Seguindo

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Aaaahhh, to tão empolgada com essa história!! Espero que gostem! Mais um capítulo fresquinho, me desculpem qualquer erro. Acabou de sair do forno rs Boa leitura!

Capítulo dois

É uma voz firme. Máscula.

Como se eu acordasse de um transe, olho ao redor e percebo o quão ridícula é toda essa situação. É inacreditável que há um segundo eu estava lunaticamente tentando me matar. Olho para os comprimidos que ainda seguro em minha mão esquerda, e, ironicamente, reconheço que são suplementos vitamínicos. Nem pra isso eu sirvo.

A impossível manchete: Menina é encontrada morta no chão de seu apartamento por excesso de vitamina K, renderia vários argumentos para crianças que não gostam de brócolis.

Só me resta fazer piada da minha desgraça.

A vergonha começa a escorrer sobre minha pele, desde o topo da cabeça, até meus calcanhares, como se me banhasse de maneira viscosa e tentar fugir não é uma opção.

—Alô? – chama mais uma vez o outro lado da linha.

Pelo menos disso eu posso fugir, então desligo.

Que patético.

Consigo ver a silhueta de Amora me julgando do outro lado do vidro leitoso. Ela esta olhando para mim com a cabeça pendendo para o lado.

— Fica na sua – digo de mau humor e me arrependo em seguida porque sei que ela não estava verdadeiramente me julgando. Amora não estava fazendo nada além de exatamente isso: ficar na dela.

Respiro fundo.

Meu corpo ainda está frenético. Concentro-me no ar que entra em meus pulmões, me preenchendo. Imagino que quanto mais cheia, mais estável eu fico. Então solto o ar em um ritmo ameno. Até que meu coração se acalme.

Estico o braço e deslizo a porta para me redimir. Amora passa como um furacão por cima de mim, toda serelepe. Ela me lambe o rosto e enfia o focinho molhado em minha orelha. Aquilo faz cócegas e involuntariamente rio. O riso sai apenas com uma lufada de ar pelo nariz, mas sua energia desperta uma onda de sentimento prazeroso por todo meu corpo.

— Sua sem vergonha – digo fazendo carinho em sua orelha. Acho que chamar um cachorro de sem vergonha acabou virando sinônimo de amor em algum lugar no tempo. Fico assim por uns dois minutos, até que sua agitação se torna demais para eu conseguir dar conta, então gentilmente a empurro para dentro da lavanderia.

Não posso mentir, estou um pouco mais calma. Ela faz com que eu me sinta melhor e eu sinto vontade de ser uma dona melhor por ela, mas não sei como fazer isso. Amora é tão agitada e grande que nem sei por onde começar. Fora sua ansiedade e afobação por ficar tanto tempo presa. Se eu a soltasse de verdade ela destruiria o apartamento em dois segundos. Meu não nunca foi efetivo e toda vez que ela faz algo que eu considero errado, o que acontece sempre, eu vejo a incompreensão em seus olhos e me sinto duplamente pior. Eu a compreendo. Não posso culpá-la. Seu estado descontrolado é só reflexo da minha falta de controle sobre minha própria vida.

Apoio a mão no chão para conseguir levantar e não é nenhuma surpresa quando uma grande bagunça de vidro quebrado e remédios espalhados me encaram.

O bom de morar sozinha é que não tem ninguém te cobrando quando arrumar as coisas. Mais uma vez uso da minha grande capacidade de ignorar situações e caminho em direção ao meu quarto.

No meio do caminho o cheiro azedo de vômito me faz parar para dar descarga na privada. Aproveito para lavar a boca, jogar água no rosto e escovar os dentes. Quando acabo, vejo meu reflexo no espelho. Não consigo olhar por muito tempo.

Não quero encarar os fatos.

Minha cama me espera e o edredom branco abraça meu corpo me ninando como uma mãe. Sinto saudade da minha. Não que ela fosse muito de me ninar. Ela estava mais para uma mãe que diz: “você é tão bonitinha que vou afogar a sua cabeça na privada, docinho”, mas eu sei que esse era o jeito carinhoso dela dizer que me amava. Não, ela nunca afogou a minha cabeça na privada. Ela me criou com todo o amor do mundo, dentro do que suas frases de efeito poderiam caber. Ela era engraçada.

Acordo quando o relógio da escrivaninha diz que já passam das seis da tarde. Meu corpo dói, principalmente as costas. Dormir tanto tempo é um tanto quanto dolorido, não resolve olheiras e fatidicamente não resolve a minha vida. Acho que é hora de eu me mexer um pouco.

Levanto o tronco apenas para despencar na cama de novo. Estou tão cansada. Pelo menos quando durmo, eu consigo ignorar todos os meus problemas de forma passiva.

Pego meu celular em cima do criado-mudo. Tinha esquecido de guardá-lo na gaveta. Passei a fazer isso depois que percebi o quanto a tela acendendo com as notificações me deixava ansiosa. Eu quase não vivia mais, ficava só em função disso. Não que agora, nesse exato momento, eu esteja vivendo também.

A luz forte da tela faz meus olhos doerem.

1 ligação do perdida do Felipe, o que é surpreendente se comparada com as últimas 19. Acho que ele está começando a aceitar bem o nosso término.

Tem também uma mensagem do meu pai:

Está tudo bem Mel? Se precisar eu vou te buscar.

Acho engraçado ele dizer isso. Meu pai nunca foi muito de dirigir longas distâncias, principalmente com trânsito. Para ele, esses 40km que nos separam é quase uma viagem para onde Judas perdeu as botas.

Está sim. É só uma virose. Pode ficar sossegado.

Minto. Faço isso direto, não quero deixá-lo preocupado.

Depois da morte de minha mãe, sua vida passou a ser ainda mais em função da minha. Qualquer sofrimento que eu passe, ele passa em dobro. Coisa de pai, não sei. Não pretendo ter filhos, mas acho que no fundo entendo. Eu o amo também.

Resolvo me levantar só porque minha cabeça está doendo. Remédios para dor de cabeça não me faltam na gaveta dos remédios. A mesma que está virada no balcão, só para me lembrar da cena patética de três horas atrás.

Olho ao redor da bagunça na cozinha e revivo a cena como uma telespectadora. Todo o drama que passei não me parece mais plausível. Se eu visse outra pessoa fazendo o mesmo, tendo tudo na vida que eu tenho, eu diria para ela ir trabalhar, ocupar a cabeça. Diria que isso é falta de chinelada na bunda.

Fazer o que. Eu nunca levei chinelada na bunda também.

Pego o remédio e não me inspiro para arrumar a bagunça. Dou meia volta sentindo a textura fria e lisa do porcelanato em meus pés. Eu adoro isso. Vou até a janela olhar como está o movimento lá em baixo. Eu moro no sétimo andar de um pequeno, porém, muito aconchegante apartamento em um dos metros quadrados mais caros de São Paulo. O fato de ser tão caro faz com que haja muitos prédios para aproveitar melhor o que cada centímetro tem a oferecer. Tem outro muito infeliz de frente ao meu, que impede o sol de entrar toda manhã aqui na sala.

Eu preciso me esgueirar um pouco e abrir uma fresta na perciana para ver a movimentação na via principal do lado esquerdo. Faço isso sem abrir o vidro porque está frio.

Ver o fluxo de pessoas na calçada, vivendo suas respectivas vidas faz com que eu imagine como seria a vida das pessoas se ninguém passasse por problemas. Problemas são uma força motriz natural. Talvez elas nem estivessem andando por ali. Ou talvez sim. Eu duvido que tenha alguma ali com a vida lisinha como o porcelanato no meu pé. É só eu colocar o pé para fora do apartamento que passo o dia inteiro escutando os problemas dos outros até voltar. Falar de problemas é a forma mais fácil de fazer um amigo na fila do supermercado. Não que eu fale dos meus. Muita gente fala o quanto eu sou legal de conversar, mas a verdade é que eu não faço nada demais além de deixar elas falarem.

Balanço a cabeça quando convém. Esboço empolgação. Algumas expressões principalmente com as sobrancelhas e voilà! Parece que temos mais alguém que votaria em mim para presidente.

Presidente da terapia gratuita, só se for.

É irônico o fato de como converso com tanta gente no dia a dia, e de como me sinto sozinha. Eu gostaria de ter alguém para conversar, mas não acho justo jogar os meus problemas em cima de alguém. É por isso que eu tentei a terapia. Pelo menos eu estava remunerando a pessoa que ia escutar os meus problemas e isso era justo. Mas ao chegar lá eu me deparei com o pior problema de todos. Eu não conseguia falar e acompanhar os olhos da pessoa que me ouvia, vendo exatamente o que eu sou. Parece que quando entro no campo de visão de alguém, eu encaro uma personagem muito segura de si. Ao final da consulta, até eu me perguntava o que é que eu estava fazendo ali mesmo?

Eu não sei quando foi que desenvolvi essa capacidade de me autoenganar.

Ficar sozinha esses últimos dias no apartamento foi o mais próximo que consegui chegar a conviver comigo mesma.

Solto as laminas da persiana e as fecho pela primeira vez. Atrás de mim a bandeja continua no mesmo lugar, na mesinha de centro com um bife a parmegiana frio e revirado. Tem uma caixa de remédio também que nem sei o que é.

Pondero se devo arrumar recolher ou não.

Decido que não. Sento no sofá.

Sinto um breve topor, uma dormência que vai me subindo o corpo e fico ansiosa para que ela chegue a minha mente. O plano seguia bem até eu ser interrompida pelo barulho irritante do telefone.

Não quero atender, mas vou mesmo assim.

O telefone está no chão da cozinha. Pego ele e volto ao sofá, na esperança que em algum momento no meio desse percurso o chamado cesse. Isso não acontece.

Depois de um longo suspiro, atendo.

— Pronto – digo deitando meu corpo no tecido cinza do sofá de dois lugares.

— Oi – aquela voz soa do outro lado da linha. Fico momentaneamente estática. Eu não sei o que fazer, principalmente porque noto como a voz é bonita. – Você me ligou...

Decido que me fazer de louca é o mais prudente.

— Liguei? – até eu fico em duvida se liguei mesmo depois dessa maravilhosa atuação. Mentira. Fica óbvio que estou mentindo.

— Sim, você me ligou.

— Liguei – confirmo. É melhor jogar a real para descobrir o mais rápido possível de quem é esse número. Não me parece que o outro lado da linha saiba que na verdade eu o liguei desesperada por ajuda porque estava ensandecidamente tentando me matar com polivitamínico.

Cada vez relembro me sinto mais patética.

— Quem está falando? – pergunta. Essa voz me remete a um vinho seco. Não que eu seja expert em vinhos, mas sinto seu toque áspero, maduro, que deliciosamente da para dar um pileque. Fico inebriada.

Estou prestes a dizer meu nome, mas percebo que se eu disser o mistério vai se resolver muito rápido. De repente, não quero tanto saber quem é. Só quero mais um pouco dessa voz preenchendo o silêncio do apartamento. Ocupando minha mente. Não me sinto mais tão só.

— Eu estou falando – digo como uma criança birrenta.

É, talvez ser imatura não seja a forma certa de mantê-lo na linha. Fico com medo dele desligar e me deixar mais uma vez sozinha com os meus fantasmas.

Ele não o faz.

— E quem seria você? – indaga. Seu tom sai como se estivesse perguntando para uma criança mesmo. Acho bonitinho.

— Quem sou eu? – a pergunta ecoa por toda a minha vida passando diante dos meus olhos. Fecho os mesmos e me afundo ainda mais no sofá. – Atualmente, eu não sei te responder essa pergunta – desabafo.

Ele ri.

— Sendo bem otimista, você não vai saber responder essa pergunta até os 60.

— Estou consolada – ironizo. Se demorar mais 40 anos para eu me encontrar, estou perdida. – Como você sabe? Já chegou lá? — eu tenho certeza que não. Ele não tem uma voz de meia idade. Chutaria uns 35 anos.

— Não, mas já passei da metade do caminho.

— 35?

— 8.

— Oito anos? – minha indagação é exagerada. Eu sempre esboço reações exageradas para entreter as pessoas.

— Não – ele nega o óbvio. – Eu tenho 38.

Me sinto boba. Era fácil de interpretar isso.

— Eu tenho 20 – ele não perguntou, mas digo mesmo assim. Não quero ficar em silêncio.

Ficamos em silêncio. Acho que a conversa vai morrer. Dou um longo suspiro me preparando para voltar ao meu estado letárgico e solitário.

— Você está bem?

Abro os olhos surpresa com a sua pergunta. Vasculho em minha mente o que significa estar bem. Não, eu não estou bem.

Mas até que agora não estou mal também.

— Me sinto um pouco tonta – digo por fim. O que é verdade.

— Quer que eu desligue e deixe você descansar? – sua voz sai pausada. Acho que para entrar no ritmo da minha tontura.

— Eu não gostaria que você desligasse – admito.

— Não vou desligar então – diz firme.

Ficamos em silêncio mais um pouco. Por um momento, eu gostaria que ele fosse prolixo feito Mariana. Queria que ele me dissesse um monte de coisa que não quero saber só para ficar ouvindo sua voz.

Na verdade, estaria mentindo se realmente não quisesse saber algo sobre ele.

Mas ele fica quieto. Paciente.

Admiro pessoas pacientes na vida. Isso é algo que definitivamente não sou.

— Meu nome é Mel – digo apenas para preencher o silêncio. – Na verdade é Melissa, mas pode me chamar de Mel.

Ele não me responde de imediato. Escuto uma movimentação do outro lado da linha, talvez ele esteja andando. Acompanho imaginando o que está acontecendo, até que os barulhos param.

— Eu adoro Mel – suspira. É bobo, eu sei, mas me sinto querida com a sua frase. – Principalmente com banana flambada.

Ah, ele está falando do mel de comer. É obvio que ele estava falando do mel de comer. Nem sei quem esse cara é. Ele também nem sabe quem eu sou.

— Faz tempo que eu não como mel – tento disfarçar minha decepção.

— Há quanto tempo você não come?

Levanto do sofá surpresa me sentindo observada.

— Como assim? – olho para os lados alerta, mas não tem ninguém além de mim no recinto.

— Você disse que estava tonta.

— Ah – relaxo. – Eu comi um bife faz umas três horas – mas eu vomitei tudo em seguida— completo a frase mentalmente.

— Talvez você devesse comer.

— Talvez – concordo. Eu não vou comer.

— Não tem coisa mais feliz na vida do que comer – diz categórico. Eu concordo com ele, comida realmente é algo muito bom.

Volto a deitar e fecho os olhos relaxando.

— Talvez eu tenha problemas com essas duas coisas – admito. É a primeira vez que isso sai da minha boca. Acho que o fato de que eu não o vejo faz ser mais fácil simplesmente jogar no ar.

— Que baita problema – ele me oferece suas condolências. Aceito. Só eu sei o quanto isso é mesmo um problema enorme.

Ficamos mais um pouco em silêncio.

Acho que ele está digerindo a informação.

— Quando que isso começou?

Inspiro e solto o ar lentamente lembrando da primeira vez que enfiei o dedo na garganta. Sinto que é disso que estamos falando, mas não tenho certeza se ele realmente sabe que é disso que estamos falando.

— Quando eu comecei a engordar.

Uma imagem minha me olhando nua no espelho e apertando as gorduras da barriga toma a minha mente. Me encolho.

— Me desculpa a pergunta, mas quanto você pesa? – ele parece incrédulo do outro lado da linha.

— Eu não sei – dou de ombros. – Eu não me peso já tem um tempo.

— Eu não acho que você esteja gorda – sua entonação sobe e desce, sustentando sua teoria.

— Como você sabe? Eu te conheço?

Uma sensação incomoda invade meu peito, algo parecido com pânico mas com uma ponta vexaminosa só de pensar na possibilidade do dono da voz do outro lado da linha saber quem eu sou.

Isso é completamente possível, afinal, encontrei seu número em minha casa.

— Não, eu acho que você não me conhece. – Resolvo ficar ereta sentada no sofá. Ainda me sinto incomodada, mas não solto o telefone da orelha. – Mas a gente poderia se conhecer – complementa com um ar galante.

Rio do modo como ele fala.

— Nesse caso, teríamos que começar com o seu nome – retruco. Nós não ficaríamos do 1x0.

— Meu nome? – ele faz uma pausa. Imagino a silhueta de um homem sentado em uma poltrona, com a mão no queixo. – Pode me chamar de sua Consciência.

Pronto. É agora que assino meu atestado de loucura mesmo.

— Minha consciência? – rio do absurdo, mas por dentro estou com medo de realmente estar com o telefone com a linha muda e conversando com um personagem que eu inventei. Eu nunca tinha alucinado antes, mas dizem que ficar muito tempo sem comer pode dar nisso.

Ficamos em silencio. Me sinto agoniada.

— Consciência? – chamo me sentindo ridícula.

— Oi – responde prontamente. Pelo menos minha consciência tem uma voz sexy.

— Você não é minha consciência mesmo né?

Ele ri, mas eu me mantenho séria. Acho que ele percebe que a minha pergunta foi séria.

— Eu estou brincando com você. Eu não sou sua consciência.

Apesar de saber o quanto a minha consciência é traiçoeira, me sinto aliviada. Eu acho que não estou louca a esse ponto, apesar de duvidar bastante da minha sanidade mental.

— Ufa – brinco. – Estava quase enfiando a cara no resto de bife que tem aqui na minha frente, para ver se parava de delirar, Consciência.

— Eu, como sua Consciência, acredito que comer seja uma boa ideia.

— Eu passo.

— Quanto tempo você fica sem comer? – sua curiosidade é quase palpável nessa frase.

— Sinceramente, não sei – digo desinteressada. – Eu economizo uma grana no final do mês.

— Todo dinheiro gasto com comida é bem justificado – rebate. Não vou discutir. Não é como se eu não comesse para realmente poupar dinheiro. – Você deveria se cuidar mais.

— Deveria – concordo. Estico meu pé até a parte onde a bandeja não cobre a mesinha de centro e me apoio lá.

Acho que estou tirando esse tempo para me cuidar na verdade.

Olho para o bife, depois para o balcão bagunçado e para além dele consigo imaginar a pia com o copo quebrado.

É. Acho que não estou fazendo isso direito.

Pelo menos eu dei descarga no vômito.

— Sabe o que é, Consciência. Tem tanta coisa que eu nem sei por onde começar – confesso.

Ficamos em silêncio. Acho que ele está absorvendo o que eu acabei de falar. Ou apenas está me julgando uma mulher mimizenta e dramática. Eu me sinto assim.

— Você pode começar do começo.

— Se eu soubesse qual é o começo – rebato. Eu pareço uma adolescente respondona.

E ele não parece se abalar.

— O começo de todo o problema. O dia que você mordeu a maçã proibida.

Analiso sua frase e todo o significado contido ali. Eu tenho um vislumbre de quando foi que o problema começou faz um tempo já.

— Certo. E aí, o que eu faço? – revelo meu lado imediatista, esperando a solução mágica.

— Bom, o segundo passo é deixar a sua Consciência saber.

— No caso, você?

— Sim, estou curioso.

— Eu não vou te contar a minha trajetória para esse final decadente carente pela atenção de um estranho no telefone.

— Você está carente pela minha atenção?

Sinto minhas bochechas ruborizarem. O fato dele não saber quem eu sou me faz ter um pingo de coragem para admitir.

— Sim.

— Ela é toda usa.

Uma imensa sensação de contentamento me invade. Percebo o quanto eu realmente queria a atenção de alguém. Queria muito que alguém parasse um momento no mundo, só para me ouvir. Só para me enxergar. Enxergar no sentido figurado da coisa, porque o que mais me empolga nisso tudo é que não estou sendo vista. Pelo menos eu acho que não.

— Eu não quero tomar o seu tempo com essas coisas bobas... – tento ser cautelosa. Prefiro ficar quieta e mantê-lo na conversa. A história me parece muito longa.

— Eu não tenho nada melhor para fazer – ele dá de ombros. – Me conta, Mel – sua voz sai mais lenta ao pronunciar meu apelido. – Eu quero te conhecer melhor, te entender. Faz parte de ser a sua Consciência – brinca.

Talvez seja esse o momento por algo que não seja comida para fora.

São só dois estranhos falando aleatoriamente no telefone. Existem milhares de Melissas no planeta. Pelo menos nesse prédio tem três. Qualquer coisa é só mudar de número depois. Ou cancelar a linha aqui de casa. Ninguém mais usa telefone fixo hoje em dia.

— Ok – inspiro. É a minha oportunidade – Você está pronto?

— Sempre.

— Já aviso de antemão que eu vou ser macarrônica.

Ele ri do outro lado da linha. Me sinto confortável com isso.

— Sou todo ouvidos.

Notas finais
To carentinha de comentários ): você se alimentou bem hoje?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.