Seguindo Caminhos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
– Ufa, cheguei! — digo ao abrir a porta da minha nova morada, carregando comigo a mala pesada que custei para arrastar pela pequena escadaria do hall de entrada. Graças a Deus que o edifício possui elevador, senão seria complicado subir cinco andares, trazendo esse trambolho.
Esse será meu novo lar pelos próximos seis meses e me lembro muito bem quando disse em alto e bom som para meus pais: quero fazer intercâmbio nos EUA! E eu só tinha treze anos. O que era um plano maluco — como eles diziam -, hoje se tornou realidade.
Em uma noite de carnaval estava eu, largada no sofá, no momento em que meus pais curtiam essa data tão festiva lá fora, pulando entre a multidão de gente que os cercava e isso não combinava em nada com minha personalidade. Nunca gostei dessa época do ano pois eles sempre me vestiam com fantasias ridículas e, como sempre fui gordinha e não me aceitava, ficava incomodada com os apelidos que recebia, por conta das roupas que era forçada a usar. Ano após ano, fui sendo vestida de bailarina, cigana e odalisca sempre tendo em vista que algum ano poderia escolher ficar em casa ao invés de andar por aí dançando e fingindo entusiasmo. Desde os cinco anos de idade, eu era a rejeitada na escola por não ser tão magra quanto às outras crianças e ficava de fora das brincadeiras, por acharem que eu não era capaz de correr atrás de uma bola, ou de pegar uma bandeira do outro lado do campo. Eu tinha mais disposição do que muitos dos que se achavam melhores do que eu, por serem franzinos. Cá pra nós, nunca me importei mesmo e eu amo estar acima do peso e não me afetar com balanças, nem as calorias que os alimentos contém. É tão bom não ser escrava do que as pessoas impõem pra você, porque assim eu me sinto livre.
Finalmente, aquele foi o primeiro que afinal consegui ficar completamente sozinha e aproveitei ao máximo.
Zapeando pelos canais da tevê, pois não queria assistir nenhum desfile e nem nada relacionado ao carnaval, encontrei um seriado de comédia americana. Nunca havia ouvido falar antes, mas o episódio estava na metade, então decidi acompanha-lo até o final. Quando ele terminou já estava tão envolvida que não troquei mais de canal. As piadas eram engraçadas demais, tanto que faziam minha barriga doer de tanto rir, mostrando a forma como eles viviam e, a partir daquele momento, acho que ouvi um "click" em minha mente. Episódio atrás de episódio, fui me apaixonando pelos personagens, pelo idioma e pelos cenários que foram mostrados durante o programa. Por sorte, havia legendas, mas eu queria aprender a falar como eles e botei isso em minha cabeça, transformando em uma ideia fixa.
Nos três anos seguintes, procurei a melhor forma de aprender a falar inglês e encontrei diversos cursos no Brasil, mas eu não queria só isso. Meu desejo era viver um tempo naquele lugar que me foi tão bem apresentado, ao mesmo tempo em que estudava e encontrei uma maneira de conseguir isso: através do intercâmbio. Durante uma tarde, comecei a expor para meus pais o sonho que estava nutrindo há algum tempo. No começo, a ideia lhes pareceu absurda, porém após terem uma conversa de portas fechadas e que durou umas boas horas, eles saíram de lá e disseram que iriam realizar meu sonho, mas eu ainda teria que esperar mais alguns anos porque não tinham condições financeiras de me bancarem em outro estado, quiçá em outro país. Foi algo como "Está louca, Lí? O que você andou comendo?". Meu irmão estava cursando faculdade e, graças aos seus estudos custosos, eu teria que adiar meu plano maluco. Foi a forma como eles se referiram, na época. Como era uma adolescente que achava que tudo na vida seria facilmente resolvido num estalar de dedos, não recebi essa notícia muito bem e fiquei emburrada, quase chorei por receber aquela 'trágica' notícia. É incrível como eu recebi aquela notícia de uma forma tão infantil e hoje vejo isso. De todo jeito, não estaria pronta para enfrentar tudo isso com somente dezesseis anos. Ainda bem que minha mãe explicou tudo na maior paciência que lhe era peculiar: era pegar e engolir as lágrimas de crocodilo que ameaçavam cair ou largar. Que outra solução eu tinha, senão aceitar? Portanto, agarrei essa possibilidade com unhas e dentes enquanto me preparava psicologicamente para o dia de hoje.
Jamais imaginei que ao deixar meus pais pra trás para estar viajando pelo mundo seria um momento triste, mas feliz ao mesmo tempo. Partir para a realização de algo que tanto se quer na vida permite que você analise e valorize o que está abandonando, criando dúvidas e levantando questões como o medo e a insegurança. Não estava preparada para lidar com esse sentimento dúbio. Ao cruzar as portas do aeroporto, dei um grande passo em direção à minha independência temporária e essa foi uma das partes felizes.
Não foi muito difícil encontrar um motorista disposto e solícito para me trazer até aqui, pois eles pareciam quase lutar para pegar alguns passageiros no hall do aeroporto. Portanto, escolhi o que mais me agradou e entreguei a ele um papel com o endereço escrito, torcendo para que ele entendesse minha letra. O táxi me deixou na porta do apartamento de cinco andares, nessa pequena cidade chamada Divine, que felizmente possui um aeroporto. Nunca pude imaginar que essa nova sensação de estar aqui, vendo as coisas que via no seriado — e passei a ver em outros filmes -, durante minhas pesquisas fosse dessa forma. Parece que estava entrando num cenário de algum programa ou de um filme, pois me senti maravilhada desde o momento que coloquei meus pezinhos em solo americano. Das árvores, até os pássaros que voavam por perto, tudo me encantou.
Rapidamente, peguei o elevador e apertei o botão redondo de número cinco, que fica no topo do painel de aço escovado. Suas portas se fecharam sem demora, mas eu estava impaciente demais para chegar ao andar da minha nova morada. Por isso bati o pé ansiosa, como se isso fosse fazer o tempo passar depressa enquanto aguardo o elevador chegar ao meu andar.
Atravessei as portas duplas de madeira branca e vi que tudo é real. Ainda estava embasbacada ao deixar minha mala no meio do caminho para andar em todo o apartamento. Bem, não demorei muito tempo para fazer isso, porque tudo é pequeno mesmo. Em vinte minutos, já havia conhecido a cozinha, o banheiro e o quarto-sala. O que tomou mais tempo, durante meu trajeto nesse quase quitinete foi observar os detalhes dos cômodos. A parte mais impressionante foi ver que não tem ralo no banheiro, a sala tem luminárias nas paredes e não no teto e o famoso triturador de alimentos na pia da cozinha.
Cá estou eu, espalhada na cama dura e sem lençóis, observando o teto de madeira clara. Torço para que a pessoa com quem eu vá dividir o espaço seja mulher, senão vai ser complicado lidar com a bagunça que os homens fazem. Morei com dois a vida inteira e sempre tinha que abaixar a tampa da privada, recolher toalha molhada e a lavar a louça que se amontava na pia da casa dos meus pais. A incrível inabilidade que eles não têm de manter as coisas em ordem me tiram do sério.
Parece que por mágica, nesse momento a pessoa por quem esperava resolve dar o ar da graça e ouço barulho de um molho de chaves. Em seguida, uma das portas de madeira é aberta.
Levanto rapidamente da cama para ver quem ali está e encontro uma figura alta, desengonçada e, felizmente, é uma mulher!
Sem demora, corro para atender a criatura atrapalhada que passa pela porta carregando três malas pesadas. Com esse tanto de roupa, até parece que vai se mudar pra sempre, não que vai ficar por algum tempo. Ela tem as pernas esguias e finas, calça um sapato vermelho de salto de grife, calça jeans bege e um casaco de tecido grosso preto.
– Deixa que eu te ajudo — apareço bem na frente dela e recolho a mala mais pesada, levando-a para o outro lado da sala pequena.
– Ah — ela respira fundo. — Obrigada! — Com a mão livre, joga seu cabelo loiro para trás e abre ainda mais a porta, revelando outra mala atrás de si. — Ficou faltando mais uma! — dá um sorriso amarelo.
– Não tem problema! – digo ao abrir espaço entre as malas restantes e busco a última, ao mesmo tempo em que ela senta no sofá de forma elegante, cruzando as pernas. Seus olhos percorrem rapidamente o ambiente ao redor e, conforme passam pelo cômodo, seu rosto vai tornando-se sério.
Arrasto sua mala até o pequeno corredor, pois as outras já ocuparam boa parte do espaço apertado. — Pronto – prendo meus cabelos castanhos escuros e grossos em um coque frouxo e sento ao seu lado.
– Que péssima educação a minha! – ela sorri e revira os olhos. – Já cheguei e deixei você ocupada em me ajudar, sem antes me apresentar. Enfim, — ela respira fundo – vamos começar de novo. Meu nome é Amanda – diz ao esticar sua mão no espaço entre nós. – E o seu é?
Esfrego minhas mãos nas calças escuras até que estejam limpas o suficiente. Estico minha mão e seguro a sua, reparando em sua pele macia e sua unha bem feita, pintada quase à perfeição num vermelho vivo, com pequenas rosinhas desenhadas ao redor. Esse momento é um pouco constrangedor porque minhas unhas estão roídas até os sabugos.
– O prazer é todo meu! – digo sem graça ao notar que ela está olhando para meus dedos. — Espero que não se importe por pegar a cama – pigarreio para tirar a atenção dela das minhas unhas, retirando-a depressa do seu campo de visão.
– Como assim? Isso é tudo? — ela olha espantada ao redor do quarto-sala.
– Sim — digo, sem entender, olhando de novo em volta da sala tão simpática e minimalista. Para mim, está muito bom porque foi o que meus pais conseguiram pagar e não preciso de muito luxo, pois posso viver com pouco. Ela tem razão em falar que é pequeno, porque a sala mal cabe o sofá em que estamos e a cama onde dormirei e ainda enfiaram uma mesa de centro! Quem foi o inteligente que teve essa ideia de colocar isso ali? Mas, a cozinha é maior. Bem, aparenta ser maior porque é aberta e existe um bancada de mármore que divide os dois cômodos, portanto é possível ver daqui o armário de madeira, que fica ao lado do fogão. A pia, se é que podemos chamar assim, fica ao lado da geladeira verde água e até funciona bem. Ao chegar, a encontrei ligada, porém vazia. Só as fôrmas de gelo estavam cheias, mas pra quê vou usá-los agora, em pleno inverno? O banheiro é a parte mais engraçada de tudo isso, porque fica no fim do 'corredor'. Nem dá pra chamá-lo assim, por ser tão curto e estreito.
– O anúncio dizia que haviam dois quartos e uma sala ampla! — diz, surpresa.
– Iiih, Amanda, acho que você foi enganada. Pelo menos, eu já sabia que seria pequeno.
– É óbvio! — bufa, irritada. — Nem a ampla sala é como disseram. Preciso dar uma volta completa, para verificar o restante. Pensei cá com os meus botões "Que volta completa? Ela vai dar dez passos e chegará ao banheiro." No entanto, não impeço que ela passeie pelo quitinete e espero sentada no sofá, retirando o celular do bolso de trás do meu jeans para enviar uma mensagem aos meus pais, informando que cheguei bem e estou viva.
Minha irritada colega de quarto levanta do sofá e caminha pisando duro pelo minúsculo apartamento, em direção ao banheiro. — Não acredito! — grita e corro em sua direção para ver o porquê.
– O que aconteceu?
– O banheiro é um ovo! — diz, tristonha.
– Não fique assim, veja pelo lado bom.
– Que lado bom? – diz entredentes.
– Eu, ué! – dou de ombros. — Quer pessoa mais especial para se ter como colega de quarto? Veja bem: eu sou extrovertida na medida certa, amigável, engraçada, divertida, altruísta...- vou contando nos dedos. — Espere, também tenho defeitos: teimosa demais e roo unhas. Olha só isso! — deixo para trás o constrangimento de ter unhas roídas para mostrá-las à Amanda e assim fazer com que esqueça dos contras do apartamento.
– Ai, Felícia! – ela gargalha alto, jogando a cabeça pra trás. – Obrigada por ser tão compreensiva, mas eu não estou aceitando isso de uma forma muito boa.
– Eu entendo. — digo para tranquilizá-la, procurando uma forma de melhorar seu humor. – O que acha de fazermos compras? Estamos mesmo precisando comprar algumas coisas para a casa. Como cheguei antes, já fiz uma lista mental sobre o que preciso. Olha essa cama – aponto, sem ânimo, para nossa frente – não tem nem lençóis. Antes de anoitecer eu preciso de alguns, né.
– Tem razão – Amanda bate palmas, exultante. — Amo fazer compras! – seus olhos brilham ao dizer essa frase.
Juntas, partimos para explorarmos as ruas da pequena cidade.
Divine é uma cidade pacata, daquelas que vi tantas vezes nos cinemas achando que isso só existia nos filmes. Ao passearmos pelas ruas praticamente vazias, constato que deve ser por causa do frio intenso e da neve que cai preguiçosamente. Pela minha primeira vez em minha vida, posso sentir a neve em meus dedos. A sorte que trouxe luvas quentinhas, mas ao ver um floco de neve cair, as retiro imediatamente para ter essa experiência de capturar e sentir a pequena partícula entre meus dedos. Como percorri o caminho até o apartamento de táxi, mal sabendo para onde seria levada, não parei para reparar nesse espetáculo da natureza. Porém, agora que caminho pelas calçadas, noto o acúmulo de neve em suas extremidades, formando poças brancas e espessas. Outro floco de neve cai e, dessa vez não decido pegá-lo, mas sim permito que siga seu curso natural e se junte aos outros montes ao redor. Afinal de contas, não quero pagar de turista embasbacada logo no primeiro dia.
– Olha! — Amanda interrompe meu devaneio.
– O quê? — digo ao virar pra trás e seguir seu dedo com os olhos.
– Você não tá vendo? — diz, um pouco irritada.
– Não — dou de ombros.
– Aqui, oh — ela me puxa e praticamente me empurra na direção de onde seu dedo apontara antes.
Logo entendo ao que se referia. Ao colocar meus olhos no letreiro luminoso, posicionado entre dois prédios, percebo que encontramos o que precisávamos.
– Ah — sorrio sem graça. — Desculpe, estava distraída.
– Eu percebi, né — ela revira os olhos e ri.
Andamos no caminho estreito e atravessamos a porta automática. Ao entrarmos no mercado, notamos o clima mais ameno, graças ao aquecedor barulhento, por isso retiro minhas luvas e Amanda faz o mesmo, enquanto olho ao redor em busca de carrinhos de supermercado. No momento em que os encontro, caminho em direção a eles e pego o menor.
– Pronto — digo ao retornar com um carrinho e Amanda agradece, jogando sua bolsa dentro dele.
Caminhamos juntas e lentamente dentro do estabelecimento, escolhendo primeiro o corredor de enlatados e observando cada prateleira com seus produtos diferentes. Há uma diversidade enorme de comidas, das mais normais (o que já víamos no Brasil), e as que parecem somente haver aqui. Olho espantada para uma lata de patê de tatu disposta numa prateleira, frango enlatado — o que não parece tão estranho assim — e até feijão doce! — Que estranho! — falo baixinho comigo mesma e sorrio.
– Amanda, vem ver isso aqui! — viro-me pra trás, mas não a encontro. Durante o tempo em que estava distraída com a descoberta de produtos tipicamente americanos, não percebi quando ela se afastou, deixando-me sozinha no corredor vazio. Fico um pouco preocupada e começo a olhar ao redor, esquecendo-me de pegar a lata de frango. E agora, o que fazer?
Assim que o desespero começa a bater, ela volta carregando diversos produtos em suas mãos e o alívio ao rever minha colega de quarto-sala me tranquiliza.
– Onde você foi? — pergunto.
– Ué, fui buscar algumas coisas. Não sabe o tanto de coisa esquisita que encontrei por aqui, Felícia – Amanda diz ao depositar os produtos tranquilamente no carrinho.
– É, eu imagino. Ia até te mostrar um, mas você desapareceu.
– Ownn, não seja rabugenta. Já estou de volta — puxa minha bochecha entre os dedos, após de livrar dos produtos que carregara.
– Tá bom, tá bom — levanto as mãos em sinal de derrota. – Eu só fiquei preocupada.
– Certo — ela empurra o carrinho devagar e começa a liderar o caminho — Já compramos tudo?
– Espera — ando em sua direção e olho dentro do carrinho para verificar. — Papel higiênico, cotonetes, absorventes, frango, leite, ovos, óleo, lençóis para a minha cama...É, acho que temos tudo. Se faltar alguma coisa, eu volto aqui.
– Sem problemas – ela olha para dentro do carrinho, analisando nossas compras e eu olho junto, conferindo se não ficou faltando mesmo nada. – Felícia, vamos embora? – diz, impaciente.
– Oi? – desvio minha atenção dos itens e olho para seus olhos verdes irritados. – Sim, sim. – balanço a cabeça confirmando.
Aproximamos nosso carrinho da caixa registradora e um rapaz nos atende de maneira educada, ao dar um sorriso cordial. Amanda retribui o sorriso enquanto pega os itens do carrinho. Um por um, vai passando para as mãos do simpático funcionário, que registra nossas compras. Vez ou outra, ele franze o cenho para o que vê, mas isso dura alguns segundos somente.
Ela pega a embalagem de absorvente e entrega ao funcionário de forma mecânica. – Felícia, o que acha de darmos uma volta pra ver como esse povo se diverte?
Ouço uma risada vindo de trás dela e ambas olhamos para o ruivinho sardento que organiza nossas compras na sacola de papel pardo, que ruboriza e esconde seu rosto atrás de seus cabelos vermelhos.
Decidida a tirar a atenção dela do funcionário que ainda não consegue olhar pra frente, respondo imediatamente — É uma boa ideia. Vamos sim! Mas, preciso voltar e buscar umas coisas antes, me espere aqui – ando rápido para onde estávamos e dou mais uma olhada para trás, para ver se ela iria voltar a encarar o ruivinho.
Volto para a setor de enlatados e pego duas latas; uma de cada produto que achei esquisito equilibrando-as em meus braços.
– Aqui estão — tiro uma por uma e coloco-as dentro do carrinho.
– O que é? – diz ao retirar as latas e ler seus rótulos.
– Enlatados, ué – dou de ombros.
– Tatu? Que nojento, Felícia! – franze o nariz para a lata como se fosse um animal morto em suas mãos; o que de fato é.
– Deixa de ser fresca! — Se eles podem comer, por que não podemos também?
– Você — ela aponta seu dedo com unhas pintadas para mim — vai comer. Eu não! – bufa.
– Só não vá reclamar quando as coisas boas acabarem e só restar tatú pra comer.
– Prefiro morrer de fome! – ela dá a língua pra mim e eu sorrio abertamente, enquanto recolhe uma sacola de papel e me passa a outra.
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