se do meu toque afável em seus pêlos amarelos.

Ouço um par de passos ao longe, enquanto esfrego distraidamente a barriga exposta de Fox e eles vão ficando mais altos quando se aproximam, por isso levanto a cabeça e vejo meus pais vindo até nós.

– Chegou tarde hoje, filho — minha mãe diz preocupada. ao fechar o casaco em torno de sua silhueta franzina.

– Boa noite, Elliot! — meu pai diz, com as mãos nos bolsos da sua calca jeans.

Deixo Fox um pouco, que reclama por ter sido abandonado e ando em direção aos meus pais. Dou um abraço de urso em minha mãe, que da leves tapas em minhas costas e aperta meus ombros ao se afastar. Meu pai só corresponde ao meu sorriso afetuoso ao olhar para ele e ver que não sabe o que fazer com as mãos.

– Boa noite, pai! – digo quando nossos olhos se cruzam por segundos e volto a olhar para a mulher mais importante da minha vida. — Hoje foi difícil, mãe. A fila de fãs estava maior do que o habitual e Clarissa estava lá. Você sabe que não me importo em passar várias horas com elas, contanto que todas sejam atendidas.

– É, eu sei que quando está com elas, esquece de tudo e nem vê a hora passar, ainda mais com Clarissa — ela diz ao segurar minha mão gelada e muda de assunto quando olha distraidamente para elas, esquentando-as entre as suas. — Fiz a comidinha que você adora, filho!

– Jura, mãe? – olho surpresa pra ela, que assente. Ainda bem que só comi umas frutas, senão não haveria espaço para o que ela cozinhou e isso a deixaria chateada.

Abraço-a de novo e permaneço com um braço ao redor do seu corpo franzino. — Então, vamos lá porque estou morto de fome! — com a mão livre esfrego meu abdome, para enfatizar o que acabo de dizer.

Juntos, nos três deixamos a garagem, com Fox nos guiando para dentro da casa que tanto amo retornar quando tenho a oportunidade. Aproveitarei a folga de amanhã para fazer minhas atividades corriqueiras, mas hoje só quero curtir meus velhos.

Notas finais
Obrigada por ler!