Segredos e Mentiras
33 O peso da verdade
Notas iniciais
EDWARD
— Senhor? – eu abri os olhos sentindo meu corpo inteiro doer. Sentei sentindo todas as dores possíveis e olhei para Bill. Ele deveria estar de folga. Esfreguei meus olhos e recolhi os documentos que caíram quando sentei.
— Hoje é sua folga. – tossi e vi sua expressão séria. – O que aconteceu?
Lembrei que deixei Bella no quarto dormindo e meus olhos procuraram um relógio e vi que eram oito horas.
— A senhorita Swan pediu para avisar que está na casa da amiga Ângela.
— Ela tomou café? Ela dormiu...- fui levantando ainda atordoado com essa informação. Não conseguia imaginar como ela conseguiu chegar à casa de Ângela.
— Ela foi de madrugada senhor. – eu o olhei assustado.
— Madrugada?
— A segui até a casa da amiga, ela chegou bem.
— Você deixou ela sair naquele estado sem me avisar? – Comecei a procurar minha chave do carro.
— Pensei que fosse melhor apenas vigiar de longe, ela parecia um pouco confusa.
— Droga! Onde estão minhas chaves?
— Posso levar o senhor com o outro carro. Será mais rápido.
— Vou apenas pegar meu celular.
Olhei o celular enquanto caminhava com Bill. Não havia ligações. O celular dela estava desligado.Ela deixava o de Ângela na empresa anotado em um papel. Sentei no banco de trás e ele tocou.
— Edward.
— Bom dia Alice.
— Hoje temos...
— Tenho algumas coisas para resolver antes de ir para empresa, dispense qualquer coisa pela manhã. – olhei minha aparência pelo retrovisor vendo a bagunça que eu estava. Bill dirigia rápido.
— A senhorita Swan ainda não apareceu.
— Ela está indisposta. Preciso ir.
Desliguei sentindo uma dor de cabeça um pouco forte. Nunca me pareceu tão distante a casa de Ângela quanto neste dia, as nuvens cinzas e o dia talvez mais frio do que o resto da semana estavam me incomodando. Eu não lembrava da última vez que vi o dia desse jeito, ou não reparei?
— Senhor, chegamos.
Saí apressado e tentei chegar o mais rápido ao apartamento dela. Eu bati na porta e ela abriu poucos segundos depois. Ela deveria ter visto o carro pela janela.
— Bom dia. – ela me olhou e eu perdi o chão.
— Edward... entre...
— Eu vim ver Bella. – um peso nas palavras e na expressão de Ângela me diziam tudo. Eu não precisava procurar com meus olhos, eu sabia que ela não estava aqui.
Eu vi Ângela um pouco perdida pelo próprio apartamento. Eu a via sentar e pegar na mesa pequena na frente do sofá um papel.
— É para você. – fui calmo até ela e peguei.
Meu nome estava ali, logo nas primeiras linhas. Olhei ao redor procurando um lugar para sentar, a cadeira mais perto da porta parecia boa o suficiente e acho que surpreendi Ângela sentando nela e não indo embora. Seja lá o que estava acontecendo ela tinha as respostas também, e eu queria todas.
— Ela está bem? – minha voz saiu baixa enquanto abria o papel.
— Eu não sei...
Meu coração apertou, mas havia palavras ali escritas que poderiam me levar até ela ou entender o que estava acontecendo.
“ Edward,
Por várias vezes eu pensei em como explicar tudo ou até mesmo começar uma conversa com tudo que eu vou escrever, mas tudo parecia tão errado e incerto. A verdade é que não há nada além das minhas palavras. Você com certeza vai investigar cada detalhe e perceber que apesar dos fatos serem contados de forma diferente eles serão todos comprovados, enquanto minhas palavras não.
Meu verdadeiro nome é Isabella Marie Daywer. Meus pais são Renée e Charlie Daywer, e eles viveram quase toda a vida deles em Forks. Uma cidade pequena e chuvosa a poucas horas de distancia de Por Angels e perto de uma reserva indígena. Meu pai era o chefe da polícia local, um homem respeitado e viúvo há pouco tempo. Eu tentei ser aquilo que minha mãe e ele sonharam, mas eu não consegui.
Quando eu tinha 18 anos eu saí com meu namorado Jacob e seus amigos, eles ainda não tinham suas habilitações então às vezes me pediam para levar eles em algum cinema da outra cidade ou a qualquer festa que fossem voltar tarde. Não era comum, geralmente era somente Jacob e eu, então numa noite tudo que pensei que estava certo e tranquilo desmoronou.
Jacob, Seth e Sam disseram que iam pegar algo na casa de um amigo. O endereço não era muito perto da minha casa, era mais perto da reserva, no limite do território deles. Era uma casa enorme com grandes janelas, parecia cara e eu lembro de ter pensado quem eles conheciam que morava ali. Eu não saí do carro até ouvir a movimentação estranha, eu vi a porta aberta sem qualquer cuidado, como se tivesse sido arrombada e entrei pensando que pudesse ter acontecido algo realmente ruim com o amigo deles ou a família.
Tinha uma mulher ali ensanguentada no chão e eu ouvia a correria e gritaria deles no andar de cima, eu me joguei para ver a mulher e tentar fazer algo por ela, ela me olhou assustada e eu talvez nunca esqueça o olhar dela para mim. Eu gritei por Jacob e ele não apareceu, mas eu ouvia a as vozes e tentei me afastar, mas ela segurou meu braço e ficou pedindo ajuda e falando do filho.
Ela morreu nos meus braços poucos segundos depois. Foi um choque e um caos depois disso, as luzes que estavam apagadas acenderam, a polícia entrou e nos prendeu. Depois que eu dei meu depoimento a um policial que conhecia meu pai a vida toda ele me disse que Jacob e seus colegas falaram que nós tínhamos planejado o assalto há meses atrás, só não contávamos com o casal amigo dos donos que tinham ido passar o final de semana na casa vazia.
Meu depoimento foi totalmente desconsiderado já que quem dirigia o carro naquela noite fui eu e segundo Jacob eu dei os códigos de acesso a casa. Não tinha dado, mas meu pai os tinha e ele confirmou isso no tribunal no dia do julgamento. Eu nem ao menos sabia que papai tinha aqueles códigos. Porém, Jacob e seus amigos sabiam. Eu fui acusada de roubo e peguei uma pena maior porque participei do assassinato daquela mulher. Descobri que ela tinha um bebê no andar de cima e o marido estava trabalhando em outra cidade. Eu sonho com ela e minhas mãos sujas com seu sangue. Se eu fechar meus olhos ainda consigo sentir o cheiro da casa ou do sangue dela.
Eu nunca quis receber meu pai na cadeia, eu ainda lembro dele no julgamento gritando que Jacob e seus colegas fizeram isso de propósito porque papai estava investigando crimes na reserva e que tinha sido uma vingança, mas era apenas uma teoria conspiratória de um pai em desespero. Os promotores alegaram que eu fui a mandante do crime porque tinha conhecimento de tudo e que eles eram marionetes nas minhas mãos. Jacob confirmou essa versão, mas a faca que matou aquela mulher foi encontrada com ele e por isso ele pegou mais alguns anos do que eu. Seus colegas e eu pegamos a mesma pena apesar da promotoria querer ainda mais.
Edward, eu quero te dizer que nada do que estou escrevendo tem como ser provado. A verdade que está comprovada por depoimentos e vídeos da casa é que eu cheguei com Jacob, fiquei no carro esperando eles, mas algo deu errado e eu entrei vendo a mulher caída no chão. Eles se desesperaram porque meu plano não tinha dado certo e o alarme da casa disparou silenciosamente chamando a polícia. Não conseguimos fugir como tínhamos planejado. Eu nunca assumi nada.
Depois de horas em uma delegacia tentando explicar o que tinha realmente acontecido, eu sabia que a versão de Jacob era boa demais para a minha.
Eu sei que depois de tudo isso você deve estar se perguntando como eu cheguei na sua empresa e na sua vida. Provavelmente achando que eu estaria planejando mais um roubo. Mas não.
Ângela estava presa por matar o padrasto que a abusava desde os quinze anos, ela o matou pelas costas e isso não foi considerado legítima defesa. Ela me viu frágil e sozinha naquele lugar e ficou falando como eu precisava ser o cisne negro e não o patinho feio.Ela tentou me ajudar diversas vezes, mas eu tinha perdido a total capacidade de acreditar em alguma coisa. Eu estava apenas respirando. Eu levei uma facada de uma das presas e fui parar na enfermaria, ela cortou o braço só para ver como eu estava. Fiquei dias lá e quando saí eu sabia que não sobreviveria a mais nada.
Ângela saiu primeiro que eu e me buscou com Ben quando cumpri minha pena. Eu não tinha mais nada e sabia que não tinha para onde voltar. Eu envergonhei meu pai perante a cidade inteira, Jacob mesmo disse isso no julgamento, ele falou que a filha do policial planejou tudo com os mínimos detalhes. Meu pai foi investigado pela polícia e acho que nunca mais conseguiu fazer seu trabalho.
Quando começamos a nos conhecer eu quase acreditei em contos de fada, quase conseguia acreditar em tudo que eu tinha visto na televisão. Mas a realidade Edward é que nós sempre fomos mais água e óleo do que você ou eu poderíamos imaginar. Eu espero que um dia você encontre alguém que possa estar do seu lado sem essa mancha negra no seu passado que tanto lhe faria mal. Alguém que realmente possa ser apresentada aos amigos e possa estar ao seu lado para lutar pelas mesmas coisas que você. Espero que você seja muito feliz, o tempo em que estive com você, eu sei que fui.”
Eu terminei de ler a carta percebendo a letra errante em alguns lugares e as marcas das lágrimas em outras. Passei a mão pelas palavras querendo que fosse seu rosto, querendo a presença dela ali. Será que eu não deixei claro meu amor? Não deixei claro o que sentia por ela?
— Ela nunca quis te prejudicar. – Ângela disse olhando para mim. Era como se ela pudesse ver as dúvidas que percorriam minha mente e meu sofrimento ao mesmo tempo. Ela estava sofrendo, seu olhar cansado e sua postura mostravam isso nitidamente para mim – Eu não sei Edward o que você está pensando e nem me importa. Isabella sofreu mais do que uma carta poderia falar. Ela não permitiu que o pai dela a visitasse na cadeia, não importava quantas vezes ele fosse lá. Ela sofria a cada dia de visita que não o recebia, tinha febres e dores de cabeça que a deixavam louca de dor. Não sei Edward o que você vai investigar e sei que Jacob fez um ótimo trabalho na mente dela falando como ela era culpada e tudo mais. Mas não a procure se for para destruir mais ela, ela não precisa disso.
Ângela se levantou e foi apara o quarto. Nós sempre esperamos a verdade e sempre prezamos por ela, o que ninguém diz é que a verdade muitas vezes nos deixa sem chão.
Tentei me recuperar enquanto deixava a casa de Ângela e vi Bill me olhando preocupado, a carta ainda estava em minhas mãos.
— Para Tânia, por favor.
Eu reli tanto quanto eu pude enquanto Bill dirigia para o apartamento de Tânia no centro. Como sentir que perdemos tudo de uma hora para outra? Olhei a carta em minhas mãos mais uma vez. O que ela estava pensando? Fechei meus olhos com força querendo gritar meu desespero. A porta do elevador abriu, eu entrei vendo Tânia parada olhando um vaso de rosas brancas na sua frente. Seu rosto tinha aquela expressão pensativa e quando nos olhamos eu sabia. Ela sabia. Ela veio me abraçar e eu aceitei seu abraço chorando pela primeira vez. Os soluços dela se juntaram aos meus e ficamos ali trocando dores de amores passados e presentes.
— Bella se foi. – disse e ela me olhou assustada depois que nos acalmamos. Entrei a carta e ela se afastou para ler. Fui até o cartão que tinha perto das flores que ela estava olhando e peguei reconhecendo a letra de James.
“ Queria que um dia fossemos mais que duas pessoas respirando ares tão distantes para não sucumbir a esse amor impossível. Tem dias que eu não sei o motivo dele ser impossível.
Eternamente preso ao seu amor,
James”
Fale com o autor