Elrond entrou nos aposentos de Gil-galad sem esperar permissão — o que só fazia quando o Rei estava emocionalmente à beira de algo perigoso.

Gil-galad estava sentado diante de uma mesa, o elmo de guerra a seu lado, o olhar perdido na chama de uma vela.

— Ela mudou. — disse o Alto-Rei, sem rodeios.

Elrond suspirou.

— Todos mudam, meu Rei.

— Não assim.

Elrond hesitou, depois sentou-se.

— Os adornos nas tranças dela… — ele começou delicadamente — cada peça prateada, cada anel metálico… representa uma vitória. Uma batalha vencida. Uma cicatriz transformada em honra.

Gil-galad fechou os olhos, como se aquilo doesse.

— Então ela venceu muitas batalhas.

— Sim. Mas… — Elrond franziu o cenho — isso não diz se ela está melhor ou… pior. Alguns guerreiros decoram a glória… para esconder a dor.

Silêncio.

A chama tremulou.

Gil-galad apoiou os cotovelos nos joelhos e passou as mãos pelo rosto.

— Eu destruí algo nela. E agora só vejo o aço que tomou o lugar.

Elrond escolheu as palavras com cuidado:

— Talvez não tenha sido você sozinho. Mas você… foi a lâmina final.

O Alto-Rei não rebateu.

Não podia.

— Ela evitou me olhar. — disse ele, quase num sussurro. — Mas olhou para você.

Elrond sorriu com tristeza.

— Porque eu não a machuquei. E porque eu era a única ponte que restava entre vocês. Agora…nem isso sobrou.

Gil-galad abaixou a cabeça.

— Se eu a perder…

— Já perdeu. — disse Elrond, sem crueldade, apenas verdade. — A questão é: pode reconquistá-la?

O silêncio foi a única resposta possível.




Zara entrou em seus aposentos e trancou a porta com força.

Sentou em frente ao espelho, desfazendo o penteado com uma certa aspereza.

Os adornos das tranças foram retirados um por um — peças de metal tilintando como pequenos sinos de guerra.

Ela se encarou por longos segundos. Não se reconhecia.

— Desprezível. — murmurou. — Como posso ainda… sentir… algo por aquele elfo?

Se levantou, abrindo os botões do vestido até que ele deslizasse para o chão. Após outro longo suspiro, sentou-se na cama, as mãos tremendo.

Uma parte dela gritava:

“Ele te usou. Ele te descartou.Ele escolheu o trono, não você.”

Mas outra parte, mais profunda e honesta:

“Ele sofreu. Ele te olhou como se tivesse visto um fantasma. E você… ainda quer sentir a boca dele.”

Zara apertou os olhos com força se jogando contra a cama.

— Odeio você, Gil-galad.

Mas a mente completou:

— Odeio… porque meu coração ainda lembra o gosto da sua alma.

A raiva queimava. O desejo queimava mais.

Ela passou um tempo encarando o teto, a respiração presa, o corpo tenso como corda de arco.

Um passo. Só um passo.

E ela poderia atravessar o corredor e… beijá-lo.

Como se cinco anos nunca tivessem acontecido.

Mas ficou imóvel.

— Eu não sou mais aquela tola. — murmurou. — Ele não me terá outra vez.

Se virou contra a porta, abraçando o travesseiro e cobriu-se.

Mas não dormiu.

E em algum lugar do palácio, Gil-galad também permanecia acordado, sentindo o mesmo tormento.