Segredos em Um Jardim Élfico
18 Ainda Há Algo Aqui

Após o cumprimento político, Miriel pediu que os líderes conversassem entre si antes do conselho formal iniciar. Gil-galad, como que atraído por algo inevitável, aproximou-se de Zara, devagar, indo pela lateral da sala, onde ela examinava um mapa naval na mesa central.
— Zara… — disse, com a voz baixa, temendo que se pronunciasse o nome dela, ela sumisse instantaneamente.
Ela não ergueu os olhos imediatamente.
E quando ergueu — foi pior.
Era como olhar para gelo rachado.
Zara apenas revirou os olhos e se preparava para simplesmente ignorá-lo.
— Zara… por favor…
Ela voltou a encara-lo e deu uma risada curta, seca, absolutamente descrente.
— Oh! O Rei Dourado quer falar...
Gil-galad fechou os olhos um instante.
— Gostaria de conversar… esclarecer…
— Esclarecer? — ela cortou, com um sorrisinho debochado. — Não se preocupe em… “esclarecer” nada — o tom saiu em desprezo. — Não guardo mágoa alguma.
O que era mentira. E ele sabia.
Mas antes que ele pudesse responder, ela completou com aquela frase que o atingiu mais fundo do que qualquer espada:
— Graças a tudo o que se passou, agora sou mais sábia. Hoje, se eu ver elfos precisando de ajuda… deixarei que pereçam sozinhos.
Elrond, ao longe, levou a mão lentamente ao rosto numa mistura de tristeza e vergonha alheia.
Gil-galad sentiu a garganta fechar, como se tivesse engolido uma pedra.
— Zara… você não faria isso. — murmurou ele, sabendo, no fundo, que era verdade.
— Faria, sim. — respondeu ela, firme como aço temperado. — Porque agora sei exatamente o que esperar dos elfos. Luz por fora. Trevas por dentro.
Ela se virou como se encerrasse o assunto.
Gil-galad deu um passo involuntário em direção a ela.
A voz dele saiu baixa, rouca, quase falhando:
— Ú-ven aníron beria le.
(Eu nunca desejei te ferir.)
Ela não olhou para trás.
— Não desejou mas feriu mesmo assim.
E então ela seguiu para o lado oposto, aproximando-se de alguns capitães numenorianos, firme, impecável, sem permitir que o coração traísse um único sinal de dor.
Mas por dentro, por trás do aço, Zara sentia algo que tentava negar há anos:
A presença dele ainda era capaz de estremecer suas muralhas.
E isso a enfurecia.
Miriel, observadora como sempre, após alguns minutos, aproximou-se de Elrond.
— Eles se conhecem. — afirmou a Regente, sem rodeios.
— Mais profundamente do que gostariam. — Elrond respondeu, suspirando.
Miriel sorriu de canto.
— Isso explica por que o salão ficou mais frio quando ela entrou.
Enquanto isso, Zara permanecia rígida, olhando para qualquer lugar exceto para o Rei dos Noldor.
E Gil-galad…
Gil-galad parecia um homem vendo o fantasma da única pessoa que amou e perdeu por culpa própria.
Seu coração batia tão forte que quase doía.
Os anos não a apagaram.
Não o curaram.
Não o libertaram.
E agora ela estava ali. Mais bela, mais perigosa, mais distante do que jamais estivera.
E o pior…
Ele ainda a amava. E ela era a única que o desprezava.
A mesa oval estava cercada por comandantes númenorianos, conselheiros, Elrond, Gil-galad e a própria Regente.
Mapas abertos, marcadores de madeira, rotas estratégicas no estreito.
Mas a tensão maior não vinha das possíveis invasões sombrias.
Vinha de Zara e Gil-galad opostos um para o outro.
Ambos pareciam duas forças naturais prestes a colidir.
Zara se mantinha ereta, o olhar frio como se desejasse eliminar — ou agarrar?! — o elfo a sua frente mas sempre mantendo a expressão neutra para os outros na mesa.
Gil-galad, apesar da postura impecável, tinha o maxilar trincado — uma linha tensa que só quem o conhecia há séculos percebia.
Miriel abriu a reunião:
— Precisamos considerar como conter os ataques vindos do leste. Lord Elrond, qual sua análise?
Elrond explicou brevemente as movimentações recentes, e então Gil-galad acrescentou:
— Uma divisão deve ser enviada ao estreito, mas não pela rota norte. Os riscos —
— Regente, com o devido respeito… imaginei que estivéssemos reunidos para ouvir estrategistas. Não creio que o Alto-Rei dos Noldor seja, no presente momento, a autoridade mais… adequada em relação aos problemas atuais na Terra-média…
Gil-galad ergueu os olhos para ela, lentamente.
— Conheço a Terra-média o suficiente para não enviar tropas para um cerco inevitável. Se forem pelo norte, serão encurralados pelo terreno elevado.
Zara riu — não com humor, mas com desprezo.
— O terreno só é um problema para quem não sabe lutar nele, habilidade esta que considero que seus elfos, lamentavelmente, não detenham.
Os númenorianos se entreolharam.
Elrond respirou fundo.
Miriel ergueu uma sobrancelha.
Gil-galad, tentando se manter calmo:
— Não se trata de coragem ou habilidade. Trata-se de cálculo. Sua proposta levaria centenas à morte.
Zara inclinou-se, olhos como lâminas:
— Não é uma proposta, porventura nem eu considerei tal arranjo. Porém, também acredito que talvez o senhor não esteja acostumado a decisões difíceis. Reis acostumados a muita polidez raramente estão.
Elrond quase se engasgou.
Um dos comandantes númenorianos murmurou: “Por Eru…”
Gil-galad sentiu o golpe — e mesmo assim manteve a voz calma.
— Zara… — alguns presentes sentiram o leve tremor na voz dele. — Você está deixando a emoção ditar —
— Comandante Dulórien. E emoção? — ela retrucou, o olhar queimando. — Creio que o senhor não tem o direito de falar sobre as minhas emoções.
Um silêncio mortal caiu.
Miriel desviou o olhar, respeitosamente.
Era óbvio que aquilo não era só sobre estratégia militar.
Gil-galad continuou, mais firme:
— O estreito leste é instável. Se enviarmos tropas —
— Seus elfos talvez não consigam — ela cortou de novo — mas Númenor, Erendhîre até homens de Arnor conseguem. Alguns povos não pararam de lutar só porque uma ferida doeu mais do que o orgulho.
A frase atravessou Gil-galad como um dardo.
E ela sabia.
Zara sabia exatamente onde mirar — e mesmo assim a voz tremia levemente, traindo sua própria guerra interna.
Gil-galad recuou apenas um passo de controle emocional e disse, numa tentativa desesperada de alcançá-la:
— Você não era assim.
— Não era, não. — ela concordou, fria. — Agradeça aos elfos por isso. Aprendi rápido.
Miriel interveio:
— Comandante Zara, permita que o Alto-Rei conclua —
— Não preciso ouvir as conclusões dele. Já aprendi e sei o suficiente do que esperar dos elfos. Inclusive a omissão deles.
A palavra saiu quase como um veneno preso há anos.
Gil-galad inclinou o rosto para ela, e então algo escapou — algo cru, humano, impossível de esconder:
— Você não confia mais em ninguém por culpa minha.
Ela congelou.
Só por um segundo.
Um micro instante que apenas Elrond e Miriel perceberam.
Zara respondeu:
— Não preciso confiar em ninguém além de mim mesma.
O olhar dela era puro aço.
O dele era pura dor.
Ninguém conseguia mais prestar atenção nos mapas.
A mesa inteira estava dividida entre:
— “Eles vão se matar.”
e
— “Eles vão se beijar em cima do mapa da Terra-média.”
Miriel, embora séria, parecia divertir-se internamente com a situação.
Até Elrond estava suando — e não era pelo calor de Númenor.
Zara concluiu sua análise de modo impecável, embora a voz estivesse carregada de dureza.
Gil-galad contestou ponto a ponto, mais calmo por fora do que estava por dentro — mas a cada olhar furtivo, o coração dele gritava.
Ela devia odiá-lo.
Mas cada frase dela saía como se fosse uma forma de proteger uma ferida que ainda sangrava.
E Zara tentava repetir para si:
“É só arrogância élfica.”
“Ele é só luz oca.”
“Ele é só memória de um erro.”
Mas sua alma sabia a verdade:
Se ela cedesse um único segundo daquele orgulho, beijaria Gil-galad ali mesmo.
A Regente levantou a mão de forma elegante, porém firme:
— Creio que por hoje é suficiente.
Zara fechou a expressão mais ainda, em seguida um suspiro irritado.
Gil-galad respirou fundo, como se tivesse sido arrancado de uma batalha interna.
Elrond agradeceu silenciosamente a Eru.
Miriel continuou:
— As discussões serão retomadas ao amanhecer. Sugiro que todos descansem… e esfriem a cabeça.
O olhar dela foi direto para Zara e Gil-galad — sem disfarce algum.
Zara deu uma leve reverência e saiu primeiro.
Gil-galad a seguiu com os olhos até ela desaparecer pela porta.
E sentiu, com a força de um golpe:
Aquela era mesmo Zara Dulórien.
E ao mesmo tempo… não era.
A mulher que ele feriu.
A mulher que ele amou.
A mulher que a guerra e a rejeição transformaram em aço.
E ainda assim…
Ele a desejava mais do que qualquer luz já vista.
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