Segredos em Um Jardim Élfico
19 Tormentos & Sentimentos
Elrond entrou nos aposentos de Gil-galad sem esperar permissão — o que só fazia quando o Rei estava emocionalmente à beira de algo perigoso.
Gil-galad estava sentado diante de uma mesa, o elmo de guerra a seu lado, o olhar perdido na chama de uma vela.
— Ela mudou. — disse o Alto-Rei, sem rodeios.
Elrond suspirou.
— Todos mudam, meu Rei.
— Não assim.
Elrond hesitou, depois sentou-se.
— Os adornos nas tranças dela… — ele começou delicadamente — cada peça prateada, cada anel metálico… representa uma vitória. Uma batalha vencida. Uma cicatriz transformada em honra.
Gil-galad fechou os olhos, como se aquilo doesse.
— Então ela venceu muitas batalhas.
— Sim. Mas… — Elrond franziu o cenho — isso não diz se ela está melhor ou… pior. Alguns guerreiros decoram a glória… para esconder a dor.
Silêncio.
A chama tremulou.
Gil-galad apoiou os cotovelos nos joelhos e passou as mãos pelo rosto.
— Eu destruí algo nela. E agora só vejo o aço que tomou o lugar.
Elrond escolheu as palavras com cuidado:
— Talvez não tenha sido você sozinho. Mas você… foi a lâmina final.
O Alto-Rei não rebateu.
Não podia.
— Ela evitou me olhar. — disse ele, quase num sussurro. — Mas olhou para você.
Elrond sorriu com tristeza.
— Porque eu não a machuquei. E porque eu era a única ponte que restava entre vocês. Agora…nem isso sobrou.
Gil-galad abaixou a cabeça.
— Se eu a perder…
— Já perdeu. — disse Elrond, sem crueldade, apenas verdade. — A questão é: pode reconquistá-la?
O silêncio foi a única resposta possível.
Zara entrou em seus aposentos e trancou a porta com força.
Sentou em frente ao espelho, desfazendo o penteado com uma certa aspereza.
Os adornos das tranças foram retirados um por um — peças de metal tilintando como pequenos sinos de guerra.
Ela se encarou por longos segundos. Não se reconhecia.
— Desprezível. — murmurou. — Como posso ainda… sentir… algo por aquele elfo?
Se levantou, abrindo os botões do vestido até que ele deslizasse para o chão. Após outro longo suspiro, sentou-se na cama, as mãos tremendo.
Uma parte dela gritava:
“Ele te usou. Ele te descartou.Ele escolheu o trono, não você.”
Mas outra parte, mais profunda e honesta:
“Ele sofreu. Ele te olhou como se tivesse visto um fantasma. E você… ainda quer sentir a boca dele.”
Zara apertou os olhos com força se jogando contra a cama.
— Odeio você, Gil-galad.
Mas a mente completou:
— Odeio… porque meu coração ainda lembra o gosto da sua alma.
A raiva queimava. O desejo queimava mais.
Ela passou um tempo encarando o teto, a respiração presa, o corpo tenso como corda de arco.
Um passo. Só um passo.
E ela poderia atravessar o corredor e… beijá-lo.
Como se cinco anos nunca tivessem acontecido.
Mas ficou imóvel.
— Eu não sou mais aquela tola. — murmurou. — Ele não me terá outra vez.
Se virou contra a porta, abraçando o travesseiro e cobriu-se.
Mas não dormiu.
E em algum lugar do palácio, Gil-galad também permanecia acordado, sentindo o mesmo tormento.
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