Seguindo Caminhos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Ao retornarmos para nosso apartamento, depositamos os pesados pacotes na bancada. Enquanto eu retirava os itens das sacolas de papel, Amanda os guardava no armário de madeira ao lado do fogão. Nesse momento estou procurando algo para vestir, enquanto ela está no banho. Fuço em minha mala algo que seja confortável e de certa forma elegante, pois sairemos à noite e quero estar pronta para qualquer ocasião, seja ela um boate ou um bar. Decido usar uma calça jeans azul escura, uma blusa de manga cumprida e o casaco que comprei antes de chegar aqui. Infelizmente, o frio que me aguardava era bem mais intenso do que esperava e eu não estava preparada para isso. Terei que passar em alguma loja baratinha para comprar um agasalho que me aqueça, mas por enquanto o que tenho vai ter que cumprir seu propósito até lá.
Amanda sai do banheiro cantarolando, enrolada em seu roupão, enquanto enxuga uma toalha felpuda em seu cabelo loiro.
– Vai lá, garota! — ela diz para mim, caminhando até sua mala.
Saio da sala, carregando em meus braços a necessaire, toalha, roupas e escova de dentes. Minutos depois, estou de banho tomado e quase pronta para sairmos. Passo pelo estreito corredor que leva à sala e Amanda está linda. Seus cabelos estão secos e seu rosto está belamente maquiado. Seus olhos estão com uma maquiagem que eu gostaria de aprender a fazer e posiciono-me atrás dela, quando ela termina de passar mais uma camada de rímel nos cílios.
– Quer que eu passe em você? — ela olha para meu reflexo no espelho.
– Sim, é claro! — sorrio ao pensar nisso.
– Vamos sentar no sofá — ela caminha até ele e eu a sigo. — Segure o espelho desse jeito — diz ao posicionar o objeto de forma que meu rosto fique exatamente no centro.
Não demora mais do que quinze minutos para que ela trabalhe em meu rosto e eu me sinta fabulosa. Ela trabalhou muito bem em meu rosto e meus traços ganharam mais vida devido à maquiagem. Meus olhos estão mais destacados, minhas maçãs do rosto estão mais rosadas e meus lábios brilham levemente devido ao gloss vermelho, com gosto de cereja.
Descemos pelo elevador com o sangue pulsando em minhas veias, por conta da nossa indecisão e do que virá por aí. Em todos os meus sonhos de uma vida por aqui, nunca imaginei que estaria me divertindo à noite. Meus planos eram basicamente estudar, estudar e estudar.
O elevador chega ao andar térreo e esperamos a porta se abrir para sairmos. Com um toc, toc, toc dos saltos altos de Amanda atrás de mim, passo pelas portas de ferro do edifício onde moramos e recebo uma lufada de ar gelado no rosto.
– Esfriou, hein — paro na porta do edifício, esperando que Amanda se aproxime.
– Pois é — ela assopra as mãos e esfrega uma na outra.
Dou mais alguns passos para fora do toldo e viro meu rosto para os dois lados, para encontrar algum lugar onde possamos ir. — Vamos caminhar naquela direção?
– Que direção?
– Ali na frente, olha. — inclino a cabeça para a direita. — Estou com muito frio para esticar meu braço. Dá um desconto, vai! — sorrio.
Ela assente e caminhamos lentamente até o local ali perto. Ao nos aproximarmos, observo uma fila que se forma do lado de fora com várias mulheres na mesma idade que a minha aparentemente e descubro na hora do que se trata. Elas estão segurando cartazes com fotos e mensagens escritas em cartolinas coloridas e olho para a fachada da casa de shows, onde há uma enorme foto de uma banda com quatro garotos.
Um segurança grande e alto, com cara de poucos amigos está posicionado do lado de fora, com uma caneta grossa em mãos, marcando algo nas mãos das pessoas. Quando chegamos ao início da fila, ele diz algo que não entendo.
– Ele quer nossas identidades — Amanda diz pra mim.
– Ah, claro — retiro a minha da bolsa, junto com o passaporte.
O segurança faz sinal para que dê minhas mãos para ele e marca um "x" em ambas. O que será que isso quer dizer? Não faço ideia! Deixando minha curiosidade de lado, entramos na casa noturna, porque as pessoas atrás de nós já estão reclamando, aparentemente, enquanto estava parada olhando e examinando minha mão marcada.
Ela aproxima-se do meu ouvido — Isso serve para evitar compremos bebida alcoólica, Lícia — Amanda diz perto de mim.
– Ah.
Reconheço rapidamente cada um dos 'garotos' que vi há pouco nos cartazes. Acho que aquelas fotos foram tiradas há alguns anos, pois os rostos deles estão um pouco diferentes do que vejo agora; estão mais velhos. O palco à nossa frente está bem iluminado, em comparação à platéia e o ambiente em que nos encontramos.
Eles cantam e dançam, enquanto a platéia grita enlouquecida, copiando os garotos. Paro para olhar a multidão ao redor, apesar do ambiente estar escuro, para tentar distinguir o que vejo. Grande parte do público é feminino, no entanto vejo alguns homens no meio. Devem ser amigos ou namorados, que vieram acompanhar.
Amanda me puxa mais pra perto do público, forçando-me a atravessá-lo com ela.
– Uau! — exclama mais alto do que a música.
– Legal, né? — digo, ao aproximar-me de seu ouvido.
– Sim! — diz animada e ri, ao jogar seus braços pra cima, iniciando uma dança meio descoordenada.
Observo a sua tentativa frustrada de dançar, mas não digo nada permitindo que ela se entregue à música. Logo, decido deixá-la de lado para olhar para o palco ali perto. Amanda me trouxe tão pra frente que quase é possível que eles nos olhem diretamente e eu possa ouvir quando seus pés toquem o chão.
– Hi! — uma mulher, toda vestida de preto se aproxima e me cutuca.
– Hi! — respondo, pois só sei dizer isso.
– Você quer uma pulseira para ter acesso ao camarim, depois que o show acabar? — ela pergunta, em inglês.
Faço cara de quem não entendeu nada e puxo Amanda, que está a um braço de distância de mim.
– Fala — ela se aproxima, inclinando a cabeça na minha direção.
– Me ajuda aqui! — falo desesperada perto do seu ouvido.
Minha colega de quarto conversa com a mulher, da forma que consegue, faz sinal para que a moça espere e me passa as informações.
– Ela está querendo saber se queremos ir ao camarim da banda, depois do show. É um costume que algumas delas têm, não sabia? — diz ao pé do meu ouvido.
Amanda olha para mim e luzes dançam em seu rosto, quando balanço a cabeça negando essa informação. Chego perto dela e informo — Por mim, não tem problema. Bora? — ela faz sinal de positivo com o polegar e fala com a mulher, que espera ao seu lado. Logo, a senhora de preto entrega para Amanda suas pulseiras fluorescentes, que agradece. Com isso, a funcionária se afasta, nos deixando sozinhas entre a multidão.
A banda começa a cantar uma música lenta, facilitando assim nossa comunicação.
– Toma — ela me entrega uma fita e, na pouca luz não consigo distinguir direito, mas conforme vou deslizando meus dedos pelo objeto, reconheço como sendo a pulseira que Amanda recebeu da funcionária há pouco e prendo-a em meu braço da forma que consigo.
Apreciamos o show e as músicas. Verdadeiramente, estou gostando e entendendo o porquê de fazerem sucesso por aqui. Além de serem bonitos, as canções são gostosas de apreciar e ouvir. Graças à minha cara de pau e meu "embromation", consigo decorar facilmente alguns versos de frases aleatórias, permitindo que meu corpo acompanhe o ritmo agradável da música. Não tem como ficar estática bem na primeira fila do show, porque parece que aqui é mais intenso.
Quando os primeiros acordes da próxima música começam a tocar, boa parte das garotas dá um gritinho agudo e fico sem entender. Talvez seja essa a canção mais conhecida deles, por causa da animação e do clamor do público. Ela é mais lenta do que a anterior e um dos vocalistas se aproxima da platéia, arrancando ainda mais gritos histéricos das garotas ao meu lado, quase me deixando surda. Agora eu entendo o porque da animação delas, só não compreendo o porquê disso tudo. Enquanto alguns casais abraçam estão abraçadinhos na escuridão aproveitando a ocasião, elas ficam arrancando os cabelos. Meio exagerado esse comportamento, mas tudo bem.
Ao mesmo tempo em que ele se dedica à platéia enquanto canta, esticando sua mão livre para tocar nas que estão estendidas em sua direção, os outros continuam em seus lugares. Seus olhos se fecham. Ele se concentra em entregar o máximo de si nesse momento. Gosto da forma como ele se aproxima de suas fãs. Depois dizem que só os brasileiros é que fazem isso.
Quando ele enfim abre os olhos, a luz do holofote ilumina sua íris azul celeste e seus traços delicados, tornando-o quase angelical e encantador. Engulo em seco em apreciação a essa imagem à minha frente e meu transe é quebrado no momento em que uma fã grita perto do meu ouvido, por isso mudo meu foco e passo a olhar para o outro lado do palco ao mesmo tempo em que ele canta a última palavra com bastante emoção.
O homem dos olhos azuis sorri e levanta-se sem pressa, mas antes de voltar para seu lugar, pega um bichinho que foi atirado em sua direção e beija-o ternamente. Que fofo isso! Depois disso, ele caminha para perto dos seus colegas e, juntos cantam a derradeira palavra. Ao finalizarem sua apresentação, aplaudo junto com a platéia e assobio. Os quatro curvam-se em agradecimento, enquanto uma cortina desce lentamente, escondendo-os atrás dela. As luzes vão sendo acendidas aos poucos, revelando pulseiras igualmente parecidas com as nossas, nos braços de algumas garotas ali perto.
– E aí, o que achou? — Amanda aproxima-se e pergunta.
– Olha, até que foi bom! — digo, admirada.
Ela concorda e arruma umas mechas soltas atrás das orelhas. — Vamos lá conhecê-los?
– Claro. Mas, vou precisar da sua ajuda, porque você sabe que não entendo nada, né?
Ela sorri. — Fica tranquila. Tá comigo, tá com Deus — sorri e me puxa em direção a uma fila pequena perto do palco.
Por saber que não irei passar por nenhum constrangimento durante esse tempo, mas agora já não tem mais jeito mesmo, deixo que Amanda me leve até o final da fila que ali começa a se formar. Algumas das fãs que havíamos visto na entrada da casa de shows estão aqui, e óbvio. Outras das que seguravam cartazes nos olham com uma cara não muito boa, mas não é nada que já não tenha visto antes. Não tive culpa da senhora de preto ter justamente escolhido nós duas – tento dizer para elas ao olhar para seus rostos aflitos. Bem, pelo menos é o que meu olhar diz ao menos.
A mesma morena que nos deu a pulseira agora lidera a fila onde estamos, segura uma prancheta debaixo do braço e verifica, pessoa por pessoa, se estão com as pulseiras nos braços, antes de liberar o acesso ao camarim. O tempo de espera é maior do que havia imaginado, o que me deixa aflita com esperar o inesperado. Sei que lá dentro não tem nada demais, mas elas fazem parecer que há muito mais por trás das cortinas pretas a frente. Nunca fui assim quando estava perto de alguém que admirava demais, porque sempre os tratei como se fossem pessoas como nós; o que eles realmente são. Não fazem nada além do que um individuo normal faz: eles comem, dormem e saem para se divertir; o que os "destacam" da gente e a forma como ganham seu dinheiro. Tudo o que fazem na vida pode haver espectadores a espreita de qualquer movimento, esperando alguma ação. Deve ser bem complicado viver "pisando em ovos" a vida toda, achando que alguém possa estar fotografando sua vida banal, enquanto faz coisas do cotidiano. Será que isso acaba algum dia? Ou seja, será que eles acabam esquecendo dos paparazzi e levam uma vida sem se preocupar com tudo isso? Essa seria uma coisa que gostaria de saber, porém nunca terei como descobrir além das entrevistas que dão.
Ao nos aproximarmos ainda mais das cortinas pesadas, vou sentindo um frio na barriga e me agarro a minha bolsa na tentativa de espantar essa preocupação boba. Um funcionário baixinho e de cabelos enrolados segura o pesado pano e, com um aceno de cabeça da morena de preto, ele a abre para nós duas, revelando um cenário como o que havia imaginado, só que maior.
– Meu Deus – exclamo baixinho ao atravessar a cortina com Amanda, analisando todo o cenário ao redor. Os cantores estão dispostos pelo espaço, formando um quadrado no cenário abarrotado de gente, em frente a espelhos com luzes e cadeiras. Cada um deles está rodeado por meninas de diversas idades, que seguram papéis e tiram fotos com seus celulares de última geração. A nossa frente esta um deles, que dá atenção a uma fã bem sorridente. Quando ele termina, vira-se em nossa direção e pede que nos aproximemos.
Amanda anda a nossa frente e estica um papel para o cantor ali presente, que o assina mecanicamente e eu me aproximo para tirar uma foto com os dois. Ele é de estatura mediana, cabelos ligeiramente curtos e lisos, olhos castanhos e pele azeitonada.
Nos despedimos do não muito falante cantor e passamos para o que está ao seu lado. Esse e mais serio do que o anterior e e ruivo lindo, com cachos na altura dos ombros e um rosto cheio de sardas. Algumas das suas tatuagens são visíveis nos braços e no pescoço; uns dragões que cospem fogo e diversos desenhos de engrenagens ao longo da nuca. Aproveito a distração deles em conversarem e tento entender algo, mas logo mudo de ideia. Pego meu celular na bolsa e busco rapidamente alguma informação sobre eles. Gracas ao chip que comprara na tarde de hoje, após sairmos do mercado, agora tenho internet e posso descobrir o nome de cada um deles.
Demora poucos segundos, mas o suficiente para deixar-me aflita, pois parece que ela já vai se despedir do ruivinho e teremos que partir para o próximo. A fila atrás começa a se formar e as pessoas nos olham com caras amarradas. Nesse instante, surge na tela o nome de cada um ao redor e solto um suspiro de alivio. O que acabamos de deixar pra trás se chama David, o ruivo se chama Alan, o que está à minha esquerda é o Trenton; que será o próximo e que está do outro lado do improvisado corredor. Ele é bem mais alto do que os outros, loiro e seus cabelos são lisos até o queixo e seus olhos são verdes. Não havia reparado o tamanho deles porque estavam presos na hora do show, mas agora estão soltos e com marcas do prendedor que usara há pouco.
Na última ponta do quadrado encontro Elliot, que reconheço de imediato porque foi o que tratou tão bem suas fãs e isso se repete aqui dentro também. Várias delas se amontoam em cima dele para tirar fotos ao mesmo tempo, mas ele nem parece ligar para isso ao exibir um enorme sorriso para cada uma delas e abraça-las. Dos quatro, é o que parece lidar melhor com o assédio e também e o mais bonito; eu as entendo. Seus olhos azuis-celeste contrastam bem com sua pele branca e seu cabelo castanho escuro, quase preto.
Sem demora, nos despedimos de Trenton e nos aproximamos de Elliot, o simpático cantor.
– Hi! — Amanda toma a frente, de novo.
– Hello! — ele diz, apresentando-nos seu sorriso mais simpático, esperando o mesmo papel que os outros três assinou.
– Vem, Lícia! — ela diz mais alto de onde está , para que me aproxime dos dois,
– É...vem, Lícia! — ele repete em português enrolado, nos deixando boquiabertas. Ué, ele fala nosso idioma? Quando foi que eu deixei passar essa informação? Deveria ter demorado um pouco mais, lido só mais um pouquinho sobre cada um. Se tivesse pesquisado, não teria sido pega de surpresa, porém não é das piores de qualquer forma. Portanto, me aproximo com um sorriso no rosto e um interesse maior em conhecê-lo.
– Você fala português! — falo o óbvio ao me aproximar deles e observar seu rosto risonho.
– Só um pouquinho – diz ao assinar seu nome no papel branco.
Logo me animo. — Mas, você entende?
Olho para ele e para Mandy, alternando entre os dois, enquanto a ficha cai aos poucos. Nem sequer chequei a biografia de cada um deles. Que idiota que fui! Com certeza, isso estava escrito lá.
– Sim — ele balança a cabeça, confirmando. — Minha mãe ser brasileira e me ensinar o básico — diz com um sotaque bem carregado, mas tão meigo.
– Ah — a compreensão me atinge em cheio.
Uma moça de preto se aproxima de cara feia para nós e fala com ele em tom de reclamação.
– Lícia, ela está falando para andarmos logo. – Amanda olha aflita para mim. -Estamos aqui há muito tempo já — ela indica com o queixo e olho para trás, onde uma fila se forma.
– Puxa, é verdade! — digo, sem graça. — Foi muito bom conhecer vocês, Elliot.
Ele sorri. — Espere. — diz.
– Não quero que briguem de novo — me viro para ele, enquanto a moça se aproxima de novo.
Elliot diz alguma coisa para ela, então a senhora nos dirige um sorriso fraco e um pedido de desculpas, que é a única coisa que consigo entender, no meio de um monte de coisas que falou e logo se retira.
– O que você falou pra ela? — olho espantada para a moça que se afasta e depois para ele.
– Nada demais — diz, coçando a cabeça e um sorriso preguiçoso surge em seus lábios rosados.
– Sei — digo, desconfiada e observo a forma como ele reage quando digo isso. Ele não consegue olhar em minha direção, mas deixo isso pra la porque deve ser coisa da minha cabeça. O importante e que ela se afastou e isso foi bem legal da parte dele.
– Vamos logo tirar essa foto, pessoal? — Amanda me interrompe, posiciona-se entre nós e entrega o celular para mim. Elliot estica seus longos braços sobre nossos ombros e, nesse exato instante encontro um ângulo perfeito para que capture esse momento.
– Digam "xiiiiis"!
Aperto o botão do celular, aproveitando para dar o melhor dos meus sorrisos ao registrar essa foto para sempre. Uma situação completamente inesperada e que quero que seja lembrada quando olhar para essa imagem nos próximos dias. Se todos os meus dias forem assim na terra do Tio Sam, vou aproveitar ao máximo e tirar foto de tudo o que puder, para quando voltar ao
Brasil ter boas lembranças de cada dia que vivi aqui.
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