Segredos em Um Jardim Élfico
21 Incompletude
O ataque orc inesperado fez com que todos corressem ao campo costeiro de Númenor. A brisa marítima, que antes trazia sal e promessa de calmaria, se tornou pesada, elétrica — como se o próprio céu observasse o reencontro fatal entre a Comandante e o Alto-Rei.
A chuva começou como um aviso.
Primeiros pingos. Depois lâminas de água.
Uma cortina cinzenta que apagava o horizonte.
Mas nem o trovão era tão alto quanto a guerra que começou dentro deles.
Zara avançava pelas formações, gritando comandos, espada em punho. Estava magnífica — letal, veloz, perfeita em sua fúria disciplinada.
Gil-galad, por sua vez, lutava como uma chama dourada em meio ao vendaval.
E todas as vezes que o perigo se aproximava dela…seus olhos o encontravam, mesmo sem querer.
Horas depois, ela ressurgiu montada, firme na sela, a chuva escorrendo pelo elmo reluzente e pelas linhas impecáveis da armadura ajustada ao corpo como segunda pele. A água deslizava pelo metal sem diminuir sua imponência.
Gil-galad trazia no próprio corpo as marcas da batalha. Parte da armadura havia se perdido; as peças restantes estavam riscadas e pesadas sob a tempestade. Os cabelos escuros colavam-se ao rosto, as vestes douradas encharcadas tornavam seus movimentos mais densos.
A chuva caía entre eles — mas não o bastante para apagar o que ainda ardia entre eles.
Zara estalou, incomodada com o jeito quase hipnotizado de Gil-galad a observar:
— O que você quer, Gil-galad? Se busca aquela Zara ingênua que se prostrou aos seus pés como se você fosse um deus, sinto muito! Ela morreu quando fui expulsa para longe…— os olhos brilharam, mas ela não desviou o olhar —…como algo que precisava ser removido para que tudo voltasse à ordem.
Ele cambaleou como se tivesse levado um golpe real.
— Não diga isso, Zara… — a voz dele já não sustentava a firmeza habitual. — Nem os Valar poderiam medir o peso que caiu sobre mim no instante em que a vi atravessar para fora os portões de Lindon. Arrependi-me antes mesmo que seus passos se perdessem de vista.
Ele fechou os olhos por um breve momento, como se revivesse a cena.
— Foi a decisão de um rei… mas o erro de um homem.
Zara perdeu o controle por um instante — algo raro, quase proibido para ela.
— E você acha que eu me senti como, Ereinion?!
O nome ancestral dele caiu como uma espada rompendo um vínculo sagrado.
— Acha que é fácil abrir o coração?! E expô-lo tal como se abrisse o ventre de um animal e depois vê-lo ser pesado e medido por Conselhos e Coroas?
Ela respirou fundo, a dor queimando os olhos.
— Eu nunca o amei pelo trono. Nem pelos títulos. Muito menos pelo que o mundo vê quando se curva diante de você. Eu o amei pelo homem que existia quando ninguém estava olhando… aquele que me beijou à beira daquele lago ou por… aquele que me tocou no jardim.
A voz dela suavizou, mas não perdeu a firmeza.
— Você sempre soube. Sabia… porque ninguém me conhecia como você. Minha alma só se abria quando era a sua que a tocava.
Por um instante, o mundo pareceu parar.
O exército ao redor era só ruído distante.
A chuva só um véu.
Gil-galad fechou a mão em punho, tremendo.
— Zara… — a voz dele saiu rouca. — Eu sei que mereço seu desprezo. Sei que devo ser pisado, ignorado, esquecido. Eu errei. E o que fiz… não pode ser desfeito.
Os olhos dele ardiam com lágrimas que se misturam à tempestade.
— Mas eu a amo.
A confissão saiu como um rugido abafado pela chuva. Ele continuou:
— Pensei que cinco anos esfriariam meu coração… como um inverno longo.
Ele moveu-se um passo para mais perto.
— Mas bastou um olhar, uma única centelha de olhar para você e tudo voltou. Como um fogo. Um fogo ardente e perigoso.
Ele inspirou, desesperado.
— E eu não vou conseguir sequer sair desse campo se você… se você ao menos não considerar me perdoar.
Zara piscou com força, como se pudesse deter o que vinha e meio a um suspiro, desceu do cavalo e se aproximou tão perto que Gil-galad sentia um nervosismo repentino tomar conta de si. Então, em seguida, um meio sorriso irônico formou-se em seu rosto e ela falou.
— Perdoar, Gil-galad?
A chuva escorria pelo rosto, mas não escondia as lágrimas teimosas que há muito tempo desejavam cair sem cerimônia.
— Perdoar?! Você não foi só o homem que eu amei. Você era o homem que existia em mim. Nos meus sonhos, nos meus pensamentos, nas minhas escolhas… Eu carregava você como se fosse parte do meu próprio corpo. Como se tirar você de mim fosse como arrancar o próprio coração.
O rosto dela, marcado por uma dor tão profunda que parecia moldar cada traço, tornou Gil-galad ainda mais consciente do mal que lhe causara. Já não sabia distinguir o que o dominava — se vergonha, arrependimento, culpa ou um desespero crescente que lhe apertava o peito.
Quando ela falou novamente, a voz veio trêmula, à beira de se desfazer, incapaz de conter o que transbordava. Ela gesticulava, como se precisasse extravasar a energia daquelas palavras que doíam mais que qualquer arma mortal.
— Eu o amava! Eu o amava! Como nunca amei nada, absolutamente nada, em toda a minha existência! E ainda am —
Ela interrompeu, fechando os olhos e mordendo o lábio inferior como se desejasse poder apagar o que havia dito.
Mas o ar ficou pesado.
O ‘ainda amo’ não dito vibrou entre os dois como um fantasma antigo, invocado involuntariamente.
Gil-galad ficou imóvel. Não respirou. Não piscou. Não ousou mover um músculo.
Porque ele ouviu aquilo que foi mais forte que qualquer espada élfica cravada no peito.
Zara apertou os olhos, virou o rosto e sussurrou, como se admitir aquilo fosse morrer:
— …mas isso não importa mais.
E girou para voltar à batalha.
Mas antes que desse o primeiro passo, ele tocou seu punho — não com força.
Com reverência.
Com desespero.
Ele não disse nada.
Não precisava.
Porque agora, mesmo com a tempestade despedaçando o mundo ao redor…
Gil-galad sabia.
Ela ainda o ama.
Apesar de tudo. Apesar de si. Apesar dos 5 anos. Apesar da dor.
E esse pequeno fio — minúsculo, frágil, improvável — era esperança.
A primeira desde o dia em que ele a perdeu.
Zara voltou para o campo de batalha antes que o silêncio a traísse ainda mais. Permanecer ali, tão perto dele, exigia uma força que já não possuía. Gil-galad não a chamou.
Apenas a seguiu.
Havia algo na maneira como ela se afastava — firme por fora, devastada por dentro — que o impedia de ficar para trás. Como se cada passo dela o puxasse consigo, não por dever, mas por uma necessidade silenciosa que ele já não tinha intenção de lutar contra.
A batalha finalmente cessou.
Os últimos inimigos recuaram, e os soldados recolheram-se para cuidar dos feridos e reorganizar as tropas.
Mas ali, sob uma estrutura improvisada, resquícios de algum mausoléu, Zara e Gil-galad se protegiam da chuva, sozinhos. Algo não planejado mas considerando a força atrativa entre eles, não era surpresa.
Ambos molhados até os ossos. Ambos ainda ofegantes não só do combate mortal mas também daquela verbalização de sentimentos considerados escondidos demais para ainda existirem.
Ainda tremiam — mas não somente pelo frio do ambiente.
Zara apoiou-se na parede de pedra, tentando ordenar a respiração silenciosamente enquanto observava ao horizonte a movimentação dos guerreiros mas sem ver verdadeiramente. A mente ainda processava tudo o que aconteceu naquele dia, especialmente tudo que envolveu o homem ao lado dela.
Gil-galad aproximou-se, devagar.
Como se ela fosse luz frágil.
Como se um movimento brusco pudesse desfazê-la.
— Zara… — ele chamou, baixo, rouco, como se dissesse o nome dela pela primeira vez.
Ela fechou os olhos com força e meneou a cabeça, como se pudesse afastá-lo só com aquele movimento.
O timbre dele ainda quebrava algo dentro dela.
— Não comece — sussurrou, a voz falhando. — Não sei se consigo ouvir mais nada de você hoje.
Mas ele já estava perto o suficiente para que ela sentisse o calor que emanava da pele dele — mesmo encharcado.
— Você ainda me ama — ele disse, não como acusação, mas como um sussurro reverente, como quem fala diante de um milagre que não merece.
Zara virou-se para ele e lentamente subiu os olhos para encará-lo, e havia algo selvagem e ferido neles.
— Eu não devia — respondeu, num fio de voz. — Eu não posso.
Ele ergueu uma das mãos — devagar, implorando permissão com o gesto — e tocou o rosto dela apenas com a ponta dos dedos.
E ela não recuou. Talvez porque ansiasse aquilo tanto quanto ele. O toque foi uma lâmina quente, rasgando anos de invernos internos.
Zara estremeceu e fechou os olhos, como alguém que finalmente encontra algum descanso, e Gil-galad sentiu o tremor como um raio percorrendo seu próprio corpo.
Ele se aproximou mais um pouco.
Os lábios deles quase se tocavam.
Quase.
A respiração dele roçou na dela.
Os narizes se encontraram por um instante.
As bocas estavam separadas por menos de um suspiro.
Zara sentiu a alma gritar para avançar.
Para acabar com cinco anos de silêncio, dor e saudade e beijar aquele homem como se o mundo acabasse ali.
Mas no instante em que Gil-galad inclinou o rosto, ela desviou.
Não recuou completamente — apenas virou o rosto de leve, como se o próprio instinto gritasse “não”. A dor ainda estava ali, latente. O medo de tudo aquilo ser mais uma tentativa vã de ser finalmente e integralmente amada por aquele homem, que por mais que ela negasse, consumia suas noites, seja aparecendo em lindos sonhos, tão reais quanto o beijo trocado aquela noite no jardim ou temíveis pesadelos, em que muitas vezes ele simplesmente se afastava dela como se nem a reconhecesse.
Gil-galad parou imediatamente.
Não forçou.
Não insistiu.
Ficou ali, com a testa encostada na têmpora dela, respirando devagar para não desabar.
Zara sussurrou, quase imperceptível:
— Eu… não confio mais em você, Ereinion.
O nome ancestral novamente.
Uma dor.
Um pedido.
Um limite.
E, ainda assim, ele sorriu — triste, mas determinado.
Porque “ainda amo” ainda ecoava em cada músculo dela.
— Então eu vou reconquistar sua confiança — murmurou ele, com a voz mais firme que tivera em anos. — Nem que eu precise abandonar todo o meu orgulho élfico. Nem que eu tenha de me ajoelhar.
Ele se afastou só o suficiente para encontrar os olhos dela.
— Eu suplicarei, se for preciso. Mas não vou deixar você se afastar de mim para sempre.
Zara o encarou, e algo mexeu dentro dela.
Um tremor.
Uma fissura na muralha que ela construiu.
Ela desviou primeiro, mas não antes de deixar escapar:
— Vamos… terminar o relatório de guerra. A tempestade ainda não passou e já está perto de anoitecer.
E deixou o abrigo, firme, com passos que tentavam mascarar o coração acelerado.
Gil-galad ficou para trás, observando-a, com uma certeza ardendo no peito:
Ele a reconquistaria.
Nem que tivesse de mover céus, mares e o próprio destino.
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