Seguindo
1 Capítulo 1
Notas iniciais
PARTE UM
Capítulo um
14 horas dormindo e esse não era o meu recorde. Noite passada foram 18 horas seguidas. Acho que meu cérebro tinha esperança de que eu não acordasse nunca mais. Apesar de 14 horas serem mais do que o suficiente para descansar, não vejo motivos para sair da cama em plena quarta-feira. Gostaria de virar para o lado e tirar mais uma soneca, mas, infelizmente, minhas necessidades fisiológicas falam mais alto e sujar minha cama não parece uma boa ideia.
A privada está gelada e de repente noto que hoje é uma quarta-feira muito mais fria que o habitual. Observo meus pelos do braço eriçando, sinal de que ainda sinto alguma coisa. Meu pijama surrado é pequeno demais e minha pele se arrepia diante da consciência climática. Não demoro para estar de volta à cama. Minha vontade de pegar o celular na gaveta é nula, mas sei que preciso avisar que não vou trabalhar hoje, assim como não fui ontem ou anteontem.
29 ligações perdidas. 19 são do Felipe, meu recém ex-namorado; 6 são do escritório; 2 são do Rafael, meu chefe e ex-namorado passado. Se é que posso chamá-lo assim; e as últimas duas são do meu pai.
— Oi papai, tudo bem? – coço a testa e fecho os olhos. Sempre fazia isso quando mentia que estava doente – Não estou passando muito bem, por isso não te atendi. Vou descansar hoje – solto o botão do áudio e ouço o barulho de envio.
Em seguida retorno a ligação do escritório.
— Mariana? – solto assim que ouço o telefone sair do gancho.
— Mel! Como você está? Tentei te ligar várias vezes, o Rafa também. Estamos todos preocupados com você. Me diz! Como esta?! – fala em disparada. Tudo isso sai em um único fôlego. Mariana é assim.
— Fala para ele que não vou hoje. Manda ele me dar uns atestados – brinco. Fazer isso soa natural, mas minha voz ainda é meio mórbida.
— Ai meu Deus! Estamos todos perdidos sem você aqui. Você não sabe o que aconteceu ontem! O Rafa conseguiu estraçalhar a impressora tentando por o cartucho de tinta. Depois disso saiu xingando meio mundo dizendo que sem você a clínica fica um caos. Ele parecia realmente bravo. Só o vi desse jeito naquele dia estranho lá – tudo isso mais uma vez em um único fôlego. Parece que sua bunda está pegando fogo, tamanho é o desespero e velocidade que as palavras saem.
— Caos? – suspiro resignada. – Quem é ele para falar de caos? – não espero que ela responda. Me afundo em minha cama macia e sinto o travesseiro abraçar meu rosto– Ele vai dar conta da impressora. Avise que não adianta me ligar, vou ficar longe do telefone por hoje. Quero apenas descansar.
— Tudo bem – assente. Fico surpresa com a frase curta.
Não demora dois segundo para que ela finalmente comece a falar sem parar.
— Espero que melhore logo dessa virose. Semana passada meu filho pegou uma que Deus me livre. Ainda bem que o Dr. Rafa ajudou com os remédios. Eu não sei o que seria de mim, você sabe o meu salário né. Complicado como esses remédios custam caro...
O timbre irritante de Mariana parece ser capaz de estourar meus tímpanos. Ainda que ela fale em tom normal.
Olho para a minha janela clara pela luz do dia. Imagino o horizonte para além dela afim de encontrar alguma paz. Por fim, não há nada de paz em minha cabeça. Perco a paciência.
— Vou descansar Mari. Até mais – desligo sem querer terminar de ouvir o desfecho do santo Dr. Rafael em mais uma de suas benfeitorias.
O silêncio toma conta do quarto, mas não de minha mente. Isso sim é a definição de caos. Gemo baixinho, e viro de bruços. Se eu tiver sorte ainda consigo dormir mais um pouco.
Acordo com o barulho de arranhado na porta da lavanderia. Demoro um pouco para associar ao fato de que Amora está desde ontem sem comer. É com um pingo de responsabilidade que resta em meu corpo que me arrasto pelo apartamento, passando pela sala onde a janela aberta dá passagem a um frio cortante de doer os ossos.
Finalmente chego à cozinha. O pacote de 15kg de ração reside ao lado da porta de vidro que divide o cômodo da lavanderia. Encho um copo de ração e passo meu braço por uma fresta mínima na porta, transferindo o conteúdo para seu pote. Eu sei o quanto sou uma péssima dona, mas não quero enfrentar os olhos ansiosos de minha cachorra dizendo que ainda assim, ela me ama. Isso é horrível demais até pra mim, e olha que eu sou uma pessoa horrível.
Amora é uma linda Golden de 20kg presa em um cubículo de 3x3m. Evito pensar nisso com sucesso já tem um tempo. Evito tanta coisa que nem sei mais o que evito.
Volto para fechar a janela. O céu deixa claro que está vindo um temporal.
Uma das características que herdei de meu pai, além do nariz, é o fato de que o tempo fechado inexplicavelmente me deixa triste. Não que o céu hoje tivesse me influenciado.
Abaixo as persianas, mas as deixo abertas como sempre. Meu estômago está um pouco incômodo, mas fome é algo que não sinto há algum tempo. Não lembro minha última refeição. Um papel fluorescente chama atenção em meu tapete branco.
O que é isso?
Pego o pequeno post-it verde-limão dobrado em forma de avião. Apesar das dobraduras, é possível ver alguns rabiscos em seu interior. Desdobro com os polegares e me deparo com um número. Vasculho minha memória, mas nada me remete ao papel. Definitivamente aquele garrancho também não é meu.
Não há nada além do número e me sinto verdadeiramente curiosa.
Levo o papel para perto do telefone sem fio no balcão americano.
Diante de mim e atrás do balcão de mármore que divide a sala da cozinha, o micro-ondas indica que já são três da tarde. Parece que temos um novo recorde: 19h de sono não seguidas. Quase um dia inteiro.
Pondero se ligar para o número é uma boa. Eu nunca gostei muito de falar ao telefone.
A curiosidade vence e retiro o telefone da base. Digito os nove números, cada um fazendo um som diferente nas teclas. Respiro fundo prestes a apertar o botão de discar.
Pulo de susto quando a campainha me interrompe e largo o telefone no balcão. Seu barulho cessa só para depois tocar insistentemente. O porcelanato frio em meus pés guia meu caminho até o hall.
— Merda – praguejo quando olho meu reflexo no espelho da entrada. Definitivamente estou uma merda. A ideia de fingir que não estou aqui passa brevemente diante de meus olhos, mas uma voz grave e inconfundível transpassa a madeira da porta e faz meu estômago se contrair.
— Eu sei que você está aí. Abre logo.
Olho mais uma vez meu reflexo. O suficiente para sentir vergonha da minha pele exposta, da forma como o pijama aperta o meu corpo, do meu cabelo emaranhado e, principalmente, do meu rosto.
Grandes círculos arroxeados sustentam meus olhos. Eu sou a prova viva de que dormir bastante não diminuí olheiras.
— Anda Mel, eu trouxe comida – ele fala como se isso fosse motivo suficiente para que uma vontade súbita de abrir a porta aflorasse em mim. Ele sempre achou que as coisas funcionavam do mesmo jeito para nós.
— Vai embora – digo, mas minha voz sai embargada. Não tinha percebido que estava prestes a chorar. Engulo em seco o choro e é como se uma bola de tênis passasse por minha garganta.
— Ou você abre, ou eu vou derrubar essa porta – seu tom toma uma postura tão rude quanto sua frase. Não temo. Eu sei que ele não faria isso. Há uma pausa, continuo em frente a porta. A ideia dele empurrando a mesma contra a minha cabeça e me causando traumatismo craniano de repente me faz ter vontade de que ele realmente faça o que diz, mas ele não o faz como esperado. Ficamos em silêncio tempo o suficiente para que o vislumbre de abrir a porta não pareça tão ruim – Olha, eu não sei o porquê disse aquilo ok? – sei que ele está gesticulando do outro lado. – É que você disse que estava tudo bem conversar sobre aquilo com você. Você sabe o quanto gosto de ti e o quanto te quero bem. Eu só queria compartilhar a minha felicidade com você.
Compartilhar a sua felicidade comigo?
A palavra felicidade rasga meu peito mais do que aquilo. Um assombro me toma de fora para dentro, me retraio e dou um passo para trás batendo a cintura no aparador. A dor é infernal. Não a dor na cintura e sim a dor na alma. A bola de tênis que eu havia acabado de engolir volta e estaca em minha garganta.
— Me deixa só te examinar – suplica.
Não respondo. O ar está denso e minhas têmporas doem. Prendo a respiração tentando balancear uma tontura com outra.
— Vou deixar a comida aqui. Tem remédio também e dessa vez não é Prednisona – ele tenta soar engraçado, mas sua voz carrega culpa. – É parmegiana, seu prato preferido – completa.
Eu só quero que ele vá embora. Eu só quero que tudo vá embora, inclusive eu quero ir embora.
Ouço seus passos se afastando no corredor. Eu não sei quanto tempo se passa até que finalmente me recomponho. Me movo. Abro a porta de dou de cara com uma bandeja no chão, em cima do tapete de bem-vindo que tinha roubado da casa dele.
Pego a bandeja com as duas mãos e tenho dificuldade para conseguir trancar a porta de novo. O cheiro é familiar, tão nostálgico quanto a minha fome que resolve dar as caras como uma amiga de infância de passagem na cidade. Suspiro olhando para a tampa transparente. Minha boca enche d’agua e eu até consigo sentir o gosto da carne, do molho e do queijo contra a minha língua antes mesmo de comer.
Sento no tapete branco da sala apoiando a bandeja na mesa de centro. Não me importo em retirar os talheres de plástico do saquinho. Abro a tampa e vou direto na carne com as mãos. O molho vermelho suja meus dedos como se fosse sangue. Um sangue de textura oleosa. O cheiro fica mais forte, meu estômago se contraí avisando o quanto está vazio e quer ser preenchido. Abocanho sem pudor como uma verdadeira selvagem e o prazer da comida me atinge como um tapa na cara. Mastigo rápido de engulo de uma vez. Engulo uma, duas, na terceira me sinto cheia. Aprecio o gosto estalando a língua. Aquele gosto. Gosto de felicidade.
De repente o enjoo me toma. Olho para o recipiente e ainda não comi nem um quarto do bife. Tudo parece extremamente gorduroso e nojento. As cores em tons amarelo do prato me fazem querer regurgitá-lo. Consigo me levantar e chegar ao banheiro a tempo entre dois espasmos.
Diante da louça branca, minhas mãos sujas de molho seguram lados da primeira tampa. Meu estômago se contrai mais uma vez e não há nada que eu possa fazer por mim agora. O arrependimento me sobe à garganta junto da bile e jorra indo ao encontro da água.
Eu odeio esse cheiro azedo, mas não tanto quanto eu me odeio. Meu estomago se contraí mais uma vez despejando o resto que havia sobrado. Não há muito mais além de água.
Cuspo a saliva que escorre junto em minha boca.
Sento no chão do banheiro com a cabeça apoiada no braço e o braço apoiado no vaso. Me sinto patética nessa posição humilhante e as lágrimas começam a rolar desenfreadamente. Agradeço internamente por só eu me ver assim. Não suportaria se outro alguém soubesse do meu estado deplorável. Não me seguro. Me sinto mole. Meu sangue pulsa em minha cabeça e minhas têmporas parecem querer explodir. Eu só quero parar de me sentir assim. Choro copiosamente, me sentindo minúscula num banheiro igualmente minúsculo. Volto no tempo para quando minha vida deu o primeiro passo ribanceira a baixo e de repente não sei mais meu nome, não sei mais quem sou. Ali no chão está só o meu corpo e o sofrimento. O nojo e a vergonha também fazem parte da festa. A existência do meu eu fica insignificante.
Levanto cambaleante, me apoiando no box do chuveiro com uma única certeza: Eu só quero acabar com isso.
O caminho até a cozinha parece um borrão. Eu soluço e minhas mãos tremem pelas gravetas. Retiro uma e jogo todo seu conteúdo em cima do balcão. Aquela era a minha gaveta de remédios. Retiro uma faca bem afiada de outra gaveta. Eu com certeza não sei o que estou fazendo. Nunca estudei a forma correta de tirar uma vida, quem dirá tirar a minha própria vida.
Só me restava tentar todas as maneiras possíveis.
Começo a destacar os comprimidos das cartelas, com os olhos marejados embaçando a visão do que estou fazendo. Meu corpo todo pula a cada soluço. Viro para o lado oposto e pego um copo no escorredor de pratos. O mesmo escorrega se se estilhaça na pia.
— Merda! Merda! Merda! –xingo baixinho e puxo meu cabelo para trás. Pego outro copo e encho com água da torneira. Não sei mais quem está no controle do meu corpo.
Diante da pilha de comprimidos, meu desespero só aumenta. Pego dois com dedos trêmulos. Não faço ideia do que são. Não faço ideia do que estou fazendo. A parte racional do meu corpo finalmente parece começar a dar sinal diante da névoa de pensamentos conturbados que me ocorrem, meu consciente está desesperado. Ele tenta tomar o controle e me faz olhar para frente. Avisto o telefone em cima do balcão. O número continua discado no visor. A Mel dentro de mim grita por socorro. Em um ímpeto de sobrevivência lutando contra o meu próprio Eu autodestrutivo, minha mão agarra o telefone e aperta o botão de discar.
Deslizo para o chão da cozinha, arrasada. Demora um único toque até que o telefone do outro lado ser atendido.
— Alô?
Fale com o autor