Segredos em Um Jardim Élfico
22 Um Jantar e Um Quase…
A chuva finalmente cessou quando os portões da fortaleza real surgiram à frente. O ar estava pesado, úmido, cheirando a terra revolvida e sangue recente. As tochas acesas ao longo do pátio iluminavam o caminho enquanto os soldados entravam, exaustos, alguns cambaleando após a batalha.
Zara desmontou da montaria com um suspiro tenso.
A armadura molhada conferia um peso adicional a tudo que ela estava sentindo.
“Boba… estúpida… como pode quase beijá-lo de novo?”, pensava enquanto caminhava pelo corredor principal, ignorando cumprimentos e acenos de respeito dos númenorianos.
“ Aquele elfo arrogante não merece sequer seu olhar, Zara. Cresça. Acorde.”
Tentava convencer-se. Tentava.
Mas o corpo — aquele traidor — ainda sentia a proximidade dele, a respiração quente, o toque suave na face. Ainda parecia arder.
“Ele te mandou embora como se você fosse nada”, recordou com rancor, apertando o punho.
E a lembrança pesou como uma lâmina antiga no peito.
Ainda assim era impossível negar que, se ele tivesse avançado mais um centímetro, um suspiro — apenas um — e ela teria derretido nos braços dele como antes.
Ela se odiava por isso.
O elfo dourado parecia ter perdido parte da grandiosidade habitual. Havia algo nele… vulnerável. Uma rachadura no rei perfeito.
Miriel percebeu — e percebeu com clareza.
— Alto-Rei, perdoe-me a indelicadeza mas não posso deixar de dizer. Sua relação com a Comandante Dulórien tem se mostrado muito… peculiar — disse ela, cruzando as mãos atrás do corpo enquanto caminhavam pelo salão principal. — Vocês dois discutem como fogo e óleo. Mas o ar entre vocês… está incandescente.
Gil-galad desviou o olhar, numa tentativa falha de manter dignidade:
— Ela… está magoada. E eu não posso culpá-la.
— E você a ama — completou Miriel, com a franqueza de uma monarca que não tem tempo para rodeios.
Gil-galad parou de andar. Seu peito subiu num suspiro contido.
— Com tudo o que sou — admitiu baixinho, pela primeira vez em voz alta desde o desastre de cinco anos antes.
Miriel assentiu, satisfeita.
— Então precisa agir como um homem, não apenas como um rei.
Ele ergueu as sobrancelhas em surpresa.
— Deixe de lado as coroas, os protocolos, a Corte. Fale com ela. Sozinho. Sem Elrond, sem conselheiros, sem soldados, sem a carga do título entre vocês.
Gil-galad parecia um elfo jovem outra vez. Esperança brilhava no olhar — frágil, mas viva.
— E como sugere que eu faça isso, Regente?
Ela sorriu, afiada.
— Já cuidei disso. No jantar, preparei algo especial. Um salão privativo, poucas luzes, uma mesa pequena. — Ela inclinou o rosto. — Será um jantar de agradecimento… apenas para vocês dois. Dois líderes que lutaram lado a lado.
Gil-galad sentiu o fëa expandir-se dentro do peito.
Uma luz suave, doce, quase dolorosa.
Como renascer depois de décadas.
— Regente Miriel… — ele tentou dizer algo, mas a voz falhou.
— Não me agradeça ainda — ela elevou a mão. — Apenas aproveite a chance… e tenha coragem.
Gil-galad respirou fundo.
E naquele instante, algo mudou nele.
A dúvida recuou.
A hesitação, por um momento, se dissolveu.
A esperança brilhava com força dolorosa, como se cada fibra de sua alma repetisse:
É agora. Não a perca novamente.
Zara tomou um banho longo, esfregando a pele com o máximo de força que conseguia para tirar o cheiro da batalha, e não somente isso, como também as marcas invisíveis que Gil-galad deixara ao tocá-la, como se talvez a água pudesse levar junto consigo todos os sentimentos que ainda existiam por ele.
Secou-se rapidamente com uma toalha, vestiu um robe e sentou na pequena cômoda.
Observou seu reflexo no espelho.
Os olhos estavam cansados.
O rosto mais duro do que anos antes.
Mas havia algo por trás… um brilho, um fogo que ela tentava apagar à força.
— Estúpida — murmurou. — Você é estúpida de deixar esse elfo mexer com você de novo.
Uma batida leve na porta.
Uma mensageira de Miriel apareceu com um vestido simples em tons de preto e prata — elegante, porém discreto.
— Lady Zara, a Regente solicita sua presença no jantar formal desta noite. Ela pede que venha com estas vestes. Será… um jantar mais reservado.
O coração de Zara falhou por um segundo.
— Reservado? — repetiu, tentando manter a expressão neutra.
— Sim. Um agradecimento especial a você e ao Alto-Rei Gil-galad pela liderança no combate de hoje.
O nome dele bateu como um trovão surdo dentro dela.
Zara respirou fundo. Controlou. Endureceu. Uma expressão de desgosto se formou involuntariamente.
— Certo…Estarei lá. — respondeu, tentando soar neutra.
Mas assim que a porta fechou, ela pressionou a mão contra o peito, sentindo o coração pulsar forte demais.
“Isso é Miriel ou… é ele…?”, pensou com uma pontada de desconfiança.
Mas no fundo, uma fagulha acendeu-se.
Calor. Medo. Desejo. Raiva.
Era uma mistura explosiva — e ela sabia que o jantar seria um campo de batalha mais perigoso que o da tarde.
Gil-gald, trajado nas habituais vestes douradas, estava em pé, próximo ao assento que intencionalmente era oposto ao de Zara. Ele se sentia tão nervoso que mal conseguia pensar em algo além da proximidade de se encontrar com ela.
E ela não tardou em aparecer, usando o vestido ofertado — elegante, letal, fria como uma lâmina.
Miriel, que também aguardava com expectativa, pois mesmo sendo mais fechada, ainda tinha crenças benignas no poder do amor para resolver muitas coisas, principalmente o impasse que aquele casal vivia, então logo aproveitou a chegada de Zara no salão para agradecer pela batalha e ofertar o jantar.
— Aproveitem a noite — disse ela, desaparecendo antes qualquer objeção, principalmente de Zara.
A porta se fechou atrás dos dois.
E a tensão ali dentro era quase viva, pulsante, prestes a explodir.
Gil-galad respirou fundo, e pela primeira vez desde o rompimento, seus olhos encontraram os dela sem muralhas, sem coroa, sem defesa.
— Zara… — disse ele, com voz baixa, quente e vulnerável. — Também quero agradecer por ter vindo.
E ela engoliu seco, mantendo a pose impenetrável.
— Estou aqui porque a Regente pediu, não por você.
Mas o brilho nos olhos dela…
A respiração acelerada…
O leve tremor nas mãos…
Tudo dizia outra coisa.
E Gil-galad viu.
Sentiu.
Reconheceu.
Ali começava a batalha mais importante de sua vida.
O salão reservado era pequeno, iluminado apenas por algumas lamparinas de vidro azul e velas altas que projetavam sombras suaves nas paredes. A mesa — redonda e baixa — parecia um convite a uma proximidade que Zara fazia questão de evitar. Mas ali estava: sentada diante do elfo que ela tentava odiar com todas as forças.
Zara mantinha as costas eretas, a postura impecável, o olhar duro.
Gil-galad, apesar da compostura e vestes elegantes, parecia… inquieto.
Como se cada segundo diante dela fosse uma mistura de tortura e adoração.
Os primeiros minutos transcorreram em silêncio, tão denso que quase se podia ouvir a respiração contida dos dois.
A mente dela partia-se em dois impulsos igualmente violentos. Um queria fuga — não apenas daquele lugar, mas de tudo que o continha. Ir embora daquele palácio, abandonar aquele reino, talvez atravessar mares ou mundos, como se a distância absoluta fosse a única maneira de sufocar, de uma vez por todas, o que sentia.
O outro impulso era o oposto: romper os poucos passos que ainda os separavam, agarrá-lo pelo sobretudo e tomar-lhe a boca num beijo tão avassalador que até pensá-lo lhe fazia corar. Um beijo não de súplica, mas de rendição — como se, ao prová-lo outra vez, aceitasse que jamais haveria fuga possível.
Mesmo contra a vontade mas desejando desanuviar a mente dos pensamentos, Zara ergueu uma sobrancelha.
— Não vai dizer mais nada, Alto-Rei? — sua voz era afiada, carregada de deboche delicioso. — Ou teremos um jantar de mútuo silêncio diplomático?
Ele a fitou como se cada palavra dela fosse um golpe — e um pedido de aproximação.
— Pensei que preferisse silêncio à minha presença — respondeu, com uma calma ensaiada que não alcançava o brilho febril nos olhos.
Zara inclinou-se um pouco, brincando com a taça.
— Preferir, eu prefiro muitas coisas. — Ela sorriu, frio. — Mas já aprendi que com elfos, especialmente reis, preferências não importam. Só protocolos.
Gil-galad fechou os olhos por um instante, como se aquela frase tivesse acertado bem no centro da alma.
— Zara… — começou ele, devagar, — não vim aqui como rei.
Ela soltou uma risada curta, quase sem humor.
— Com certeza, acho que realmente para alguém como senhor não seria apropriado jantar com uma comandante de um povo estrangeiro sem história nobre.
O deboche escorria, mas havia dor por trás.
Gil-galad apoiou as mãos na mesa, tentando conter a mente que implorava para tocá-la.
— Você mudou — disse ele baixinho, como se confessasse. — Não apenas no olhar… mas no fëa.
Zara fechou o sorriso, os olhos caindo, como se lembrasse de algo, porém uma frase ainda saiu com uma voz tremida.
— A guerra faz isso. A de dentro… e a de fora.
Ele engoliu em seco.
Parte dele queria se ajoelhar ali mesmo.
Mas permaneceu parado, respirando como se lutasse contra um exército inteiro.
— Eu nunca quis que você mudasse assim — murmurou.
Zara largou a taça, firme.
— Talvez não, mas foi você quem acendeu a chama que me consumiu. E foi você quem a apagou… quando mandou que eu fosse embora como se não fosse nada.
A dor atravessou o peito dele com precisão cirúrgica.
— Não diga isso. Você nunca foi nada para mim.
— Ah não? — ela sorriu, inclinando a cabeça. — Interessante. Porque para a sua Corte, eu fui apenas uma peça útil. Um nome em relatórios. Uma comandante emprestada. Um instrumento.
Gil-galad abriu a boca — mas ela ergueu a mão, cortando-o num gesto elegante.
— E poupe-me das desculpas, sim? Não quero ouvir que “não teve escolha”. Sempre existe escolha. Até para reis.
Gil-galad baixou o olhar por um instante, a respiração pesada.
Ela era fogo — fogo bonito, afiado, indomável.
E mesmo quebrada… brilhava como algo sagrado.
Quando voltou a encará-la, algo selvagem ardia em seus olhos.
— Zara…
Mas o nome dela em sua voz soou como uma prece — e isso foi demais.
Ela desviou o olhar, mordendo o interior da bochecha, tentando se recompor.
— Vamos terminar de comer antes que a Regente ache que nos matamos aqui dentro — disse ela, tentando soar indiferente.
Mas suas mãos tremiam um pouco.
E Gil-galad percebeu.
Eles comeram, mas não havia paz.
O ar era um laço, puxando os dois, desafiando qualquer tentativa de distanciamento.
Cada movimento era observado — cada respiração ecoava entre eles.
Até que — o inevitável.
O talher de Zara escorregou de sua mão.
Ele caiu perto dela, no chão de mármore claro.
— Droga… — murmurou ela, inclinando-se para pegá-lo.
Gil-galad se levantou rapidamente, aproximando-se abaixado para pega-lo também.
E ali…As mãos tocaram-se. Os rostos tão próximos, que ao menearem a cabeça para cima, puderam se encontrar.
E se encontraram um no olhar do outro. Foi como se a alma de cada um tivesse se expandido num choque silencioso.
O ar desapareceu.
As lamparinas tremeluziram.
O sangue de ambos pareceu pulsar na mesma frequência.
Zara engoliu seco, mas não conseguiu nem retirar a mão e nem desviar o olhar imediatamente.
Era como se estivesse presa a algo que nunca deixou de desejar.
Gil-galad a olhava como se tivesse reencontrado metade perdida de sua própria essência.
— Zara… — sussurrou, a voz rouca, grave, quebrada e sagrada ao mesmo tempo.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo, lutando contra a própria vontade.
— Não toque em mim … — murmurou, baixinho, quase um pedido, quase um gemido contido. — Não… assim.
Ele tocava não só com o corpo mas com a alma.
Como se fosse um feitiço..
O polegar roçou sua pele com um carinho tão suave que a deixou sem nenhuma defesa.
— Não estou fazendo nada, Zara — sussurrou. — É só… você.
Ela puxou a mão com força, como quem foge do abismo que tem medo de amar.
Levantou-se da mesa de repente, respirando como se o ar do salão fosse quente demais.
Mas quando virou as costas para ele, seus olhos estavam brilhando — não de raiva.
De algo muito pior.
De algo que ela tentava matar há anos.
E Gil-galad, ainda ajoelhado para pegar o talher, observou-a como um homem que encontrou novamente o sentido da vida — e tem medo de perdê-la de novo.
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